A Desgracença da Buchada
8 CAPÍTULO VIII – MEMÓRIAS DE SHAENYA
— Quieto, desgraça! — rosnou Baldroth, enquanto dava um pontapé no refém que gemia e se contorcia, relutante em guiar o grupo até a central de energia. — Não vai querer que eu repita o que fiz na sala de controle. — ao ouvir a ameaça, o soldado contraiu o rosto em pânico, engoliu os resmungos e prosseguiu cambaleante.
— Olha, sei que ele nos ajudou, mas às vezes ele me deixa agoniado. O que diabos deve ter feito com o cara? — cochichou Sabael nos ouvidos de Yanka, que deu de ombros.
Algumas saletas e corredores depois, os sete chegaram a um suntuoso salão de pinturas, que exibia em suas paredes obras de paisagens, retratos pictóricos e alguns abstratos e, em poucos bombês, refinados vasos de flores e mini esculturas. Ainda que estivessem apressados e alertas, pois a qualquer momento poderiam brotar mais oponentes, seus olhos eram atraídos pelas artes, deslumbre nunca antes apreciado por filhos de um mundo destroçado. Pouco antes de chegarem ao final do cômodo, Shaenya parou diante de um quadro e estremeceu, quase deixando Neriom, que estava escorado em seu ombro, cair. Seu rosto empalideceu, seus olhos esbugalharam e ela caiu de joelhos, colocando a mão no abdômen, como se tivesse levado um soco.
— Shaenya?! O que houve? — perguntou Liluth, agachando-se perto da amiga e pousando uma das mãos em suas costas. Diante delas, havia o retrato de uma família, com um homem ao centro sentado numa poltrona, ostentando sua coroa de chifres de bode, dois jovens em pé à sua direita, um aparentando ter uns vinte e poucos anos e o outro mais adolescente, e duas mulheres também em pé à sua esquerda, uma com a mão apoiada em seu ombro e outra com as mãos atrás das costas, mais distante dos demais. Todos estavam elegantes e sisudos. Logo abaixo do quadro, numa plaqueta dourada, lia-se “Família Bertmond”.
Shaenya apontou para o rapaz mais novo com o indicador trêmulo e murmurou rouca: “Nambeorn”.
*****
— Merl! Merlween! — chamou o jovem engomado pela fresta da porta. — Depressa, tenho uma surpresa para você!
— Namb... Agora não posso! Não vou me arriscar novamente. Não apenas eu, mas minha mãe também corre riscos se Grimbaward nos pegar de tititi. — disse a moça grandona, que aparentava ser mais velha do que realmente era, enquanto esfregava o chão do salão principal. — E outra, nem terminei de limpar aqui.
— Meu pai está desmaiado, não irá nos perceber. E os vigias da sala de controle estão chapadões. Ande logo, venha! — respondeu Nambeorn risonho, chacoalhando-se ansioso.
— Não acredito que você colocou na bebida dele aquela sua poção maluca de novo! E ainda deu alucinógenos aos vigias? Você não bate bem mesmo! — caçoou Merlween, largando o esfregão e correndo até o amigo.
Os dois escapuliram pelos corredores, cuidando para que ninguém os notasse, mas ao mesmo tempo brincando e cutucando um ao outro. O rapaz a guiou até um galante escritório, com estantes de livros, sofás aconchegantes para a leitura, mesinhas charmosas sustentando conjuntos de chá e uma escrivaninha com uma máquina datilográfica. Na mesa de centro, havia uma bandeja coberta para a qual Nambeorn apontou e disse:
— Pode destampar... Fiz especialmente para você.
Tímida, Merlween se aproximou e puxou a tampa com uma de suas mãos calejadas. Na bandeja, havia um prato com um suculento filé ao molho, rodeado por tomates cereja, exalando vapor e um aroma agridoce. A garota estava faminta e sua boca salivou, havia se alimentado apenas na noite anterior, mas em segundos desviou o olhar e se afastou.
