A Dominação De Lâminas
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Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Cada átomo do corpo de Talon favorecia ao atordoamento que ele se encontrava. Cada fibra de seu ser, de moléculas até os pelos estavam em uma doce paralisia que o havia deixado desconcertado. Algumas memórias vieram em sua mente, e a única coisa que ele conseguiu pensar era em como aquilo que chamavam de destino podia surpreender.
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Os feixes de luz atrapalhavam a visão de Talon. O cair da noite haveria de ter deixado o ambiente em pena escuridão, se não fosse pela lanterna se movimentando rapidamente para cima e para baixo. E mesmo estando tudo preto, Talon conseguia ver por trás daquelas sombras. Ele conseguia ver as íris heterocromáticas com um brilho divertido, quase paranoico. O direito castanho e o esquerdo azul fascinavam Talon por ser tão desconhecido, por ser tão misterioso. A dona daquele olhar penetrante era tanto ingênua quanto louca, e Talon adorava mergulhar no vazio.
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Antes de fazer qualquer coisa, ele voltou sua atenção para Katarina. Os poucos segundos que ela ficou parada no mesmo lugar ele percebeu três coisas. Uma, nunca havia visto Katarina com tanta raiva. O verde de seus olhos era uma cor mesclada com o cinza. Os dentes brancos estavam cerrados com tanta força que Talon sentiu um arrepio pela nuca. De fato, ela não conhecia Claire Yvori, mas o estupro não era uma coisa que deixava Katarina feliz. E isso ia para a segunda coisa. Ela deveria odiar estupradores. Ela deveria sentir aquela raiva nascendo como uma agulha lhe espetando a pele até ferver o seu sangue de maneira estrondosa. Ela deveria ter vontade de cortar os órgãos do estuprador pedacinho por pedacinho. E como consequentemente, como terceira coisa, ela o odiaria.
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– Já parou pra pensar em como nos conhecemos? – A garota sorriu fraco enquanto passava a mãos com dificuldade pelos fios castanhos de Talon. – Já parou para pensar em como você pode ser desprezível, Talon? Que tudo, tudo aquilo que você sempre busca, e sempre buscará, vai ser apenas a sua condenação para um futuro que só haverá morte? O destino fez seu caminho com sangue, Talon. E nele só haverá só dor, sofrimento e todos aqueles que você ama irão embora. Te deixarão como se você não fosse nada, mas uma coisa é certa, nunca vão te amar como eu te amei. Mas agora, está fadado à solidão. – Com essa ultima palavra, ela olhou uma ultima vez para Talon e fechou os olhos para sempre.
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Talon era um estuprador. Ele havia encurralado uma garota contra um beco escuro e abusara dela. Não que isso fosse novidade para um assassino, mas a novidade era o que veio a seguir do estupro. Ela, a garota, havia gostado. Ela, com toda a inocência de mundo que não tinha, havia lhe agarrado e beijado seus lábios, como se estivesse sedenta por toque. Nos meses que ficaram juntos, Talon comprovara que Juliete tinha uma obsessão por ele. Nunca foi de certo estuprar alguém, ainda mais uma jovem tão problemática quanto Juliete. O que passou de estupro para sexo, elevou seu nível. Juliete era como uma flor murcha entre tantas outras flores cheias de vida. Tabaco sem nicotina. Juliete era um estrago no seu peito. O amor doentio que ela tinha por Talon era algo bem sufocante. E amor era a única palavra que Talon sabia que Juliete tinha por ele. Claro que a palavra doentio vinha depois, mas ela criou uma relação de submissão a ele tão extrema, que só faltava ela respirar o ar por ele. E se sentiu tão sufocado que após matar a sua família inteira, Talon a matou com um aperto no coração, como quem sacrifica um cãozinho. Mas antes disso, ele havia passado da fronteira do desejo e da paixão.
