A Dor Nos Une

10 Capítulo X – Algumas Feridas Nunca Curam


Notas iniciais
Boa leitura, minna! (=

Capítulo X – Algumas Feridas Nunca Curam

Temari estava em uma névoa quando ela acordou na manhã seguinte. Ela levantou-se e desceu as escadas, ainda vestindo apenas as roupas intimas e uma camiseta longa que ela usou para dormir. Incapaz de coletar seus pensamentos o suficiente para descobrir o que ela deveria fazer, ela sentou-se no sofá da sala de estar escura, como se estivesse esperando que algo acontecesse. O ranger das escadas, algum tempo depois, a trouxe de volta à realidade e ela olhou para cima, encontrando Gaara de pé a vários metros de distância dela. Ele olhou para ela interrogativamente, observando a aparência cansada e os cabelos desgrenhados dela. Temari não disse nada e continuou a assisti-lo em silêncio enquanto ele se aproximava dela. Ele a analisou por um momento antes de se sentar ao lado dela no sofá. Imediatamente, Temari ficou tensa, mas como sempre, ela lutou contra o impulso instintivo de se afastar, não querendo lembrar Gaara de sua própria alienação, ou de seu medo dele.

Os olhos de Gaara percorreram-na lentamente, seu olhar fixo e desapaixonado fazendo-a sorrir nervosamente. Temari estava incapaz de parar de se perguntar o que ele estava pensando depois de tudo o que aconteceu. Ele tinha dito a ela para voltar, depois de fazer algo que ela não iria, nem mesmo agora, admitir para si mesma que era um beijo. Ela nem sequer se atreveu a imaginar qual era a insinuação daquele pedido. E agora ele estava na frente dela e ela não tinha absolutamente nenhuma ideia de como lidar com ele. O fato de que ele parecia completamente calmo e não afetado, não fazia nada para aliviar o desconforto dela. Temari tentou manter-se quieta enquanto ela procurava desesperadamente por algo natural para dizer ou perguntar.

– Você quer café da manhã? – ela perguntou, finalmente, recompondo-se o suficiente para fingir, pelo menos, uma pretensão de confiança.

Ele olhou para ela por um longo momento, parecendo quase como se ele fosse dizer algo antes dele dar com os ombros. Depois de mais uma breve hesitação, ela levantou-se cautelosamente, dando a ele todas as oportunidades para detê-la antes de ir lentamente em direção à cozinha. Gaara notou a maneira como ela estremecia quando ela se mexia e ele sentiu o desejo inevitável de sangue enquanto a memória do dia anterior voltava para ele como um flash. Isso quase foi o suficiente para fazê-lo puxá-la de volta para ele, mas ele optou por não agir sem pensar, ficando apenas sentado no sofá enquanto esperava Temari chamá-lo.

Ambos ficaram alertas quando sentiram um chakra familiar se aproximando da casa antes da porta da frente ser aberta. Temari passou correndo para a sala e foi até a copa, apenas para encontrar Kankuro em pé ao lado da porta, coberto de sujeira e com um olhar completamente descontente. Sua expressão mudou para um sorriso divertido enquanto seus olhos percorreram o corpo da irmã lentamente.

– O que... Você se esqueceu de como se vestir enquanto eu estava fora? – ele perguntou provocativamente.

– Baka – Temari vaiou, não sabendo o que dizer para explicar o seu estado.

Kankuro apenas riu e Temari o acompanhou até a sala de estar. Eles pararam e Kankuro mudou seu olhar para Gaara.

– Não esperava ver você aqui – o mais velho afirmou sem rodeios, fazendo Temari estremecer.

Kankuro sempre teve uma tendência a dizer coisas que irritavam Gaara. E sempre era Temari quem tinha que ficar no meio da pequena briga e tentar impedir que seu irmão menor matasse os dois, ela e Kankuro. Ela tinha certeza de que um dia seus apelos não seriam o suficiente para acalmar Gaara, e ela havia perguntado a Kankuro muitas vezes por que ele sempre fazia isso, mas ele nunca deu qualquer resposta satisfatória.