— Espere! Qual é o problema?! Por favor, eu não queria te chatear, Merl...
— Não... Eu entendo que sua intenção é boa, mas não posso comer. Não é justo que eu coma e os outros não. Todos os dias só nos servem as entranhas e em quantidade mínima para não passarmos mal, para podermos continuar sendo explorados. Sua família nos escraviza dia após dia, você se diz contrário a isso, mas não é servindo apenas a mim um prato de bife que vai ajudar. Sinto muito, Namb, não posso mais aceitar seus agrados... Querendo ou não, eles me ofendem.
— Como pode pensar que não desejo o mesmo aos demais? Eu queria que também fosse surpresa, mas serei obrigado a te contar... Há meses estou observando todas as falhas no sistema de segurança da mansão. Há meses estou desenvolvendo novas poções. E sabe o que isso significa? Que poderemos bolar um plano para libertar a todos! — Nambeorn sorriu entusiasmado e segurou as mãos da amiga. — Preciso muito de você nessa!
— Até parece que isso é possível... Qualquer tentativa de resistência aqui sempre acaba trágica, com morte, tortura ou implante cerebral da sua tia. Sua família não deixou nenhuma brecha para que qualquer plano funcione.
— Eu! Eu sou essa brecha, Merl! Não me ache convencido por dizer isso, mas a verdade é que de dentro, posso ser útil a vocês! Tenho acesso a coisas que vocês não têm! E o mais importante: tenho a confiança dos meus pais. — ao ouvir tal argumento, Merlween esboçou um micro sorriso. — Então confie em mim, por favor! E pelo amor de Deus coma antes que esfrie, vou ficar ofendidíssimo se você não quiser provar meus dotes culinários.
— Promete que não é da boca para fora?
— Algum dia desde que nos conhecemos eu falei por falar? Agora sou eu que me sinto ofendido...
Merlween ficou sem graça e nada respondeu, pois Nambeorn de fato nunca dera motivos para tal desconfiança. Por ser criança quando se conheceram, não podia fazer muito para ajudar, mas sempre se arriscava para estar perto dela e fazê-la sorrir. Agora, adolescente, sentia-se mais capaz. Pessoa empática que era, queria utilizar tudo o que aprendeu para ajudar não apenas sua querida Merl, como a todos que sua família explorava.
— Por favor, sente-se e experimente. Enquanto come, gostaria de ler para você um breve conto que escrevi... — e com gentileza pegou uma das mãos de Merlween e a levou até o sofá mais próximo da mesa de centro. — É coisa boba, de iniciante, escrevi mais por distração e queria te distrair um pouco também. Hoje eu poderia contar mais sobre as falhas no sistema de segurança e minhas novas poções, mas acho melhor deixar para a próxima em que poderemos focar nisso. Hoje já não temos mais tanto tempo, só o bastante para você comer e aturar minhas três páginas. — finalizou risonho.
Enquanto a moça comia, tomando cuidado para não parecer uma morta de fome e exagerada quanto ao sabor do filé — que, aliás, estava divino e certamente superior aos restos que comera desde sempre, ou melhor, pela primeira vez não se alimentou por se alimentar, mas sentiu prazer -, Namb narrava seu conto, buscando deixar a amiga mais confortável sem encará-la comer.
— “Como fazia todos os dias após a aula, Malena estava observando o lago espelhado da cidade, sozinha, pensando em pequenas coisas que a divertiam... Os simples pensamentos levavam a jovem para um lugar distante, um lugar onde suas alegrias brincavam e sorriam, um lugar que talvez jamais conheceria. Sentada na grama levemente gelada, passava as mãos claras no cabelo dourado, brincando com as ondas que nem chegavam a formar cachos”. — sua voz era gostosa de ouvir, tanto quanto o sabor do que cozinhara. Merlween enrubesceu por um instante e logo tentou disfarçar. — “O silêncio espalhava morbidez no ar, mas a mistura de tons fluorescentes no céu tornava tudo poético...”. — e prosseguiu encantando com sua criatividade.
