A chuva caía e apesar da visita dos inúmeros barões, reis e outros nobres que havia chego naquela manhã, o castelo permanecia silencioso, nem mesmo os trovões puderam encobrir o que quer que rugia nas catacumbas do rei Solli.

O salão do trono estava ocupado por uma enorme mesa de madeira bem no centro onde apenas homens ocupavam algum espaço, o mármore estava incrivelmente polido, porém mesmo com as velas e o lustre o espaço estava escuro e frio, talvez por conta da chuva repentina ou talvez aquele lugar sempre fora assim.

Todos estavam visivelmente impacientes dadas as conversas altas e inconstantes, então a enorme porta dupla de vidro translúcido se abriu dramaticamente pelos guardas do soberano daquele reino, todos se calaram enquanto ele passava, sem olhar para nenhum deles, foi diretamente até seu assento na ponta da mesa enquanto as portas eram fechadas, nenhum som foi emitido até que o homem sentado na outra ponta da mesa se fez presente ao dizer audaciosamente:

— Ouvi dizer que sua “cavalaria” esta fora e ficará assim por um tempo

—Sim? – O rei se inclinou para frente apoiando os cotovelos no veludo vermelho que se estendia pela mesa e pousou a cabeça sobre as mãos unidas atento a cada movimento do homem que não parecia se intimidar ao contrário de uma grande maioria ali

— Você nos prometeu um exército! – ele bateu com a mão em punho na mesa – E após dois anos tudo o que foi capaz de nos dar foi esse grupo de delinquentes adestrados! Talvez não seja tão adequado as suas funções quanto pensávamos sua majestade

Todos começaram a cochichar e concordar silenciosamente enquanto o rei apenas sorria balançando a cabeça

—Já finalizou seu discurso? – todos se calaram – Ótimo, primeiro olhem isto – ele estendeu um velho mapa pela mesa

— É o mapa de Emyer, o que isso tem haver?

—Minhas “crianças” estão agora longe dos limites das três dinastias

O mapa tinha de um lado uma imensa porção de terra que era dividida em três por linhas imaginárias “Solli, Luna e Umbra” as três dinastias e suas capitais respectivamente estavam destacadas “Ignis, Kishi e Ternna” . Ao olhar o mapa mal se dava conta de todo os resto, de todos os outros reinos e terras, mesmo em um pedaço de papel as três eram tão imponentes que roubavam toda a atenção.

— Espero que suas mentes limitadas possam acompanhar o raciocínio, entretanto, seu exército está sendo providenciado de uma forma que o inimigo será incapaz de detectar – Ao final da frase todos na mesa tinham a expressão de desentendidos, o rei apenas suspirou antes de continuar – Lembram-se de como a população era assustada e reclusa? Após o aparecimento da Cavalaria Negra eles se tornaram o povo fiel e ardente que eram antes da magia desaparecer, não entendem? Ganhamos sua confiança e sua força, treinados ou não, são um exército e enquanto discutimos isso minha pequena capitã esta tomando a confiança de reinos miseráveis que vocês mal reconhecem nesse mapa! Enquanto impérios caem, nós conquistamos terras e seu povo, seremos a maior dinastia que o mundo jamais viu! Não estão cansados de se limitarem apenas a esse território? Que se danem as tradições, estamos nisso há milênios, desde que meus antepassados reenvidicaram essas terras, está na hora de explorarmos esse mundo e tomá-lo para nós! Ou estão comigo ou estão contra mim – ele sorriu malicioso – Eu não recomendaria a segunda opção... – Todos se silenciaram e o soberano já estava sem paciência quando um urro tomou conta da estrutura do castelo e estremeceu o terror na alma de todos, mas aquilo apenas aumentou o sorriso do homem – Venham – ele se levantou – Vou lhes mostrar do que um rei Solli é capaz... – a seriedade repentina em seu era capaz de petrificar qualquer um.

...

