Londres, Inglaterra. 16 de Novembro de 1911.

Bethnal Green Museum.



Sherlock Holmes ficou por todo o caminho no cabriolé até o Bethnal Green Museum no mais absoluto silêncio. Nada disse que explicasse o porquê desse museu em particular, que nem de longe era o museu mais afamado da Inglaterra, como provável próximo alvo de Arsène Lupin. Leu a carta dele por uns bons minutos, e depois de um bom tempo a pensar, decidiu que o Bethnal Green Museum era seu próximo alvo. Ao menos traduziu o conteúdo em francês para que Watson pudesse adicionar às suas escritas.

Era um poema pequeno, bastante enigmático. Não à toa Holmes ficou horas a meditá-lo, até chegar uma conclusão. E assim dizia o poema, traduzido do francês:



Ouvi dizer que em suas veias corre sangue francês

Horace e Claude, de sobrenome Vernet

Duas obras de família em um mesmo lugar

Uma delas, porém, não é de seus ancestrais


E assim como Joana D’Arc foi queimada viva pela Igreja

A falsa tela deverá queimar, para que minha pista você veja

Queime a certa, e a pista certa para meu roubo encontrará

Queime a errada, e o ódio de seus ancestrais lhe perseguirá


The game is afut, Holmes!


-Não sei o que me dá mais ojeriza. O poema barato, ou esse “afoot” ao final, escrito errado de forma tão grosseira! – comentou Watson, entregando a Holmes o poema original.

-Ele é francês, Watson. Não se esqueça disso. Com certeza essa palavra inglesa foi escrita propositalmente errada só para nos irritar.

-Parece que ele estava falando das pinturas de seus ancestrais pintores, os Vernet. Mas não entendo, Holmes. Há obras dos Vernet por todo o lugar, inclusive no Museu Britânico. Por que diabos estamos indo ao Bethnal Green Museum, que nem é um museu dos mais famosos assim?

Holmes suspirou. Às vezes se esquecia que seu amigo Watson não tinha o mesmo raciocínio que ele, o que o obrigava a explicar tudo da forma mais mastigada possível, para que ele pudesse acompanha-lo.

-Meus ancestrais franceses, os Vernet, realmente tem pinturas expostas em muitos museus, mas o Bethnal Green Museum é o que detém o acervo mais completo. Inclusive, o único em Londres que possui telas de ambos meus ancestrais, meu avô Horace Vernet e meu tataravô, Claude Vernet, e inclusive mais de uma tela de ambos. Aposto que as chances de a pintura mencionada por Lupin estar lá são imensas. Quanto ao segundo parágrafo... Nem preciso explicar o que ele deseja que eu faça, não é mesmo?

Watson suspirou, em descrença.

-Holmes, como vai explicar ao museu que uma das telas em exposição do Vernet é na verdade uma tela falsa? E pior, que ela terá de ser queimada para descobrir uma pista deixada por um infame ladrão! Duvido muito que o diretor do museu não chame a polícia imediatamente!

Holmes sorriu. Parecia adivinhar que isso iria acontecer.

-Por isso mandei um telegrama diretamente à Scotland Yard, aos cuidados do Inspetor Lestrade Jr., solicitando sua ajuda nesse imbróglio. O rapaz é jovem, comete erros, mas quer se tornar um policial de renome, tal como um dia foi o seu pai. E se for às custas de meu trabalho como detetive consultor, estará dando andamento a uma tradição de família.

Foi a vez de Watson rir. No fundo, Holmes tinha razão. Do pouco que viu do jovem rapaz em ação, não o sentiu preparado o suficiente para ser um inspetor de verdade. Não que fosse um mal policial, mas era claro durante sua condução do roubo da residência do Conde Wellington que não tinha capacidade sozinho uma investigação de grande complexidade. Se Holmes não estivesse ali, certamente o pobre Geoffrey estaria atrás das grades por um crime que não cometera, apenas por ser o suspeito mais previsível. Era errado que um rapaz despreparado estivesse a usar um distintivo de tamanha importância, entretanto, tê-lo por perto trazia certas conveniências.

