A Ditadura Stradivarius

6 A manhã cinzenta


A luz entrara pelos olhos de Carlos de maneira a praticamente deixá-lo cego, mas não parou de olhar a luz que da cidade emanava e destruía, um enorme cogumelo começara a finalmente se formar e o calor continuava, estavam muito distantes e não foram atingidos, mas era uma visão terrivelmente estranha, dava para ver o fogo se alastrando pelos restos do centro da cidade, Amanda se encolhera devido a luz e ao calor, mas ele continuava em pé, observando ao enorme cogumelo cinzento que se formara... O enorme cogumelo que destruíra tudo o que conhecia ou amava, choraria se o choque lhe permitisse, gritaria se a voz lhe saísse, mas tudo o que pode fazer foi olhar... Olhar ao fogo a se formar, olhar a terra a tremer enquanto a luz daquela... Coisa... Sobrepunha-se a todo o resto.

Não houveram momentos mais longos do que aqueles em toda sua vida dois jovens em cima de um morro, afastados da cidade viram tudo desaparecer como uma nuvem de poeira bem diante de seus olhos.

Amanda foi a primeira a reagir, a primeira a gritar e a chorar, em um desespero irracional, inconsciente e completamente animalesco... Ás lágrimas começaram a cair como cachoeiras de seus olhos, sua face se retorceu em agonia e tristeza de maneira tão irracional e instintiva que esta se viu obrigada a se encolher no chão, porém Carlos continuava em pé, em choque, parado e frio, observando ao enorme cogumelo já escurecido pela noite se formando, logo começa a se sentar, lenta e dolorosamente começa a se sentar e a se deitar no chão gélido, barro se prende ao cabelo deste e ao que restava das roupas, mas não se importou, não sabia o que fazer ou como reagir, apenas se deitou ali, como se esperasse pela morte que estava por vir, sabia o que era aquilo e sabia que não demoraria...

...

...

Ambos acordam um ao lado do outro, talvez em um gesto inconsciente tenham se emaranhado durante a noite úmida, estavam dentro do carro, não se lembram de sequer ter ido para La, mas ali estavam, ambos juntos no banco de trás com as portas abertas, olhos avermelhados e uma aflição pessoal que não daria para descrever com palavras, ambos se abraçaram carinhosamente antes de finalmente conseguirem racionalizar o que estava acontecendo não haviam mais lágrimas para se chorar, apenas um enorme vazio em todo o interior dos dois.

Carlos: — Precisamos... Ir.... Logo.... Não da para continuar aqui... — dizia o melhor que podia em pequenas pausas, estava triste mas sabia que precisava fazer algo, sabia que precisava agir rápido — precisamos achar os outros... Devem estar procurando a gente ... Precisamos ir... Não podemos ficar..

Amanda: — eu ... eu.... eu sei... – esta tentava se recompor o melhor que conseguia, ainda trêmula coloca as próprias roupas sujas enquanto tentava ligar o carro novamente, o carro não funcionava, tentou girar a chave novamente e o carro não funcionou novamente – o que... Esta acontecendo?!!! – dava pequenos socos e tapas na direção , em uma manifestação de raiva e medo

Carlos: — droga! A bateria já era ... Vamos ter que ir andando, vem Amanda... Precisamos sair daqui... – ao dizer isto se levanta e começa a pegar tudo o que fosse útil nas mochilas, uma corda, alguns suprimentos e comida desidratada, jogou na mochila um pequeno fogão portátil a gás e começou a pegar tudo, pegou uma faca já esperando o que sabia que iria acontecer...

Amanda: — eu não posso ! – praticamente gritou consigo mesma – meu pai deve estar preocupado... Minha mãe... Preciso falar com eles... Eles tem que estar bem... O carro vai funcionar! Tudo isso é um sonho... Isso é um sonho... daqui a pouco vou acordar na minha cama... a empregada vai me dar café na cama...

Antes que esta pudesse terminar seu delírio irracional de negação foi interrompida pelo jovem rapaz, ele parecia bravo, quase furioso, de modo que a assustou em primeira instância, a assustou de maneira que esta quase recuou.

Carlos: Chega! Amanda! Nada esta bem! Estão todos MORTOS ! OUVIU?! MORTOS! E SE NÃO QUISERMOS MORRER TAMBÉM TEMOS QUE SAIR DAQUI AGORA! Então largue de ser essa garota mimada pelo menos uma vez na vida... Seu pai esta morto, sua mãe esta morta ate a porra da sua empregada esta morta! TODO MUNDO NA MERDA DO CENTRO DA CIDADE ESTA MORTO! Temos que sair daqui logo!

A garota avançou contra o rapaz, ainda parte do delírio, com tapas e socos, alguns pontapés, esta foi segurada por ele enquanto este agüentava aos socos e chutes dela, logo a raiva e frustração se converteram em abraços desesperados e medo, ela começou ao abraçar e a chorar novamente, também triste ele a abraçou novamente, agora estava mais calmo, mas precisavam sair dali, volta a falar para ela, mas agora com uma voz doce e gentil, para tentar a acalmar.