Juliete era uma tábua. Ela parecia uma criança de tão pequena e tão sem curvas que era. A pele era de um branco que às vezes o enojava, um branco quase como cinza. Os olhos eram peculiares, e Talon sempre achou que era o motivo de sua diferença: íris heterocromáticas, uma castanha e uma azul. Os cabelos lisos e pretos igual à noite, tinham um perfume de flores mortas. Juliete era, sem dúvida, uma garota conturbada. Tinha a sua mesma idade – dezessete anos na época – e parecia ter treze. Ela lhe prendia de uma forma da qual ele não conseguia escapar. E Talon sentiu, lá dentro, que precisava de Juliete de uma forma que chegou a se surpreender. As brigas e o pensamento de perdê-la o fazia beber. Beber muito, como se o único motivo para ser feliz estivesse ali. Não que Talon pensasse em uma felicidade, mas se sentia leve estando ao lado da pequena garota. Mas em questão de meses, o peso sobre seus ombros se tornou cada vez maior e Talon recorreu à arma de fogo.
E agora, parado enquanto observava Katarina perdendo o controle, Talon teve vontade de mudar o seu passado. Teve vergonha de si mesmo, daquela personalidade destrutiva que ele era. Não importava se Katarina era sádica, uma coisa era diferente da outra. Ela o odiaria com todas as forças, se não o matasse. E Talon viu, escondido lá entre suas entranhas, que estava ultrapassando novamente a fronteira do desejo e da paixão. Martirizou-se em pensamentos, mas a única coisa que fez foi observar Katarina ir até Sebastian Nortidks e o encostar-se à parede, pressionando a mão contra a garganta dele.
– Canalha... – Ela rangeu entre os dentes e fincou o punhal no ombro dele enquanto quase explodia de raiva.
Mas algo totalmente inovador apareceu no ambiente. E Talon sentiu tanto ódio e tanto nojo quanto de si mesmo. Um homem de grande porte carregando uma bandeira em suas mãos e entrando pela porta caída no chão, como se fosse o salvador da nação. Depois que eles puderam ver a sua face, Katarina não sabia quem atacar primeiro. Estava dividida entre atacar Sebastian Nortidks ou atacar aquele a quem ela deveria ter matado, Garen Crownguard.
– Katarina Du Couteau, retire as mãos desse homem. – Garen disse em um tom de autoridade e Katarina o olhou com toda a raiva que tinha, sem retirar o punhal que cravava Sebastian Nortidks à parede rochosa.
Talon ficou em pose defensiva na frente de Katarina. Não deixaria que aquele homem a machucasse mais, ou até mesmo a impedisse de fazer qualquer coisa. Olhou rapidamente para a cama que estava atrás de si e viu a menina chamada por todos de Claire. Os olhos dela não tinham mais o brilho das lágrimas anteriores, e sim um brilho esperançoso, como se a salvação estivesse a caminho.
– Por que eu deveria retirar as mãos desse homem, Garen Crownguard? – Ela respondeu Garen com um tom impassível, como se estivesse em dúvida de mover uma peça em um jogo de xadrez.
– Me mandaram uma carta pedindo ajuda contra esse senhor. – Ele riu e retirou um papel com uma escrita bem legível do bolso. – Ele agora é propriedade da Cidade-Estado Demacia e irá a julgamento.
– Com que direito você tem de vir em Freljord e prender um homem, que você denomina senhor, e levá-lo sob custódia?
– A carta foi bem clara quando disse que necessitava ajuda. Foi essa menina que a mandou, Miss Du Couteau. – Com o término da frase, Talon correu até atrás de Garen e fincou levemente o punhal em suas mãos, em uma ira plena.
– Como você sabe que ela mandou? Ela só tem dez anos e não sabe escrever. – Talon sussurrou no ouvido de Garen e Katarina aproveitou o momento de distração do demaciano para retirar o punhal do ombro de Sebastian e perfurar o seu coração.