Quando o cabriolé parou diante do Bethnal Green Museum, o jovem Inspetor Lestrade Jr. já os aguardava na porta. Estava sozinho dessa vez, fumando um cigarro despretensiosamente. Cumprimentou-os, tão logo viu Holmes e Watson desembarcando do cabriolé.

-Poderia ver a carta, Mr. Holmes?

-Entende de francês, inspetor? – perguntou o detetive.

-Arranho um pouco. – respondeu, recebendo em seguida de Holmes uma folha de papel levemente amassado, outrora amarrado àquela pedra lançada à janela de Baker Street, que continha o poema. Leu brevemente e o devolveu ao detetive. Parecia confuso.

-Bom, está claro que essa pista envolve seus ancestrais...

-Exatamente. Caso não saiba, eu tenho ancestrais franceses, e são pintores bem famosos no Mundo das Artes. Horace e Claude Vernet, meu avô e tataravô, respectivamente.

-Não sabia! – pareceu surpreso Lestrade Jr. – Como diabos Lupin sabe disso?

-Watson fez questão de espalhar essa informação através de seus contos para que meio mundo soubesse, inclusive meus inimigos. Agora pago a consequência disso. – zombou Holmes. Watson parecia magoado com sua queixa.

-Perdoe-me, Holmes. Não sabia que minhas histórias iriam te prejudicar tanto.

-Mas afinal, Mr. Holmes, como pode ter tanta certeza de que esse é o lugar? Há tantos museus em Londres, e se esses seus ancestrais são realmente tão famosos como diz, devem ter outras telas deles em exposição em outros lugares... Por que justamente esse, que nem é dos mais famosos? – comentou o jovem Lestrade Jr.

-Porque esse museu é o único em Londres que abriga telas de ambos os Vernet.

O jovem inspetor parecia agora compreender o porquê de sua escolha. Ainda assim, sentia-se inseguro. O segundo parágrafo deixou evidente que umas das telas teria que ser destruída, e qualquer que fosse a escolha de Holmes, teria de se responsabilizar por ela. E se o detetive porventura se enganasse e queimasse a errada? Obras de arte expostas em museu custavam uma fortuna, fora o valor inestimável de se perder uma pintura dessas, certamente histórica o bastante para merecer uma exposição ali. Nem se trabalhasse à vida toda como escravo, seria capaz de arcar com tamanho prejuízo!

-Apreensivo, inspetor? – perguntou-lhe Holmes, subitamente. Seu pai tinha razão, pensou o jovem inspetor. Holmes era tão sagaz que mais parecia um bruxo, quando na verdade só estava fazendo uma leitura corporal a respeito do temor que lhe acossava e que se refletia em seus próprios movimentos.

-Não, senhor. Apenas... Pensando no segundo parágrafo desse poema.

-Se acha que vou atear fogo à pintura errada, então dispenso sua ajuda. Pode retornar para a Scotland Yard e às pilhas de inquéritos policiais que devem aguarda-lo. – respondeu abruptamente Holmes, de forma tão ríspida que chegou a assustar Watson. Mesmo o jovem inspetor aturdiu-se com sua súbita irritação.

-Pois fale comigo outra vez dessa forma e eu o prenderei por desacato à autoridade!

-Meu caro inspetor Lestrade Jr., releve Holmes. – pediu Watson, tentando acalmar os ânimos. – O que ele está prestes a fazer sem dúvida é algo bastante delicado, para dizer o mínimo. Holmes sempre teve muito orgulho de seus ancestrais pintores e terá de tomar uma decisão deveras complicada.

-Com a minha anuência! – exclamou o inspetor, irritado. – Não se esqueça disso, Dr. Watson! Ainda terei de convencer o Diretor desse museu a deixar Holmes cometer tamanha sandice, e se ele errar... Minha carreira policial estará perdida!

