A Dominação De Lâminas
30 Saints and sinners
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Talon abriu os olhos, assustado. Em sua visão apenas o preto englobou o ambiente e logo depois o desconforto se fez presente pelo seu corpo. Em seguida, o cheiro familiar pairou pelo ar, entrando em suas narinas e o lembrando de sua posição. Ele sequer conseguia se mexer.
Tentou em vão olhar para a mulher deitada em cima de si. Ele sentia o peso sobre o seu corpo, mas não fazia mais questão de se mexer. Não sabia exatamente o horário, mas chutava que o sol não havia nascido ainda. E também não faria sentido algum levantar naquele momento, acordando aquela mulher sem haver alguma alma acordada. Faria?
Era apenas gasto de energia.
Ele sabia que em algum momento da noite ela o abraçava como se ele fosse seu travesseiro. Sabia que ela passara uma de suas pernas em sua coxa, o entrelaçando quase inocentemente como uma cobra. Sabia também que haveria uma hora onde um de seus braços – talvez até mesmo o machucado – estaria contornando seu peito, fazendo-o em alguns momentos até mesmo ser cercado por ela.
Pois encontrava-se assim. Enlaçado por Katarina de uma forma que beirava ao proposital.
Entediado e com a mão que estava livre, Talon preguiçosamente pegou uma mecha do longo cabelo vermelho e a levou ao nariz, enquanto a entrelaçava entre os dedos. Quando pode inalar o cheiro, ele se pegou a xingando, perguntando-se como aquela desgraçada conseguia ter um cheiro tão bom.
A xingar tão despreocupadamente como fazia antes de a comer surpreendeu a si mesmo. Porém não mais ao notar que cheirava o próprio cabelo dela. Ele mais do que ninguém sabia do quanto fugia de Katarina, sabia que podiam deliberadamente transarem que sequer suas estruturas seriam abaladas. Confiava com cegueira nos muros criados ao entorno de si, sabia que eles não se romperiam por causa de uma simples mulher.
No entanto, ele ainda segurava os fios vermelhos sem ao menos ver sua cor... Imaginando-a.
Noyon veio de súbito em sua cabeça. Lembrou-se de a ver por trás enquanto ela corria com Claire em direção a casa de Esme Bayle. Ele lembrou da lentidão de seus próprios passos ao ver Katarina seguindo pelo caminho que deveria ser seguido.
Foi naquele momento que cessou totalmente seus passos. A brancura do ambiente só fazia com que os cabelos vermelhos se destacassem mais, enquanto ela mesma arrastava Claire. E por um instante, percebeu que ela estava totalmente focada em algo que não exigia nada dele.
Tão rápido e tão surpreendente como a queda de um trovão, um filete de dúvida nasceu em sua cabeça:
Ele poderia fugir.
Poderia se afastar da cidade até que Katarina notasse a sua falta, andaria em direção ao norte e veria a cordilheira. Provavelmente haveria algum vilarejo aos pés das montanhas, poderia ficar lá até que a família Du Couteau desistisse de o procurar.
Mas seu delírio havia sido rápido demais. Rápido, pois, se viu encostado em um muro destroçado, coberto por neve. Estagnado e talvez sem saber, esperando com que sua dominação começasse a se concretizar. E a partir do momento que viu Katarina correndo em sua direção, ele imaginou a largada de um cronômetro.
Lembrou-se também do único fio vermelho que ficara em seu travesseiro, o fio parecido com uma nota musical. E como um fardo que vinha junto com o começo de seu domínio, Talon imaginou quanto tempo demoraria para que o cronômetro voltasse a parar.
Um sorriso nasceu no canto de seus lábios e com roucas palavras, ele assumiu em seu ouvido:
– Eu realmente pensei em fugir.
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Ele não soube dizer quanto tempo se passou desde que acordara. E quando seu corpo começou a se sentir mais desconfortável ainda com a posição, ele nem sequer pensara duas vezes antes de tirar Katarina de cima de si. Se levantou e andou até banheiro, tomando enfim um banho naquela água gelada.
Quando voltou ao quarto, ascendeu a luz e viu que ela continuava dormindo. Notou também a forma como ela abraçava o próprio corpo, e pode olhar também a coberta jogada ao lado na qual ambos dormiram. Claro, se aquilo poderia ser chamado de coberta de tão fina que era.
Ele fez menção em de andar até ela, mas parou no mesmo instante que percebeu. O que exatamente estava pensando? Em ir até lá e a cobrir como mães ou amantes fazem? Nem fodendo que ele faria aquilo, mesmo que sentisse uma pontada de dó. Katarina tinha mãos e pés, ela podia muito bem levantar e pegar um casaco.
