Eu estava sorrindo.

Não poderia ter acontecido algo mais estranho nesse dia.

— Espera um minuto. — pedi.

— Ok, senhor Nicolas Ahoy. — a garota concordou.

Saí do quarto e no jardim da Maya, sentado na grama, de frente pra minha casa, voltei a atenção pro celular.

— Pronto? — ela perguntou, como se tivesse adivinhado.

— Pronto, fofinha. — confirmei, segurando o riso.

Ela bufou e mordi a língua pra não rir.

— Eu já disse, ruivo. — ela protestou, com raiva. — Corta. Essa. De. Fofinha.

— Mas eu não sei o seu nome. — ri pela reação dela. — Do que mais posso te chamar?

Voltei pro mundo real e lembrei que ela tava com o celular da minha irmã.

— Falando nisso — emendei, tava na hora de ser objetivo. —, o que você tá fazendo com o celular da minha irmã?

— Então ela é a sua irmã? — a garota exclamou. — Achei que fosse namorada. Eu tava pra ligar pra polícia pra te denunciar!

Ri, que engraçadinha.

— Ela é muito bonita. — ela falou, séria.

— De família, como você pode ver. — disse, dando de ombros no instinto.

Foi a vez dela de rir.

Depois de um pouco de silêncio, resolvi falar. Ficar muito tempo calado era quase impossível pra mim.

— Por que me ligou, senhora que eu-não-sei-o-nome?

— Tecnicamente, é senhorita. — ela respondeu de imediato. — Eu sou solteira e jovem, meu amor.

— Ahhhh, pois então mil perdões, senhorita. — levei a mão ao peito, fingindo vergonha pra grama e flores. — Então, que tal a menina anônima me dizer seu nome para eu não precisar mais cometer o mesmo erro. O que acha?

— Sinceramente — o tom dela era sério. —, quer saber por quê?

Parei um pouco pra pensar.

Eu tava conversando com uma pessoa aleatória em que esbarrei. Por que eu queria saber o nome? Por que eu poderia querer saber qualquer coisa sobre ela? Uma pitada de diversão nesse tédio todo? Talvez, mas houve algo naquela garota zangada que me chamou a atenção...

Voltei ao ar e resolvi mandar uma resposta vaga, já que não tinha uma melhor.

— Acho que é uma pergunta normal. Como "quantas horas são?" ou "como você está?"

Travei com o silêncio pesado de alguns instantes.

— Bianca Robbie. — ela respondeu, objetiva.

— Como Margot Robbie? — tentei voltar ao tom casual da conversa. — Aquela nova Arlequina?

— Temos um nerd entre nós! — Bianca Robbie rebateu, rindo.

— Temo que não, Bianca Robbie. — expliquei, bem humorado. — Minhas irmãs gostam de ver esses filmes.

— Margot é linda. Pra mim é um elogio ter seu sobrenome, Nicolas Ahoy.

Minha testa franziu na mesma hora. Que agonia que me dava quando me chamavam assim. Ou a pessoa tava brava comigo — ou não gostava de mim, no caso da Natália — ou queria chamar a minha atenção.

— Me chama de Nick. — pedi com cabeça baixa, enrolando o dedo no cabo de uma flor laranja.

— Uhhhh — ela zombou, o que me fez sorrir. —, já temos essa intimidade?

— Não sei, o que você acha? — olhei pra cima, vendo o céu estrelado.

Mais silêncio. Soou como uma pergunta retórica?

— Bianca? — chamei pela garota no telefone.

— Oi.

— O que pretende fazer com o celular da minha irmã?

— Foi por isso que liguei. Inclusive, eu adorei a foto.

Foto?

— Estava pensando em devolvê-lo amanhã de manhã. O que me diz?

Ela estava me chamando pra sair ou eu tô ficando louco? Comecei a rir.

— Por que não manda o celular por correio ou alguma coisa assim?

— Fiz um favor a sua irmã e ainda está achando ruim? Poderia tê-lo vendido e ganhando uma boa grana para comprar coxinha!

— Tudo bem, tudo bem, Bianca. — ri de novo. — Onde?

— Sabe a lanchonete Unicórnio Aleijado? — Bianca não esperou resposta. — Fica no centro.

Fiz careta.

— Mas que diabos de nome é esse?

— Qual é, Nick?! Lá vende a melhor coxinha de todos os tempos. Vejo você lá as oito, — especificou, mega natural. — boa noite, ruivo. — e sem mais nem menos, a fofinha Bianca Robbie desligou na minha cara.

Só pra confirmar, olhei o visor, que exibia um: "ligação encerrada".

Resmunguei, levantei e entrei em casa. Me joguei do lado da Milena no sofá grande, girei na direção do olhar dela.

— Achei seu celular.

Notas finais
Não deixa de deixar seu comentário sobre a história, abiguinho. Deixa eu saber se está gostando :3