—Por que me fez vestir essas roupas? – O capuz negro caia insistentemente em seu rosto bloqueando a visão — E onde pensa que esta me levando?! – Lucy gritava indignada para a assassina cavalgando a sua frente

—Você é mais irritante do que eu pensava! – ela rebateu irritada sem ao menos olhar para trás – Você não tem negócios a resolver com aqueles cães?! – a princesa se calou diante da obrigação esquecida — Então pare de reclamar e cavalgue!

A mata estava exatamente como no dia anterior, sem pegadas, fria e branca, sem precisar de muito esforço para que aparecessem, aquele que Lizzy deu como líder da matilha surgiu com alguns “acompanhantes”

—Princesa – ele curvou levemente a cabeça, Lucy fez o mesmo – Escarlate – ele fez questão que algumas das presas aparecessem

—Já que já estamos familiarizados, lhes desejo uma ótimas reunião – ela colocou a mão sobre o peito em um gesto dramático e começou a se afastar

—Onde pensa que vai? – Lucy disparou, Lizzy apenas virou a cabeça com uma expressão nada amigável para ela antes de voltar a caminhar

—Achou mesmo que eu iria te trazer aqui e ficar de babá? Tenho coisas a fazer!

...

Como se quase três horas de reunião não tivessem sido o suficiente, Lucy esperou pela a assassina ao lado dos cavalos na entrada da floresta por mais uma hora, no fim não sabia por que ainda estava ali e quando viu a silhueta dela ao longe quase que instantaneamente, raiva passou a fluir por todo seu corpo fazendo-o se mover sozinho.

O manto negro de Lizzy estava agora quase branco da neve que passou a se acumular sobre ele, fora as manchas e crostas de barro pelas botas e luvas, assim que passou pela princesa a mesma parecia prestes a lhe atirar alguns xingamentos casuais, mas foi ignorada quando a assassina simplesmente passou e montou Storm e pouco antes de sair ela olhou para a garota como se houvesse acabado de descobrir que ela estava lá

—O que ainda faz aqui? – Lucy bateu com o pé na neve furiosa

—Desgraçada... – ela resmungou baixo se controlando ao cerrar os punhos enquanto montava o próprio cavalo, assim que o fez Lizzy começou a andar

—Me leve a um bar, taverna que seja – o pedido foi tão súbito que Lucy não conseguiu raciocinar antes que a assassina se irritasse com a demora de alguns segundos – Ou você achou que eu a faria vestir meu manto apenas para não pegar um resfriado? – Mas ao invés de responder, a princesa foi capaz de se importar apenas com a última sentença

—Isso é seu?! – ela disse agarrando o tecido pronta para atirá-lo no chão

—Consigo acertar uma lamina em você mais rápido do que consegue tirá-lo, então não se atreva – a voz estava em uma espécie de rosnado baixo, como um gato nervoso, Lucy voltou à mão as rédeas do animal tentando afastar o pensamento de que aquele perfume agarrado ao tecido era da assassina – Vai me levar ou não?

—Por que deveria? – Ela deu de ombros sem encará-la

—Ah não ser que queira voltar para o castelo e levar uma bela conversa com o rei, sozinha e sem ninguém para inventar desculpas por você sobre onde passou a madrugada e toda essa tarde, neste caso, eu me viro e você pode desaparecer da minha vista... – o tom sarcástico carregava toda a sua fala, ela apenas aguardou pela resposta positiva e emburrada

—Tudo bem – ela bufou

—Mostre-me o caminho e não se esqueça de cobri o rosto alteza – ela fez o gesto dramático com as mãos de sempre antes que Lucy acelerasse na dianteira.