– Katarina...! – Garen rangeu entre os dentes e se soltou de Talon, avançando na direção de Katarina. – Como você se atreve a matar um homem cujo eu irei levar para a justiça?
– Como você se atreve a defender um estuprador? – Ela disse se levantando e retirando o punhal, colocando-se em modo defensivo. – O seu senso de justiça é nada mais do que pura hipocrisia, Garen Crownguard. Sangue se resolve com sangue.
– Vocês noxianos são tão animalescos! Agem como se o gume de sua espada fosse tudo. Como se a sua lâmina lhe dessem poder. A violência não é tudo! – Garen fez seu discurso enquanto Katarina ria descaradamente.
– Nós noxianos somos animalescos? – A risada dela ecoou por todos os lugares do ambiente. – Animalescos, Garen Crownguard? – Ela disse tocando levemente a lâmina no pescoço de Garen. – Me diga como dói usar essa sua máscara. Me diga o quão você se recontorce durante as noites só em busca de sangue. Diga que a violência não resolve tudo! Diga que se eu não fincar o meu punhal no seu coração, o seu senso de justiça dirá que eu poupei a sua vida. Diga que tudo vai se resolver com máscaras, igual as quais você usa, tentando esconder o seu lado animalesco. Antes animais do que moldados.
Talvez a discussão tivesse se alongado por mais tempo se Talon não tivesse retirado o éter e colocado no pano, logo depois para fazer Claire desmaiar. Katarina havia saído vitoriosa dessa. E não era só pela ligação que estava tendo com Talon o tempo todo, e sim também pela força das palavras que tinha. A violência realmente não havia resolvido aquele caso dessa vez, mas que Katarina havia adorado matar Sebastian, ela havia. E só não podia matar Garen porque ela sabia que atrás da casa havia mais alguns soldados dele, sem contar os guardas da tribo. Viu Talon pegar Claire no colo e saiu andando, deixando Garen furioso para trás.
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Os passos de Nul eram tão lentos quanto passos de pessoas andando. Sem dúvida, o cavalo estava cansado e Katarina não podia fazer nada contra isso. Talon estava comandando, Claire estava atrás dele, e Katarina a tentava esconder com seu sobre tudo. Não acreditava que aquela pobre menina estava sendo estuprada todo esse tempo por um homem do qual ela não podia se defender. E depois de pensar, percebeu que a única salvação que ela sonhava em ter era Demacia. E não Noxus. Katarina tentava saber como Claire Yvori deveria imaginar os noxianos. Mas uma coisa era certa, ela gostando ou não, estavam indo para lá.
Depois de certo tempo, Talon conseguiu concretizar seus pensamentos em palavras e criou coragem para falar com Katarina sobre Juliete. Não sabia o porquê, mas queria esclarecer para Katarina que ele não era um monstro. Só que ele era sim um monstro, ele abusara de alguém. E pela primeira vez, Talon teve medo do que Katarina acharia dele. Teve medo de ela nunca mais olhar em sua face, mas se ela não o olhasse, ele sairia ganhando, apesar de com o coração quebrado. Isso porque aquela sua vontade de fugir de Katarina não havia passado totalmente. Ela havia diminuído drasticamente, mas ela ainda estava lá, guardada na sua caixa.
– Katarina. – O tom de sua voz foi tão cortante e no mesmo momento, Katarina percebeu que algo estava errado.
– Sim? – Lhe respondeu enquanto observava os dedos brancos de Claire, aquecendo a mão pequena com as suas próprias.
– Já te contei a primeira vez que assassinei alguém. – Ele engoliu seco e agradeceu por não poder olhar dentro de seus olhos.
– Na noite que Cassiopeia chegou à mansão. – Ela completou, tentando entender onde ele queria chegar e tentando conter as batidas descontroladas em seu peito.
– Eu quero ser sincero. – Talon agarrou as rédeas com mais força. Katarina o escutava atentamente, imaginando o que viria a seguir. – Eu estuprei alguém.
