A noite estava silenciosa, Lizzy mantia uma distancia segura de Lucy, tentava observar o máximo que podia naquela escuridão, o luar permitia que ela conseguisse observar bem todos os movimentos da princesa, mas qualquer coisa envolta teria de ser detectada através da audição, era melhor que não a subestimassem, tinha passado por milhares de treinamentos, por várias vezes foi deixada na floresta pelo próprio mestre, as palavras ainda residiam em algum lugar obscuro de sua mente “se não for capaz de sobreviver ou matar, não serve para mim”, o último teste que teve foi ser deixada em uma mata, vendada. Pelo caminho que estavam tomando deveriam chegar em breve aos estábulos.

Lizzy tentava não se distrair com coisas estúpidas naquele momento, uma delas era o frio e o vento, tentava ao máximo ouvir Lucy, sua respiração seus passos, qualquer coisa poderia avisá-la, mas esses mesmos indicativos eram o que a faziam confiar na garota, parecia tão nervosa e apreensiva que não poderia estar mentindo, mas as mãos casualmente “deixadas” ao alcance das armas era um hábito que mantia mesmo quando estava desarmada.

Quando finalmente chegaram, Lucy simplesmente entrou, Lizzy então se deparou com o seu cavalo e mais dois prontos, um completamente branco, mas um pouco menor que os outros, o seguinte era malhado, como se tinta preta tivesse respingado na neve, porém alguém já montava, Rogue, o capitão da guarda real, ela o encarou por alguns segundos, ele fez o mesmo, a tensão no ar com certeza não era convidativo então a assassina lhes fez o favor de passar por ele como se fosse apenas uma sombra e foi direto ao animal mais ao fundo, acariciou seu focinho ao dizer baixinho com uma voz gentil que humanos provavelmente jamais ouviriam:

—Vai ter que me perdoar garanhão, mas aparentemente vou precisar de você mais uma vez – ela notou que uma manta o cobria por baixo da sela assim como os outros, em resposta o animal bufou em sua mão andando para frente dando menção para que ela subisse, e com um movimento ágil ela já estava sobre ele, o animal bufou mais uma vez – Não seja tão rabugento Storm – ela deu alguns tapinhas em seu dorso

—Vamos – a princesa já estava montada, Lizzy nem ao menos tinha a visto se aproximar, tinha se distraído, tinha cometido um erro, mas se reprimiria mais tarde

Rogue saiu na frente com Lucy logo atrás, Lizzy não tinha a menor ideia de para onde estavam indo, por um instante achou que seguiriam para floresta, mas desviaram o caminho abruptamente quando chegaram em uma parte mais coberta por árvores, para trás do castelo, em direção as montanhas.

O vento passou a açoitar seu rosto conforme os cavalos começaram a correr, Storm não tinha dificuldade alguma para acompanhá-los mesmo não estando acostumado com o terreno íngreme, era uma estrada esquecida que envolvia a montanha, e para o seu desgosto aquela parecia ser a mais alta, não bastava ter demorado mais de meia hora para chegar até lá, teriam de subir tudo aquilo aparentemente, não saber para onde estavam indo a estava irritando, então acelerou para se colocar ao lado de Lucy, permaneceu um tempo sem dizer nada até que sentisse a atenção da garota sobre si

—Para onde estão me levando?

—Um antigo templo... – aquilo não pareceu convencê-la, mas sabia que não teria mais resposta que isso e permitiu que Storm desacelerasse

Por alguns instantes se permitiu observar a vista, como o castelo antes imponente se tornava pequeno dali, a cidade completamente apagada e a floresta além, parecia ainda mais escura.

Quanto mais subiam, mais frio ficava, os cavalos começaram a desacelerar e as respirações começaram a pesar por conta da altitude e quando finalmente pareceram chegar em algum lugar os animais estavam exausto, Lizzy teve a enorme vontade de descer e carregar a própria montaria, mas só podia fazer o primeiro, assim que alcançou o chão as pernas estavam dormentes, demorou até que se acostumasse e começou a andar puxando o animal para uma construção distante, a qual ela só via a silhueta esboçada pela pouca luz que vinha de dentro, o lugar era enorme. Havia um campo vasto coberto de neve antes de chegar até a construção.