-Não mais que minha reputação como detetive consultor, pode acreditar. – retrucou Holmes, com o tom levemente aborrecido. Odiava quando duvidavam de sua capacidade. Já estavam diante da sala do Diretor do Museu, a quem sabiam se chamar Keith Connolly. Foram prontamente atendidos.

Apesar do agrado do diretor em receber a ilustre visita do detetive em seu museu, os motivos que o conduziam àquele lugar não foram dos mais agradáveis, o que tornou a conversa bastante difícil. Aludir o envolvimento do museu às pretensões de um ladrão famoso da França assustou o diretor, mas a perspectiva de ter uma tela do acervo do museu em chamas para descobrir uma pista teve o pior efeito possível nesse caso.

-Fora de cogitação! – esbravejou o diretor, furioso. – Ninguém vai atear fogo em nenhuma tela desse museu!

Holmes parecia aborrecido, mas era evidente que estava calculando seu próximo passo. Por fim, aludiu a outro tipo de argumento.

-Arsène Lupin é um ladrão habilidoso e já roubou dezenas de obras de arte na França. Ele alega que seu acervo possui uma tela falsa.

-Pois ele é um mentiroso! Temos uma equipe de especialistas, que inspeciona cada tela adquirida, antes de comprarmos ou recebermos como doação para nosso acervo. Posso assegurar que nenhuma das telas exibidas aqui é falsa.

-Mr. Connolly, para esse maldito ladrão ter tanta certeza do que diz, certamente ele já deve ter posto as mãos no Vernet original, e sabe que o que está exposto nesse museu é, portanto, falso. Caso haja realmente um Vernet falso nesse museu, quer tenha adquirido por acidente ou não, seria bom que me contasse. Me pouparia tempo, além do risco de queimar a tela errada.

Connolly estava claramente ofendido.

-Como ousa, presumir que meu museu expõe uma tela falsa deliberadamente?

-Não estou presumindo coisa alguma, Mr. Connolly. Apenas afirmando que sua recusa em falar a verdade para não arriscar a reputação desse museu pode ajudar um criminoso a se safar. Mas caso não deseja colaborar, saiba que eu encontrarei a tela falsa, mesmo que para isso eu tenha que atear fogo em cada Vernet que está exposto nesse museu.

Boquiaberto, Connolly pôs-se a tremer.

-Pois eu é que pareço estar diante de um criminoso! Um vândalo, não menos! Pois vou chamar a polícia imediatamente...

Antes que o diretor pudesse colocar as mãos em um telefone, um distintivo foi posto à mesa.

-Inspetor Lestrade Jr., da Scotland Yard. – apressou em se apresentar o jovem. – E sim, na qualidade de representante da Lei, estou ciente dos atos de Mr. Holmes, e asseguro-te que se ele queimar alguma tela verdadeira, sairá desse museu não menos que algemado por crime de vandalismo e destruição de patrimônio privado.

Watson arregalou seus olhos.

-Mas você não pode fazer isso... – começou a intervir Watson em favor de Holmes, mas foi detido pelo próprio detetive.

-Não será necessário nenhum tipo de algema, senhores. Eu queimarei o quadro falso. Queimar uma falsificação ainda não é crime, estou correto? Pois muito bem. Agora, leve-me até onde os quadros da família Vernet estão expostos.

O diretor parecia mais tranquilo desde que o Inspetor Lestrade Jr. se apresentou, mas ainda assim os conduziu pelo museu com um jeito bastante apreensivo. O museu estava em funcionamento, mas com o auxílio de um guarda, fechou as portas ao público para aquela sessão especial, onde estavam expostos todos os quadros da família Vernet. Era um espaço pequeno, mas com ao menos oito quadros em exposição.

-Seus ancestrais pintavam muito bem, Mr. Holmes. – elogiou Lestrade Jr., fascinado com aquelas pinturas, que em sua maioria retratavam temas militares.

-Essas quatro telas da esquerda são da autoria de Horace Vernet, e as quatro telas da direita pertencem ao avô dele, Claude Vernet. Temos muito orgulho de ser o museu da Inglaterra com a maior quantidade de telas da família Vernet em exposição. Boa parte delas foi doada pelo Exército da França, há mais de trinta anos.