Temari deduzia que aquela era realmente a maneira dele de tentar falar com Gaara, de tentar agir como um irmão mais velho, mas ele apenas não sabia como fazer tal feito corretamente. Mas, com tudo o que havia acontecido na ausência de Kankuro, Temari não tinha ideia de como Gaara iria reagir agora ou o que ele faria se ela tentasse intervir em mais uma briga. Ela ficou nervosa ao olhar para Gaara e notar seus olhos estreitarem em um olhar fulminante dirigido a Kankuro.

– Se você quer que eu vá embora, é só dizer – Gaara disse em um tom baixo.

– Eu não disse isso, disse? – Kankuro respondeu com raiva.

Temari apenas observou enquanto Gaara levantou-se lentamente, o olhar frio virando ameaçador enquanto ele caminhava em direção ao irmão mais velho. O medo dela evaporou enquanto ela entrava imediatamente na frente de Gaara, posicionando-se entre os dois irmãos.

– Ele não quis dizer nada disso, ototou – Temari disse suplicante.

– Eu disse para não me chamar assim – Gaara sussurrou. Seu olhar penetrante, agora, direcionado para Temari.

– Gomen, Gaara – Temari disse rapidamente.

Gaara olhou para ela por um longo momento, com uma expressão de ódio que a fez se perguntar se ele iria esquecer tudo o que tinha acontecido, agora que Kankuro estava de volta. Seus temores pareciam ser confirmados quando Gaara se virou, começando a caminhar em direção às escadas.

– Gaara – Temari imediatamente chamou por ele. – Por favor, fique.

Gaara fez uma pausa enquanto os dois irmãos observavam-no com trepidação, Kankuro se perguntando por que diabos Temari havia pedido aquilo, enquanto ela apenas desejava poder dizer muito mais do que apenas aquilo. Lentamente Gaara virou para eles, os olhos presos em sua irmã, analisando a angústia refletida lá, que agora era tão familiar para ele.

– Tanto faz – ele disse em breve, fazendo Temari suspirar de alívio enquanto as sobrancelhas de Kankuro levantaram e o cenho franziu, o olhar de surpresa estava claramente visível em sua expressão.

Com um aceno rápido Temari correu de volta para a cozinha colocando os pratos sobre a mesa. Com o canto do olho, ela podia ver Gaara se sentar à mesa. Kankuro hesitou por um momento antes de seguir o irmão mais novo e também se sentar em uma cadeira, na ponta da mesa, o mais longe possível do ruivo. Temari logo se juntou a eles, sentando-se ao lado de Gaara, para mostrar que ela realmente queria que ele estivesse lá. Após vários minutos em silêncio, Temari falou, tentando aliviar a evidente tensão no local.

– Então, como foi a sua missão, Kankuro? – ela perguntou, com o que parecia ser entusiasmo.

– Entediante... – ele respondeu com um encolher de ombros. – E totalmente inútil. Para ser honesto, eu não faço a mínima ideia do por que do Kazekage ter me enviado nessa maldita missão – perjurou o pai pelo título o qual ele era conhecido.

– Mas por que ele te mandaria em uma missão se não fosse estritamente necessário? – Temari questionou. – Talvez ele tenha achado que poderia haver algum tipo de interferência na missão – tentou justificar.

– Foi por causa de mim – Gaara falou, de repente, fazendo com que ambos os irmãos saltassem um pouco e se virassem para ele.

– Outro daqueles assassinos? – Temari perguntou depois de uma pausa, lembrando o que Gaara havia dito a ela sobre seu antigo sensei.

– Sim – o ruivo respondeu calmamente, sem olhar os irmãos nos olhos, voltando a comer. – Ele disse algo sobre isso antes de morrer.

– E o que isso quer dizer? Que nosso pai é quem está enviando esses assassinos? – Kankuro perguntou franzindo o cenho, o leve tom de tristeza presente em sua voz.

– Não – Gaara respondeu, olhando para Kankuro.

Os suspiros aliviados de ambos os irmãos mais velhos, deixaram mais do que claro, que eles não saberiam o que fazer caso o pai estivesse por trás dos mandatos.

– Mas então por que ele me enviaria nessa missão estúpida? – Kankuro perguntou, já frustrado.

