A Droga da Minha Vida
2 2. Ligação noturna
Eu estava sorrindo.
Não poderia ter acontecido algo mais estranho nesse dia.
— Espera um minuto. — pedi.
— Ok, senhor Nicolas Ahoy. — a garota concordou.
Saí do quarto e no jardim da Maya, sentado na grama, de frente pra minha casa, voltei a atenção pro celular.
— Pronto? — ela perguntou, como se tivesse adivinhado.
— Pronto, fofinha. — confirmei, segurando o riso.
Ela bufou e mordi a língua pra não rir.
— Eu já disse, ruivo. — ela protestou, com raiva. — Corta. Essa. De. Fofinha.
— Mas eu não sei o seu nome. — ri pela reação dela. — Do que mais posso te chamar?
Voltei pro mundo real e lembrei que ela tava com o celular da minha irmã.
— Falando nisso — emendei, tava na hora de ser objetivo. —, o que você tá fazendo com o celular da minha irmã?
— Então ela é a sua irmã? — a garota exclamou. — Achei que fosse namorada. Eu tava pra ligar pra polícia pra te denunciar!
Ri, que engraçadinha.
— Ela é muito bonita. — ela falou, séria.
— De família, como você pode ver. — disse, dando de ombros no instinto.
Foi a vez dela de rir.
Depois de um pouco de silêncio, resolvi falar. Ficar muito tempo calado era quase impossível pra mim.
— Por que me ligou, senhora que eu-não-sei-o-nome?
— Tecnicamente, é senhorita. — ela respondeu de imediato. — Eu sou solteira e jovem, meu amor.
— Ahhhh, pois então mil perdões, senhorita. — levei a mão ao peito, fingindo vergonha pra grama e flores. — Então, que tal a menina anônima me dizer seu nome para eu não precisar mais cometer o mesmo erro. O que acha?
— Sinceramente — o tom dela era sério. —, quer saber por quê?
Parei um pouco pra pensar.
Eu tava conversando com uma pessoa aleatória em que esbarrei. Por que eu queria saber o nome? Por que eu poderia querer saber qualquer coisa sobre ela? Uma pitada de diversão nesse tédio todo? Talvez, mas houve algo naquela garota zangada que me chamou a atenção...
Voltei ao ar e resolvi mandar uma resposta vaga, já que não tinha uma melhor.
— Acho que é uma pergunta normal. Como "quantas horas são?" ou "como você está?"
Travei com o silêncio pesado de alguns instantes.
— Bianca Robbie. — ela respondeu, objetiva.
— Como Margot Robbie? — tentei voltar ao tom casual da conversa. — Aquela nova Arlequina?
— Temos um nerd entre nós! — Bianca Robbie rebateu, rindo.
— Temo que não, Bianca Robbie. — expliquei, bem humorado. — Minhas irmãs gostam de ver esses filmes.
— Margot é linda. Pra mim é um elogio ter seu sobrenome, Nicolas Ahoy.
Minha testa franziu na mesma hora. Que agonia que me dava quando me chamavam assim. Ou a pessoa tava brava comigo — ou não gostava de mim, no caso da Natália — ou queria chamar a minha atenção.
— Me chama de Nick. — pedi com cabeça baixa, enrolando o dedo no cabo de uma flor laranja.
— Uhhhh — ela zombou, o que me fez sorrir. —, já temos essa intimidade?
— Não sei, o que você acha? — olhei pra cima, vendo o céu estrelado.
Mais silêncio. Soou como uma pergunta retórica?
— Bianca? — chamei pela garota no telefone.
— Oi.
— O que pretende fazer com o celular da minha irmã?
— Foi por isso que liguei. Inclusive, eu adorei a foto.
Foto?
— Estava pensando em devolvê-lo amanhã de manhã. O que me diz?
Ela estava me chamando pra sair ou eu tô ficando louco? Comecei a rir.
— Por que não manda o celular por correio ou alguma coisa assim?
— Fiz um favor a sua irmã e ainda está achando ruim? Poderia tê-lo vendido e ganhando uma boa grana para comprar coxinha!
— Tudo bem, tudo bem, Bianca. — ri de novo. — Onde?
— Sabe a lanchonete Unicórnio Aleijado? — Bianca não esperou resposta. — Fica no centro.
Fiz careta.
— Mas que diabos de nome é esse?
— Qual é, Nick?! Lá vende a melhor coxinha de todos os tempos. Vejo você lá as oito, — especificou, mega natural. — boa noite, ruivo. — e sem mais nem menos, a fofinha Bianca Robbie desligou na minha cara.
Só pra confirmar, olhei o visor, que exibia um: "ligação encerrada".
Resmunguei, levantei e entrei em casa. Me joguei do lado da Milena no sofá grande, girei na direção do olhar dela.
— Achei seu celular.
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