Holmes ficou um bom tempo diante de cada uma delas. Inspecionava cada milímetro daquelas imensas pinturas com sua lupa, em busca de algo que soasse deslocado ou fora do normal.

-Talvez fosse caso de chamarmos um perito especializado em obras de arte, não? – sugeriu Lestrade Jr., naquele momento a suar frio. Aquelas telas, precisava reconhecer, eram magníficas. Registravam, em sua maioria, eventos militares, que ele seria mais capaz de identificar se tivesse prestado mais atenção às aulas de História. Seria um pecado queimar a pintura errada.

-O desafio pertence a mim, Inspetor. – comentou Holmes, com os olhos quase que recostados à tela. E assim, passou para uma, e mais uma, e novamente mais uma. Estava quase na hora do almoço quando terminou de examiná-las.

-E então? – perguntaram tanto Watson quanto Lestrade Jr., quase em uníssono.

-Há uma dúvida que preciso esclarecer com o Diretor antes de tomar qualquer passo. – foi tudo que disse Holmes, adentrando em um silêncio quase que mortal. Ouvia as especulações do inspetor e do médico, sem, no entanto, considera-las. Seu cérebro já estava a maquinar alguma, sentia Watson. Estava calado, concentrado demais.

-Por favor, me digam que abandonaram essa ideia absurda de queimar a tela... – clamava o Diretor, tão logo eles entraram em sua sala.

-Sabe dizer se as pinturas passaram por algum tipo de restauro recente?

O Diretor parecia pensar.

-Sim... Mas não foram todas.

-Foi o que pensei. Quem foi o responsável pelo restauro?

Para responder à pergunta de Holmes, o Diretor recorreu aos papéis reunidos em uma pasta, sobre sua mesa. Folheou, com os olhos fixos, atrás de alguma coisa. Por fim, deixou escapar uma exclamação de contentamento.

-Achei! O restaurador responsável pela obra executou o serviço semana passada... Hmmm... O nome dele é Paul Enneris, vindo diretamente da França...

-Paul Enneris? Aposto que é um dos anagramas de Lupin.

-Correto, Watson. – confirmou Holmes, após alguns segundos a emaranhar mentalmente vogais e consoantes. – Poderia, por gentileza, nos mostrar o local onde esse restaurador trabalhou com as pinturas?

-Mas é claro! Acompanhe-me, por favor...

Holmes, Watson e Lestrade Jr. acompanharam o Diretor até uma parte nos fundos do museu. Lá, encontraram outro restaurador a trabalhar. Tão logo pôs seus olhos nele, o Inspetor Lestrade Jr. quase o prendeu, mas foi detido por Holmes. Era cedo para sair prendendo pessoas por simplesmente estarem no lugar errado. Além disso, Holmes duvidava muito que Lupin ainda estaria atuando como restaurador depois de concluir sua artimanha. A essa altura, já estaria dando andamento em seu próximo golpe, sabe-se lá qual.

-Pessoa, este é Ferdinando Giorgio. Ele trabalha para o museu com restaurações de peças do Renascimento. Ele esteve de perto com Paul Enneris e poderá dizer a vocês como ele era. Giorgio, estes são o Mr. Sherlock Holmes e seu assistente, o Dr. Watson, você já deve conhece-los dos jornais e livros...

O rapaz ficou maravilhado, tão logo foi apresentado a eles. Chegou a estender sua mão respingada das mais variadas cores de tinta, mas logo a recolheu quando notou esse detalhe. Tinha, claramente, a cabeça mergulhada nas nuvens, o que era bem típico dos amantes das Belas Artes.

-E este é o Inspetor Lestrade Jr, da Scotland Yard. Pois bem, Giorgio. Preciso que fale com estes senhores a respeito de seu colega de trabalho da semana passada, o Mounsier Paul Enneris...

-Ah sim... Que ótima pessoa, o Paul! Tivemos pouco contato, mas foi bastante marcante o tempo em que estivemos trabalhando juntos...

