A Droga da Minha Vida
1 1. O maldito show
Notas iniciais
Eu não aguentava mais aquela infelicidade. Mas é claro que não demonstraria tal sentimento pra qualquer pessoa, até mesmo pra minha família. Esse definitivamente não é o meu tipo.
Não conseguia parar de pensar nisso enquanto avançava mal humorado rumo há um formigueiro de pessoas. Não tava dando mais pra suportar aquela vida de cuidar daquelas três pestes que eu chamava de irmãs.
Foi inevitável lembrar da última vez que eu tinha passado raiva por causa de uma delas.
Mirela era a metida a inconsequente. Desesperada pra ser adulta, obcecada com a ideia de liberdade. Eu já tinha pegado ela bêbada agarrada com outra menina sei lá quantas vezes.
— O que está fazendo, Nick? — Mirela berrara com o com bafo de cachaça quando eu a puxei pelo braço da última vez e a obriguei a marchar pra casa. — Não posso mais beijar meninas por causa da sua caretice?
Nem respondi.
O que Mirela tinha falado naquele dia não tinha pé nem cabeça, como a maioria das coisas que falava que tava bêbada. Ela falou como se eu fosse um homofóbico babaca qualquer. O que eu teria contra a minha própria irmã? E quem se importava quem as pessoas fossem beijar ou transar? Não era da minha conta.
O que era da minha conta era pegar minha irmã, minha descontrolada e desorientada irmã, de QUINZE ANOS, bêbada!
Uma criança querendo ser adulta. Patético.
Ela que beije quem quiser, desde não esteja morta de tanto beber cachaça.
Já dava pra ver a estrutura do palco.
As gêmeas tinham ido ver um festival de música com a permissão da Luísa, mas Milena tinha me ligado no meio da tarde, pedindo socorro.
"Por favor, Nick! Vem rápido! A Mirela... a Mirela..."
Ela tava gaguejando. Merda! Tinha acontecido alguma coisa.
— O que aconteceu, Milena? — falei de volta, me levantando do sofá de uma vez.
Milena não estava mais na linha pra eu berrar com ela.
Fiz Luísa me levar até o show o mais rápido que deu. Já tinha perdido a conta de quantas vezes havia ligado pras duas quando pisei no gramado da Esplanada dos Ministérios, onde ia rolar o show.
Eu tava queimando vivo, um sanduíche macabro de sentimentos. Medo, raiva, desespero.
As gêmeas iam me pagar quando isso acabasse.
Tava já estava no meio daquele formigueiro, de frente pro palco do Green Movie, rodeado de pessoas com guirlandas na cabeça, garrafas de bebida na mão e cigarros na boca. Bem, pelo menos a maioria.
Apesar de meus 1,80 de altura, que me sempre foram muito úteis, não consegui identificar nada familiar. Nada do cabelo liso roxo de Mirela ou a juba azul da Milena.
Merda!
Essa multidão toda tá me deixando maluco. Mais de uma hora procurando e nada das gêmeas. Tava começando a ficar desesperado de verdade.
Minhas mãos foram até meu cabelo desgrenhado (coisa que peguei da Milena), olhando de um lado pro outro. Estava começando a cogitar gritar o nome das duas quando senti algo esbarrar no meu corpo, foi quando olhei para baixo.
Vi ali, tão perto de mim, uma oportunidade de tirar algum divertimento daquele inferno todo.
Uma garota, era uma garota. Os olhos de um castanho suave, o nariz largo numa proporção bonita, a ponta era uma coxinha cuticuti igualmente clara como a pele branca debaixo dos olhos e o lábio superior era mais fino do que o inferior. A cabeleira castanha tava presa num rabo de cavalo bastante alto.
Bonita até.
Acho que nunca tinha percebido tantos detalhes numa garota.
Arghhhhh, aquela cambada de mulheres tavam me consumindo mesmo.
Se me perguntasse, eu não iria saber dizer quanto tempo fiquei parado, olhando pra ela. De qualquer modo, nem me importo, sou um cara de pau mesmo, e eu sabia que a garota podia ver isso no meu sorriso fino sem exibir minha arcada dentária maravilhosa.