– A questão não é essa, Kankuro – Temari falou. – Se essa tal organização de assassinos continua, por que ele não faz nada para pará-los?

– Porque ele sabe que eu consigo lidar com isso – Gaara comentou, sem realmente se importar em prolongar a conversa.

– Eu vou falar com ele – ela disse, fazendo Gaara mudar sua atenção para ela.

– Eu não preciso da sua proteção – ele afirmou friamente.

– É uma pena, porque você está preso com a gente – Kankuro respondeu presunçosamente, sua arrogância habitual parecendo retornar.

– Eu posso mudar isso – Gaara respondeu com raiva, seus olhos ainda permanecendo em Temari.

– Será que vocês dois podem parar de discutir, por favor – Temari suspirou com exasperação. – Podemos pelo menos fingir que tentamos agir como uma família?

Eles ficaram em silêncio mais uma vez, terminando suas comidas com calma forçada. Como sempre, Gaara se levantou primeiro. Ele fez uma pausa, olhando para sua irmã, a expressão distante de volta para seus olhos.

– Nós não somos uma família, Temari – ele disse calmamente, a voz baixa, fria e distante.

Ele formou um selo assim que as palavras saíram de seus lábios e desapareceu antes que ela tivesse a chance de rebater. Kankuro olhou interrogativamente para a expressão de dor nos olhos de Temari enquanto ele colocava os hashis sobre seu prato vazio.

– Nani? – ele perguntou com cautela. – Você tinha que esperar que ele dissesse algo assim.

– Sim – Temari suspirou. – Eu só gostaria que fosse diferente.

– Bem, você sabe a minha resposta sobre isso – Kankuro respondeu com um encolher de ombros antes de se levantar e recolher todos os pratos vazios enquanto Temari olhava para o lado com um aceno de cabeça, em silêncio.

Kankuro deixou os pratos na pia e seguiu Temari que já estava no meio da escada, e cada um seguiu para seu próprio quarto. O silêncio não foi quebrado até que ambos estivessem de volta na sala de estar, algumas horas depois e Kankuro perguntou a ela por que os azulejos no banheiro do corredor estavam rachados. Temari disse que ela tinha ficado com raiva e jogou uma kunai, em frustração. Era uma meia-verdade, a kunai que ainda estava presa no muro, que cercava a casa, atestava a explosão de raiva que ela havia tido no outro dia. Ela sabia que Kankuro não tinha acreditado nela, mas ele não disse mais nada sobre aquilo. Algumas coisas nunca eram ditas em voz alta naquela casa.

O silêncio continuou a aumentar entre eles dois enquanto eles se sentaram juntos no sofá, cada um ocupado com a sua própria tarefa, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Horas se passaram antes deles serem sacudidos para fora de suas respectivas contemplações, por uma batida forte na porta. Kankuro abriu para encontrar Baki, que entrou sem convite e seguiu Kankuro até a sala e esperou o garoto tomar o seu lugar no sofá.

– Vocês têm uma missão – Baki afirmou sem rodeios. – Os três de vocês. Onde está Gaara?

– Como se nós sempre soubéssemos – Kankuro murmurou baixinho, recebendo um olhar irritado de seu sensei.

– Eu vou ver se ele está aqui – Temari se ofereceu, recebendo um aceno de Baki antes de ir para cima.

Um momento depois, ela estava batendo na porta de Gaara, e dentro de alguns segundos, ele abriu-a, olhando para sua irmã com um olhar vazio.

– Temos uma missão – ela disse com confiança, apenas negócios, nenhuma tremedeira ou a hesitação de antes.

Até que Gaara deu um passo em direção a ela, sua mão se fechou ao redor da cintura dela com uma familiaridade, que ela não queria admitir que estivesse lá. Ela não se atreveu a questioná-lo, só seus olhos arregalados testemunhavam sua surpresa quando Gaara se inclinou sobre ela, quase a ponto de roçar seus lábios contra os dela. Sua outra mão preguiçosamente traçava a ferida nas costas dela, através do tecido do vestido branco, enquanto sua expressão impassível não revelava nada de suas intenções. Seu sussurro era tão suave que ela mal podia ouvi-lo. O ato fez a pele dela se arrepiar, tanto quanto as palavras que caíram dos lábios dele.