Watson apertou os olhos. Havia notado naquele rapaz uma leveza, delicadeza um tanto exageradas. Em especial, a forma como seus olhos olhavam com admiração para Lestrade Jr, vagando pelo contorno de seu porte atlético. Não demorou a perceber o que exatamente significava seu olhar atencioso ao jovem inspetor, que por fim não conseguia esconder seu incômodo por ser alvo dos olhares de cobiça do artista.

-Poderia explicar melhor porquê esse restaurador causou tamanha impressão, Mr. Giorgio? Pois segundo disse o Diretor, ele esteve aqui não mais que alguns dias...

-Ah, mas pessoas como Paul são assim. Sabe, cativantes, interessantes... Ele era muito amável, cordial... Uma verdadeira raridade em nossos tempos.

-Compreendo... – confirmava Holmes, pensativo. – Poderia nos descrever esse tal Paul Enneris?

-Ele usava uma extensa barba, que por vezes borrava a tela de tinta! Falava para ele: não pode usar a barba nessa altura toda, Paul! Tem que aparar um pouquinho...

-Borrava de tinta?! – exclamou Holmes, um tanto surpreso.

-Sim... Sabe, o trabalho de restauro dos Vernet não foi tão complicado. Era só passar um pouco de verniz para dar um pouco mais de vivacidade à tela, mas Paul... Aquele desastrado! Por mais que fosse uma pessoa excepcional, devo reconhecer que já vi restauradores melhores... mas sabe, o Diretor desse museu é tão sovina... Quero dizer, tão, er... Preocupado com os gastos... Que aceitou a oferta mais baixa de restauro.

Ao sentir os olhos de todos voltarem-se a si, o Diretor pôs-se a gaguejar.

-Não é bem assim, meus senhores... Er... Sabe, as verbas que recebemos são deveras escassas...

-Pois graças a essa sua busca por mais “economia”, colocou um ladrão de renome internacional dentro de um museu repleto da história de seu próprio país. Fora o risco de o calhorda ter estragado a tela verdadeira!

-Garanto aos senhores que não! Eu percebi que Paul estava desajeitado, e como todo bom amigo, ofereci ajuda. Não é para me gabar, mas aquelas telas tiveram mais o meu trabalho que o do próprio! Só não reclamei antes com o Diretor porque Paul insistiu tanto... Como resistir àqueles olhos cinzentos dele...

-Cinzentos? – estranhou Watson.

-Cinzentos, azuis... Não tenho certeza. Mas tinham uma cor muito bonita, exótica!

Lestrade Jr. deixou escapar um suspiro aborrecido. Já estava perdendo a paciência com tamanha delicadeza de um homem que, aos seus olhos, era certamente afeminado. E que para completar, mais um pouco e estaria se atirando aos seus pés.

-Agora, preciso que me responda como sinceridade, Mr. Giorgio. Por acaso esse restaurador ficou algum momento completamente sozinho com algumas dessas telas?

-Ah, algumas vezes sim!

-E em um desses momentos, você notou algo de diferente?

O restaurador parecia pensativo.

-Na verdade... Acho que o último quadro foi um pouco incomum, sim. É... Parando para pensar... Foi a tela... Como era mesmo... Eu me recordo que era uma do Horace Vernet...

-Seria, por acaso, “O Manto de José”?

Giorgio sorriu com a sugestão de Holmes.

-Exatamente! Mas como sabia, senhor?

Holmes suspirou, satisfeito. – A barba, meu caro Giorgio. Essa tela foi a única que não encontrei um pelo de barba sequer sob o verniz. Aliás, se por acaso estava mesmo a inspecionar o restauro desse tal Paul Enneris, devo dizer que não o fez muito bem... Mas talvez porque tivesse algo a distrai-lo de seu oficio... Enfim, não estou aqui para julgar sua vida, Mr. Giorgio. Só peço que seja mais desconfiado com aqueles que se aproximarem de você, pois lamento dizer que esse Paul Enneris não era ninguém menos que Arsène Lupin, e que se aproveitou de sua carência para sair livremente do museu com a tela verdadeira e colocou em exposição a falsa.

