A Droga da Morte
1 I - Esperança
A temperatura quente da capital federal não atrapalhava as comemorações daquela histórica noite de janeiro. A fala do recém-empossado presidente da República reverberara para todos os cantos do mundo, das Américas à Ásia, na África e na Europa, e até mesmo na distante Austrália, onde um site de grande circulação nacional descrevia o momento como "um marco sublime na história do Brasil, essa nação que tanto promete". No próprio país, a opinião era unânime: não havia sequer uma vírgula que pudesse ser criticada naquele discurso emocionante, e os jornais e revistas da oposição esforçavam-se para de alguma forma encobrir o brilho daquele homem tão marcante. Não conseguiam — era uma missão impossível. Miguel fora eleito com mais de sessenta por cento dos votos por um povo que se apaixonara perdidamente por ele, por sua integridade, honestidade, por seus objetivos e métodos tão claros quanto corretos. Um verdadeiro Kara, o líder deles. Embora fosse essa a definição que melhor lhe coubesse, era uma das únicas que mantinha cuidadosamente em segredo; repousando, mas sempre viva, especialmente em seu coração.
Para os demais, era irrelevante. Miguel, apenas Miguel, era suficiente: um raio de esperança que iluminara o horizonte. O Brasil rejubilava-se e sorria para o futuro.
***
_Foi mesmo bom? — ele perguntava repetidamente, como um menino ansioso.
_Maravilhoso… — deitada ao seu lado na cama, sua esposa sorriu — Foi incrível, Miguel! Foi você, por inteiro!
Miguel acenou afirmativamente, satisfeito:
_Foi como colocar minha alma pra fora. Eu acho. Eu falei o que gostaria de falar. O que eu gostaria, de verdade. Para o país.
Eles estavam hospedados em um dos mais luxuosos hotéis de Brasília e tinham reserva para os próximos dois dias, tempo que calcularam como suficiente para que a mudança do casal fosse transferida do apartamento funcional que possuíam na Asa Norte para a residência oficial presidencial no Palácio da Alvorada. Teriam de ser acostumar a um novo estilo de vida, a uma atenção integral que nunca possuíram antes e que consideravam incômoda, mas um sacrifício válido em prol do projeto maior que buscavam empreender. As ideias de Miguel eram grandes — alguns diriam utópicas — mas ele acreditava nelas e lutaria até o fim. Magrí, ele sabia, estaria sempre ao seu lado. Era parte fundamental daquele quebra-cabeça. Como a amava, e há tanto tempo!
_Meu amor, o que há? — ele notou que a esposa parecia desconfortável, a expressão tensa e o cenho ligeiramente franzido — Está passando mal?
_Não, eu estou apenas cansada. Foi um dia longo — Magrí encerrou, virando-se para dormir — Boa noite, querido. Você foi maravilhoso. Você é maravilhoso.
Fechou os olhos, implorando pelo sono. Ela sentia-se como se partida ao meio.
***
No mesmo andar, outro casal também conversava sobre os acontecimentos da noite.
_É uma pena que você já tenha de ir amanhã — Calu comentou, com certo pesar — Faz tanto tempo que a turma não se reúne.
_Eu sei — Peggy concordou — Mas você entende a urgência, não é?!
Claro que ele entendia, como não?! E se orgulhava imensamente dela por isso.
_Não se preocupe, querido. Em breve todos estarão em Los Angeles para te ver ganhar esse próximo Oscar. Faremos alguma coisa lá em casa.
_Todo menos Miguel, que vai estar muito ocupado agora. E claro, há também Estocolmo, quando Crânio for receber o Nobel.
_Está vendo? Oportunidades não vão faltar para nos reunirmos. Mas você viu como Crânio está envelhecido?
_Ele parece um pouco triste… — Calu murmurou. Sofria pelo amigo.
_Mas por que será? — Peggy especulava, verdadeiramente preocupada- Ele está realizando tudo o que sempre sonhou!
Calu tinha uma pista, mas não comentou nada. Em geral, dividia tudo com a esposa, mas por algum motivo, tão natural quanto inexplicável, sentia-se na obrigação de guardar suas suspeitas para si.
***
No seu quarto, sozinho na enorme cama de casal, Crânio refletia. Era um pensamento recorrente, que o atormentava já há muitos anos. Sempre com a mesma mulher.
Ele fungou ao olhar o espaço vazio ao seu lado. Tantas dispostas a preenchê-lo, tantas já o haviam feito… mas apenas uma poderia preencher a ele próprio.
Que espécie de canalha ele era?