Não demorou muito para chegarem até a cidade já que ela ficava a “uma colina” da floresta, era um meio termo entre ela e o palácio, apesar de todos os acontecimentos, o povo parecia se fazer alheio, evitavam olhar para elas mesmo sem saber quem eram e passeavam pelas ruas tranquilamente, a quantidade de lojas de coisas artesanais era incrível, as pessoas sorriam onde quer que olhasse, em alguns cantos podia ouvir música tocar, do tipo que nunca ouvira, a hora do jantar deveria estar próxima já que o cheiro de comida estava em boa parte, a única coisa que conseguia definir em meio a tantos temperos era o cheiro de peixe frito ou talvez assado, o que era esperado pela proximidade com o mar, a cidade de escravos como era chamada, era mais viva que qualquer outra que ela já havia visitado, e naquele momento seu ódio pelo senhor daquele reino só cresceu, mas antes que pudesse discernir o que quer que Lucy estivesse tagarelando tão estranhamente calma a mente de Lizzy se perdeu em gritos e fumaça ao ver uma mulher pálida de olhos acinzentados comprando uma espécie de colar em formato de meia lua e logo seus olhos se perderam nas cicatrizes dela, nítidas nos pulsos, algumas queimaduras e outra marcas despontando nas costas, ela sem dúvida vinha do reino Lunna.

Ela voltou anos em sua mente e se viu pequena em meio as chamas e gritos, a fumaça começava a tomar conta de seus pulmões os gritos de desespero e agonia tomavam conta de qualquer pensamento, o medo a paralisava, não era capaz de se salvar até que por cima dos gritos pudesse ouvir “Lizzy? Lizzy!” e ela não sabia da onde aquilo vinha.

—Ei! Lizzy! Por que parou no meio do caminho! – Lucy gritava e ao mesmo tempo tentava deixar a voz baixa – Vamos de uma vez, quanto menos tempo eu tiver que suportar a sua presença, melhor para o meu psicológico – A princesa esperava que uma resposta sarcástica como sempre, mas a assassina apenas a seguiu com o rosto coberto pelas sombras do manto.

Quando chegaram ao bar de esquina Lucy levou os cavalos para um estábulo enquanto Lizzy aguardava na porta do estabelecimento

—Já veio a esse lugar?

—Não

O sol começava a se por, o estabelecimento era iluminado por vela e candelabros, era bem rústico, as mesas redondas de madeira pareciam gastas, o espaço era razoável para a quantidade de gente ali, todos pareciam estar bebendo há algum tempo, a quantidade povos diferentes ali era incrível, pela educação que teve podia reconhecer a maioria e nenhum pertencia aquele reino em específico. Assim que entraram a maioria não reparou nelas de imediato, mas alguns pareceram se manter atentos, a assassina segui diretamente a uma mesa quase isolada ao fundo onde a iluminação era ainda menor.

—Tem certeza que quer ficar aqui?- ela olhou ao redor, os ocupantes das mesas mais próximas eram na maioria homens que carregavam alguma arma completamente gasta, alguns falavam entre si silenciosamente e outros queriam a atenção da garçonete que apesar de simples tinha a sua beleza com seus cabelos e olhos cor de avelã, que agora vinha atendê-las

—Absoluta – ela disse ao se sentar enquanto Lucy bufava

—O que posso servir a vocês esta noite? – Lizzy tomou a fala antes que Lucy abrisse a boca

—Vamos começar devagar hoje, duas cervejas – ela disse alto o bastante para chamar atenção a garçonete anotou e se afastou com graciosidade fluída o bastante para desviar das mãos dos que já queriam demais e voltou da mesma forma rapidamente equilibrando em uma das mãos uma bandeja com duas canecas cheias, ela sorriu ao entregá-las, Lizzy apenas fez um sinal até que gentil com a cabeça em agradecimento depois se viu questionando a expressão bizarra que Lucy fazia para o copo.

—Eu não vou beber isso

—Então vai aprender a fingir majestade – ela levantou a caneca e virou alguns goles lentamente e limpou o rosto antes de voltar o copo a mesa – Eu não bebo em serviço – no entanto parte do liquido já não estava lá – Apenas tampe a visão de quem deseja com a posição do braço e deixe que o líquido escorra pelo seu rosto

Ela franziu o cenho, mas tentou fazer o mesmo e acabou parecendo uma criança virando um copo

—Não vire tudo de uma vez! – ela bufou – Você é mais burra do que parece com todo o seu falatório

—Olha quem fala!

