A Dominação De Lâminas
16 How am I gonna be an optimist about this?
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas

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Já fazia quase duas horas que Katarina e Talon haviam saído do território noxiano. O sol de mais cedo tinha aparecido apenas na hora que Cassiopeia chegara e agora estava desaparecido, deixando o céu um cinza monótono. Estavam no pé das montanhas Ironspike e trocavam algumas palavras – na maioria das vezes não gentis – porque Katarina não aguentava muito o silêncio. Assim seguiu até às três horas da tarde, quando fazia cinco horas de viagem. Quando chegaram ao pântano Howlings, ela havia falado bem menos. E essa vontade de falar foi algo que surpreendera Talon. Só que essa faladeira era apenas um disfarce para seu nervosismo. Ela não sabia por que estava tão tensa na presença de um pervertido, como ela o apelidara em pensamentos. Assim resolveu ficar quieta e admirar a mata fechada.
– Hora de trocar. – Katarina disse interrompendo o silêncio de quase meia hora e parando o cavalo. Ela esperou que Talon descesse e desceu, se despreguiçando. – Eu tô quadrada.
– Eu nunca andei de cavalo. – Talon respondeu a fitando com um olhar preocupado, que Katarina não deixava de achar sexy.
– O Nul não é um cavalo normal, não é Nul? – Ela falou com uma voz meiga enquanto acariciava a crina castanha do cavalo. – Eu vou te ensinar.
Ao dizer isso, ele subiu e ela também depois de um tempo. Viu o jeito que as blusas moldavam as costas de Talon e engoliu seco, sentindo-se castrada. Quando ele segurou as rédeas em seu colo, hesitou em passar a mão pela cintura dele. Engoliu novamente seco e o fez, colocando as suas mãos em cima das dele. Entrelaçou seus dedos, sentiu a fria pele macia e agradeceu por ele não conseguir ver o quão vermelho seu rosto estava. De pouco aos poucos, ele foi pegando o jeito, mas não deixava seus dedos se soltarem. Katarina hora ou outra escutava a risada espontânea de Talon e o escutava dizer: Como eu não aprendi isso antes? E a única coisa que conseguia fazer era sorrir fraco, tentando desesperadamente ignorar seus batimentos cardíacos acelerados.
Assim que viram a ponta do rio Serpentina, a noite caiu e Katarina soltou seus dedos dos de Talon. Mas aquilo não o surpreendeu. O que o surpreendeu foi Katarina o entrelaçando pelas costas, enquanto sussurrava que estava cansada. A tentação de parar o cavalo e beijá-la ali foi tão grande que Talon teve que acelerar os passos de Nul só para que o vento batesse em seu rosto. Ele definitivamente não conseguia entender Katarina. Uma hora ela era totalmente carinhosa, e em outra ela era fria que nem o gelo. Não podia negar aquela sensação de conforto que esteve presente durante a viagem inteira, como se estar ao lado de Katarina fosse um porto. Ele adorou que ela entrelaçasse seus dedos, apesar de aquele dia na floresta Talon ter prometido não mais fazer isso. Ele adorou quando ela passou o braço contra suas costas, o esquentando naquela noite fria que caía. Ele adorou quando vez ou outra ela sussurrava palavras contra a sua pele, e apesar de estar coberta, fazia cócegas. No fim ele amaldiçoou a bruxa que Katarina era. Ela lhe prendia de uma forma tão rude, tão quente, mas... Tão dela.
Quando chegaram ao meio do rio, Talon viu um pequeno povoado ao pé das montanhas. Imaginou que ali fosse onde ficariam para dormir, levou Nul até a entrada e percorreu pelas ruas até achar o pequeno casebre que era o Oudin Hotel. Tentou se virar, mas percebeu que Katarina lhe abraçava bem forte. Por uma estranha razão, ele realmente não queria sair daquele abraço, daquele quente e confortante abraço. Quando se virou para olhá-la, viu as pupilas verdes se abrirem delicadamente, e sentiu aquele calor exaurir em câmera lenta. Ela cosou o olho da cicatriz e bocejou, dizendo para Talon que estava com sono.