Lucy e Rogue pareciam espantados com o fato de Lizzy continuar a considerável caminhada a pé, a princesa suspirou e decidiu fazer o mesmo, o capitão pigarreou, mas aparentemente o olhar de sua verdadeira comandante o fez se calar. Quando começaram a se aproximar o enorme templo tomava forma, um pátio que dava o acesso ao templo, era grande, uma construção alta feito de madeira como a do castelo abaixo, no entanto parecia muito mais velho, como se tivesse sido reformado diversas vezes, ainda sim mantia sua beleza um tanto reconfortante, antes que chegassem à entrada do pátio cimentado, Lizzy se pronunciou parando a entrada, dói pilares enormes que sustentavam uma fachada de puro concreto, estava tão desgastada que o que esteve escrito ali já não era visível.

— Rogue, não é? – o homem que havia descido do próprio animal há algum tempo a encarou com a mão na espada – Quando pretendia me contar que é um traidor?

— O quê?! – ele segurou com força as rédeas do cavalo trincando os dentes

—Você “conspira” com a princesa – ela falava sem ao menos tirar os olhos daquele pedaço enorme de concreto que se erguia a sua frente, reparou em algo estranho, pareciam marcas de garras enormes, mas estavam quase apagadas como qualquer outra coisa ali – Lucy definitivamente odeia o pai – ela continuou o raciocínio e a garota contorceu as feições em uma tentativa de se manter neutra e não ceder à óbvia provocação – E aqui é o lugar onde finalmente vou conhecer a rainha... Rainha essa que faz planos pelas costas do marido, rei deste lugar, estou errada? – silencio tomou conta – Então, sua vez Lucy, quando ia me contar que espionou a mim e meus subordinados? E não se esqueça de minha conversa particular com seu pai – ela ronronou ao pronunciar aquilo, adoraria levar aqueles dois ao limite da paciência

—Não sei do que esta falando – a garota se obrigou a não encará-la

—Ah, quase me esqueci do mais importante, armou tudo isso para me trazer aqui, por quê? — Lizzy finalmente a encarou, a princesa provavelmente tentaria se esquivar, mas se viu imponente diante daqueles olhos e se odiou por abrir a boca

—Como?

—Não fui treinada por qualquer um... – por um momento seu peito se apertou, mas não por tempo suficiente para abalar a postura agressiva – O que você tirou daquelas coisas?! – a voz era um rosnado baixo que fez Lucy recuar um passo insegura ao pensar no que provavelmente tinha feito

—Eu precisava que visse tudo o que ele fez, o que ele é – a garota fechou as mãos em punhos e então encarou a assassina nos olhos como a maioria não ousava, não sabia se a achava corajosa ou burra – Não gosto do fato de ter você aqui, mas precisamos de ajuda

Aquele olhar... Já tinha encarado aqueles olhos antes, pelo menos era a sensação que tinha, talvez aquele fosse o verdadeiro motivo de ter aceitado segui-la tão imprudentemente, o que estava acontecendo?

—Com o que exatamente? – ela perguntou satisfeita

—Eu preciso dele morto...

—Farei com prazer – ela sorriu, e graças aos céus que ninguém podia ver aquele sorriso bestial, mas podiam ver aquele brilho em seus olhos – Tenho que admitir, arquitetou tudo muito bem, meus subordinados, até onde sei, não suspeitam de nada

—Você os subestima – Lucy disse sem encará-la – A ruiva... A aura que a rodeia...

—Eu sei muito bem com quem estou lidando – ela respondeu ríspida

Mas antes que pudessem continuar a discussão, um uivo ao longe os interrompeu, um uivo grave, então outro respondeu e estava bem ali, estava dentro do templo, Lizzy disparou as mãos para as adagas e Storm emitiu um grunhido enquanto os outros cavalos relincharam e recuaram

—Será que podemos discutir lá dentro? – Rogue sugeriu apressado

—O que vocês fizeram?! – ela não conseguia desviar o olhar do lugar apagado ao longe, mal podia ver a silhueta do local, mas conseguia sentir o que aguardava ali

—Não importa o que aconteça, mantenha essas suas mãozinhas longe das armas, vamos – Lucy voltou a se mover para dentro do templo

Porém não seguiram para lá, desviaram e foram até uma casa mais atrás, reservada ao limite da montanha escondida de olhares curiosos.