Ela não parecia muito contente. Mas mesmo assim, o rosto delicado tão enraivado com sua fúria inofensiva. Eu tive que sorrir, aquele meu sorriso presunçoso, debochado e fácil.
— Cuidado por onde anda, fofinha. — apertei uma prega da bochecha da garota de leve, ainda com um sorriso na cara, com meu olhar baixo, como de costume (quando quero encher o saco de alguém).
Pela rugas que apareceram na testa dela e a brilho incrédulo no rosto da menina, ela não tinha gostado nem um pouco do que eu fiz.
Já parece brava, acho que só agravei mais. Na mosca!
Ri internamente.
— Corta essa de fofa, ruivo! — ela cuspiu entredentes, esbarrando mais uma vez em mim, só que desta vez, de propósito, e avançando multidão à fora.
Não consegui me conter e soltei um risinho enquanto eu a observava ir embora.
Provável que nunca mais a veria na vida, pelo menos, eu esperava, pois não gostaria de enfrentar sua fúria fofa... ou gostaria? Deixa pra lá, águas passadas.
Enquanto repassava a expressão engraçada da garota na cabeça, ouvi um grito e me virei. E antes de ver um cabelo azul marinho esvoaçar por um sopro de vento, ouvi Milena gritar pela Mirela. Um grito horroroso, e então, o cabeleira azul ficou submersa no mar de corpos.
Não, não, não!
Comecei a empurrar todo mundo, gritando.
Havia algo... Alguém, no centro de um círculo de pessoas. Tentei andar mais rápido. Cada fibra de músculo do meu corpo estavam sendo banhada por línguas de fogo, eu tava queimando de medo.
Estou quase lá, quase lá. Só faltavam alguns corpos para chegar no círculo.
Quinze, treze, dez... O peito queimava. Sete, quatro, dois...
Eu estava no círculo. Olhei pra todos os lados.
Vi uma garota estranha com a cara coberta de arranhões, arfando e olhando pro chão. E foi lá que as encontrei, no chão. Mirela estava desacordada, na terra, com o cabelo roxo desbotado grudado numa parte do rosto. A menina de cabelo azul comprido segurava o corpo mole, falando algo.
Caí instantaneamente de joelhos.
— O que aconteceu? — perguntei, desesperado.
A menina de cabelo azul olhou para mim, o alívio preencheu o rosto pálido, conseguiu dar um sorriso.
— Graças à Deus, Nick! — ela passou o braço pelo meu pescoço e me puxou pra perto de si.
Isso diabos é hora de ficar feliz?! Eu não tava pronto pra comemorar ainda.
Mirela começou a murmurar algo incapaz de ser entendido.
— Milena, — tentei acalmar o tom de voz. — o que aconteceu?
Suas bochechas ficaram vermelhas e a mão passeou pela cabeleira, um ato de inquietude que eu sabia bem.
— Desculpe. — Milena disse, envergonhada. — Eu perdi meu celular e a Mirela pulou em cima da menina, ela escorregou e bateu a cabeça no chão.
Aaaaaaah, MIRELA!
Afastei a Milena.
Passei as mãos pelo cabeça da minha irmã morta, procurando algum ferimento. Quando senti uma umidade com os dedos, Mirela tremeu.
— Isso dói, mano... — gemeu, com manha, abrindo um pouco os olhos.
Ela me chamando assim me deixava irritado na maioria das vezes, mas não tinha espaço pra isso agora. Enquanto a garota murmurava coisas som nó nem cabeça, senti o hálito ácido forte.
Encarei a gêmea acordada do meu lado.
— Você deixou ela beber? — gritei pra Milena sem acreditar.
— Ela sumiu! — Milena rebateu. — Só a encontrei quando ela já estava louca!
EU SABIA! Sabia que ia dar merda essas duas saírem sozinhas pra esse maldito show.
— Arranja um doce! — gritei para ser o ouvido, parece que o show tinha recomeçado, mas eu ainda sentia olhares nos fuzilando.
Milena começou a vasculhar sua bolsa de couro. Me voltei pra Mirela de novo.
— Ei, ei, ei! — a obriguei a olhar diretamente pra cima. — Tá com alguma outra dor?