– Oudin Hotel. – Ele apontou a placa de madeira. Viu Katarina descer, e andou até uma árvore. Desmontou de Nul e o prendeu com uma corda que Katarina havia lhe dado.
– Depois traz água pra ele. – Ela disse sonolenta e foi entrando no estabelecimento. Falou com um homem calvo, bem gordinho e baixo. Ele sorriu quando ela pronunciou Du Couteau, se virou e depois de algum tempo deu uma chave pra Katarina. Talon entrou e fez um gesto com a cabeça, cumprimentando o homem. Seguiu Katarina que ia entrando no hotel sem conhecer e parou de frente ao quarto quatro. Abriu a porta e todo o sono que tinha havia passado.
– Uma cama de casal, pai?! – Ela falou quase berrando enquanto olhava a cama, incrédula.
– É mais barato do que um quarto pra cada. – Talon disse enquanto entrava e colocava a mochila no chão. – Vou tomar banho primeiro.
– Nada disso! – Katarina falou entrando na frente da porta do banheiro e olhando para Talon com uma expressão horrorizada.
– Hein? Por quê? – Ele cruzou os braços e a olhou desinteressado.
– Damas primeiro! – Ela disse entrando no banheiro e batendo a porta com força.
– Heh, nunca vi nenhuma dama aí. – Talon disse para a porta enquanto saía para alimentar o cavalo.
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Aquilo estava definitivamente irritando Katarina. Ela não conseguia dormir com Talon rolando na mesma cama que ela. Não quando o calor do corpo dele estava tão perto do seu. Não quando ele suspirava tão facilmente na presença dela. Não quando eles dividiam o mesmo cobertor. Porque para ela não era tão simples, e ela queria a todo custo ignorar os pensamentos maliciosos que estavam em sua cabeça. Se ela não pensasse em Talon beijando Mirian, provavelmente seria ela beijando ele ali. Agora. Naquela cama. Rolando em lençóis repletos de luxuria.
Colocou o travesseiro na cabeça e isso Talon percebeu. Ele só não sentia sonho, não tinha nada a ver com Katarina de seu lado. Nada. Ou pelo menos era isso que sua sanidade berrava em sua mente. Mas estava adorando vê-la se contorcer, e por mais que ela estivesse de costas, ele sabia que os olhos estavam bem abertos e bem acordados. Estava fitando as curvas de seu corpo admirado, e dizia para si que era apenas uma provocação, não tinha nada a ver com paixão. Talon não brincava muito, mas ficar suspirando e se mexendo não era uma coisa que atormentava. Não as pessoas normais. Não as pessoas que não fossem atraídas por ele.
Katarina se virou raivosa, preparada para xingá-lo ou mandá-lo dormir no chão. Mas tudo parou quando fitou os orbes negros. Tão negros quanto a noite. Tão negros quanto a escuridão. Sentiu a sua boca salivar, uma onda passou por seu corpo inteiro e agradeceu por estar na cama onde não era possível as pernas bambearem. A lua iluminava o quarto escuro, e apesar de não clarear muito, ela dava um suave tom azul no corpo à sua frente. Talon estava apenas com aquela camiseta branca que a fazia ver claramente aqueles músculos fortes. Ficou alguns poucos segundos olhando dentro daqueles olhos castanhos que agora estavam pretos. Mas aquilo parecia uma eternidade, e não queria de modo algum que aquele curto tempo passasse. Queria que tudo parasse. Queria apenas fitar aquela escuridão que lhe preenchia até nos cantos obscuros de seu ser.