– Eu quero ser o único a te ferir.

Sua voz era odiosa e sensual ao mesmo tempo, uma mistura de emoções que parecia que apenas Gaara conseguia fazer. Ninguém poderia amar verdadeiramente a dor e a morte, tanto quanto ele. Gaara se afastou dela tão abruptamente quanto ele tinha se aproximado, seu olhar ainda preso sobre Temari, com a mesma indiferença de antes, como se ele não tivesse feito nada. Ela observou-o por um longo tempo, tentando discernir o que ele poderia estar pensando por detrás dessa fachada dele. Pelo menos ele não havia dito nada sobre o seu pedido da noite anterior — um pedido que agora era provável que iria passar sem ser atendido, mesmo que só até depois da missão.

– Essa é a sua maneira de dizer que você se importa? – Temari perguntou finalmente, o desdém habitual de voltar para seu rosto enquanto ela recuperava a compostura mais uma vez.

– Não me pressione, Temari – Gaara respondeu friamente.

– Baki está lá embaixo – ela disse calmamente, como se as palavras dele não tivessem afetado ela. Era culpa dela. Ela fez um convite para a ofensa. – Me dê um segundo, eu vou pegar meu leque.

Gaara encostou-se ao batente da porta, enquanto esperava Temari pegar seu leque de seu quarto. Ele observou-a enquanto ela voltava em sua direção antes de deslizar o ventilador no lugar atrás das costas. O lampejo de dor que passou pelo rosto dela não escapou do olhar de Gaara.

– Ainda dói? – ele perguntou casualmente, sua voz séria e indiferente.

Temari olhou para ele calmamente por um momento antes de assentir bruscamente. Ainda era culpa dela. Ela tinha deixado-o ver sua fraqueza.

– Que bom – Gaara vaiou quando ele se virou em direção à escada. Temari abaixou a cabeça e seguiu em silêncio, esperando apenas que ele fosse honrar o seu pedido e não dizer nada sobre o que aconteceu para Kankuro ou qualquer outra pessoa — não que ele fosse muito sociável, mas ela ainda temia que ele contasse alguma coisa, mesmo que só para provocar Kankuro, seu pai ou até mesmo ela.

– Por que demorou tanto? – Baki perguntou irritado enquanto eles terminavam de descer as escadas.

– Eu fui pegar meu leque – Temari respondeu com um encolher descuidado de ombros.

Baki esperou enquanto Temari parou ao lado do sofá, sentando-se no braço do mesmo, enquanto Gaara encostava-se à parede, nem mesmo olhando para os outros três na sala.

– Esta é uma missão de rank C – Baki procedeu, não fazendo nenhum reconhecimento da demonstração de desinteresse de Gaara. – Vocês devem entregar uma mensagem para o posto avançado na extremidade do deserto. Para vocês, a viagem deve demorar menos de um dia.

– Por que eles precisam de nós para isso? – Kankuro perguntou, sabendo que tinha de haver mais do que apenas uma “entrega de mensagem”. – Droga, eu acabei de voltar de uma missão que era mais do que ridícula e vocês já querem me enviar para fazer outra porcaria?

– O Conselho espera a interferência do nukenin que escapou há vários meses – Baki respondeu. – E um shinobi de verdade jamais reclama de seu trabalho. Reconsidere suas ideias e pare de reclamar, Kankuro.

Kankuro meramente murmurou algum xingamento profano — algo que era usual de se escutar vindo dele — e fechou a cara, aborrecido com a resposta de Baki.

– Há qualquer outra coisa que precisamos saber? – Temari perguntou, já começando a sentir-se eufórica, pronta para finalmente fazer algo diferente além de sentar-se na casa e ser assombrada pela insanidade de Gaara.

– Não – o homem respondeu com a sempre, mesma, carranca presente. – Vocês podem ir imediatamente.