As palavras foram se misturando com a neve, enquanto o vento trazia e levava o silêncio. Assim foi por horas, e Talon percebeu que talvez tivesse feito a maior besteira da sua vida. Só que não tinha como mudar o seu passado. Era uma verdade tão simples quanto respirar. Ele havia estuprado alguém. Ele havia se apaixonado depois por esse alguém. E se sentia na necessidade de falar para Katarina que não, que ele não era um monstro. Que ela se tornou sua depois, que ela se apaixonou por ele depois. Mas isso não mudaria que ele havia forçado alguém a algo que não era da rotina de tal pessoa. E nem da dele.
Só que Katarina sabia. Era esse ponto onde suas ideias se divergiam. Katarina sempre soube de tudo que Talon havia feito. Soube de tudo através da sua mania de querer que o subordinado de seu pai fosse melhor até que ela. Era ela quem mandava os soldados tentarem o matar. Era ela quem estava por trás das pesquisas feitas para descobrir quem era Talon. Talon, sem ela saber, havia se tornado o seu divertimento nas horas vagas. Pesquisar sobre a vida dele, mandar o matar, o seguir e estar em alguns lugares não era nada além de pura diversão. Mas aquela declaração não só a surpreendera de duas formas, como também a deixava cada vez mais derretida por ele. Ela sabia que Talon havia estuprado alguém no passado, era algo bem perceptível só pela personalidade dele. Só que o que mais a surpreendera, era que ele havia lhe contado. Ele havia dito até que queria ser sincero! Aquilo inflamou seu coração de um modo do qual ela não podia escapar, do qual ela não podia negar que aquilo não era só atração.
– Me conta. – Depois de algumas horas, ela disse isso com uma voz tímida, querendo saber o porquê, sendo curiosa para saber o que passa na mente de um estuprador.
– Um homem no subterrâneo tinha uma fortuna arrebatadora. Apesar de eu ser sozinho, eu tive companheiros, Kavyn é talvez a parte mais obscura disso que eu chamo de vida. – Ele riu para descontrair a sua desgraça. – Mas, não é sobre Kavyn isso. A questão é: Kavyn arrumou um serviço. Locktor Louvain era um homem que precisávamos exterminar do subterrâneo, mas pegando o dinheiro dele. E quando eu o encontrei em um beco, ele estava acompanhado com a sua filha. O plano era matá-lo ali, sem testemunhas, mas ela estava ali. E como havia me visto, a única coisa que fiz foi fazê-lo desmaiar. Mas eu não sabia o que fazer com a filha dele. Eu... Eu a peguei pelos cabelos e a beijei. A face era tão adorável que parecia uma boneca. Mas, isso foi só o começo.
– Não parou no estupro? – Ela disse não com uma voz de quem estava o julgando, e sim com uma voz que chegava até ser amável.
– Ela me correspondeu. – Talon engoliu seco. – O nome dela era Juliete e acabou se apaixonando por mim, como se estivesse sedenta por toques masculinos. Depois eu descobri que ela tinha um amor doentio por mim.
– E ela era correspondida? – Aquilo saiu pela boca de Katarina como um sussurro, raspando a sua garganta com um sofrimento que não existia até tal momento. Katarina queria que ela não fosse correspondida, queria que Talon desejasse somente a ela. Sendo no passado ou não.
– De certo modo. Mas, ela me sufocava. E isso resultou com que eu e Kavyn déssemos um fim na família dela, claro que depois eu consegui a confiança de todos. Eram seis, Locktor e sua esposa Marie, e seus quatro filhos: Hector, Leroy, Vallus e Juliete. Ela era a caçula e a única mulher. Fiquei seis meses em uma companhia que eu achava ser agradável, mas era sufocante. Posso dizer que foi o único relacionamento que tive com uma mulher.
– Hm. – Ela murmurou, tentando não demonstrar sua decepção. Depois que conseguiu controlar o seu tom de voz, prosseguiu: — E parou aí?
