A Dor Nos Une
2 Capítulo II – Observe-me, ototou
Notas iniciais
Capítulo II – Observe-me, ototou
Gaara estava sentado no telhado de um prédio abandonado na borda mais distante da aldeia. Ele sempre vinha aqui quando ele queria ficar sozinho, o que era todas as noites quando o resto da aldeia ia dormir e ele era deixado para ser assombrado pelo terror da presença de Shukaku dentro de sua mente. Seus pensamentos vagavam sem destino, misturados com os sussurros do Shukaku que falavam eternamente sobre o sangue a tal ponto que ele já não podia distinguir os pensamentos que eram dele e os que eram do Shukaku.
Sua mão estava estendida na frente dele, e Gaara moveu os dedos distraidamente, enquanto ele não se permitia dormir. Ele estava acostumado com suas noites sem dormir, sem nunca ter realmente dormido em toda a sua vida. Ele provavelmente não iria cair no sono, mesmo que se ele deitasse na cama e se permitisse relaxar completamente. No entanto, o medo sempre o agarrou com a ideia de perder sua consciência para sempre para Shukaku. Ele quase saudava a chegada ocasional de algum assassino, que se colocavam em risco por vontade própria, esperando que por algum milagre consigam o matar. Gaara dava-lhe a chance de se mover, mesmo que apenas um pouco, mas ele sempre os destruía praticamente sem esforço, às vezes quase sem ter que mover sua mão.
Mas esta noite, ele sentou-se sozinho, sem interrupções. A lua era uma lasca vaga no céu e sem luzes ao redor, ele se sentou na escuridão quase total. Gaara se perguntou por um momento se era assim que a sensação de morte era — quietude completa, total silêncio, nenhum sentimento, nenhuma emoção. Claro, isso era uma mentira. Havia sempre um sentimento. Aquela interminável dor surda no peito que ele tinha aprendido a ignorar. Tinha estado com ele por tanto tempo que ele não poderia realmente imaginar se ele seria o mesmo sem ela. Era como se isso fosse a única coisa que restava e que indicava que ele ainda estava vivo, o último sinal remanescente que mostrava que, em algum nível primitivo ele ainda era humano.
Gaara deixou a imaginação do Shukaku assumir seus pensamentos, o pensamento da morte, inevitavelmente, atraindo a atenção do Jinchuuriki. Suas mãos se contraíram quando memórias aleatórias de sangue e destruição brilharam em sua mente. Lentamente, sem realmente perceber a direção que seus pensamentos estavam tomando, as memórias de Gaara trouxeram a imagem de sua irmã quando ela foi ferida mais cedo naquele dia. Gaara sentou-se, de repente alerta quando a lembrança ficou mais clara em sua mente.
Onee-san.
Ele nunca tinha pensado nela como tal antes. Ele nunca tinha usado o termo, mesmo quando ela se referia a si mesma de tal forma com ele em suas tentativas de acalmá-lo quando Kankuro testava sua tolerância novamente. Gaara foi surpreendido por seus pensamentos. Ele realmente nunca tinha pensado nela antes, e agora ele parecia incapaz de tirá-la de sua mente. O que havia com ela? Ela estava de repente diferente, ou ele apenas nunca havia prestado atenção nela antes?
Pensando sobre antes, ele começou a perceber que ela sempre ficava estranha ao seu redor. Temari sempre foi a única a usar a sua voz suave quando ele ameaçava matá-la ou a Kankuro, tentando lembrar-lhe que eles estavam relacionados, que ele não deveria querer matá-los. Era ela quem sempre vinha a sua porta lhe avisar sobre alguma missão ou notificá-lo sobre alguma coisa. Toda vez que ela ou algum funcionário da casa fazia o jantar, ela sempre trazia uma bandeja para ele, embora ela nunca demorasse tempo suficiente para vê-lo, simplesmente deixando a bandeja no chão em frente ao seu quarto para ele pegar. Ele se lembrou de um momento no passado distante, quando ela ainda tentou falar com ele, apesar de que a conversa foi rapidamente interrompida quando ele ameaçou matá-la se ela não calasse a boca.
– Naze... – Gaara sussurrou baixinho.
Ele nunca tinha prestado atenção a essas coisas antes, mas agora que ele percebeu o seu padrão, e isso o fazia refletir sobre isso. Ele sabia que Temari tinha pavor dele como todos os outros. Mas por que ela estava sempre tentando agir diferente? Por que ela estava sempre tentando aproximar-se dele, embora seu coração ameaçasse explodir em seu ritmo frenético cada vez que ela estava perto dele?
Isso confundia Gaara, e as coisas que o confundia o deixava com raiva. Neste caso, a raiva de Gaara estava direcionada a Temari, a origem do problema.