Começou a se vestir. Apesar de colocar a mesma roupa, ele se arrumava de frente para ela. Olhando-a de relance enquanto erguia as calças. Ele tinha acendido a luz, mas ela sequer se mexia. Não sabia se ela estava cansada ou se ela simplesmente morria enquanto dormia.
Colocou a blusa de manga cinza, amarrou um lenço preto contra sua face e olhou para a jaqueta preta em suas mãos. Olhou novamente para Katarina deitada na cama e lembrou-se das palavras dela no dia anterior. “Proteger os nossos.” Colocar a merda da jaqueta ou os cobertores não era proteção, era tolice. Com esse pensamento, abriu a porta e saiu por ela, batendo-a com força.
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– Encaro a mente humana como uma chapa de aço, você deveria saber. – Riven pode sentir suas sobrancelhas se franzirem com o que acabara de ouvir.
– Deveria? – Os grandes olhos âmbares piscaram em dúvida, olhando para o homem a sua frente com desdém. Mas ele nada falou, apenas se virou, mostrando-lhes os ombros truculentos, da forma que Riven não esperava. – Por que diz isso?
Os olhos negros de Darius voltaram a capturar, rindo dela.
– Ao ser bem lapidada, torna-se uma boa arma para ser manuseada.
– Diz isso como se todos fossem peões... Como se todos pudessem ser influenciados, como se todos pudessem ser chantageados!
– Não comece com suas asneiras. Não se trata de uma questão de resistência, e sim de aptidão. O metal que forma o aço nunca será o mesmo, sempre haverão impurezas. Cada mente se adaptará as suas próprias tendências em se tornar ferramentas, e não o contrário.
– Mas as pessoas boas? Digo, as mentes boas?!
– Os fracos, – A voz de Darius começou a soar fantasmagórica, endemoniada. – Riven, – Quando ele repetira seu nome igual deveria ser na realidade, a sua face deu lugar a uma enxurrada de névoa. – quebram como todo metal podre.
E depois, sua longa espada rúnica apareceu, quebrando-se e virando mil ruínas.
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Riven acordou em um sobressalto. Seu peito bombardeando ar e sangue, suas roupas de inverno colando com o suor e seus olhos âmbares arregalados no começo da manhã. Ela passou a mão entre os leves fios platinados, levando-os para trás em uma tentativa de amparo. Encolheu suas pernas para si, levando-as junto ao peito e as agarrando.
Ela não tinha medo de pesadelos. Nunca tivera. Espíritos, demônios, criaturas bizarras e todas as lendas urbanas jamais a preocuparam. Em sua infância, jamais acreditara que a sua morte viria pelas mãos de seres sobrenaturais. Ela não conseguia se desprender do mundo real.
Ela tinha medo dos homens. Não importando o gênero, nem ligava se era homem ou mulher, o que a apavorava eram os humanos. Para Riven, humanidade não era sinônimo de um conjunto de boas ações, era a simples prova que todos eram semelhantes.
E aquilo significava que o mal estava em todos.
Tentou por anos ignorar essa verdade. Conheceu e ajudou pessoas da quais em seu julgamento pessoal eram dignas de serem chamadas de boas pessoas, tentando-se afastar de toda a maldade que já presenciara e que ainda presenciava.
Sua mente, com o passar dos anos, pareceu ser camuflada por ideias de pacificação e bondade, onde tudo parecia surreal demais. A verdade era que Riven estava sendo ignorante e beirando a egoísta, querendo enxergar o mundo a mercê que desejava. E quem a mostrou isso – obviamente da forma mais estúpida e agressiva possível – era a pessoa de seu sonho/pesadelo.
Por isso, levantara de sua cama e colocara seu corpo a andar pelo navio, tentando ignorar a lembrança das primeiras conversas que tivera com Darius. E ter um pesadelo com aquele homem também não era sinal de uma sanidade mental limpa.
Foi quando ela viu o novo subordinado da casa Du Couteau. Ele estava sentado em cima de um barril, com uma de suas pernas para fora do navio, já que o barril era quase da mesma altura do suporte. Não conseguia ver o seu rosto direito, já que o capuz da jaqueta e o lenço preto que usava quase escondia-lhe a face toda.
Ela apenas conseguia ver os fios castanhos saindo do capuz, brilhando em dourado com o nascer do sol.
– Você não tem medo de cair? – Ela falou na tentativa de lhe dar um susto, mas o que recebeu foram apenas olhos inexpressivos a fitando.