Mas Katarina voltou-se a si quando viu o sorriso que formava nos lábios tão desejados. Voltou-se ao pequeno universo onde estavam e lembrava-se que ele apenas queria seu corpo. Lembrava-se que aquilo não tinha nada de real a não ser o desejo que estava ali, exposto na sua pele. O mesmo desejo que Talon fazia questão de enterrar. O mesmo desejo que ele sentiu pela vadia da sua empregada. O mesmo desejo que a fez delirar enquanto olhava aqueles olhos negros.
A gargalhada ecoou pelo quarto e ela olhou Talon surpresa, como se tivesse perdido alguma piada engraçada ou alguma atração principal em um circo, e no caso a piada e a atração eram justa ela.
– Miss Du Couteau, por que você não consegue dormir? – Ele sussurrou as poucas palavras em um tom de ironia que não deixou ser despercebido. – Por que seu rosto está tão vermelho... ? – Ele ria enquanto passava a sua mão delicadamente pelos cabelos de Katarina, os levantando como provocação.
– EU NÃO ESTOU COM O ROSTO VERMELHO! – Ela gritou sentindo seu rosto queimar, e depois jogou a cara no travesseiro.
– Eu estou vendo seu rosto e acredite, ele está bem vermelho. – Ele sussurrou em seu ouvido da mesma forma que mães carinhosas falam com seus filhos antes de dormir. Da mesma maneira que dois apaixonados sussurram em meio as carícias. Da mesma maneira que um pai fala para um filho que acabou de ganhar uma partida.
– Eu não estou vermelha. – Ela persistiu retirando a cara do travesseiro e o olhando. E aquele foi seu erro, olhar dentro dos orbes negros. Aquilo não podia ser a luxuria. Não podia.
– Sei. – Ele murmurou ainda com aquela merda de sorriso.
Mas como todos os outros toques entre eles, aquele foi rápido demais. Ele pegou a face pálida e depositou um beijo, que nem poderia ser considerado um beijo. Era apenas um toque de lábios. Um toque singelo. Que não tinha nenhum significado. Pra ele. Porque Katarina estava uma pilha. Estava rígida igual concreto, hesitando qualquer tipo de toque. Foi quando ela sentiu aquela coisa quente e úmida, explorando o interior de sua boca. E a única coisa que fizera foi corresponder. De uma forma que lhe inflamava, lhe retirava da realidade. Que fazia desaparecer palavras como certo e errado. Ou orgulho. Sem perceber já estava gemendo contra os lábios dele, e aquilo não era de sua natureza. Não podia ser.
Entrelaçou seus dedos nos fios negros , e inverteu as posições. Sentando em cima dele e deixando toda aquela demonstração de desejo mais quente. Bem mais quente. Bem mais molhado. Mais selvagem. Foi quando ela se tocou. Redobrou sua consciência, e interrompeu o beijo estupidamente. Olhando os orbes negros queimando em pura luxuria. Só aquele olhar a fez hesitar, a fez o olhar estranho como se não estivesse entendendo. Como se não se reconhecesse. Como se ela realmente fosse a atração principal do circo. Mas quando ela se tocou, ela sentiu lá no fundo. Aquele maldito desejo se inflamando, percorrendo seu peito e chegando a garganta. Aquela maldita coisa presa na garganta. E o olhou com uma cara de que estava fazendo algo terrivelmente errado. E se virou para o outro lado da cama. Porque se apaixonar não era o verbo que a definiria, não no momento.
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O que foi aquilo de noite? O que foi aquilo de noite? O que foi aquilo de noite? O QUE DIABOS FOI AQUILO DE NOITE? Era a única coisa que passou pela cabeça de Katarina ao acordar. Ela berrava em pensamentos, mordendo seus lábios para que aquelas malditas palavras não saíssem de jeito nenhum dos seus lábios. Quando pagaram a pensão, o homem lhe dava um olhar meio suspeito, como se ele soubesse de coisas que não haviam acontecido ontem à noite. E que Katarina queria que tivesse acontecido. E Talon também.