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O silêncio caiu entre eles novamente enquanto viajavam pelo deserto. Tais missões sempre foram desagradáveis para Temari e Kankuro. O deserto era o reino de Gaara e ele ficava mais confortável lá do que em qualquer outro lugar. Mas, ao mesmo tempo, ele sempre pareceu mais instável, exigindo mais esforço para subjugar Shukaku se ele fosse provocado. Parecia que estar rodeado de areia incontrolada lembrava o bijuu como era ser livre e ele lutava mais forte do que o habitual para escapar de suas restrições.

Eram momentos como estes que lembrava os irmãos que o que ficava entre a aldeia e a completa destruição não era os jutsus e os selos que ligava o Ichibi ao corpo de Gaara, mas, sim, apenas os fragmentos quebrados que conservavam a consciência humana de seu irmãozinho. Ele poderia impedir Shukaku para seu próprio bem, em vez de proteger a vila, mas mesmo assim ele era a única coisa que salvava suas vidas. Se ele escolhesse desistir, Suna e seus cidadãos seriam absorvidos pelo deserto sem fim, com nada mais do que areia encharcada de sangue restante para marcar seus desaparecimentos do mundo. Os irmãos eram os únicos que realmente apreciavam este fato e que sabiam exatamente o quão frágil era o escudo protegendo suas vidas.

Obviamente, o quarto Kazekage era Kazekage por uma razão. Ele já havia selado Shukaku diversas vezes, quando Gaara era menor e perdia o controle sobre o bijuu. Mas quem é que iria garantir que até lá, Shukaku não destruísse parte da vila, ou matasse alguns cidadãos. Os moradores de Suna nunca se lembravam de que o Kazekage não era o único que os protegia, ele não era o único que lhes dava poder e força. Gaara era a arma de Suna, ele os protegia do bijuu, mantendo-se em controle, ele dava poder e força para a vila, assim como seu pai fazia.

No meio da jornada deles, eles foram interrompidos pela interferência que esperavam. Gaara deu uma olhada para o nukenin antes de tomar um passo para trás, como se dissesse que não estava interessado na luta, como se dissesse que o oponente era fraco demais para ele. Kankuro e Temari trocaram um rápido olhar, um sorriso cruel imediatamente torcendo as características de Temari com a perspectiva de destruir algo quando ela puxou o leque de trás das costas. Kankuro deu de ombros e deu um passo para trás, esperando para ajudá-la, caso fosse necessário — o que geralmente não era.

As kunai enroladas com as tarjas explosivas que voaram em sua direção foram desviadas sem esforço por um golpe ocasional de seu leque. O nukenin encontrou-se tendo que saltar para fora da direção de suas próprias kunais, que agora voavam em sua direção, explodindo no ar ao seu redor. O riso zombeteiro de Temari ecoou pelo deserto quando ela viu o olhar de pânico no rosto do shinobi. Ela podia sentir os olhos de Gaara sobre ela, seguindo-a a cada movimento, e por um momento ela se perguntou o que ele faria se ela se deixasse ser machucada pelo seu oponente. O pensamento foi obliterado de sua mente quando o nukenin lançou outro ataque, desta vez usando um jutsu de vento que ela conhecia bem.

O ataque foi desviado novamente, com a repercussão do leque e causando um redemoinho de areia para subir ao ar. O shinobi estava claramente ficando agitado quando ele começou a perceber que ele estava enfrentando um poder superior ao dele — não que Temari fosse extremamente poderosa, mas quem ela enfrentava não passava de um mero chunin rebelde. Ele deu um passo para trás. O leque fez um barulho sibilante e afiado quando lâminas de vento voaram em direção ao seu oponente. Ele não conseguiu esquivar muito bem, incapaz de evitar o vento deixando um longo e profundo corte em seu braço. Temari riu de novo — uma risada que iria congelar o sangue de qualquer pessoa, fazendo com que até mesmo Kankuro tremesse atrás dela.

