A Donzela de Orleans
1 Parte 1
Um som ritmado e suave chamou a atenção da youkai. Ela estava distraída lendo alguns livros de receita numa tentativa de aprimorar suas técnicas horrorosas, mas os toques baixos a despertaram da leitura e, ao buscar a origem de tal som, deu com uma coruja-preta bicando a janela da sala. A presença de uma ave estritamente noturna, aliado ao padrão nos barulhos que a mesmo produzia, fizeram seu coração disparar. A pirata aproximou-se da janela e, com os nós dos dedos, bateu o código-resposta no vidro. Assim que a coruja levantou voo, Cherry engoliu em seco. Depois de quase meio ano as “Aves de Rapina” a estavam convocando.
Agitada, a pirata andava de um lado para o outro na sala, os braços cruzados logo abaixo dos seios uma expressão consternada no rosto. As orelhas felinas estavam paradas, estáticas, enquanto a cauda movia-se bruscamente e com força para os lados. Na última vez que tinha respondido ao chamado das Aves de Rapina tudo o que obtivera foi um capanga que não sabia de coisa alguma sobre a emboscada ao Black Diamond, seu navio, ou o paradeiro do cérebro por trás de todo aquele plano. Ainda assim não tinha sido de todo ruim ir atrás daquela pista. Foi por causa disso que acabou conhecendo Aquiles e desde então sua vida nunca mais foi a mesma. Mas mesmo que o moreno tivesse devolvido aos lábios dela o sorriso que havia perdido, Cherry não tinha desistido de sua jornada a lá “Inigo Montoya” e de sua vendeta pessoal. Ainda iria ser quem intermediaria o encontro de James “Ciclope” Campbell com o criador.
Assim que ficou sozinha, foi trocar de roupa e se arrumar para ir ao encontro de quem quer que a tinha chamado. As Aves de Rapina era uma organização secreta e a pirata não tinha autorização para revelar sua existência a quem quer que fosse. Mentir para Aquiles estava fora de cogitação, não porque seria pega afinal era uma ótima mentirosa, mas porque simplesmente não queria mentir para ele jamais. Portanto ela não tinha outra saída a não ser omitir para onde estava indo. O moreno sabia muito bem que ela dava algumas voltas pela tarde e ela esperava que ele pensasse que aquela era só mais uma delas. Podia viver com a magoa que não ser completamente franca com ele causava em seu peito, mas jamais se perdoaria se Aquiles acabasse sendo alvo de alguma das Aves por um descuido seu. Não que ela acreditasse que o moreno não poderia se cuidar, era só que naquele momento ela realmente precisava dos serviços das Aves de Rapina e das informações que apenas eles podiam fornecer. Estava caminhando na corda bamba com aquela situação toda e precisaria de todo o seu equilíbrio e agilidade felina para conseguir conciliar seus desejos.
Para encontrar-se com qualquer um dos membros das Aves de Rapina haviam regras estritas. A mais importante, é claro, era não comparecer armado. Para ela, que era uma youkai, ainda havia a necessidade de ter seus poderes selados para poder entrar. Era humilhante, mas ela tinha que se sujeitar caso quisesse ter acesso às informações que eles tinham. Vestiu-se com calças e botas de couro preto, uma camisa branca, justa no corpo e um corset marrom que delineou completamente suas curvas. Deixou os longos cabelos esbranquiçados soltos, caídos sobre os ombros.
Assim que estava pronta. a pirata subiu no telhado sem dificuldades. Ir pela via dos ladrões era sempre a opção mais segura para se deslocar quando não queria ser vista, independente de ser dia ou noite. Como ela percebeu na prática, com suas eventuais fugas da marinha, as pessoas raramente olham para cima. Esgueirou-se por entre as sombras, pelos galhos das árvores e onde quer que pudesse se ocultar no caminho até a periferia da cidade. As Aves de Rapina tinham esconderijos por todo o mundo e seus líderes estavam sempre espalhados por eles, nunca fixando um único ponto como base. Por causa disso era muito raro que os líderes das facções dentro da própria organização estivessem juntos em algum momento. Apenas uma vez por ano, no solstício de inverno, era que todos os líderes se reuniam, sem exceções. Nessas ocasiões, discutiam ao futuro do bando, a administração de seus negócios ao redor do globo e mais algumas amenidades.
A pirata chegou pelo meio da tarde na boate chamada “A Flor Corrompida”. Uma placa com uma rosa negra sendo agarrada por uma ave indicava que aquele era o lugar que procurava. Apesar de ainda ser dia, o local já estava agitado. Homens e mulheres observavam maravilhados enquanto as mais belas dançarinas se despiam para eles. A música alta, o cheiro inebriante, as bebidas exóticas e lindas mulheres nuas. Aquele lugar era pensado para captar e entorpecer quase todos os sentidos de seus frequentadores. Aqueles é claro que pudessem pagar, poderiam também apreciar da pele macia e quente das cortesãs. Apenas luzes vermelhas e azuis estratégicas faziam a iluminação da boate, de forma a deixar boa parte do interior na penumbra mas que ainda fosse possível distinguir silhuetas. As únicas mais iluminadas eram as dançarinas que estavam no palco entretendo com danças sensuais seus clientes.