Talon agradecia depois de ela se virar, e agradecia por Katarina estar com roupas que não deixassem seus seios aparecendo, ou a sua bunda bem modelada. Caso contrário, todo aquele alto controle seria em vão. Toda aquela maldita máscara seria quebrada e Katarina perceberia suas intenções. Não que ela já não soubesse que ele queria dormir com ela, mas não sabia aonde aquele maldito ato poderia lhe levar. E Talon, por uma fração de segundo, desejou experimentar aquele abismo escuro onde separava o desejo da paixão. Não que nunca havia se apaixonado. Mas aquilo não havia sido nada. Ou talvez houvesse sido algo. E era algo suficiente para fazê-lo não querer entrar naquela zona perigosa novamente.
Sua sanidade já era bem falha e ele não precisava ficar se lembrando toda hora de seu passado. Ele só podia ficar repetindo na sua cabeça que aquilo não se passava de desejo. Como ele provara ontem a noite que esse era o pensamento de Katarina. Quando ela parou de beijá-lo e o olhou, Talon sentiu como se algo se quebrasse dentro de si. A imensidão verdes de seus olhos o deixou hipnotizado por poucos segundos. Os segundos suficientes para que ele sentisse o calor que ela lhe dava saindo, se encolhendo na cama como um gato. Talon teve vontade de pegá-la pelo pulso e sacudi-la, dizendo que não era somente aquilo. Dizendo que era o seu medo. Porque ele estava ali, presente a cada vez que ela lhe olhava com aquelas pupilas de brilho melancólico. Como se ele fosse a causa de todo aquele sofrimento. Mas, fugir era a única opção que lhe restava. E Talon se martirizava em pensamentos porque queria a proteger de si mesmo.
Trocaram poucas palavras no decorrer do caminho. Era Talon que os guiava e Katarina não sabia se gostava disso ou não. De um lado, o corpo dele não ficaria esfregando atrás do seu. Do outro, ela que ficava esfregando nele. Cavalgavam a pouco tempo, coisa de meia hora e o cenário mudou. Talon parou o cavalo e tirou algo do bolso. Se virou para Katarina e a pegou pela nuca, a fazendo olhar dentro de seus olhos.
– Estamos chegando perto. Pare de pensar em mim e pense apenas em colocar Claire Yvori sentada nesse cavalo. – Ele a viu morder os lábios, engolindo as palavras que morreram em sua garganta. Talon tocou delicadamente os fios vermelhos e os juntou em apenas um lado. Amarrou o cabelo dela de lado com a meia que tinha em suas mãos e voltou-se a fitar os olhos verdes. – Seu cabelo chama muita atenção.
Katarina teve vontade de berrar. De dizer para Talon que ele não era tudo na sua vida e que era apenas em quem ela pensava para passar o tempo. Mas aquilo não era verdade. Desde que saíram do hotel, tentava ao máximo ignorar a presença que estava a sua frente. E Talon foi tão modesto que quase a fez perder o controle. Queria gritar para ele, dizendo que não estava pensando nele. Que não estava nenhum pouco se importando em ter que segurar-se nele. Mas aquelas palavras ficaram presas como elas mesmas não acreditassem em si. Quando ele a pegou pela nuca, algo gritava dentro dela. Algo que ela não deixava que pudesse ser transparente.