Temari fugazmente se perguntou se Gaara estava satisfeito com a situação quando ela se lançou para frente, o leque voando pelo ar e enviando outro pequeno furacão na direção do chunin. Ele não teve a menor chance quando ele foi pego pelo redemoinho, lâminas invisíveis cortando a sua carne em tantos lugares que até mesmo seu encolhimento instintivo, na intenção de se proteger, não alterou em nada. Ele caiu no chão enquanto Temari fechava seu leque e bateu com o mesmo na areia, inclinando-se nele casualmente. O shinobi olhou para ela suplicante, como se ela pudesse de alguma forma retratar o dano que tinha causado. Temari apenas sorriu quando ele caiu para trás, finalmente, o último suspiro desesperado deixando seu corpo em um soluço antes do corpo enrijecer.

Ela voltou-se para seus irmãos com um sorriso enlouquecido, lembrando Kankuro por que ele odiava vê-la assim, quando ela mostrava o quão degenerada ela poderia ser. Gaara encontrou o olhar de Temari com um estranho tipo de intensidade que Kankuro não conseguia entender. Seu irmão nunca tinha tido interesse em qualquer um deles antes, geralmente nem se preocupava em assistir as suas lutas durante as suas missões anteriores. Entre o que aconteceu quando Temari foi machucada naquele dia e do jeito que ele estava olhando para ela agora, Kankuro tinha certeza de que algo estava acontecendo, mas dizer qualquer coisa na frente de Gaara seria algo estúpido, portanto ele optou por ignorar o assunto por enquanto e tentar questionar Temari quando ele tivesse a chance.

O silêncio envolveu-os mais uma vez quando eles retomaram sua progressão através do deserto, Gaara na liderança mais uma vez. A viagem de ida e volta levou pouco mais de um dia e eles estavam de volta a Suna na noite seguinte. Como sempre, Gaara desapareceu assim que eles atravessaram os portões, enquanto Temari e Kankuro foram para a torre do Kazekage, para dar o relatório. Seu pai estava em seu escritório, apesar do horário — o que não importava, até porque, raras eram as vezes que o homem ia para a casa. O relatório levou poucos minutos e quando eles terminaram, o Kazekage desviou o olhar, como se estivesse dispensando-os, até que Temari falou novamente.

– Tem mais uma coisa... – ela falou se aproximando da mesa do pai. – É sobre o Gaara.

Kankuro se virou para ela, já sabendo o que ela iria dizer.

– Estão enviando outros assassinos novamente – Temari disse sem rodeios, a declaração ficando em algum lugar entre uma pergunta e uma acusação.

O Kazekage apenas olhou para os seus filhos, nem negando, nem confirmar o fato.

– Por que você não faz nada sobre isso? – Kankuro cuspiu com raiva.

– Vocês dois não deveriam se intrometer nisso – o homem respondeu, esfregando as têmporas com os dedos.

– Ele é nosso irmão... Ele é seu filho! – Temari exclamou com indignação.

– Eu sei... Eu sei – seu pai respondeu, a voz calma ecoava pelo escritório.

– Então por que você não faz nada? – foi a vez do irmão de questionar. – Por que você não expulsa esses shinobis da vila?

– E o que é que vocês querem que eu faça? – o homem perguntou suavemente. – Se isso faz com que os cidadãos se sintam mais seguros, o que posso fazer? Se eu intervir, só causara uma repercussão maior – ele justificou. – Eles acham que têm o direito de se defender de alguma forma, e não posso tirar isso dos moradores.

– Se defender como? Eles nem existem para o Gaara! – Temari levantou a voz, a raiva explicita em seu tom. – Se eles ficassem fora do caminho dele, ele não mataria ninguém!

– E você acha que eu não vejo isso? Durante doze anos presenciei os olhares repulsivos dirigidos ao meu filho menor, sem poder dizer nada – o Kazekage se levantou de repente, alarmando os filhos. – Eu não concordo com os métodos desta organização, mas é a forma que alguns encontraram de se sentirem mais confortáveis, mais seguros.

– Por que você odeia ele? Se você não concordasse, que fizesse alguma coisa! Você é o Kazekage, não é? – Kankuro continuou com as perguntas, olhando desafiadoramente para o pai.

O homem respirou fundo, virou-se e foi até umas das janelas, olhando para fora. Não deixaria transparecer a dor que era escutar seu amor por seus filhos ser questionado. Sim, ele os amava. Amava cada um deles, com todas suas forças, só não demonstrava com frequência ou com facilidade, mas isso não significava que ele não os amasse.

