A Domicílio
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Notas iniciais
O relógio digital em cima da mesa marcava três e quarenta e cinco da manhã quando Trafalgar Law o encarou com desgosto. Havia sido mais uma madrugada de estudo para os exames finais da universidade e considerando a garrafa de café vazia como indicativo de seu estado, Law sabia que chegara no limite.
Fechou o livro e esfregou os olhos na tentativa de espantar o cansaço, sentindo o corpo doer por permanecer tanto tempo sentado. As semanas de provas estavam próximas e metódico como era encontrou nas madrugadas o horário perfeito para eliminar quantas matérias pudesse.
Assim que resolveu encerrar os estudos, o universitário do oitavo semestre de medicina dirigiu-se para o estreito banheiro do apartamento, deixando com que a água relaxasse seu corpo tenso enquanto repassava as informações que havia acabado de absorver.
Não demorou muito para que sua paz fosse interrompida pela agitação de seu vizinho acima.
O som inconfundível de vidro quebrado repercutiu em meio ao silêncio do edifício, fazendo com que os ruídos do chuveiro pouco colaborassem para abafar o barulho. Faziam cinco meses desde que havia alugado o apartamento em busca de privacidade, mas tendo de conviver diariamente com situações estressantes quase chegava a sentir falta da república.
Mesmo com a enorme quantidade de votos para a expulsão do morador em todas as reuniões organizadas no prédio, o assunto sempre acabava sendo abafado após alguns meses, dando brecha para que os incômodos continuassem. O próprio síndico parecia nervoso quando as reclamações surgiam, dispensando a maioria.
Trafalgar já havia esbarrado com o vizinho vezes o suficiente para compreender que eram totalmente opostos, dispensando a necessidade de qualquer interação. Ao bem da verdade, Law só soube o nome do homem quando participara de uma das votações a favor de sua remoção nos primeiros meses em que passara a ocupar o apto.
Eustass Kid era alto e ruivo, com uma aparência tão exagerada quanto seus comportamentos. Tudo em si era excessivo, desde a palidez de sua pele até as vestimentas espalhafatosas que chamavam atenção pelos cabelos espetados e uma quantidade enorme de piercings no rosto e orelhas. Muitos boatos circulavam sobre sua personalidade e profissão, mas no fim Law deduziu que a maioria, de fato, tinha medo do maior.
Não os culpava por isso, afinal Eustass parecia capaz de intimidar até mesmo um inocente filhote de gatinho.
O estrondo de uma porta fechada com violência retumbou no momento em que desligara o chuveiro, fazendo com que o estudante de medicina constatasse só então sua exaustão. A cabeça latejava e a imagem no espelho refletia as olheiras protuberantes abaixo de seus olhos. Terminou de se enxugar e vestiu a roupa de baixo, desabando na cama com os ouvidos sensíveis aos passos pesados do vizinho acima de si.
Mal havia fechado os olhos quando acordou sobressaltado pelo som insistente de sua campainha, levantando irritado pelo sono interrompido graças ao maldito morador.
Assim que abriu a porta prestes a censura-lo, a figura ensanguentada de Eustass Kid desabara inconsciente sobre sua soleira.
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