Mate-a. Imediatamente surgiu a resposta não verbal, mas ainda clara do Shukaku.
Lentamente Gaara levantou-se, de pé, imóvel por um momento, como se contemplasse suas opções, enquanto sua roupa chicoteava em torno dele pelo forte vento do deserto. Então ele se virou e começou a voltar para o hospital, nunca pousando no chão, enquanto ele passava de um telhado para outro, evitando qualquer encontro casual com qualquer um dos moradores. Ele finalmente parou sobre o telhado onde ele tinha sentado antes, olhando para o quarto de Temari do outro lado da rua coberta por areia. A luz no quarto dela estava desligada agora, a janela aberta para permitir que o ar fresco entrasse. Gaara se agachou, ouvindo atentamente os sons vindos do quarto de Temari, enquanto bloqueando o ímpeto do vento em torno dele.
Sua união com o Ichibi permitia a Gaara ter certos “poderes”, tais como ser capaz de ouvir as batidas do coração das pessoas, mesmo a uma grande distância. Ele sempre tinha usado esta dádiva para ouvir os últimos instantes de desespero de suas vítimas antes de seus corpos serem destroçados. Mas agora, ele estava usando esta capacidade de ouvir qualquer barulho, para simplesmente escutar a respiração de Temari, avaliando o som rítmico e pacífico, o que indicava que ela estava profundamente imersa no sono. Ele franziu a testa, de repente, irritado com a capacidade da garota de dormir em paz enquanto ele estava sempre atormentado por seus próprios pensamentos.
Mate-a. Veio o sussurro interminável no fundo de sua mente.
Formando um selo com uma só mão, Gaara permitiu que sua areia o mergulhasse em si, o teleportando para o quarto de Temari. Ele olhou para seu corpo espalhado sobre a cama, o cobertor puxado até o peito, os braços nus descansando em cima dos lençóis. Sua cabeça estava jogada para o lado, as madeixas do cabelo loiro esparramadas sobre o travesseiro. A expressão em seu rosto parecia perfeitamente pacífica. Gaara deu um passo em direção a ela em silêncio, de pé ao lado da cama. Ele nunca tinha visto alguém dessa forma de tão perto antes. Todo mundo estava sempre com medo de sua presença, seus rostos imediatamente se contorcendo na máscara de pânico. Ele só tinha sido capaz de ver um olhar tão relaxado no rosto de alguém quando ele espionava as pessoas de longe.
Gaara continuou a estudar suas características com a intensidade que apenas alguém que não havia tido contato humano antes seria capaz de fazer. Era estranho, estar finalmente olhando para ela. Sua irmã. O que a fazia ser isso? Ela não era nem um pouco parecida com ele. Não havia nada sobre ela que se assemelhava remotamente a seu caráter. Quem decidiu que essa pessoa seria sua irmã, Gaara pensou em uma tentativa infantil de encontrar alguém para culpar. Ela era uma kunoichi qualificada. Gaara tinha assistido-a matar seus oponentes com facilidade nas raras ocasiões em que ele não se importava em participar da luta. Mas ela nunca matou como ele. Ela nunca teve o prazer do simples ato de matar. Ela fazia isso porque tinha que fazer e então nunca pensava sobre isso novamente. Não, ela não era nada parecida com ele. Não havia nada sobre ela que ele poderia identificar como sendo parte de si mesmo.
Então por que olhar para ela o confundia? O que era isso que assolava tanto sua mente que o fez vir aqui só para olhar para ela?
Os olhos de Gaara arrastaram sobre seu corpo, observando os lençóis entrelaçadas em torno de sua forma feminina. Ele seguiu o comprimento dos seus braços, pensando distraidamente que sua pele era um tom estranhamente pálido para alguém que passava o dia todo no sol do deserto. Embora ele também fosse pálido, e passasse o dia todo no deserto. Ele empurrou os pensamentos de lado e seus olhos se detiveram ante os curativos em seu ombro, lembrando-se do sangue que borbulhava livremente sobre ele a menos de 24 horas atrás.
Mate-a. Faça aquele sangue fluir novamente. Veio o sussurro implacável.
Os olhos de Gaara viajaram para o rosto dela. O que a fazia tão diferente? Por que ela não era como ele? Ela parecia tão... Suave. Gaara encontrou-se a ter uma súbita vontade de tocá-la, para saber se ela era com ele imaginava. Ele inclinou a cabeça um pouco para o lado enquanto ele olhava para ela com a incerteza. Temari se mexeu um pouco em seu sono, fazendo com que Gaara ficasse tenso imediatamente.
Mate-a. A voz chamou com mais insistência. Quando ela estiver morta, ela não vai fugir. Você poderá tocá-la o quanto quiser.