Ele fechou os olhos e soltou o fôlego. Seus filhos, ali, só estavam contribuindo para sua dor de cabeça. A vila estava tentando formar uma nova aliança com Otokogakure, muitos problemas à tona e por fim, suas duas proles estavam exigindo que ele fizesse alguma coisa contra os moradores da vila.

– Não diga isso novamente, Kankuro – o Kage falou, finalmente. – A única opção é esperar que Gaara mate um por um, até que não sobre nenhum – o homem continuou. A frieza em suas palavras lembrava Temari e Kankuro da personalidade de Gaara. – Não posso mudar a forma de pensar de alguns shinobis daqui. Se eles realmente acreditam que são capazes de enfrentá-lo, deixe-os tentarem. Isso é tudo apenas um ato de rebeldia impensada, ideias mal pensadas e não reconhecimento do que dá suporte a eles.

Ninguém saberia dizer o quanto o Kazekage desgostava da tal organização, o quanto ele desprezava aqueles que em mal agradecimento, cuspiam no prato em que comiam, sempre repudiando quem dava poder militar a vila, Gaara. Como Kage, o dever do homem era proteger sua vila a qualquer custo, e ele o faria sem pensar duas vezes — sempre escolhendo os meios que fossem precisos, para poder proteger a vila e seus moradores — mas isso não significava que criaria afeto por aqueles que destratavam seus filhos por puro medo e pré-conceito mal formado.

– Você acha que isso não o machuca. Ele diz que isso não o machuca, mas machuca! – a loira retrucou. – Ele pode não demonstrar, e negar o quanto quiser, mas isso não vai mudar o que eu acho! Será que...

– O que você vai fazer? – Kankuro interrompeu a irmã, falando com seriedade.

– O conselho não permite que eu interfira. Não que vocês dois pensem que eu não tentei – ele voltou-se e foi até a mesa, sentando-se novamente. – Não se esqueçam de que ao meu lado está o conselho, e que eu tenho que fazer o que eles tomarem como a melhor decisão.

– E que merda esses velhos idiotas sabem? – Kankuro berrou, batendo as mãos na mesa. – Só sabem reclamar e acham que sabem tudo o que é melhor só porque viveram mais tempo que nós!

– Sabe de uma coisa? Tanto faz... – Temari debochou e abriu a porta, acenando com a cabeça para que Kankuro a seguisse. – Se você não fizer alguma coisa... Nós faremos – ela respondeu com o casual sorriso de superioridade que ela atrevia a dirigir até mesmo a seu pai – Ja nee, otou-san! – ela zombou, saindo do escritório, acompanhada de Kankuro.

Um suspiro fatigado deixou os lábios do homem. O sentimento de ser dividido entre ser um pai e um bom líder sempre o corroia por dentro, destruía-o e obrigava-o a esconder a tristeza atrás da mascara usual de serenidade e frieza. O conselho o obrigava a mostrar sua preocupação para com a vila, mas não faziam questão de que o homem também dirigisse tal atenção, afeto e amor aos seus filhos.

Ele era muito conhecido pela sua reputação de grande líder e protetor, assim como também era conhecido pela sua frieza usual, o que fazia Gaara ser constantemente comparado ao pai. Mas, para os shinobis e civis, Gaara era um monstro, o Kazekage, não, ele era o salvador deles, o protetor, aquele que mataria o próprio filho para impedir que qualquer mal acontecesse com os moradores da vila.

Ele mataria?

Sempre se questionou sobre isso. E, também, sempre respondia a pergunta imediatamente. Jamais! Ele nunca conseguiu se perdoar por se deixar ser influenciado pelo conselho, e permitir — a seis anos atrás — que enviassem assassinos para executar seu filho, com a desculpa de que Gaara era uma experiência fracassada. Ele jamais se esquecera de como se sentiu completo ao tomar conhecimento de que, independente de quaisquer esforços, nenhum shinobi jamais fora capaz de machucar seu filho.

Já havia escolhido a vila ao invés de seu próprio filho, e garantia que jamais faria tal escolha outra vez, mesmo se para isso, precisasse sacrificar a própria vida.