Ela fez uma careta.
— Minha cabeça... Minha cabeça dói, Nick...
Voltei a atenção pra outra irmã. Milena sacou um pirulito e me entregou.
— Aqui, encrenqueira. — coloquei o doce na boca da garota. Aquilo ajudaria com o álcool. — Isso vai ter ajudar.
Ela aceitou de bom grado com um sorriso amarelo e fechou os olhos de novo. Enrolei um braço pelas costas dela e com o outro peguei as pernas molengas. Com muito esforço, consegui ficar de pé com Mirela nos braços. Girei, pra ir embora daquele lugar, e dei de cara com a menina que a maluca da Mirela tinha machucado.
— Desculpa, — falei, a mais sincera das desculpas. — ela não sabe o que faz.
Não esperei resposta. Ouvi Milena se desculpar um pouco mais atrás de mim.
Conforme eu ia avançando pro estacionamento, os espaços entre a multidão iam crescendo enquanto me aproximava com a menina no colo. Olhei uma ou duas vezes para conferir que Milena vinha atrás.
— Bêbada passando! — eu gritava para os distraídos. — Cuidado, bêbada passando!
E as reações variavam de pena e uns risinhos gentis. E por uns instantes, acabei me esquecendo de como estava bravo... mas só até ver minha mãe.
Luísa cobriu a boca com as mãos quando me viu sair da multidão com uma gêmea nos braços, e uma às costas. Seu cabelo ruivo de um cobre fechado esvoaçou pelo vento, como fogo soprado pela brisa, enquanto ela corria na nossa direção.
Eu tinha o mesmo tom de ruivo dela. Argh.
A raiva reacendeu com a mesma facilidade que tinha sumido.
— O que ela tem? — perguntou ela.
— Parece que a falta de uma mãe que lhe dê limites! — cuspi para a mulher, passando direto por ela. — EU AVISEI QUE NÃO ERA BOA IDEIA DEIXAR ELAS SAÍREM!
Fui pro carro sem olhar pra trás.
Sentei no banco da frente, do lado da Luísa e bati a porta do carro, depois de prender Mirela meio inconsciente no cinto de segurança.
Luísa se virou para mim, com as mãos no volante.
— Casa ou hospital?
Eu ainda estava fervendo de raiva. Cobri o rosto com a mão suja de sangue seco e tentei respirar fundo.
— Ela só machucou um pouco a cabeça e está alcoolizada.
Luísa olhou para a gêmea de cabelo azul.
— Mãe, desculpa, eu me perdi dela. — Milena murmurou, antes mesmo de Luísa falar qualquer coisa.
— Tudo bem, meu bem. — Luísa falou, muito calma. — Não foi culpa sua, só não vamos contar pro seu pai, ok?— ela voltou a olhar pra frente. — Vou conversar com ela mais tarde.
Não aguentei me conter desta vez, explodi. Fuzilei a mulher que eu chamava de mãe.
— CONVERSAR COM ELA? — Milena deu um pulo. Eu bufei. — Quantas e quantas vezes você já não fez isso e ela continua fazendo a mesma coisa? — Luísa estava congelada. Me inclinei na direção dela. — VOCÊ NÃO SE IMPORTA! Tudo que você se importa é com o seu casamento, o seu trabalho, com a sua bonequinha de cabelo azul e com o seu bebezinho de 7 anos!
Ela começou a bater no volante com as mãos.
— Isso não é verdade, ISSO NÃO É VERDADE! Tudo o que eu faço é por vocês, tudo! — se defendeu, ou tentou.
Ela era uma aeromoça, uma estúpida aeromoça! Viajando na semana, e voltando para casa nos finais de semana.
— Não diga como se o que você fizesse fosse um incômodo para você. Se você realmente quisesse ficar perto de nós, já teria largado o emprego, Luísa!
Nós discutimos mais um pouco no carro, mesmo Milena tentando apartar, mas em casa, eu e Luísa não trocamos nenhuma palavra que não fosse necessária.
Eu tava secando o cabelo ruivo com uma toalha quando ouvi alguém me chamar:
— Nick?