Gaara estendeu a mão para ela lentamente, sem saber se ele estava fazendo isso para chamar a areia ou na tentativa de deixar que seus dedos tocassem sua pele. Temari se moveu novamente, murmurando baixinho em seu sono. Gaara fez uma pausa, esperando. Se ela acordasse, ele a mataria. Ele não daria a ela a chance de questionar sua presença ali. Ele escutou, ouvindo apenas sons incompreensíveis que caiam de seus lábios. Em seguida, ele ficou tenso, reconhecendo uma única palavra.
– Ototou... – ela sussurrou, o som quase inaudível.
A mão de Gaara se contorceu. A única coisa a salvar a vida de Temari foi o fato de que seus olhos ainda estavam fechados. Depois de um momento, Temari relaxou, mais uma vez caindo em um sono profundo enquanto Gaara lentamente percebeu que ela estava sonhando. Era estranho para ele ver isso, nunca tendo dormido. Ele se perguntou sobre o que eram seus sonhos. Será que ela estava fugindo dele até mesmo lá? Será que o medo dela por ele chegavam até mesmo em seus sonhos, nas profundezas de sua mente, os segredos de seu subconsciente?
Os lábios de Gaara torceram em um sorriso mal-intencionado com a ideia de que ele tinha tal poder sobre ela. Não havia nenhum lugar em que ela pudesse escapar dele. Ele retirou a mão lentamente, ignorando a pontada de dor que surgiu em sua cabeça, o que indicava o desagrado do Shukaku. Ele decidiu que iria testá-la, ver o quanto ela realmente o temia, o que ele teria que fazer para fazê-la chorar. Enquanto Gaara saiu do quarto de Temari, ele encontrou-se perguntando como será que seu rosto ficaria se estivesse manchado de lágrimas, o corpo do ruivo tremendo de emoção com o pensamento.
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Temari acordou de manhã com uma sensação estranha que ela não conseguia explicar. Ela sentou-se na cama, encostando-se à cabeceira da cama e pegou o livro de sua mesa de cabeceira. Ela abriu a página que tinha marcado e ficou olhando para as palavras sem realmente lê-las. Ela estava imersa em seus pensamentos, embora ela não pudesse realmente dizer o que ela estava pensando. Temari sentou em silêncio, sem virar uma página por uma hora inteira sem perceber. Ela foi arrancada de sua contemplação, quando a porta do quarto se abriu e uma ninja médica entrou com um sorriso.
– Ohayo, Temari-san – disse a médica.
Temari balançou a cabeça em resposta, fechando o livro.
– Eu vou precisar verificar sua ferida – a mulher continuou.
Temari balançou a cabeça novamente. Ela permitiu que a médica puxasse para baixo o braço da roupa branca de hospital, deixando-a cair, revelando seu peito sem se importar, sem nunca ter sido tímida sobre seu corpo. Ela desviou o olhar, enquanto a médica começou a retirar a bandagem, estremecendo um pouco quando ela colocou a mão sobre a ferida e enviou uma pequena quantidade de chakra em seu corpo para verificar o progresso de cura. Depois de um momento, ela se afastou, mais uma vez envolvendo o ombro de Temari em bandagens antes de deixá-la puxar a roupa novamente.
– A cura está indo bem – disse a médica com um sorriso. – Você terá que ficar aqui até amanhã para garantir que não haja complicações, mas você pode voltar para casa depois disso. No entanto, você não deve ir a missões ou treinamentos por pelo menos duas semanas para permitir que a ferida se feche completamente.
– Tudo bem – Temari respondeu, acenando para a médica com um leve sorriso, em um esforço para não parecer ingrata.
Temari particularmente não se importava se ela era ou não autorizada a ir a missões. Ela e Kankuro eram praticamente inúteis comparados a Gaara. O seu único objetivo, como companheiros de equipe de Gaara, era garantir que ele não se enfurecesse e atacasse a aldeia, embora ambos soubessem que se isso acontecesse não haveria nada que pudessem fazer para detê-lo. Ela só esperava que Kankuro fosse capaz de manter a calma e não irritasse Gaara se eles fossem enviados em uma missão sem ela.
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Kankuro chegou ao hospital no dia seguinte para levar Temari para casa. Eles conversaram casualmente sobre os recentes acontecimentos no país do vento, enquanto caminhavam em direção aos portões de sua casa. Quando chegaram em casa, Kankuro ficou tempo suficiente para garantir que Temari estaria bem antes dele sair para treinar, dizendo algo sobre um novo fantoche que ele estava aprendendo a usar. Depois que ele se foi, Temari ficou no meio da sala, imaginando o que ela deveria fazer. Ela não podia treinar, e ela não estava com vontade de ler, ou realmente fazer qualquer coisa. Ela começou a pensar que ela deveria ter seguido Kankuro, então pelo menos ela teria algo para ver.
