A Dominação De Lâminas
19 The misty ghost of childhood fears
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Kavyn. Uma doce pronuncia, tão doce quanto o vento que outrora batida pelas cortinas do quarto de Talon. Uma doce lembrança, seguida de um amargo final. E aquele nome tão tentador, tão aterrorizante, ecoava em sua mente em seus próprios sonhos. Era seu pesadelo dominando sua mente, consumindo cada vestígio de sanidade. Talon rolava entre os lençóis, recordando um passado tão glorioso, e tão perturbador.
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– Vai me dizer que você gosta de viver nessa imundice? – O garoto de cabelos castanhos claros disse com um sorriso sínico nos lábios, rindo de sua própria desgraça. – Se eu pudesse pelo menos me casar com uma mulher rica...
– Não diga besteiras. – Um Talon mais novo riu. – Quem iria querer você?
– Hah, eu sou o terror entre as putas, Talon! – Seu sorriso se tornara divertido.
– Só entre as putas. Já viu puta rica, seu idiota? – Ele debochou daquilo que parecia ser seu amigo.
– Ah... Ver, já vi. Mas ela foi deserdada. – Ele fez um muxoxo.
– Você é tão inteligente, Kavyn.
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– Kavyn, que porra é essa? – Talon berrou enquanto retirava a adaga da calça com agilidade. Correu até o garoto que era prensado contra parede por dois homens, e apunhalou um deles pelas costas. Ele caiu sobre si, e Talon o jogou em cima do outro homem, enfiando a adaga rapidamente no coração dele. Kavyn estava no chão com a respiração descontrolada. A luz do sol iluminava seus cabelos, e lhe dava um leve tom de loiro. Seus olhos âmbares pareciam puro mel. Sua face antes vermelha voltava a sua cor normal. Talon lhe estendeu a mão.
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– Você está desviando. – Kavyn falou encostando-se à porta. – Juliete só vai te fazer perder a cabeça.
– Juliete tem seus defeitos, mas eu não estou sendo desviado! – Talon falou em plena escuridão, deitado no chão, observando o teto.
– Você a ama, Talon? – Kavyn riu sarcástico. – Nós já tivemos alguma oportunidade dessa? Alguma vez?
– Não.
– Pois é, tem muito dinheiro em jogo, Talon... – Ele fez com que suas presas aparecessem em um sorriso sádico. – Eu não quero perder tudo por causa de uma garota obsessiva. Essa é nossa chance de ouro.
– Se quer tanto se livrar da Juliete, por que você não a mata? – Talon foi curto e grosso.
– Eu adoraria, Talon. Eu adoraria... – Digo isso, saiu do quarto.
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O sangue em suas mãos não era algo incomum, mas lá dentro de seu ser, algo que não podia transparecer em sua face, estava sua desolação. Não era um simples sangue, era o sangue de Juliete. Daquela pequena garota que havia lhe dado sua vida, que havia se ajoelhado e lambido seu chão. E observando o vazio que era sua alma, Talon viu lá dentro, a sua sede por vingança de todos aqueles que odiava. Viu refletido na poça que o sangue de Juliete havia feito, não somente a sua desgraça, mas também havia visto seu final ali. Talon jogou a arma no chão e retirou calmamente a adaga do sua calça. Passou lentamente a lâmina fria por sua garganta, e nenhum sangue saiu. Fechou os olhos e sentiu ser abraçado pelo vento da noite, abriu seus olhos, e o viu.
No momento que se olharam, ambos sabiam que o destino havia reservado aquele momento somente aos dois. E se encarando, eles viam ali anos e anos de uma amizade sendo jogada fora. Os olhos famintos e ao mesmo tempo desolados, se olhavam com tanta intensidade, como se cada piscar fosse uma batalha perdida. Ambos sabiam o que os aguardavam, e a única saída seria a morte. Nada mais.
E quando cravara seu punhal no coração de Kavyn, Talon escutou as palavras sussurradas por seu companheiro de tantos anos: — Eu não quis matar a Juliete pelo meu intenso respeito por aquele que salvou a minha vida diversas vezes. – Kavyn sorriu triste enquanto o sangue escorria por seus lábios. – Eu sabia que tudo acabaria em sangue, mas se for pra morrer nas mãos de alguém, que seja a sua.
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Um berro acordou Katarina em um sobressalto. Ela se levantou desnorteada, tentando reconhecer a voz. Quando percebeu que não era seu pai, correu para o único quarto que ela poderia imaginar que vinha o berro. A porta estava fechada, não bateu e apenas entrou por ela com um desespero desnecessário. O que ela viu deixou seu corpo paralisado por alguns poucos segundos, o tempo necessário para que aquela imagem ficasse registrada em sua mente.
– T-Talon? – Ela sussurrou baixo. Suas pupilas estavam dilatadas, sentia o suor escorrer por suas mãos gélidas e sua respiração estava lenta.