***
Delicadamente, Chumbinho ajudou o Detetive Andrade a atravessar o corredor até seu quarto, no mesmo andar em que todos os outros também estavam hospedados. O rosto gordo e envelhecido do agora manco detetive, que já passara dos oitenta anos, cintilava de orgulho e felicidade. Seus meninos. Como eram brilhantes!
_Vocês se saíram melhor que a encomenda — murmurou, emocionado, observando mais uma vez aquele sorriso maroto que o caçula dos Karas sempre mantivera. Incrivelmente, Chumbinho tornara-se o mais alto do grupo, mas não perdia a sua aura de criança.
_E você é parte disso — replicou, com carinho — Você vai almoçar com a gente amanhã, não vai, Andrade?!
_Mas é claro! Como eu poderia perder uma coisa dessas!
Despedindo-se do gordo detetive, que insistira ser capaz de realizar sozinho todas as tarefas dali em diante, Chumbinho dirigiu-se para seu próprio quarto. Sua esposa, deitada na cama, chorava baixinho. O notebook estava ligado, com o navegador aberto em um e-mail de um laboratório de fertilidade paulista. Ele sentou-se ao seu lado e acariciou com ternura seus cachos negros:
_Não chore… É questão de tempo… Nós vamos conseguir… — sussurrava, mais para si mesmo do que para ela, tentando também se convencer daquela incerteza. Tanto dinheiro, tantas invenções, tantas realizações… e um vazio tão grande como aquele.
***
Os relógios marcavam três horas da madrugada quando Mônica Muniz chegou à redação da Revista Ephemera, no centro de São Paulo. Com quarenta e poucos anos, era uma das jornalistas políticas mais prestigiadas do país e enviada especial da publicação a Brasília para a cobertura da posse do novo presidente da República. Tradicionalmente alinhada ao partido que agora era a oposição, a revista promovera um intenso bombardeio a Miguel durante o período eleitoral, e o editor-chefe Marcos Villaboin buscava agora por toda e qualquer informação que pudesse desqualificar de alguma forma o presidente recém-eleito. Recepcionando Mônica sem entusiasmo, desanimado pela repercussão positiva que o discurso tivera em todo o país, seu semblante endureceu-se ainda mais ao perceber que tampouco ela trazia alguma informação que fosse minimamente relevante aos seus propósitos. Fiel aos seus princípios, Mônica mantivera uma postura correta durante toda a campanha presidencial, analisando Miguel com a imparcialidade que lhe era devida e própria. Expôs com clareza as suas opiniões sobre o candidato, louvando seus seus objetivos — com os quais ela concordava em sua maioria — e discordando de alguns de seus métodos para alcançá-los, rebatendo-os com classe e uma argumentação que mesmo o maior discordante consideraria no mínimo interessante e coerente. Era respeitada, e se orgulhava disso. Não cederia a jogos sensacionalistas. Antes disso, pediria pra sair.
Marcos Villaboin conhecia bem a sua subordinada, mas a escolhera mesmo assim. Mônica era uma das mais sagazes jornalistas do país, e percebia coisas que passavam despercebidas aos outros. Era sua única chance. Aparentemente, mesmo ela não trazia nada além do óbvio: Miguel era um retumbante sucesso.
_Você vai ter de trabalhar duro — Marcos disse — Em algum lugar há um podre. Tem de haver. Ninguém chega a presidente sem pelo menos uma centena de rabos presos pelo caminho, mas ele aparentemente foi esperto o suficiente para escondê-los muito bem. Vai ser sua função encontrá-los, um por um.
Mônica esboçou um sorriso, cansada do longo dia e da viagem de avião:
_Pode ser que simplesmente não haja nada, Marcos.
_Ora, Mônica, não seja tola! Isso é impossível! Completamente impossível! Todo mundo tem segredos!
Fosse a situação uma outra qualquer, Mônica concordaria com o chefe em absoluto: a corrida presidencial e a política, em geral, não eram feitas sem o sustento de uma base obscura. Miguel, no entanto, transmitia uma energia diferente. Ela observara cuidadosamente aquele homem, sua postura, a paixão que imprimia em sua voz e pulsava por todos os poros de seu corpo, a segurança e convicção com que defendia seus ideias. Ali, ela via um homem não corrompido. Um homem que realmente mostrava o que era, que era diferente de todos os demais. Mônica acreditava em Miguel.
Mas uma coisa ela tinha de admitir: todos tem algum segredo. E Marcos não a deixaria em paz até que ela descobrisse os do presidente da República. Talvez ela própria o quisesse.
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