Seus pensamentos foram interrompidos quando, com um ruído súbito de areia Gaara apareceu na sala, de pé apenas alguns passos na frente dela. Temari suspirou e deu um passo para trás instintivamente. Ela viu os olhos de Gaara estreitarem imediatamente e desejou que ela tivesse permanecido parada. Ele ficou na frente dela, olhando-a em silêncio, enquanto Temari tentava avaliar seu estado de espírito do seu rosto impassível.
Lentamente Gaara deu um passo em direção a ela, observando como os olhos de Temari se arregalaram de medo. O canto de sua boca se contraiu ligeiramente em um sorriso quase imperceptível com a reação dela. Ele se aproximou dela com dolorosa lentidão, observando como seu corpo começou a tremer visivelmente. Era óbvio que isso estava levando toda a determinação da loira para permanecer em pé, parada onde estava.
Gaara parou a um passo longe dela. Ele podia ouvir o batimento cardíaco rápido de Temari e ele podia sentir Shukaku agitar dentro dele. Gaara olhou para os olhos dela, a própria imagem do terror quando ela olhou para ele. Será que havia ódio por trás desse medo, ele se perguntava. Ela era exatamente como todos os outros? Será que ela ficaria feliz se ele morresse? Lentamente, seus olhos vagaram a parte superior do corpo da irmã, até chegar ao ombro, exposto pelo corte de sua camisa, com bandagens ainda envoltas sobre a ferida.
– Está doendo? – ele perguntou baixinho, com a voz indiferente, como sempre, quando seus olhos se voltaram para o rosto dela.
Temari teve que se impedir de saltar. Gaara quase nunca falava com ela, ou com qualquer outra pessoa. E ela não conseguia se lembrar de uma única vez, quando ele tinha perguntado a alguém sobre o seu bem-estar. As únicas palavras que ela já ouviu de seus lábios eram de sangue e morte. Ela fez uma pausa antes de falar, sem saber o que Gaara estava tentando fazer.
– Não mais – Temari respondeu, finalmente, com um ligeiro encolher de ombros, estremecendo com o movimento. Gaara levantou uma sobrancelha inexistente, vendo a dor refletida em seu rosto por um momento. – Só quando eu me movimento – admitiu.
– Fui eu que te feri? – Gaara perguntou com a mesma indiferença.
Temari olhou para ele com surpresa. Ela nunca considerou que ele poderia ter pensado nisso. Ela até achava que era estranho que ele poderia ferir ou até mesmo matar pessoas sem perceber. Ela se perguntava se era por isso que ele veio até ela depois da luta. Mas será que isso significava que ele se sentia mal sobre isso?
– Não, Gaara – ela disse suavemente. – Foi um dos outros.
Os olhos de Gaara se estreitaram e com um choque Temari percebeu que ele parecia quase desapontado. Ele continuou a olhar para ela, seu olhar intenso parecendo pesquisar as profundezas da sua alma. Sua cabeça inclinada um pouco para o lado, como se estivesse tentando analisar ela, e Temari percebeu suas mãos fechadas em punhos. Seus olhos se arregalaram e Gaara estava satisfeito em ver o medo crescendo neles. Torturá-la com sua presença acabou por ser mais divertido do que ele pensava, ele se perguntava por que ele não tinha feito isso antes. Gaara permaneceu imóvel, esperando ela quebrar.
Temari podia sentir seus joelhos começam a tremer de medo. Ela não tinha ideia do que Gaara estava tentando fazer, mas ela só tinha visto aquele olhar em seu rosto quando ele estava pronto para matar. Ela tentou se conter para não se afastar, com medo de que isso fosse desencadear a ira de Gaara e fazê-lo atacar. Mas depois de que alguns minutos se passaram e ele ainda não tinha se movido, ela não era mais capaz de manter o medo sob controle. Temari deu um passo vacilante para trás. Os lábios de Gaara torceram em um sorriso cruel.
– Eu achei que sim – ele disse em voz baixa, afastando-se dela e começando a andar em direção à porta. Quando sua mão repousou sobre a maçaneta da porta da entrada, ele lançou um olhar fixo para trás em Temari. – Talvez da próxima vez – comentou friamente, antes de abrir bruscamente a porta e sair, batendo-a.
Temari olhou para a porta com choque, se perguntando se ele quis dizer o que ela pensava — que da próxima vez, seria ele quem iria machucá-la. Quando seus joelhos cederam, ela caiu no chão, seu corpo tremia. Parecia que ela tinha finalmente chamado à atenção de Gaara, e sua atenção significava apenas uma coisa — que ela provavelmente não tinha muito tempo de vida.
22/02/14
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