Algum tempo passou com Lizzy achando uma nova falha em Lucy sem que o assunto se acabasse, pediram apenas mais uma cerveja cada, era estranho para a princesa estar fingindo beber com uma assassina no fundo de um bar e apesar de Lizzy responder a tudo imediatamente e sarcasticamente como sempre, não era como se ela estivesse realmente ali naquela conversa. Ficaram lá por um bom tempo, só saíram quando parte das pessoas que estavam lá se foram também, Lizzy pagou pelas cervejas com uma moeda de ouro que obviamente valia bem mais do que valiam as duas rodadas, o caminho de volta ao castelo foi silencioso e só voltaram a se falar no estábulo onde eventualmente se separariam.

—Se perguntarem onde estávamos, diga que madrugada passada os uivos que você ouviu estavam muito próximos e que decidiu me chamar e que agora fomos ver se tínhamos mais sorte, mas acabamos indo para a cidade ver se os moradores sabiam de algo já que não encontramos nada, se precisar invente mais alguma coisa e me avise depois, nossas histórias tem que combinar – ela pegou uma bolsa suja de terra que estava acoplada a sela antes de tirar a mesma de Storm e se despedir do animal

—Tome – Lucy estendeu o capuz para Lizzy

—Pode ficar, seu cheiro já deve ter se agarrado a todo o tecido, o que é uma pena já que foi bem caro, mas eu prefiro não ter na minha mala algo que você usou um dia todo – quase que de imediato, o rosto que estava incrivelmente tranquilo se tornou emburrado

Antes que Lizzy pudesse sair do estábulo a princesa bateu o pé ao perguntar nervosa:

—Por que exatamente me fez ficar por horas naquele lugar com você?!

—Vou te ensinar mais um truquezinho, mas é o último durante minha estádia aqui – ela apenas virou a cabeça para ela – Pessoas entediadas vão a bares para conversar, outras para fazer negócios, se souber ouvir, é um ótimo lugar para conseguir informações – então ela saiu antes que Lucy pudesse falar mais, deixando-a se perguntando se ela teria conseguido o que queria.

Ao invés de ir ao seu quarto Lizzy parou antes, batendo lentamente na porta que se abriu com segundos de espera

—Capitã? – ela apenas entrou e esperou que Alícia v

erificasse o corredor e então trancasse a porta

—Preciso da Rosa Envenenada — A ruiva sorriu mostrando os dentes como um animal encontrando a caça

—Faz algum tempo que não ouço esse nome – ela se aproximou cuidadosamente – Era ainda menos usado que Rosa Sangrenta

—Deve ser porque você deixou de lado a discrição – Lizzy comentou enquanto tirava algo da bolsa que estava carregando – Aqui – ela jogou um pote de vidro para Alícia com algumas flores brancas dentro

—Isso é... – Ela pegou facilmente o frasco no ar e começou a analisar a planta

—Cerbera Odollam, foi especialmente difícil encontra isso com toda aquela neve, na verdade acho que foi um milagre ou coisa parecida, vamos partir amanhã, faça bom uso do que consegui

— Em quem? – ela perguntou com um sorriso sombrio

—Faça algum mimo ou o arranhe na despedida, mas não deixe que o rei nos esqueça – ela sorriu da mesma forma por baixo da máscara e caminhou até a porta

—Como quiser capitã

A duas auras negras e sombrias pareceram se interligar naquele momento, aquilo as fazia lembrar-se do porque foram tão temidas um dia.

*Cerbera Odollam é uma flor a qual a ingestão mata pelo efeito de um glicosídeo potente chamado cerberin, faz efeito em cerca de uma hora, depois de uma leve dor de estômago a pessoa entra em coma e seu coração para de bater."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.