O lugar era aconchegante, a casa ficava no limite da montanha, o teto era extremamente alto na maioria dos cômodos, mas haviam símbolos entalhados em todos os lugares, além do crepitar lareira o som de passos distantes era à única coisa que preenchia o ambiente.

Lizzy ainda se mantia em posição defensiva, desconfiada reparava em todos os detalhes como havia treinado para fazer automaticamente, a primeira coisa que deveria saber eram quantas saídas tinha, para sua sorte só a sala onde foi dito para que ficasse tinha duas janelas enormes que davam para uma caminhada até o templo, no entanto só tinha visto uma única porta até então. A sala apesar de ampla era vazia, um sofá de frente para a enorme lareira que já ficava ao lado da porta de entrada, as janelas ao lado com algumas almofadas, uma parede a separava dos demais cômodos a impedindo de absorver mais detalhes.

Sabia que mesmo tendo sido deixada sozinha estava sendo vigiada, se recostou ao lado da lareira, demorou até que o corpo finalmente começasse a se aquecer, então Lucy finalmente apareceu no limite da visão

—Vai ou não me dizer em que tipo de situação me meteu? – ela se desencostou e não deu mais que três passos ainda de braços cruzados sem exibir nenhum tipo de emoção

—Eu não posso te dar mais informações do que as que já lhe dei, é perigoso demais confiar algo desse tipo a você – aparentemente ela tentava reprimir o tom de desgosto

—Se não vai me dizer o quê esta acontecendo vou embora – no momento em começou a caminhar até a porta pode ouvi-la pigarrear ao se aproximar

—Ouvi você falar com meu pai naquele dia... – ela abria e fechava as mãos constantemente para se acalmar

—E? – ela respondeu indiferente virando apenas a cabeça para encarar a princesa

—E?! Você sabe o que ele vem fazendo! E mesmo assim...!

—Eu acho que você ainda não entendeu como isso funciona, então farei o favor de te explicar – ela se aproximou até poder encarar a princesa nos olhos, apesar de ser um pouco mais alta Lucy recuou intimidada – Eu sou uma assassina, não me importo com o que acontece com qualquer pessoa, a não ser que meu mestre se importe, neste caso sou obrigada a fazer de tudo para que o sortudo se mantenha inteiro, aqui eu tenho apenas dois propósitos – Lucy arregalou levemente os olhos – Exatamente, eu não vim aqui só porque seu paizinho precisava de ajuda com as Bestas ou para fortalecer uma futura amizade entre os dois reinos, estou aqui para encontrar quem vem agindo por trás do rei, minhas ordens são apenas essas, ganhe a confiança dele, encontre o traidor e relate – a garota recuou um passo perdida – Tenho todas as informações que preciso, matar aquelas coisas não vai ser fácil, mas meus subordinados dão conta e então posso voltar ao meu continente, o que acontece ou deixa de acontecer aqui, não me interessa – ela encarou o desespero da princesa por um instante se divertindo, saboreando a superioridade que podia exercer – No entanto, seu rei não sabe disso, meu mestre desconfiou por conta própria – ela inclinou levemente a cabeça – Vou analisar a situação, se a rainha for uma aliada mais vantajosa então talvez eu aceite seu acordo de silencio, não gosto de trabalhar sem informações e agir apenas como uma máquina de mortes – ao contrário do que esperava Lucy trincou o maxilar, fechou as mãos em punhos e avançou puxando Lizzy pelo fecho do capuz

— Não gosta de ser tratada como máquina de morte?! Então o que você é exatamente? A única coisa que sabe fazer é obedecer ordens e matar o que se colocar em seu caminho! Aquele homem te fez a cadelinha de estimação dele! E você vem sempre que é chamada sem questionar nem ao menos se importa com as vidas inocentes que são terminadas ao seu redor ou por você mesma! – ela a puxou para mais perto – Minha mãe jamais se aliaria a este homem – os olhos brilhavam em puro ódio e Lizzy se deliciava com aquilo

— Então acho que minha presença não é mais necessária aqui – a princesa continuou a segurando, mas não respondeu – Precisa mais de mim do que seu ego, é por isso que não consegue dizer nada, majestade – Lucy a soltou a tempo de ver alguém novo adentrar na sala.