Milena me arrancou dos meus pensamentos enquanto penteava o longo e úmido cabelo roxo da Mirela, que dormia calma com o cabeça nas pernas da irmã.
— Hummm? — foi a minha resposta.
— Você diz que a Mirela não escuta a mamãe. — ela falou, olhando para o cabelo úmido nas suas pernas. — Entra por um ouvido e saí pelo outro. Então... Eu tava pensando que talvez você pudesse conversar com ela. — seu olhar encontrou o meu, tão quente... cheio de esperança. — Talvez ela te escute...
Senti uma tristeza grande se acomodar dentro de mim. Ela não entendia... Nunca entenderia, como Mirela e eu nos sentimos.
Nós dois somos as frutas podres da família Ahoy. Talvez fosse por isso que a Meri fazia besteira por cima de besteira. Para fazer jus ao rótulo que tinham imposto a ela, por atenção também. Um calafrio correu pelo meu corpo só de lembrar como eu tinha chegado àquela conclusão.
Eu tinha encontrado ela esparramada no chão do banheiro de casa com uma garrafa de Catuaba na mão e mais três vazias do lado.
— Por que eu to fazendo isso? SÉRIO? — ela gritou de volta, me agarrando pelos ombros, depois deu berrar pra ela, perguntando porque ela tava fazendo isso. Ela começou a chorar logo depois de me deixar estarrecido. — Porque é o meu jeito de lidar com o fato de ninguém me amar! Você acha que eu não sei que eles me odeiam? Que me acham uma vergonha? — e começou a chorar no meu ombro.
— Não é verdade... — eu disse, sem saber como agir. — As meninas... A Milena, a Maya... Elas te amam, Meri.
Ela levantou a cabeça de uma vez e os olhos verdes estavam completamente tomados de lágrimas que não paravam de brotar.
— Você me entende né, Nick? Entende como é ser o desgosto da família? Diga que sim, por favor...
Segurei suas mãos nos meus ombros e as tirei de lá devagar.
— Mirela, eu... — o que quer que eu fosse dizer, morreu na minha garganta.
Ela apoiou a cabeça no meu peito e fungou.
— Tudo bem, eu posso aguentar. Pelo menos estamos juntos nessa.
Não cheguei a brigar com ela naquele dia.
Por um lado, era bom saber que Milena não sofria da mesma coisa, e por outro, era ruim por que não tínhamos essa conexão, como eu e Mirela.
Milena não sabia, talvez até a própria Mirela não entendesse bem, mas eu... Eu compreendia muito bem abandono da parte da Luísa, e isso me deixava furioso. Ela as mimava quando estava em casa para compensar todo o tempo fora. E quem ficava responsável pelas meninas, quem realmente fazia algo além de atender as vontades das três? Nicolas Ahoy. E o Tiago, quando estava em casa.
Ele é uma boa pessoa, bom marido, e se esforça pra ser próximo das três filhas apesar de trabalhar demais como piloto daqueles aviões imensos. Ele é bom para mim também, apesar de não ser seu filho, nem seu primogênito.
Olhei para a profundidade dos olhos verdes claros da Milena, que aguardava uma resposta minha.
— Eu não posso, Milena... — minha voz era um sussurro triste. — Você sabe. Ela não escuta ninguém.
Sempre pensei na Milena como uma flor. Segura, graciosa e de uma doçura enorme. Seu rosto branco era o botão alvo e a juba azul eram as pétalas. Uma flor azul de inverno.
Ela agora era uma flor murcha e cabisbaixa. Me senti mal, e para sua alegria, cedi.
— Tudo bem. — disse, revirando os olhos. — Vou tentar falar com ela depois.
A flor se encheu de vida com um sorriso largo. Ela deixou a cabeça de Mirela cair no colchão, correu até a minha cama e me agarrou num abraço. Como de costume, fiquei desconfortável. Não existia um motivo específico para a minha falta de gosto por qualquer tipo de toque, pelo menos, não que eu me lembrasse, eu só sentia a necessidade de me afastar quando alguém fazia isso, me parecia tão estranho, anormal. Sempre que posso, fujo deles.
Foi um longo abraço, acompanhado de um beijo na bochecha. Ela foi embora logo depois, saindo do quarto e indo jantar.