– Eu a matei também. – Ele disse e depois suspirou. – A matei com um tiro no coração, com o meu próprio na mão. Mas, eu simplesmente não aguentava mais. E não colocaria em risco a chance de perder um bom dinheiro por paixão.
– Era só paixão? Você não... A amava? – A sonoridade da voz de Katarina arrepiou todos os pelos do corpo de Talon. Se ele pudesse, ele pararia o cavalo e diria que não havia motivo para aquela voz, já que Juliete estava enterrada. Mas, ele não diria porque sabia que Katarina nunca assumiria a posição de necessitada por ele, como Juliete havia feito.
– Eu nunca amei ninguém, Katarina. – Seu tom foi tão impassível que Katarina não pode fazer nada além de ficar em silêncio por alguns minutos.
– A matou como se sacrificasse um cãozinho? – Ela disse por fim, quebrando o silêncio.
– Eu sempre uso esse mesmo termo. – Ele riu e se virou para olhá-la. As pupilas verdes refletiam uma ternura que jamais havia sido visto pelos olhos castanhos.
– Você é uma caixinha de surpresas, Talon. – Ela sorriu e Talon pode ver. Sentiu-se ser abraçado por trás e sentiu-se aliviado como há tempo não se sentia. E sorriu também, mas não deixando que Katarina visse. Não queria dar a ela o gostinho de saber que ela também já estava em seu coração.
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– Eu te não disse? Você está fadado à solidão. Irá somente acabar em ruínas. Você sabe que no fundo que a maré sempre vai estar contra você.
Talon abriu os olhos e levantou sua cabeça, redobrando sua memória. Se viu em cima do cavalo, encostado nas costas de Katarina que controlava Nul. Claire estava na frente com ela, e seus olhos azuis estavam abertos. Talon se lembrou das palavras ecoadas em sua mente com aquela voz que ele conhecia tão bem. Olhou para o céu e viu os flocos de neve caindo suavemente do céu. Sua melancolia era tão branda como a leveza daqueles pequenos flocos. Olhou Katarina que mantinha seu foco na estrada que se apagava com a neve. Estavam chegando perto de Noxus já e a neve começava a cair. A estrada estava quase sendo apagada pelos flocos, mas mesmo assim Katarina não parecia se importar com a estrada.
– Você acordou? – Ela disse sem lhe olhar. – Estamos quase chegando, quero você acordado. – Talon coçou o olho e ignorou as palavras que ecoavam em sua mente. – Viu quem acordou? – Ela se dirigiu para Claire. – O nome dele é Talon, trabalha para meu pai.
– Oi, Talon. – Claire disse com uma voz suave, bem meiga. Um sorriso quase nasceu nos lábios de Talon, se ele não soubesse que aquela menina se encontrava na mesma posição de Juliete há anos atrás.
– Olá. – Disse um tom amargo proposital, não querendo causar boa impressão para a menina.
– Ele é bem grosso mesmo, não liga. – Katarina disse um tom divertido enquanto olhava para Talon. O olhar era mistura de tantas coisas, mas sobre tudo era de provocação. Ela queria lhe provocar, queria lhe desconcertar a mente.
– São só os seus olhos que veem isso, Katarina. – Ele disse quebrando o gelo, e fazendo Claire sorrir, mostrando seu sorriso sem um dente bem no cantinho. Talon riu e percebeu que por fim, ela era apenas uma criança. – Você não tem vergonha de sorrir quando não tem dentes?
– Talon! – Katarina o repreendeu.
– O que? Eu teria vergonha.
– Eu não tenho vergonha. É uma coisa normal. – Ela disse enquanto cruzava os braços, entrando na brincadeira.
– Como você sabe que é normal? – Talon franziu o cenho, fingindo não entender.
– A Avie me disse que era normal. – Ela disse quase com uma voz chorosa, como se desconfiasse de Avie, sendo quem ela fosse.