Outrora ela teria gostado de ficar olhando, quem sabe até pagar por uma transa com alguma delas, mas seus negócios ali eram outros. Encaminhou-se até o bar onde um homem vestido de mulher passava um pano em um copo. Parecia alheio ao que estava acontecendo mas na realidade sua atenção captava tudo ao seu redor. A youkai inclinou-se sobre o balcão e o homem lançou um olhar aos seios dela que ficaram apertados e repuxando os botões da camisa que usava. Ia começar a falar mas o barman a interrompeu antes mesmo que pudesse começar.
— Não precisamos de mais uma vagabunda da sua estirpe por aqui. A casa já está cheia.
Sorrindo, ela se aproximou mais e sussurrou no ouvido dele.
— As melhores presas ficam indefesas durante a noite.
Um olhar de compreensão surgiu no rosto do barman, que indicou com a cabeça uma porta lateral.
— Estávamos aguardando.
— Quem?
— Você conhece as regras. Saberá quando entrar.
Ela maneou com a cabeça e se dirigiu à porta que ele tinha indicado. Do outro lado havia uma sala acústica. Ainda assim, por conta de sua audição sensível, ela continuava capaz de discernir o som da música do outro ambiente com clareza. Ter os sentidos aguçados às vezes podia ser uma maldição. Logo outra pessoa entrou. Um homem usando um terno, de cabelos negros religiosamente penteados para trás. Ele se aproximou e imediatamente começou a passar as mãos do corpo dela, apalpando-a de diversas formas para garantir que não havia nenhum tipo de arma escondida. Era uma medida de segurança desconfortável. O homem deslizou ambas as mãos pelas coxas da pirata e entre suas pernas, indo até as botas onde apertou com força o entorno. Subiu pela cintura onde esfregou as palmas das mãos nas laterais. Finalmente chegou aos seios, tocou-lhe todo o entorno e entre eles. O rosto da pirata era uma máscara indecifrável. Em outros tempos ter um homem passando as mãos assim em seu corpo lhe causaria no mínimo repulsa. Mas ela não sentiu nada, seu interior permanecendo inalterado mesmo com aquele estranho tocando-a. A história seria diferente, é claro, caso fosse Aquiles e não aquele homem que estivesse tocando-a. Não conseguia jamais ficar indiferente ao moreno.
Parecendo ter terminado a revista, o homem ordenou laconicamente.
— Tire a camisa.
— Eu prefiro um pouco mais de intimidade antes. Se você continuar passando suas mãos no meu corpo e sussurrar sacanagens no meu ouvido, pode até ser que eu acate o seu pedido. — Foi a resposta dela, em tom debochado e sarcástico.
Aparentemente aquilo não foi o suficiente para arrancar qualquer reação que fosse do homem. Ela deu de ombros, retirou o corset e posteriormente a camisa, segurando-a na frente do corpo de modo a cobrir os seios. Seu corpo nu era apenas para Aquiles e não para outros olhos. O homem de terno contornou-a e colou em suas costas um retângulo de papel branco com escritos em preto, um amuleto que selaria temporariamente os poderes dela. A youkai sentiu o local queimar, como se a estivessem marcando com brasa. Se curvou para frente, apertando a mandíbula com força enquanto seus cabelos iam escurecendo até ficarem acinzentados. Todos os seus músculos estavam retesados e ela precisava de toda sua força de vontade para passar por aquilo. Aquela sem dúvida era a parte que mais odiava ao ser convocada pelas Aves de Rapina. Malditos pombos com mania de grandeza… Se não fosse pela necessidade ela jamais iria se submeter à um tratamento como aquele. Com muito esforço e ofegante, Cherry colocou a camisa novamente. Achou melhor deixar o corset de lado por hora, até porque não estava em condições para apertar as cordas. Aprumou o corpo e engoliu em seco, olhando para o homem de terno enquanto respirava com dificuldade e tentava suprimir a dor que aquele amuleto lhe causava. Uma porta do outro lado do comodo se abriu e o homem indicou com a cabeça que ela deveria ir.
— É sempre um prazer recebê-la, minha adorável Harpia. — Disse um homem que estava sentado em um sofá.