— O que tá pegando aqui? — irrompeu um vozeirão a partir da porta. Merlween, que por sorte já havia terminado de comer, levantou-se ligeira e apanhou a bandeja.
— Serberok, Merl veio retirar a bandeja suja do escritório. Acabei por importuná-la pedindo que escutasse meu conto e opinasse. — inventou Nambeorn rapidamente.
— E lá lixo tem opinião? — zombou o outro. — Quando quiser opinião de verdade, pode me chamar. O pai não vai gostar nada de saber que tá se envolvendo com verme de novo... Quando era criança, até dava para relevar, mas agora... — e olhou com nojo para Merl, que sentiu vontade de xingá-lo em resposta, mas sabia que não acabaria bem se o fizesse, portanto apenas ignorou e se retirou.
Ao contrário do irmão, Serberok era um tipo antipático, intolerante e agressivo. Não perdia a oportunidade de humilhar os sujeitos escravizados e torcia para que eles reagissem, para poder espancá-los. Às vezes nem era preciso fazer nada para provocá-lo. Em seus dias ruins, selecionava a dedo três ou cinco pessoas para praticar nelas seus golpes. Sua violência era tamanha que quase as matava e mesmo Grimbaward, seu pai, precisava lhe impor limites, pois não podia se dar ao luxo de danificar seriamente ou perder muitas de suas “peças” (como chamava suas mãos de obra). Merlween, após sair, permaneceu um tempo atrás da porta e conseguiu escutar o que Serberok disse ao irmão:
— Notei um pouco de molho respingado no avental dela... Nambeorn, cê sabe que se a alimentar, serei obrigado a esmurrá-la até que vomite, né? A carne do bode e os frutos da plantação são para a nossa família. Nossos avós tiveram muito trabalho para elaborar cientificamente a mentira e nos manter soberanos, nossa tia teve mais trabalho ainda para encontrar as sementes e mudas, para tornar o solo dos fundos da mansão fértil e cultivar mais alimento. Não preciso nem falar dos nossos pais e o esforço deles para manter nossa política! Não podemos facilitar para eles, não podem pensar que merecem o mesmo que nós. Você só pode ficar aí lendo, inventando continhos e comendo bem graças a isso.
*****
— Shaenya! O pau tá quebrando, precisamos de você! — berrou Yanka, abatendo de uma vez dois soldados que a cercavam com seus dardos letais. Liluth estava em pé ao seu lado, mantendo os rivais atordoados com sua técnica dançante tempo suficiente para degolá-los com suas serras circulares. Baldroth havia enrolado o homem que carregava com sua corrente e o deixado às suas costas, incapaz de fugir, e estava lutando corpo a corpo com os capangas. Suas habilidades marciais eram tão impressionantes quanto seu uso da corrente. Do grupo, apenas ele estava sem armadura e Liluth temia por isso, ainda que fosse um exímio lutador.
Desta vez surgiram opositores em menor quantidade. Neriom, ainda que manco, derrubou os três últimos combinando golpes com Sabael, que os imobilizava para o parceiro finalizar a marretadas embrasadas. Mal encerraram a contenda, Baldroth tornou a encoleirar seu refém para que os guiasse. Shaenya se levantou com dificuldade, tudo a sua volta parecia embaçado, sua pressão ainda não estava boa.
— Hey, vá com calma! — aconselhou Liluth, segurando a parceira. — Coma uma tira, vai te reanimar. — e apanhou o mantimento de sua algibeira.
— Eu... Eu estive aqui... Morava aqui. — revelou Shaenya, recusando a tira desidratada. — A carne do bode, eles...
— É o quê?! — vociferou Yanka, correndo para perto, quase colando seu rosto ao da outra e serrou os punhos. — Não me diga que é outra traíra imunda! Te deito na porrada agora mesmo! Tu tá metida com os Sábios?!