Tiago veio procurar por mim e pela Mirela quando não aparecemos para comer.
— Sem fome? — ele perguntou no meio da escuridão do meu quarto.
Não conseguia vê-lo direito, mas sabia como ele era.
Tiago era um típico gostosão. De barba e cabelo escuros, com um sorriso bonito, alto e com um físico bom. E isso tirando sua simpatia inatacável, seu papo e sua habilidade na cozinha.
Tiago era um ímã para mulheres.
— Só pastorando a desastrada aqui. — tentei parecer convincente.
Vi a silhueta do meu padrasto ir até a cama de Mirela. Ele acariciou o cabelo dela e beijou a sua testa antes de rir um pouco.
— Meri doidinha.
O olhar do homem mirou em mim, sério e fosco.
— A Azul me contou que você e a sua mãe brigaram hoje. — Arrrrrgh, Milena! Sua traidora! Mordi a língua. — mas não quis me contar o porquê. Devo me preocupar?
Limpei a garganta e tentei parecer o mais descontraído possível.
— Ah, você sabe, Tiago! Aquelas brigas rotineiras de sempre.
Ele levantou e sentou na minha cama. Tentei disfarçar minha tensão. Sua mão esquerda caiu no meu joelho. Fiquei a observando lá até ele falar, foi quando olhei seu rosto. Acho que ele é a pessoa mais compreensiva que já conheci na vida.
— Sei muito bem que não sou seu pai mas estou há tanto tempo com você. Estamos há o quê? Quinze, dezesseis anos convivendo?
— Dezesseis. — confirmei.
Tiago sorriu.
— Troquei suas fraldas, garoto. Você só tinha um ano quando entrei na vida da sua mãe. — ele refletiu com os olhos vagos, eles voltaram para mim num instante. — Você pode não ter o meu sangue, pode até mesmo não me ver como seu pai, mas pra mim... Você é o meu filho.
Como não falei nada, ele suspirou e levantou. Já estava na porta do quarto quando voltou a falar.
— Olhe, tente compreender o lado da sua mãe. — ele pareceu meio confuso. — Ela anda muito estressada por esses tempos... Queria eu saber o porquê. — seu sorriso era fraco, meio triste.
Me senti triste pela segunda vez no dia.
Ele merecia saber, merecia saber o que estava acontecendo por baixo dos panos com as filhas, mas e se eu contasse? O que ele faria? Qual seria sua reação? Quais seriam as consequências?
Gritei pra mim mesmo que não importava, Mirela era filha dele. Reuni toda a minha coragem pra contar. Ele estava prestes a ir embora e...
— Tiago?
— Sim?
Limpei a garganta.
— É que... — esfreguei minha nuca. — bem, é que...
— Algo que queira me contar, Nick? — seus olhos estavam brilhando.
Ele sabe, não é um idiota. Sabe que estamos escondendo algo.
Desculpa, Tiago. Mas não se trata apenas de mim. Que você descubra ou que Luísa conte, o que vier primeiro.
— Não, é que... — eu o olhei nos olhos. — Eu só queria agradecer por você ter cuidado de mim todos esses anos, você não tinha nenhuma obrigação de me educar mas fez mesmo assim. Por ter ajudado a Luísa também. Obrigado.
Bem, era uma meia verdade, mas não havia mais nada pra falar.
Nunca tinha visto Tiago com a cara tão surpresa. Ele deu um sorriso largo mas consegui ver que eu não o tinha convencido.
— Não agradeça, garoto. — agora só dava pra ver sua cabeça na beirada da porta. — Foi um prazer cuidar de vocês dois. — e sumiu, me mandando uma piscadela.
O silêncio gostoso mal tinha se estabelecido quando meu celular começou a vibrar debaixo do travesseiro. Sem entender nada, olhei a tela acesa. Ela exibia uma foto da Milena e o dizer: "Azul". Era muito provável que Milena estivesse na sala, e além disso, ela tinha perdido o celular no show...
Tive um pressentimento estranho mas atendi mesmo assim.
— Alô? — minha voz saiu incerta.
— Olá, seu ruivo folgado.
Fale com o autor