A sala era ampla, maior do que parecia de fora, o que fez a pirata imaginar que provavelmente aquele não era mais o prédio da boate e sim algum outro anexo que apenas parecia ser uma construção distinta mas que no fim era conjugada à Flor Corrompida. A decoração era pomposa, com ornamentos em dourado e um jogo de cores entre o grená, o carmim e o bordô que tentavam passar uma impressão de classe e requinte mas que só serviam para evidenciar o mal gosto do decorador. Sofás, poltronas e almofadas estavam dispostas em torno de um grande tapete vermelho com verde e dourado enquanto das paredes pendiam grossas cortinas avermelhadas. A iluminação ficava por conta de pontos de luz amareladas que ficavam nos encontros entre duas paredes e o teto, o que deixava toda a sala envolvida por sombras esquisitas e muitos pontos na penumbra. Toda aquela demonstração de cafonice até fizeram a pirata esquecer, por um momento, do amuleto que lhe queimava as costas. Mas então uma dor aguda fez o favor de lembrá-la que quanto antes saísse dali, melhor.
— Falcão… Eu devia ter imaginado. — Fez um esforço para falar enquanto se dirigia ao sofá que ficava imediatamente na frente daquele ocupado por seu interlocutor. — Já lhe disse mais de uma vez…. Que não sou sua Harpia... E nem serei.
O homem que atendia por “Falcão” aparentava ter aproximadamente 30 anos. De cabelos e olhos castanhos, ostentava um ridículo bigode a cima dos lábios, com as pontas viradas para dentro que lhe davam um ar caricato. O nariz bem como o queixo eram proeminentes e a expressão em seu rosto era de pura arrogância. Vestia-se com um terno negro com uma corrente dourada saindo do bolso.
— Não enquanto não capturar o tal Ciclope. Eu sei, eu sei. Oh, querida, você parece estar com tanta dor. Por que não abre mão dessa condição tola e se junta ao nosso bando? Você sabe que a Ryouko indicaria você como sucessora. E então essa pequena restrição às suas incríveis habilidades não seria necessária. E deveria ter adivinhado, é? Será que agora além de ler e manipular mentes a minha gatinha ainda é vidente?
Cada palavra daquele homem soava com se fosse uma cobra se preparando para dar o bote em um pássaro. Cherry fechou os olhos, respirou fundo e então encarou novamente aquele que atendia pela alcunha de Falcão.
— Não sou… Sua gatinha. Corte o papo furado… E me dê a informação de uma vez.
— Ora, que modos são esses? A Ryouko definitivamente deveria ter lhe ensinado melhor como se comportar.
— Como da vez que ela esfregou sua cara no chão…. Quando se atreveu a pisar em nosso navio sem ser convidado? — Ela disparou prontamente, mas com alguma dificuldade.
Falcão se remexeu inquieto no sofá, passou a mão pelo rosto e engoliu em seco, antes de rir nervosamente.
— Afiada como sempre, minha amada. Realmente, Ryouko era uma mulher fenomenal. Uma em um milhão. Assim como você.
Todas aquelas bajulações baratas já estavam fazendo a youkai explodir. Ela queria cair fora dali o quanto antes para poder retirar aquela bosta das costas e ir atrás do que quer que a informação que o Falcão tinha dizia.
— Só se apresse… E fale logo. O seu tempo é precioso.
Cherry sabia que o melhor caminho era puxar o saco daquele homem pretensioso que se achava o último livro da biblioteca de Alexandria… Ela ia entrar no jogo, com total desgosto, claro, mas ao menos se livraria antes daquela criatura desagradável.
— Você tem toda razão, minha flor do deserto. Mas, como você deve ter esquecido, temos procedimentos. A informação que tenho vale 20 moedas de ouro.
— Isso quem decide… Sou eu. Ou esqueceu com quem está lidando? — Ela ofegou, como se ficar arisca fizesse com que o amuleto a queimasse ainda mais. — 10 moedas de ouro…. De antemão. Se o que me disser realmente valer a pena…. Então pago as outras 10.
— Vocês, piratas, são sempre tão… bárbaros em suas barganhas sem sentido. Pois bem, faça como preferir. Eu sei que você vai pagar as outras 10 moedas de bom grado.
Cherry estreitou os olhos enquanto esquadrinhava a expressão do Falcão. Odiava aquele mistério todo e os jogos que o homem gostava de fazer com ela. Displicentemente ela atirou um pequeno saco de moedas que tilintaram ao serem pegas no ar pelo outro. O Falcão abriu, contou as moedas e sorriu.
— A Donzela de Orleans foi vista e o atual proprietário é um velho conhecido seu. Lembra-se do filho do Duque de Tyr-Song? Aquele que a vendeu para o seu… último proprietário?