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Eles não falaram nada durante seu caminho para casa. Mas assim que eles estavam lá dentro, Kankuro impediu Temari de ir lá em cima e a segurou na sala escura. Ela olhou para ele interrogativamente, esperando para ver o que ele queria.

– O que aconteceu com você e o Gaara? – ele perguntou.

– Nada – ela respondeu imediatamente. Um pouco rápido demais, Kankuro pensou. – Por que você está perguntando isso?

– Eu não sou idiota, Temari – o titeriteiro disse calmamente. – Primeiro, ele ficou hoje de manha para tomar café da manha com a gente, só porque você pediu. Então depois ele não consegue tirar os olhos de você enquanto você está lutando, algo que ele nunca se importou antes... – ele olhava para ela com suspeita. – Alguma coisa aconteceu enquanto eu estava fora.

Já não era uma pergunta. Ela sabia que tinha de dizer alguma coisa para satisfazê-lo neste momento, mas o que realmente aconteceu, desafiava palavras e ela não queria admitir para si mesma e muito menos a qualquer outra pessoa.

– Não é nada importante – ela disse com calma fingida.

– Temari, eu sou seu irmão – Kankuro falou severamente. – Eu sei quando você está mentindo.

– Olha, ele provavelmente está lá em cima e pode ouvir tudo o que estamos dizendo – Temari respondeu calmamente. – Você realmente quer irritá-lo... De novo?

– Por que ele se importaria? – ele respondeu com um leve franzir de cenho.

– Porque você está falando sobre isso como se qualquer coisa que ele faz implicasse algum tipo de perigo – ela afirmou friamente.

O fato de que tudo o que aconteceu era muito além de simplesmente “insinuar perigo” foi empurrado para o fundo da mente de Temari enquanto ela dizia aquilo. Mentir para a única pessoa que ela pensou que nunca iria mentir ainda era melhor do que admitir a verdade, neste caso particular. Mas ela sabia que ele não a deixaria em paz, assim, tão facilmente.

– Então, o que isso implica? – Kankuro perguntou sarcasticamente.

– Nós conversamos. Isso é tudo – Temari disse rispidamente. – Agora esquece isso.

– Foda-se – com raiva, as palavras ele cuspiu. Oh, tão sutil como sempre, ela pensou. Mas já estava acostumada a escutar palavrões da boca do irmão – Lide com isso sozinha, então.

Temari odiava vê-lo se afastar assim. Eles sempre discutiam varias vezes, mas eram raras às vezes em que a discussão era séria e eles nunca ficavam bravos um com o outro por mais de algumas horas. Mas isso era diferente. Ela não havia mentido apenas para encobrir o que tinha permitido que o irmão mais novo deles fizesse com ela, mas também, para proteger Kankuro de qualquer coisa que Gaara pudesse fazer com ele, caso ele tentasse interferir. Não importava o quão conturbada a relação entre os três poderia ser, ela amava seus irmãos e ela sempre iria sacrificar-se para mantê-los seguros, ela sempre se colocaria na frente de qualquer um dos dois.

25/04/14

Notas finais
LEIA ESSA PORRA: Me perdoem! Estava tão ocupada ultimamente, que me esqueci de tudo. Quando me dei conta, já era sexta-feira e eu não havia escrito o capítulo! Enfim, o que acharam do capítulo? Eu quis ressaltar o carinho e a preocupação do Kazekage pelos seus filhos, pois quem acompanha o mangá e o anime, sabe bem que ele amava muito seus filhos e sua esposa. E eu simplesmente acho ele tão foda! Ainda vou mostrar bastante interações dele com os filhos. Me desculpe, mais uma vez... Sei que este capítulo não está tão satisfatório e não teve muita interação entre o Gaara e a Temari, mas uma coisa eu garanto, o capítulo onze vai recompensar muito bem o dez! Ah, e um agradecimento super especial para a Mika-san! Sério, mesmo... Obrigada pela recomendação! >.< Fiquei muito contente quando eu a vi, principalmente porque não falava só da fic, mas também falava sobre mim! De qualquer forma, obrigada, estou muito contente e espero que tenha curtido o capítulo! :D