Da janela a fora, a lua era quase escondida pela neve que caía incansavelmente. A luz da lua refletia no rosto de Talon e aquela era a única coisa que Katarina via. Ela nunca havia visto sua face tão triste, tão arruinada. E naquele momento, ela percebera que precisava estar ali. Encostou levemente a porta, e sentiu o olhar sobre si. Abaixou sua cabeça, e como uma mãe carinhosa, foi até a cama de Talon e olhou.
Katarina olhou Talon como nunca havia olhado em sua vida. Uma mistura de dó e de certo conforto. Aqueles olhos castanhos refletiam a solidão pura, eram olhos de velhos morrendo ou de crianças famintas. Um olhar que lhe preencheu a alma, e atingiu bem aquilo que eles chamavam de coração. Aquele olhar havia doído todas as moléculas de seu ser, e em um movimento rápido, abraçou sua cabeça querendo arrancar toda aquela dor que ela não sabia que existia.
Talon não sabia por quanto tempo ficou observando os fios vermelhos se movimentando com a respiração compassiva de Katarina. Suas memórias lhe atingiram como uma pedra cheia de verdade, da qual ele não estava disposto ainda a aceitar. Kavyn era tudo aquilo que ele estaria sempre preso dentro de si, dentro de um preto e escuro abismo.
– Ka... – Ele sussurrou entre os fios vermelhos. Talon saiu de sua própria prisão com as palavras sussurradas. – Ka... – Ele não conseguia continuar. Aquilo que estava na sua mente não era Katarina, mas ele simplesmente não podia fazer desfeita.
– Kavyn. – Ela disse enquanto tocou seus lábios nos cabelos castanhos de Talon. Seus dedos se moveram pelos fios lentamente por causa do frio, e por causa do intenso carinho que Katarina aplicava.
– Katarina. – Ele levantou sua cabeça e a olhou.
– Eu estou aqui. – Ela tocou sua testa na dele, e fechou os olhos, tentando o acalmar.
Talon sentiu o leve aroma que saía de Katarina, e em poucos segundos, toda aquela sua angústia, tudo aquilo que estava entalado em sua garganta, parecia estar dissolvido. Todas aquelas memórias, e todo aquele arrependimento, parecia que Katarina sugava para ela toda a sua dor. Era como se drenasse tudo aquilo que havia de impuro dentro de seu corpo, e lhe doasse energia. A delicadeza com que seus dedos gelados mexiam em seus cabelos o fazia cair em um sono doce, um sono meio preocupante, meio dominador.
E quando Katarina largou seus cabelos, e olhou novamente dentro de seus olhos, Talon sentiu uma enorme vontade de protegê-la. Como nunca havia acontecido antes. Nem com crianças, velhos, enfermos ou mulheres. Era Katarina e sua energia. Era Katarina e sua áurea. Meio anjo, meio demônio, Katarina era aquele vínculo que o mantinha conectado ao seu próprio eu. Sem disfarces e sem máscaras. Sem moldes da sociedade, e sem pretensões.
Katarina lhe tocou a face suavemente, e Talon se afogou naquele mar verde. Quando se tocou da realidade, sentiu o frio do seu quarto, e observou Katarina ir para seu quarto. Depois de breves segundos, Talon já não sabia nem mais se alguma hora Katarina estivera ali. Perdeu-se lentamente em sua mente, misturando Kavyn e Katarina em uma dor prazerosa. Quando saiu de seu entorpecimento, olhou a neve que continuava caindo agressivamente. Levantou-se e andou até o quarto que era tão bem conhecido. Não bateu na porta, e não fez muito barulho, apenas encostou-se à porta e olhou Katarina com o brilho de um cachorro sem dono.
– Dorme comigo. – Ele disse em bom tom para que ela ouvisse. Não havia malícias em seu tom, não havia segundas intenções, e não havia do que tirar sarro ali. Katarina entendera perfeitamente o que acontecia, e apenas o seguiu até o seu quarto.
Naquela noite não houve beijos, não houve carícias, e nem gemidos. Naquela noite houve apenas um carinho que tanto Talon quanto Katarina haviam gostado demais. Ela acariciou seus cabelos até que ouvisse a respiração calma de seu sono. E Katarina não havia se sentido melhor, mesmo querendo negar com todas as suas forças.
Ela entendia em partes a dor de Talon. Katarina não sabia o que havia acontecido entre os dois, mas sabia que era algo que havia marcado lá dentro de Talon. Do pouco que ela conhecia o assassino com quem ela dormia, sabia que eram poucas as coisas as quais ele se importava e demonstrava fraqueza. Na verdade, até aquela noite ela não havia visto Talon fraquejar nenhuma vez. E por mais que houvesse prometido ao seu orgulho que quando o visse fraquejando, jogaria aquilo na cara dele, ela não o faria. Katarina ouvira seus berros e ouvira sua dor. Aquele garoto que parecia ter marcado a alma de Talon era importante para ela, se ele fosse importante para Talon. Era algum dos indícios de que aquilo se tornaria algo mais, só que Katarina não se importou.
