A Deusa Esquecida
3 Capítulo 2 - Bianca
Notas iniciais
A sensação de Bianca era de dor como se uma voz estivesse gritando em sua cabeça, tentando tomar o controle de sua mente.
E, pode apostar, ela sabia exatamente como era essa sensação.
Desde que chegara ao acampamento há uma semana, escoltada por uma matilha de cães infernais e um satiro gordo — longa historia -, suas dores intensificaram-se ainda mais. Antes, Bianca sentia as dores apenas à noite, quando tinha aqueles sonhos. Agora, a voz quase nunca a deixava em paz.
Enquanto caminhava para a arena ao lado de Cash e Amy, lembrou-se de seu passado, e dos anos que antecederam sua vida no acampamento.
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Bianca viu o primeiro fantasma quando tinha seis anos.
Era uma tarde agradável, o primeiro dia de Primavera do ano. Sua mae a havia levado à praia, algo que elas raramente faziam. Para dizer a verdade, a menina nao se lembrava da ultima vez em que estivera com sua mae. Angelina era ocupada demais com as empresas da familia para ficar com sua filha.
Momentos como esse eram raros para a pequena Bianca Lenart. Nunca reclamava, mas as vezes cansava-se de ficar com babás o tempo inteiro. Ela via os pais de suas colegas levando e buscando-as na escola, e perguntava a si mesma onde estariam seus pais.
Naquela tarde, a garota reuniu toda a coragem que encontrou para perguntar a sua mae sobre o paradeiro do pai.
Estavam sentadas observando o mar, na praia particular da familia. Sua mae havia dispensado os empregados, e levara apenas uma cesta de piquenique com chá, sanduiches e creme de salmão para o passeio. Ela sorriu para Bianca enquanto lhe passava uma xicara de Earl Grey.
–Está se divertindo, querida?
– U-hum — A pequena conseguiu dizer, com a boca cheia.
Angelina estendeu uma toalha de mesa quadriculada na areia branca e deitou-se, observando o céu azul da Califórnia.
– Mamãe — Bianca conseguiu dizer, três sanduiches depois — O que aconteceu com o papai? Por que ele nao está com a gente, como o pai das outras meninas?
Angelina enrijeceu. Ela permaneceu em silencio por alguns minutos, o que fez Bianca se perguntar se havia feito a coisa certa.
Por fim, ela sentou-se e respondeu:
– Ah, Bianca! Seu pai era um homem maravilhoso. Era elegante, bonito, meio indecifravel. Vejo muito dele em voce. — ela respirou fundo — Mas ele era ocupado. Tinha muitas tarefas, muitos afazeres, e depois de um tempo, foi levado de nós.
– Ele morreu?
– Não, minha querida. Está junto aos mortos, é claro. Mas nao está morto.
A menina nao entendeu, mas decidiu ficar calada. O que a mãe havia dito nao fazia sentido algum.
Estendeu a mao para a cesta de piquenique, encarando o oceano. O ar parecia mais pesado.
Entao, no horizonte, ela a viu.
Estava envolta num manto branco, que balançava conforme a direção do vento. Os cabelos, negros como piche, brilhavam à luz do sol. A mulher flutuava sobre a agua, chegando mais e mais perto das duas. A garota olhou para Angelina, mas a mesma nao parecia notar nada de diferente. O espectro flutuou até a areia e virou a cabeça para Bianca, com uma expressão assassina no rosto. Seus olhos eram tristes, raivosos e negros, e a pele parecia quase transparente.
– Vá embora — a garotinha conseguiu murmurar, tomada pelo panico e, com um aceno de cabeça, o fantasma se dissolveu.
Depois desse dia, as aparições tornaram-se uma especie de evento costumeiro na vida de Bianca. Por vezes e vezes seguidas fora mandada pelas babás a terapeutas e médicos, mas nada de anormal era detectado. Agora encontrar sua mae era um sonho distante, ela nunca aparecia. Depois de um tempo, suas babás passaram a considerá-la "um perigo para a sociedade", e a enviavam para colégios internos — nos quais ela nao passava mais de um ano sem ser expulsa. Anos se passaram e essa era a vida de Bianca. Parecia que nada iria mudar.
Então, o acidente aconteceu.
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–Bianca? Está ouvindo?
Amy estalou os dedos em frente ao nariz da garota, que vagarosamente afastou a lembrança.
Cash murmurou algo sobre ter que repetir a piada e Bianca revirou os olhos.
Os três caminharam até a arena. Amy contava vantagem por correr mais que Cash, que por sua vez, alegava ser melhor com a espada. Era um dia normal no acampamento: sátiros corriam atrás de ninfas do bosque, filhas de Afrodite riam e conversavam às margens do lago depois do café, campistas tinham aulas de canoagem, naiades penteavam os cabelos em cima das pedras. Porém, Bianca tinha uma sensação ruim.
– Bianca, voce parece mal. — Cash observou — Por que nao descansa um pouco?
– Ele tem razao. — Replicou Amy — Acho que voce está doente. Porque Quiron nao...
Nesse momento, ela perdeu o equilibrio e caiu de joelhos. Amy apressou-se para ajudar, mas Bianca a surpreendeu.
– Nao se aproxime.
– O que está dizendo? — Amy pôs a mão no ombro dela.
Bianca olhou para Amy e desejou estar errada, desejou que ao menos uma vez aquilo nao acontecesse.
Em vão.
No mesmo instante, a visão de Bianca clareou, e ela sentiu seus olhos mudarem de cor, seu livre arbitrio deixando-a.
Estava começando.
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