A paisagem mudou gradativamente. As árvores foram lentamente se tornando mais afastadas das outras, a grama verde foi lentamente consumida pela fina camada de neve, e o ar foi se tornando mais gélido. Os indícios que estavam chegando em Freljord começaram quando Talon o sentiu tocando sua bochecha. Molhado e gelado. Aquele era o toque dos pequenos flocos de neve. Sentiu-se como se algo dentro de si desabrochasse, como se tivesse vontade de sumir, de ficar ali naquela imensidão branca para sempre. Quieto e sem ninguém o perturbar. A neve não era só a liberdade que sua alma tanto ansiava, era também aquilo que o fazia ver atrás das cortinas da máscara que ele usava. Talon conseguia ver claramente que aquelas sensações que a vida lhe proporcionava iam acabar ali. Que aquele toque gentil que Katarina lhe dava iria acabar quando ele morresse. Se lamentou em pensamentos ao pensar que a única coisa que a vida podia lhe oferecer era a morte. E algo lá dentro de si sabia que ele só lamentava o fato de que algum dia ele iria morrer porque algo florescia. Como um botão se abrindo gradativamente igual aquela mudança de paisagem, que lentamente podia-se ver as pétalas daquela pequena flor. E apenas de pensar no que o futuro lhe reservava, sentia vontade de viver para sempre. Queria que aquela estranha e pequena dor que se apoderava de seu peito só de pensar na morte acabasse. Que apesar de ser um bom assassino, poderia morrer a qualquer hora, deixando para trás apenas o vazio absoluto. Pois ele nada tinha que deixar para o mundo. Não tinha linhagem e não tinha história. Era como um borrão na escuridão. Esse era o lado ruim de viver nas sombras, ninguém nunca se lembraria dele. Mas Talon sabia. Sabia que aquele seu lado sentimentalista era apenas um desafronte daquele lugar. Sabia que Freljord mexeria com seu corpo e com sua alma. Só tinha que se preparar para isso.
Katarina percebeu que Talon havia ficado tenso. Aquela paisagem era bem impactante. A imensidão branca quase lhe cegava, e os ventos urravam como se trouxessem a morte. Era um lugar marcado de dor e sofrimento, e Katarina não tivera dúvidas. Sabia o porquê que Talon havia ficado tenso e também ficara quase instantaneamente, como se estivesse ligados entre si por um fino fio de emoções. A única coisa que fez foi abraçá-lo com mais vontade e foi justo na hora que Talon pensava que não deixaria nada para trás. O que exatamente era Katarina para ele? Não era apenas um corpo, e muito menos a filha de seu superior. Ela era algo. E Talon desejou por uma fração de segundo que fosse algo na vida dela. Que se ele morresse, ela sentisse sua falta. Que ela se debruçasse sobre seu corpo frio e que chorasse até que suas lágrimas tivessem drenado toda a vontade de viver dela. Ele percebeu por fim que Katarina era bem mais que apenas desejo. Percebeu que estava caminhando cegamente para a paixão. E martirizou-se, perguntando-se como conseguia ser tão fraco. Ela era apenas uma mulher! Só que o lado sentimental lhe perguntava: É apenas uma mulher mesmo? Se ela morresse aqui, nesse lugar, você não se debruçaria e choraria sobre o corpo dela? E o seu monólogo continuava enquanto Talon tentava se cegar, não porque não queria. E sim porque era apenas perca de tempo... Já que tudo acabaria em morte.
Pararam em uma floresta conífera, onde a neve caía incessavelmente. Já estavam perto da casa de Nortidks e amarraram Nul em uma árvore. Retiraram o necessário da mochila e deixaram em cima do cavalo. Katarina tentou esconder os fios vermelhos e Talon retirou dois cachecóis da mochila. Um preto e um branco. Enrolou o preto em seu pescoço por dentro do capuz e o ergueu, deixando apenas seus olhos a vista. O outro passou em volta do pescoço de Katarina, a fazendo ficar vermelha. Eu tenho mão, era o que a expressão em sua face dizia.
– Haja o que houver, traga ela aqui. – Talon disse em um tom impassível fechando a bolsa. – Se eu ficar para trás, não olhe. Não volte. Apenas pegue o Nul e continue. – A voz saía mais fria do que o normal. Katarina sentiu como se seu coração fosse amassado com as palavras ditas.
– Eu não posso deixar você. – Katarina pela primeira vez se manifestou. Suas palavras eram cortantes do mesmo modo que eram acolhedoras.
– Não é questão de você não poder. Você pode, mas não quer. – Ele se virou para ela e olhou dentro dos olhos verdes. Katarina prendeu o ar só de perceber aquelas pupilas castanhas olhando a sua alma. – É pelo bem da missão. Vamos deixar isso claro a partir dessa missão.