Cherry estremeceu. Que piada… Como se ela pudesse esquecer o filho da puta. Como se ela pudesse esquecer qualquer um deles. Mas esse era um dos mais repugnantes. Ele tinha uma mania escrota de fazer “experiências” com ela. Quanto tempo ela aguentava sangrar antes de desmaiar, o que acontecia se ela fosse pendurada de cabeça para baixo durante dois dias, quanto tempo demorava para cicatrizar uma perfuração completa do seu corpo… Mas pior mesmo era o pai, o duque propriamente dito, que apreciava estuprá-la no meio dos experimentos para se refestelar em seu sangue. Alguém havia enfiado na cabeça do velho que se ele fizesse isso iria rejuvenescer. Se não fosse aquele maldito colar, ela jamais teria passado pelas coisas que passou. Pensou no “amuleto” que havia sido usado para selar seus poderes e que agora estava guardado em um baú em seu esconderijo. Aquelas eram memórias que jamais seriam apagadas, não importava quanto tempo passasse. Matar o duque havia sido um prazer inenarrável…
— E você tem a localização dele…. Estou certa?
O Falcão sorriu e apreciou o momento. Como ele amava situações como aquela, onde a pirata dependia dele para alguma coisa. O Falcão era um homem que apreciava uma mulher de fibra como Charity. Não era qualquer youkai que conseguia aguentar a dor causada por aquele selo. Pelo que ele sabia, era como se mil agulhas estivessem perpassando o cérebro dela e seu corpo estivesse queimando intensamente. Alguns morriam de tão agonizante que era a dor. E não só isso. Pela garota ser uma youkai pura ela devia estar sofrendo ainda mais do que os híbridos com os quais as Aves de Rapina colaboravam eventualmente. Toda aquela força… Aquela garra em desafiá-lo mesmo estando daquele jeito… Ele se sentia excitado só de pensar. Inclinando-se para frente ele sorriu numa expressão um tanto maligna.
— E você também, Harpia. É o local onde você viveu por dois anos, afinal de contas.
Sem dizer mais nada a youkai se levantou, arremessou o restante das moedas nele e começou a se dirigir para a sala de onde tinha vindo. A voz do homem, no entanto, a fez parar. Sem se virar para ele, ela ainda o ouviu dizer.
— Outros já sabem e provavelmente já estão indo. Você deveria se apressar.
— A Donzela será minha. — Foi a única coisa que ela disse antes de finalmente desaparecer pela porta lateral.
Novamente ali, ela precisou mais uma vez despir a blusa para que o selo fosse retirado. O pequeno amuleto ainda ficou com carne queimada grudado nele e o local onde estivera até então exalava um cheiro de podre e estava em carne viva. Era um alivio, ainda que um pouco desconfortável, se livrar daquela coisa. Se o Falcão achava mesmo que ela iria se tornar a próxima Harpia podia esperar sentado em seu poleiro. Ela não tinha a menor intenção de se unir às Aves de Rapina. Quando o Ciclope estivesse morto ela não precisaria mais se manter tão perto deles. Esperou que o seu poder se estabilizasse e que a ferida fechasse para que pudesse se vestir, tudo sob o olhar atento do homem de terno negro. Ela se peguntava quem era ele. Conseguia manipular um poderoso amuleto de neutralização e ainda ficava sozinho em uma sala com uma youkai que poderia muito bem matá-lo se desejasse. Algum truque aquele homem tinha, mas não era o momento de descobrir. Dessa vez, apertou bem o corset e quando estava pronta, partiu. Gostaria de passar em casa primeiro e se armar, mas cada segundo contava então partiria direto para o lugar que fora seu cativeiro vários anos atrás.
A ilha de Tyr-Song era uma região não mapeada que, ironicamente, ficava próxima de onde ela se encontrava, entre a Bretanha e a Baixa Normandia. Era mais perto do que ir até a Itália, ela pensou. Iria pela Normandia mesmo e ela calculava que em poucas horas já teria chegado ao seu destino. Novamente usou a via dos ladrões para se locomover, entretanto havia direcionado parte de sua energia para as pernas, o que lhe permitia realizar grandes saltos e assim percorrer maiores distâncias. Quando se viu em campo aberto, ao sair dos telhados nos limites da cidade, só lhe restava correr. Escolhia ir pelo meio de florestas quando possível desviando das árvores e causando uma grande corrente de ar por onde passava, levantando folhas, balançando galhos, fazendo com que os pequenos habitantes de floresta corressem para se esconder antes que ela passasse.
Enquanto corria, sua mente vagueava pelos acontecimentos de quase três anos atrás. O dia em que seu bando fora pego em um ardil que ocasionou a morte das únicas pessoas que a youkai se importava em todo mundo. Às vezes, quando ela fechava os olhos, o vento trazia aos seus ouvidos as risadas de suas companheiras mortas. Podia vê-las sorrindo, minutos antes de tudo acontecer. Não. Não queria pensar naquilo. As lembranças ainda eram dolorosas demais para ela.
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