Notas iniciais
Afrodite sempre me foi cativante e expresso nesse texto o que penso a respeito dela.

Ser a personificação do amor requer seus sacrifícios. Desde sempre – até onde o “sempre” existe para mim – tive diferentes rótulos. Para alguns eu fui a nascida do Mar, uma espécie de titã. Para outros sou a filha do deus dos deuses, a irmã da sabedoria e da lua, objeto de inveja para todas as figuras femininas dos mundos... Esposa do fogo...

Mas até onde minha perfeição chega?

Do que me adianta ser tão glamorosa se a admiração de todos só recai sobre minha aparência física?

Talvez a pior de todas as concepções sobre mim seja justamente o que sempre neguei. Eu não sou a adúltera desmedida, nem a esposa vulgar e interesseira, nem a mãe perfeccionista ou a irmã ardilosa.

Não, não, não... Por favor, pare de me caracterizar dessa forma tão banal. Eu não sou nenhuma meretriz, não que ser concubina seja algo ruim. Vai de cada um decidir.

Deitada em meu charmoso palácio, fico a meditar sobre todas essas questões. Refletir enquanto aquele que amo não me dá o devido valor. Por que aceitei a mão de Hefesto? Ora, porque eu o amo. É uma resposta tão simplória! Por que não acreditam em mim? Obviamente, porque meu marido é coxo, feio, deformado... E daí?

Não dizem que o amor é cego? Pois a pessoa que o disse estava mais certa do que pensava. E eu sou o Amor, posso ratificar isso com todas as minhas palavras.

Por que os deuses se espantaram? Porque meu amor era imperfeito. É algo irônico e paradoxal nosso relacionamento não? A perfeita amando o imperfeito. Eu costumava rir com ele quando essa dicotomia ficava em voga.

No início, ele era atencioso, carinhoso e amável como Ares jamais seria. Mas depois de um tempo, nosso casamento virou uma rotina extenuante que o levou a se trancar nas forjas, deixando-me sozinha. Revoltei-me! Ora, eu não sou deusa estagnada. Gosto de atenção, gosto de ternura, gosto de amor...

Corri para os braços de outrem. Sim, pode xingar-me, acusar-me de adultério... Mas eu nunca serei realmente infiel. Infidelidade, para mim, é estar com alguém e pura e simplesmente trair, sem motivo algum. Eu não sou infiel! Sou uma deusa solitária, ignorada pelo meu amor. Ironia não?

É por esta razão que costumo incentivar minhas filhas a “quebrar o coração” das pessoas. Porque o meu está eternamente quebrado, sangrando absurdamente.

Sentimento egoísta? Eu sei que sim, mas todos nós somos egoístas. Sejamos realistas, isso é inevitável.

Porém, eu sou feliz. Sim, eu até sou feliz. Amo meu marido, eu o tenho de uma forma ou de outra, ele me tem, tenho filhos maravilhosos e um coração que não cabe no peito.

Eu não digo ao Hefesto e nem a ninguém que eu o amo. Há um filho de Atena, muito sábio por sinal, que disse “As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar”. Esse camarada, Leonardo da Vinci, sabia muito bem o que dizia.

Minha felicidade é plena com aquele que julgam ser imperfeito. Dicotomia perfeita imperfeita a nossa. E eu sou grata por essa contradição em minha vida divina.

Notas finais
Espero que gostem! ^-^É só uma opinião minha.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!