– Avie? – Katarina perguntou.
– Era a empregada do Sebastian. Ela trazia comida para mim e lia algumas histórias de Demacia. Foi ela que escreveu a carta pedindo ajuda. – Claire ergueu a cabeça e olhou Katarina, a respondendo como se fosse sua mestre. E Talon não deixou isso passar despercebido.
– Ela sabia do que ele fazia com você? – A voz de Katarina foi extremamente bem planejada, como se estivesse equilibrando as palavras para que a mágoa não viesse à tona.
– Sim... – O olhar de Claire se perdeu enquanto ela dizia isso. Katarina pegou uma de suas mãos pequenas e a segurou.
– Suas mãos estão geladas. – Katarina falou quase em um sussurro e tentava aquecer as mãos de Claire com suas próprias.
Talon observava o quão Katarina estava se esforçando para gostar daquela menina bastarda. Ele admirou como ela a tratava de uma forma doce, e o que não era nenhum pouco previsto, já que Katarina se recusara a salvar a menina. Ela estava definitivamente mostrando um pouco de humanidade, e Talon percebia Katarina batalhando para conquistar um lugar em seu coração, mesmo sem saber.
Em um movimento rápido, a abraçou passando os braços em torno da cintura dela. Apertando-a com força, encostando sua face em seus ombros. Katarina virou o rosto para vê-lo, e foi surpreendida quando os lábios dele tocaram sua bochecha. Frios e úmidos, igual todo o pensamento que ela tinha de Talon. O desejo ardeu em suas entranhas, e a arrepiou. Os lábios de Talon ainda tocavam a sua face delicadamente. Katarina moveu seu rosto, fazendo os lábios dele descerem até seu pescoço. Talon abriu a boca e Katarina pode sentir o toque úmido de sua língua pela extensão da parte mais sensível de seu corpo. Virou-se totalmente para Talon, o olhando nos olhos. Quando o verde e o castanho se encontraram, Talon a ouviu gemer em sua mente. Aquele gemido leve e nenhum pouco grotesco. Um gemido de mulher.
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Quando chegaram perto da mansão, Talon ainda se encontrava agarrado a Katarina. E ele não iria se desfazer daquele abraço até que ela quisesse. Ele sentia vez ou outra, seu perfume no ar. Uma doce fragrância que se dissipava pelos flocos de neve e vinha ao seu encontro. Ficara com suas mãos em torno dela até que Marcus lhe dissera para descer, marcando um território que não precisava marcar. Quando o general viu Claire Yvori, ele havia preparado o seu discurso para que a menina compreendesse o porquê de começar a morar em Noxus. Não que ele planejasse ser um pai naquela idade, mas ele se esforçaria para dar pelo menos afeto para a pequena criança que estava em sua frente.
– Olá Claire, meu nome é Marcus. – O general disse enquanto se ajoelhava e ficava na altura dos joelhos de Claire.
– Oi, Marcus. – Ela disse timidamente.
– Sei o que vou lhe falar é estranho, mas... Eu sou seu pai. – Ele foi direto ao ponto como sempre havia sido em toda a sua vida. – Eu não sabia da sua existência até alguns dias atrás, e quando soube, pedi para que minha filha e meu soldado fossem lhe resgatar.
– Você... é meu pai? – As palavras não foram um choque para Marcus, mas alguma coisa dentro de si revirava, como se aquela menina nunca fosse o aceitar.
– Sim, Claire. Conheci Alba Yvori quando fui para Freljord. – Ele disse se levantando e retirando a neve de seus joelhos. – Agora vamos para dentro, está frio aqui fora.
Ao dizer isso, Marcus e Claire andaram lado a lado, enquanto Talon e Katarina se entre olhavam de uma forma descarada que Marcus fingia não ver. Entraram na mansão e Katarina olhou para trás, vendo apenas a imensidão branca que cobria a grama de seu jardim. Era oficial: O inverno havia chegado.
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