Giorgio pareceu chocado.

-Então... Ele mentiu para mim? Foi tudo um truque para roubar o museu?! – horrorizou-se o pintor, pondo-se a chorar. – Ele me usou! Disse que... Disse que eu era muito talentoso, que um dia voltaria aqui para me buscar, que juntos iríamos a Paris, que trabalharíamos no Louvre... Como pêde ter mentido deste jeito?!

O pintor acabou por buscar consolo no ombro de Watson.

-Francamente, Giorgio... Que lamentável sua postura! Graças a esse seu jeito assanhado, deu brechas para o ladrão nos roubar bem debaixo de nossas vistas!

-Não deveria recrimina-lo, Diretor. Quem abriu a porta do Museu para Lupin foi o senhor. Se tivesse sido um pouco mais criterioso com quem contrata, Lupin jamais teria posto os pés aqui. – espezinhou Holmes. Mas o Diretor não quis lhe dar ouvidos.

-Pois eu deveria demiti-lo agora mesmo! Só não farei isso porque é muito talentoso! Nesse ponto, esse patife não mentiu. Mas quanto a sua beleza... Devo dizer que ele mentiu, sim.

Com o quadro já identificado, era chegado o momento mais aguardado: o fogo.

-Tem certeza, Holmes?

Holmes já não tinha certeza se aquela era a terceira ou quarta vez que Watson lhe fazia a mesma pergunta. E como se não bastasse o pavor no tom de voz de seu amigo, estava também cercado de olhares desconfiados, o que só o enervava ainda mais.

-Watson, se me perguntar isso mais uma vez, juro que da próxima vez eu atearei fogo em você! – exclamou Holmes, irritado, a manusear sua caixa de fósforos. A obra estava sobre o chão da sala do Diretor, obviamente para evitar alarde entre os visitantes, que por sinal já tinham estranhado a retirada da obra em pleno funcionamento do museu. O Diretor a contemplava, ainda descrente do que estava prestes a acontecer.

-Por Deus, que seja a obra falsa... – rezava o diretor, quase que em uma prece, tão logo Holmes ateou fogo sobre a pintura. Para pasmo de todos, a pintura não pegou fogo lentamente, como teria sido se fosse de papel ou tecido. Ao menor contato com as chamas do fósforo de Holmes, a obra simplesmente se desintegrou em um piscar de olhos, desaparecendo por completo, e revelando ao fundo uma obra completamente diferente.

Era um homem de casaca e cartola, elegantemente vestido, mas seu rosto estava incompleto, borrado. Obviamente, pensou Holmes. Mas o que mais chamava atenção naquela singela retratação de Arsène Lupin era o desenho de uma clave de sol, enorme e vermelha, no centro de seu rosto borrado.

-Mas que bruxaria é essa?! – exclamou Lestrade Jr., com seus olhos descrentes sobre a estranha poça meio aquosa que escorria pela tela. O que quer que fosse aquele material incomum, dificilmente seria dos tempos de Vernet.

-Essa bruxaria, meus caros senhores, são atribuídas aos velhos ácidos nítrico e sulfúrico que, combinados na medida certa, provocam esse efeito. – comentou Holmes, que graças aos seus conhecimentos avançados em Química, assistira a reação da tela queimada sem demonstrar o menor sinal de pasmo. Agora sabia bem com o que estava lidando.

-Parece, meus senhores, que ao contrário de suas expectativas, eu queimei a pintura correta. Essa tela era realmente a falsa, e a verdadeira está na posse de Lupin. Mas não por muito tempo.

-E que desenho é este? Parece uma nota musical.

-Na verdade, é uma clave de sol, meu caro Watson. Sinal de que o próximo passo de Arsène Lupin envolverá música... Pergunto-me o que exatamente, afinal, há muitos espetáculos musicais ocorrendo todos os dias em Londres...