Os rapazes se aproximaram e Sabael, que era o mais diplomático dentre os seis, aproximou-se de Yanka e a segurou, pedindo que se acalmasse e escutasse o que Shaenya tinha a dizer. Por mais que também estivesse preocupado, qualquer informação de dentro seria importante.
— Melhor discutir enquanto prosseguimos... — advertiu Neriom, despertando os companheiros.
No percurso, Shaenya contou em resumo tudo o que conseguiu lembrar, enfocando os cinco pontos principais: havia escravos na mansão e ela foi uma, a carne do bode era consumível e foi apropriada pelos Sábios do Bucho, havia mais tipos de alimento nalguma plantação nas dependências da mansão, sabia que a família Bertmond, principalmente Grimbaward, liderava tudo e houve um plano para a derrubada desta liderança, o qual ela desejava se recordar mais a respeito, pois sentia que era importante, ainda que provavelmente tivesse falhado. Era muita informação para ser processada de uma vez e, antes que alguém pudesse se manifestar a respeito, quando entraram num recinto com uma escada central, dividindo-se em lances à esquerda e à direita, um vozeirão acima os assustou, dizendo:
— Carniça, é você! Achei que tivesse virado cinzas... Eu reconheceria esses ombros largos e o jeito songo-mongo de andar há quilômetros! — para o espanto de Shaenya era ninguém menos que Serberok Bertmond, ainda mais musculoso e repulsivo que em sua recordação. Porém o que a impactou ainda mais foi perceber que, ao lado do irmão, com um semblante vazio e uma enorme cicatriz na testa, encontrava-se Nambeorn. Esquisito em aparência e em postura, não fosse pela importância e forte laço que representava à Shaenya (tanto que em apenas um retrato a fez despertar a memória), não seria por ela reconhecido. — Desinfete a parada, maninho! — incentivou Serberok e o irmão apanhou de imediato um frasco esverdeado da cintura e atirou com mira perfeita no grupo.
*****
— Este será o nosso ponto de encontro. — disse Nambeorn à Merlween quando chegaram ao porão. — Felizmente, não são todos os locais da mansão que possuem câmeras e apenas o meu pai, os vigias da sala de controle e agora nós dois sabemos. Apesar de poucos os cômodos sem vigília, são o bastante para o planejamento da fuga, como aqui, onde faremos nossas reuniões, e os corredores próximos daqui, o que facilita nossa entrada sem sermos vistos. De tempo em tempo, não muito frequente, um soldado passa por eles para dar uma olhadinha, mas é fácil evitá-lo...
— Espere... Você disse fuga? — interrompeu Merlween.
— Sim... Por quê?
— Creio que não devemos fugir, mas tomar aqui. Todos nós trabalhamos no cultivo da plantação e para manter a mansão, nada mais justo que o lugar seja nosso. — ao ouvi-la, os olhos de Nambeorn cintilaram de admiração.
— É... Você tem razão. Porém, o processo levará mais tempo e será muito mais trabalhoso.
— Sem problemas... Em todo caso arriscaremos nossas vidas, então que seja por algo grandioso. E se fugirmos, com certeza eles irão nos perseguir incansavelmente lá fora, o que nos daria tanto trabalho quanto. Não basta sair desses muros.
— Verdade, esqueci deste detalhe... Como sempre, você é mais atenta que eu! — e tocou o ombro de Merl, que retribui com um sorriso acanhado.
Por cerca de três meses, os dois se encontraram no porão em dias aleatórios para não serem percebidos, sempre aproveitando as brechas da segurança e usando as poções. Como Merl servia dentro da mansão, voltava mais tarde que os escravos da plantação para o galpão aos fundos em que todos eram aprisionados ao anoitecer. Ela era uma das últimas a sair e, convenientemente, servia o jantar aos guardas da sala de controle e à patrulha do pátio, junto com outras quatro servas. Sendo assim, ficou decidido que o primeiro passo do plano seria contaminar a comida deles para depois libertar os escravos e tomar as armas do depósito. Infelizmente, Nambeorn não possuía recursos suficientes para produzir grande quantia de veneno, portanto apenas os vigias das câmeras seriam envenenados e os demais, sedados tempo o bastante para iniciar o ataque. Parte do veneno se destinaria também aos alvos mais ameaçadores...