A única coisa que ela queria era continuar acariciando aqueles longos fios castanhos. O único calor que ela queria sentir era aquele homem. A única boca que queria beijar era a dele, apesar de no momento não pensar nem em beijá-lo. E a sua atitude, lá no fundo, fazia Venina florescer dentro de si. Katarina nunca havia sido uma pessoa que ajuda as outras. Mas, quando Claire aparecera em sua vida, ela nunca havia sentido tanta raiva de um ser vivo, matou Sebastian sem hesitar. E Talon foi aquele que salvou sua vida. Apesar de admitir apenas naquele momento em que acariciava os fios castanhos, Katarina sempre soubera. Sempre soubera que era ele quem havia permitido que continuasse vivendo.
E como se parecera com Venina naquele momento! Como cuidara de Talon como se fosse um passarinho que caiu do ninho, como dizia que estava tudo bem como se fosse uma mãe acolhendo um filho. Mas, Katarina gostou daquilo que Talon via. Ela gostou de ser um tipo de fortaleza, gostou que ele lhe contasse o que acontecera. Gostou que ele se abrisse, pela primeira vez desde que se conheceram.
– Kavyn foi um tipo de pessoa que nem que se passem cem anos eu me esqueceria. – Ele começou lhe falar enquanto Katarina acolhia Talon em seus braços. – Foram... Sete anos. Sete anos convivendo com uma pessoa como se ela fosse seu irmão. Sete anos em uma rotina que não era bem uma rotina. Podíamos estar em constante mudança de lugares, mas nunca havíamos deixado de sermos nós mesmos. Ninguém nunca me conheceu tão bem quanto Kavyn, apesar de eu não ser mais eu. Mas, eu era o tipo de moleque que não se importava com quem matar, com quem sofria e com quem ficava. Não que hoje eu não me importe, mas simplesmente tem coisas que eu prefiro ignorar em prol do meu ego. E Kavyn era o meu reflexo. Como uma sombra, me lembrando cada dia mais e mais como eu era. Ele era mais novo que eu, uns três anos. Tinha horas que ele parecia uma garota de tão magro que ele era, mas eu não o culpava. Sua família não tinha condições e o havia vendido como escravo para um comerciante rico do submundo, mas ele se rebelou contra o homem e o matou. Eu passei bem no momento em que ele cortava a garganta, e vi estampado ali, um pouco de mim, um pouco do mundo.
Talon deu uma pausa e mergulhou seu rosto nos cabelos de Katarina, suspirando pesado para aliviar suas lembranças. Depois de alguns segundos, levantou a cabeça e voltou a olhar Katarina nos olhos.
– Eu entendo o mundo. Eu sei que é apenas uma ordem natural. Mas, eu entendo isso hoje. Depois de várias e várias perdas. Naquela época, eu só queria ver como era conviver com outra pessoa, eu não aguentava mais a solidão. Não que eu soubesse como era se sentir sozinho, mas quando eu via mães e suas proles nas ruas, eu tinha ódio. Eu morria de ódio, e não hesitava em matar ambos! Aquele vazio que corroía durante as noites frias, não era por puro acaso! Era porque a minha família nunca me quis. E lá, vendo Kavyn, eu me identifiquei. E essa igualdade entre nós, essa sede por aquilo que não tivemos, nós uniu tanto. Mas com o passar dos anos, com a mudança de opiniões, e com experiências diferentes, nossas linhas de pensamento foram se divergindo, como ramos de uma única árvore. É claro que nossas raízes não foram as mesmas, mas em certo ponto do caminho, houve o que houve. Sentimos o que sentimos, e o ponto crucial foi Juliete. Ela me fez romper com todos aqueles paradigmas, me fez romper com tudo o que eu acreditava. E quando Kavyn me disse que eu estava me perdendo, eu parei para refletir e vi que havia chegado em uma rua sem saída. Era só uma questão de fazer o que tinha que ser feito, e aceitar a dor e o arrependimento que viria a seguir. Não havia soluções, e não havia como voltar atrás. Foi naquele momento que eu percebi que havia parado de ser um simples moleque. Eu encarei o mundo. Matei Juliete, e logo em seguida, no caminho para casa, lutei com Kavyn como nunca havia lutado com ninguém. Era aquela questão de matar ou ser morto. Naquela altura do campeonato, não havia tréguas e bandeiras brancas, só um iria sair vivo. Mas, Kavyn foi tão sortudo. Quão gratificante é a morte para aqueles que a abraçam? Ele não está aqui, ele não tem que passar pelo sofrimento que eu passo.
Depois daquela história, Katarina começava a entender um pouco mais sobre a dor. Enquanto Talon falava, as mãos grandes tremiam e sua face sempre mudava de expressão. Uma hora ela era alegre, como se recordasse de um passado onde a felicidade existia nem que fosse por frações de segundos. Outra hora ela era dolorosa, como se não suportasse seus próprios erros. Não houve nenhuma palavra que não havia sido captada e gravada em sua mente, Katarina se lembraria para sempre daquela noite. Afinal, Talon havia rompido a barreira que ela tanto insistia em manter, e o mesmo valia para ele.
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