– Eu. Não. Vou. Deixar. Você. – Ela sibilou enquanto suas mãos tremiam. Algo estava errado. Algo não estava certo. Por que a sensação de que iria perdê-lo tomava conta de si? Por que estava com medo daquele lugar, como se ele fosse roubar a única chance de serem algo? Por que o olhar que Talon lhe dava não a tranquilizava e apenas a deixava mais tensa?
– Não faça isso. Eu sou só o subordinado do seu pai, Katarina. – Não, não é! As palavras morreram em sua garganta. Aquilo parecia uma despedida, e Katarina faria de tudo para que não acontecesse nada com Talon. A chance de enfrentarem não só os guardas, e sim um exército os deixavam tensos. E sabiam que não tinha chance alguma contra eles. Só que Katarina não queria vê-lo assim, não queria que ele pensasse como se sua vida já estivesse acabado. Sem hesitar, passou os braços pela cintura de Talon e afundou seu rosto no peito dele.
– Você me deixaria para trás? – Sua curiosidade se concretizou em palavras e proferiu aquilo que estava na garganta.
– Nunca. – Ele sussurrou baixo, tocando os lábios cobertos nos fios vermelhos.
– Nós somos uma equipe. – Katarina lhe olhou e sorriu fraco, querendo acreditar nas palavras ditas. Querendo acreditar que aquele nós pertencia apenas a eles. Talon pegou a cabeça dela e encostou novamente contra seu peito, a abraçando também. Se o destino era morrer naquele lugar, Talon o mudaria sem hesitar.
Pegaram apenas punhais para lutar, espadas e as adagas grandes estavam fora de cogitação naquela missão. Tinham que ser rápidos e precisos. Talon tinha em seu bolso um tecido branco e um vidro com éter. Katarina desconfiou que Talon poderia matar a menina, mas logo ele lhe disse que era apenas para ela desmaiar. Deixaram Nul um pouco afastado, mas não o suficiente para que não fosse visto da casa. A tribo Nivic era apenas um vilarejo de cinco casas e a de Nortidks sendo a casa principal. Ficava ao leste da tribo de Avarosa e a oeste da tribo dos Praeglácios. Depois de memorizarem a planta da casa, decidiram ir logo ao cômodo afastado onde Claire Yvori se encontrava.
Havia cinco guardas bloqueando a passagem de uma pequena casinha feita de rochas escuras. Todos com elmos, armaduras, escudos e lanças. Katarina e Talon estavam escondidos atrás de árvores com os troncos grossos, e vez ou outra olhavam para os guardas que aparentavam estar distraídos. Sem muita conversa, decidiram atacar logo os cinco. Katarina foi na frente para que pudesse distrair, e Talon seguiu pelas árvores até chegar atrás de um dos guardas. Katarina disse que estava perdida e que não conhecia muito bem a região enquanto Talon atacava o primeiro guarda. Ela sorriu olhando o modo como ele havia sido discreto e o viu vindo até os outros quatro guardas que mantinham a atenção em si. Pegou calmamente o punhal de suas costas e esperou Talon se aproximar e atacar o primeiro. Depois de dois minutos havia cinco corpos no chão com o pescoço rasgado.
– É melhor os esconder. – Talon falou e eles levaram os corpos até atrás da casinha. Olharam a porta feita de madeira e ambos engoliram seco. — Você sabe o que fazer. – Ele disse em tom hierárquico, Katarina assentiu com a cabeça e ele arrombou a porta. O que Talon viu não só chocou a sua mente, mas também o seu corpo. Ficou imóvel com a cena diante de si e a única coisa que conseguiu fazer foi olhar para Katarina ao seu lado, horrorizada do mesmo jeito que ele. Observando enquanto Sebastian Nortidks estava em cima de uma garota amarrada de dez anos, a estuprando.
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