– Quem seria o tolo a cair no mar nesse inverno? — Uma risada foi ouvida por de trás do pano.
– E se eu fizesse... – Riven tentou tocar nos ombros dele, e a palavra “isso” saiu de forma sussurrada quando ele pegou as suas duas mãos, prevendo seus movimentos.
Talon desceu do barril e soltou-lhe as mãos, enquanto as cruzava sobre o peito.
– Está na lista dos melhores assassinos noxianos, mas seus movimentos são tão previsíveis. – “Mais previsíveis até que da Katarina”, ecoou em sua cabeça, mas ele sequer pensou em o pronunciar.
A face de Riven se enrijeceu totalmente com o comentário, e com um rosto de desgosto ela soltou um: Que diabos que todo mundo fala isso? Seguido de um: Eu não sou uma assassina!
– Se ofendeu? – Ele continuava a encarando com aquela mesma face indiferente, não parecendo se importar com nada.
Resolvendo o ignorar, ela deu de ombros, encostando seu antebraço no suporte do navio e olhando mar a fora. Soltando um longo suspiro, ela apreciou a vista com o mesmo rosto de desgosto, uma mistura de tédio e frustração. Voltou o seu olhar a Talon, irritada sem motivo com a paisagem. Mas franziu suas sobrancelhas quando o viu andando até a escada.
– Caiu da cama?
A sua voz entrou em forma de provocação nos ouvidos de Talon, que se esforçou para não xingar aquela mulher.
– Nem se eu quisesse eu conseguiria. – Ele riu enquanto parava de andar e virava-se novamente para ela, encostando-se agora na parede de madeira. Estranhamente, a conversa de Riven era mais agradável do que ele imaginava.
– Hã? – Ela sentou-se em cima do barril onde estava antes, o olhando com os olhos âmbares em dúvida. Talon apenas ajustou o lenço contra sua face, e quando ela percebeu que ele a ignoraria, Riven prosseguiu: – Mas tá tão cedo né... O sol do inverno acabou de nascer, não me diga que estava com frio?
– Você ainda não sabe o que aconteceu durante a noite. – Ele concluiu ao olhá-la.
A feição da mulher mudou de semblante. Se antes ela tinha uma cara de dúvida, instantaneamente ela virou uma cara de preocupação, sendo totalmente oposta a anterior.
– Angus e Taynana morreram ontem. – Talon continuou, ignorando os olhos arregalados de Riven. – Katarina descobriu que ela o matou, e depois o vingou em seguida.
– O-o quê? – A sua voz quase não saíra de sua boca. Ficou poucos segundos tentando processar a informação, e logo depois sua face queimou. – Por que ela o matou?!
– Eu sei lá. Katarina estava encarregada disso, mas a única coisa que ela conseguiu foi rasgar a barriga da vadia.
Riven desceu do barril e andou até ele, quase em fogo.
– Usando o cérebro depois, como sempre.
A boca de Talon retorceu um pouco ao ouvir Katarina ser criticada tão de perto, e ainda mais não vindo dele. Agradeceu a si mesmo por usar justamente o lenço naquele momento, não demonstrando suas feições para que pudessem tão facilmente o decifrar.
– Ela sabe de algo, mas não vai me contar até ter certeza.
– Eu sei disso. – Ela voltou a lhe dar os ombros. Passando a mão toda hora entre os fios platinados e os levando para trás, ela ameaçava andar de um lado para o outro, mas continuava estática. – Mas ela não pensou nem ao menos em interrogar essa mulher sob tortura? A Katarina tem pregos no lugar de neurônios?
– Angus era da equipe dela. – Talon se desencostou, sentindo seu sangue correr com mais velocidade. – Você acha que conhece a Katarina, mas fica brava quando não tem resultados imediatos.
– Eu fico brava com a imprudência dela!
– Com a minha? – A voz de Katarina ecoou pela escada, enquanto seus passos ainda eram ouvidos subindo os degraus. – Você quer que eu te conte o que eu sei, Riven? – Os olhos verdes não brilhavam em nada, nem em fúria e nem em raiva, pareciam tédio puro. – Angus está morto. Taynana atirou contra um buraco que tinha entre as paredes dele, e o pendurou no mastro principal. Ela não se importou em limpar a sua cama de sangue ou mentir ou dar explicações sobre o seu feito. Ela o matou quando viu uma oportunidade.
Os olhos âmbares desviaram dos verdes, envergonhados e procurando abrigo nos castanhos de Talon. Como se doesse a olhá-la, ele desviou o olhar, focando na mulher ao seu lado.