Carlos: — Amanda... Desculpe... Eu sei que... Olha precisamos sair daqui... O carro não vai funcionar e nem os celulares, precisamos descer a trilha a pé... Achar os outros, vai ficar tudo bem... Prometo pra você... Vai ficar tudo bem, mas agora precisamos manter a calma.... Precisamos seguir – sorri o melhor que pode para ela acariciando aos cabelos dela, para tentar a acalmar de algum jeito – mas não podemos ficar aqui ta? Vamos ate La em baixo... La falamos com o Marquinhos e com a Ana...

Amanda: — tudo bem... Vamos logo, eles devem estar preocupados conosco já... Vamos...

Ambos colocaram suas coisas nas mochilas e começaram a descer a trilha úmida e lamacenta ate a chácara, a mesma não foi atingida pela explosão, mas era ali que os amigos deles estariam e tinham de descer rápido o sol estava a nascer naquele momento, tinham de ir embora da cidade, Carlos sabia que logo teria radiação para vir, e já estavam ali a horas, ele não entendia nada disso mas sabia que era perigoso e potencialmente letal.

A caminhada não foi fácil, o que eram alguns momentos na trilha de carro se converteram em longos minutos de caminhada cansativa e escorregadia, as botas pisavam em poças de lama e escorregavam em alguns trechos íngremes, as mãos seguravam em arvores ásperas e se cortavam com farpas e lascas soltas, não demoraram a ficarem exaustos, Amanda caiu no chão ofegando profundamente, as mãos estavam cortadas e feridas, os pés doloridos e o cabelo sujo, ela sorri o melhor que pode.

Amanda: — vamos parar... Só cinco minutos... Estamos exaustos e acabamos de passar da metade do caminho...

Carlos estava ofegante, mas ainda assim falou – não podemos parar, precisamos chegar La rápido, de La acho que podemos descer ate o estado de São Paulo, o governo vai esta ajudando as pessoas e...

Amanda: — porra Carlos... Eu quero sentar cinco minutos... É só isso que quero... Estou exausta e suja, minhas mãos estão feridas e meu cabelo esta uma desgraça... Só quero cinco minutos

Carlos: — tudo bem... Vamos parar, mas não aqui, vamos parar ali na clareira ali – sorri de leve e começa a andar lentamente ate a pequena clareira logo a frente

Ambos seguem ate o local, não era grande coisa, uma clareira pequena, em forma triangular, com alguns troncos caídos ao redor dela, ainda havia resquícios de uma fogueira que fizeram ali há alguns dias, também haviam marcações nas arvores com os nomes de cada um do grupo de amigos que fazia trilha juntos, Amanda se senta em um dos troncos e suspira.

Amanda – se lembra? De quando vínhamos aqui só para ficar sozinhos? E rir um do outro?

Carlos – como poderia me esquecer de momentos tão maravilhosos? – sorri para a mesma – ahh o tempo passou rápido... Esses anos de faculdade... Pena que logo acabarão

Amanda – e nós nos despedimos com eles? Nem pensar meu amigo, você vai ficar bem junto de mim... Vem, sente aqui do meu lado – indicava um local para o mesmo ao lado desta

O rapaz se senta um pouco tímido, mas agora a abraça sorrindo um pouco, olhavam em volta enquanto trocavam algumas poucas carícias ainda tremulas e temerosas.

O tempo parece voar enquanto estavam juntos, os cinco minutos viraram meia hora e logo coeçam a ouvir um som motorizado constante, o som se aproximava e rapidamente, logo era possível distinguir os motores de um helicóptero, logo percebem que não era apenas um, mas vários, alguns momentos depois várias aeronaves sobrevoam a clareira, cerca de quatro helicópteros da policia e quatro do exercito atravessam a clareira rumo a cidade em alta velocidade, pelo pouco que puderam ver os helicópteros militares já portavam armas pesadas e estavam observando a tudo, um destes deve ter notado a presença dos dois na pequena clareira, um helicóptero da polícia dos águias da meia volta e começa a sobrevoar a clareira.

O mesmo desce o mais baixo que pode, as arvores começam a se retorcer com o vento enquanto os jovens cobrem o rosto para se proteger do intenso vento que vem das turbinas, o helicóptero desce o mais baixo que pode e lança algumas cordas especiais, dois policiais descem por elas lentamente.

Policial – O que fazem aqui?! Não viram o que aconteceu? Vamos subir, temos que tirar todo mundo daqui o mais rápido possível!

Carlos – nossos amigos anda estão La em baixo, vimos tudo La do mirante, não podemos deixar eles lá!

Policial – eu não sei a situação de seus amigos, mas lei marcial foi decretada há duas horas, e a evacuação imediata do Rio de Janeiro foi ordenada pela própria presidente da Republica, vamos, vocês tem que sair! Já não cabe mas a escolha a vocês ... Ou vocês vem por boa vontade ou estamos autorizados a tirar quem quer que seja a força!

Os dois trocam um olhar preocupado e triste... Uma manha cinzenta depois de um dia fora de hora...