A mulher estava usando um vestido verde claro quase como se estivesse desbotado, o cabelo escuro enrolado nas pontas chegava até um pouco depois dos ombros, olhos castanhos claros, se não estivesse alerta poderia estar babando pela beleza estonteante da mulher

— Querida é o suficiente, pode nos deixar agora – ela aguardou que Lucy deixasse o cômodo antes de se aproximar

A princesa mal olhara para o rosto da mulher ao sair batendo os pés, logo deduziu que aquela fosse a própria rainha, a mulher a encarou com um sorriso triste por alguns instantes depois se sentou na janela encarando a escuridão do lado de fora, demorou até que dissesse algo, a voz era calma e gentil e mais uma vez Lizzy sentiu como se já conhecesse aquela voz apesar de nunca ter tido algo tão gentil e sério ao mesmo tempo direcionado a si

—Então não pretende nos ajudar?

—A menos que seja do interesse de meu mestre, eu não tenho interesse – a mulher suspirou

— Ouvi falar de você e sua “unidade”, ele os condenou a morte a mais de dois anos atrás então lhes ofereceu a oportunidade de trabalhar para ele e assim o tornaram o homem mais influente e poderoso desde que... Bem

—Para alguém isolada dos assuntos reais da própria corte, você esta bem informada sobre o resto

— Acho que tem coisas que você – ela balançou a cabeça e finalmente se virou para encarar a assassina – que todos deveriam saber – Lizzy a encarou mais atenta – Mas preciso escolher bem as palavras, sei que seu rei ficara sabendo de todas as palavras ditas aqui e de todas as coisas que viu, então vou apenas lhe dizer uma coisa, a magia que desapareceu ha tantos anos atrás... Não desapareceu, basta saber onde procurar

—Isso é loucura

—Você sabe que não, a magia desapareceu talvez até antes mesmo de você nascer e eu sei que você já a testemunhou – a rainha a encarava na esperança de algum vacilo em seu rosto ou na postura, mas nada oscilou

—E o que isso tem haver com o fato de eu estar aqui? – ela perguntou ríspida

—Com você presa dessa forma á ele, não posso dizer mais nada, Lucy vai acompanhá-la até o templo e lhe mostrar porque esta aqui – a mulher suspirou profundamente após encarar Lizzy de cima a baixo se detendo no pescoço da jovem e se voltou à janela mais uma vez – Sei que não confia em ninguém com título real, mas vai precisar confiar em nós, sabe da guerra que esta por vir e quando finalmente estiver livre do que a prende á ele, então é bem vinda aqui

Assim que terminou de falar Lucy apareceu caminhando diretamente para fora sem dizer uma palavra, Lizzy apenas a seguiu, pegou Storm na entrada e foram até o templo, antes de abrir as portas do lugar a princesa pediu baixinho a assassina atrás de si:

—Ela esta tentando tudo o que pode para proteger as pessoas – Lizzy sabia que ela estava escolhendo as palavras e ela tinha dito “as pessoas” não o seu povo — Então por favor...

—Vai implorar a morte? – A garota não respondeu e escancarou as portas do lugar.

Não era tão simples quanto aparentava do lado de fora, alguns bancos de madeira polida, um altar de puro mármore que parecia refletir o brilho da lua, as paredes cheias de desenhos e escritas antigas que ela não reconhecia, apenas alguns desenhos das montanhas e do que pareciam... Dragões voando até elas, só então reparou em uma garotinha que correu até Lucy

—Lucy! – ela a abraçou fazendo com que a princesa se abaixasse para abraçá-la melhor

—Oi... – ela disse um pouco triste acariciando a cabeça da garota – Eu trouxe alguém comigo... Ela vai te levar para casa hoje...

Foi só quando a garotinha levantou o olhar por cima do ombro da princesa que Lizzy viu os olhos dourados se destacarem na escuridão.