– Você disse que não é uma assassina, mas percebe que tenho faro para identificar mortes sem motivo. – Ela pareceu jogar as indiretas no ar e Riven as captou rapidamente.
– Você quer dizer que tem algo por trás disso?
– Eu não irei te falar agora, e nem aqui. – Katarina olhou para o chão de onde subia a escada. – Esperaremos o resto acordar para jogar os corpos ao mar.
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O sol de inverno beirava ao seu ápice quando todos acordaram, escondido as vezes entre pesadas nuvens, ele aquecia as pessoas que esperavam a queda dos corpos. Alguns apoiados no suporte que cercava o navio todo, outros encostados nas paredes enquanto os marujos trabalhavam. Mas seus olhos também eram curiosos, todos queriam ver o momento da queda.
Não foi difícil convencer as pessoas da morte dos dois. Aro e Cloud testemunharam e contaram suas versões, e o ânimo de Riven pareceu dar uma freada com isso. Alguns sentiram-se mais aliviados por não estarem mais no mesmo navio que aquela mulher, mas no final todos observavam.
Os corpos estavam enrolados em lençóis brancos, e aqueles que os atiravam no mar eram dois marujos que se ofereceram para isso. Não era apenas Taynana e Angus, aqueles mortos por aquela mulher também começavam a ser jogados.
Algumas palavras eram ditas por poucos homens, mas podia-se ver na face dos que falavam que as palavras não trariam os mortos de volta. Eram mentiras para não se deixar passar em branco, mas em momento algum aquilo era errado. Os mortos não as ouviam, mas consolava a quem permanecia.
Katarina apoiava-se no suporte, igual Riven havia feito durante a manhã. Os olhos verdes pareciam ir longe, atravessavam o mar e desejavam por terra firme. Talon estava de braços cruzados ao seu lado, observando a queda dos corpos.
– Eu quase ouvi a conversa de vocês dois desde o começo. – A voz chamou sua atenção. Talon olhou para ela, mas Katarina mantinha o rosto ao mar.
– Ciúmes, Miss Du Couteau? – Ela virou o rosto e fitou as pupilas castanhas.
– Bem do contrário. Você estava me defendendo.
– Quê? – Ela tentou ignorar o sorriso que nascia no canto dos lábios enquanto observava o rosto de Talon ser contraído, mas quando percebeu que não conseguia o conter, ela levou sua mão na boca. – Cansou da realidade e decidiu se iludir?
– Mas a Riven sempre foi assim. – Katarina resolveu o ignorar, abaixando a mão e mostrando-lhe um fraco sorriso. – Já parou para pensar que somos tão acostumados? – Ela desviou o olhar, fitando o corpo que era engolido pelas águas. – Desconfiando de todos, vivendo nas sombras de possíveis traições... Noxianos são assim. Preferimos a proteção da lâmina do que os sussurros das palavras, elas mentem. Mas Riven não... Ela é diferente.
Talon apenas a olhou enquanto ela falava, observando e gravando suas expressões. Quem estava diferente era Katarina, olhando para o mar como se ele fosse a amparar de volta. Mas ele não iria avisá-la, não diria para ela que parecia fraca, pois mesmo ele ansiando por isso, ela não estava sendo. Talon percebeu que Katarina as vezes gostava de dizer palavras bonitas, talvez aquilo fosse um consolo.
– Você está triste com a morte de Angus. – Ela virou novamente a cabeça e voltou a fita-lo com os orbes verdes brilhando em dourado.
– É a primeira vez que vejo você errar, Talon. – Os dentes brancos apareceram em um belo sorriso. – Meu dia parece ótimo.
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Quando a tarde começou a cair, alguns assassinos começaram a fazer uma roda em torno de um lampião que já era aceso. Depois que os corpos de Angus e Taynana foram jogados nas águas, não houvera muita coisa para se fazer. Aquele horário já era quase meio-dia e o almoço das pessoas no navio já começava a ser preparado. Após serem alimentados, os assassinos se dividiram novamente.
Aro voltava à cabine de comando, Cloud e Daiki serviam de sentinelas no quarto que era das bombas. Katarina, um pouco influenciada por Riven tentava fazer algo comestível que fosse doce com os ingredientes da cozinha, enquanto a mulher a ajudava. Caleb havia dormido em sua cabine como se fosse um turista, e Talon subira novamente em cima do mastro principal.
Mas agora, com o início da noite, todos se encontravam ao redor do lampião – exceto Aro que continuava navegando. A maioria bebia rum e o centro das atenções era Riven, que estranhamente não era a mais bêbada ali.
– Eu disse que ela iria cozinhar bem. Claro que não foi o melhor bolo que eu já comi, mas as vezes – só as vezes – a Katarina é boa em seguir receitas. – A platinada falou, enquanto levava a caneca à boca.
– Mas então cadê esse famoso bolo? – Daiki perguntou com uma de suas sobrancelhas grossas levantadas.
– Ela comeu tudo. – Katarina falou piscando longo ao olhar Daiki e se encostando na curva do suporte de madeira. – A Riven me fez de escrava dela, me obrigando a fazer esses... bolos... super difíceis. – Obviamente ela era a pessoa mais bêbada ali, já que ela mesma tinha começado com essa roda.
– Sozinha? – Caleb tentou olhar sério para Riven, mas ele também estava já bêbado. A mulher ascendeu que sim com a cabeça, enquanto seu sorriso era apenas uma curva alegre no rosto. – O bolo era do que pra você tem comido tudo?
– Laranja. – Katarina falou olhando rápido para Talon, que estava ao seu lado mas não demonstrava reação alguma.
– Só avós gostam de bolo de laranja, Riven. Você por acaso é alguma velha?! – Caleb falou enquanto debochava da cara que ela fazia.
– Não diga isso, os bolos de laranja que as jovens ionianas fazem são uma delícia! – Daiki disse.
– Aposto que você queria comer outra coisa também. – Caleb bateu nas costas dele, enquanto ria e Daiki o acompanhava.
– Não diga nada sobre Ionia se não quer perder sua língua, traidor. – Katarina disse com um sorriso no rosto, debruçando-se e apertando as bochechas de Daiki.
– Eu ouvi que seu pai fez dele um subordinado, é verdade Katarina? – Caleb perguntou.
– Não digo que não. – Ela soltou o rosto do homem, arrumando sua postura e olhando para Talon. – Ele parece ter uma... – Os olhos castanhos que a fitavam eram sóbrios, e ao perceber isso, o sorriso em seu rosto aumentou. – ... queda por traidores... – Ela cerrou os olhos. – por mentirosos. Talvez ele se identifique.
Ela moveu sua cabeça, desviando o olhar mas encontrando com os olhos negros de Cloud no meio do caminho. Eles pareciam a seguir por onde fosse, mas ela estava bêbada demais pra ter certeza de alguma coisa.
– Venho servindo ao Alto Comando, Caleb. – Daiki pegou o barril e voltou a servir as canecas vazias, enchendo mais a de Katarina. – Marcus Du Couteau só me dá algumas informações, trocamos algumas cartas. Mas você deveria falar diretamente a mim, não? – O ioniano se virou totalmente para Caleb. – Ou você tem medo de traidores?
– Eu só queria ter certeza de quem era o novo verme da casa Du Couteau. – O sorriso no rosto do moreno se tornou amargo. – Uma casa de renome deve ter muitos não é? – Seus dentes trincaram e sua pele começou a esquentar. – Vermes iguais todos que vivem dela.
– O que você disse? – A voz de Katarina soara baixa, quase em um sussurro, como se o desse uma chance.
Caleb automaticamente se pôs de pé e Katarina o seguiu. O brilho divertido em seus olhos se dissipou enquanto o silêncio reinava.
– Todos são vermes, se aproveitando da desgraça alheia para se dar bem. – Katarina riu quando ele terminou de falar.
– Isso eu realmente não poss—
– Principalmente você. – Ele a cortou. – E a puta da sua irmã, que ninguém tem a coragem de chamar de puta.
O sorriso nos lábios da assassina voltou a morrer. E instantaneamente o som do soco que Katarina o deu pairou pelo ar, enquanto ele voltava a virar o rosto para encará-la, com sangue escorrendo por sua boca.
E para Talon, diante de seus olhos, tudo andou lentamente, como se esperasse que ele mesmo intervisse. Caleb encostou Katarina com rapidez e brutalidade contra o suporte de madeira. Ele, que no meio do dia batia um pouco acima do umbigo de Katarina, continuava da mesma forma semi ofensiva.
Foi quando Caleb a empurrou que Talon pode ver uma outra função para aquele suporte.
Conseguiu ver o silêncio no ar, pesando sobre os assassinos em forma de surpresa. Quando Caleb pôde perder o seu controle, todos pareciam se levantar em câmera lenta, prevendo e tentando impedir o desastre.
Mas já estava feito. E quando ele próprio se levantou, a dança dos cabelos vermelhos e as botas pretas foram as últimas coisas que viu de Katarina. Logo após, pôde-se ouvir o som do corpo colidindo contra a água.
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