— Mas... Você realmente seria capaz de fazer isso? Olha, sei que não concorda com eles, mas... É sua família, ainda que podre. Você não acabaria hesitando? — questionou Merlween numa das reuniões, preocupada com o emocional de seu amigo.
— Eles devem morrer. O sofrimento que causam a todas as outras famílias, inclusive à sua... — e serrou um dos punhos enquanto falava. — Não só não concordo com eles como passei a odiá-los cada dia mais ao ver o terror que geram. Além do mais, sou o menos suspeito a atentar contra a vida deles, será mais fácil pegá-los assim.
Nambeorn ficou então encarregado de envenenar sua família no jantar com um banquete preparado por ele, ao mesmo passo em que Merlween cumpriria sua parte. Ao neutralizar os alvos mais perigosos, Merl libertaria os seus, assaltaria com eles as armas para aguardar Namb e enfim entrar na mansão, eliminando o restante da guarda furtivamente, que em parte estaria cuidando de importantes cômodos, em outra estaria no dormitório militar (os que trabalhavam durante o dia e só acordavam em casos de emergência, como quando os alarmes eram acionados) e na parte dianteira da mansão. Fora a isso, foi preciso estudar a localização das armadilhas internas e externas que Wladja Bertmond, mãe de Nambeorn, projetou e instalou para inibir tentativas de fuga e rebelião anteriores, que aconteceram poucas vezes, o suficiente para os resultados negativos amedrontarem a todos os escravos, já que os capturados pelas armadilhas eram explodidos, esquartejados, escaldados, triturados, enfim, lesados das formas mais sádicas possíveis.
— Merl, esta será sua outra função. Como revistam todos vocês antes de entrarem e saírem do galpão e da mansão, não será possível que leve o mapa. Você terá que decorá-lo em nossos encontros, posteriormente repassá-lo aos outros para que memorizem também. Assaltar o depósito de armas, por exemplo, vai dar muito trampo por conta disso. Vocês vão ter que evitar ou mesmo desarmar algumas armadilhas dele. — explicou Namb, retirando do bolso o mapa recém copiado por ele.
Após repassarem todos os detalhes do plano, Nambeorn começou a produção de suas poções, não apenas venenosas e soníferas, mas também ácidas, inflamáveis, alucinógenas, dentre outras que seriam úteis em batalha e Merlween estudou o mapa a ponto de praticamente fotografá-lo em sua mente. Ao repassá-lo aos demais servos, alguns poucos disseram que preferiam tentar fugir ao ficar e tomar o lugar, tendo em vista que a maioria não sabia lutar e não adiantou ela argumentar que teriam algumas vantagens, como as poções e boa parte da guarda no dormitório e outra já neutralizada quando saíssem do galpão, que o elemento surpresa seria deles, que apesar de não saberem lutar, tinham considerável força física graças ao trabalho braçal constante e intenso. Tal divergência inesperada poderia prejudicar o planejamento principal, portanto foi necessária a elaboração de outro que não atrapalhasse e, desta forma, tudo demorou mais.
— Temo que isto coloque tudo a perder... Seria bom todos nos unirmos por um mesmo objetivo, não nos fragmentarmos. — resmungou Merl, num dos últimos encontros antes da execução da tomada.
— Vamos conseguir, não se preocupe tanto. Logo todos estarão livres deste inferno seja por um caminho ou outro... E finalmente eu e você vamos poder passar mais tempo juntos, despreocupados! — e sorriu de canto, com um charme que sempre deixava a jovem desconcertada, fazendo-a corar e desviar o olhar.
Naquele mesmo dia, Serberok foi ao quarto do irmão, reclamar que ele andava muito disperso ultimamente, que às vezes o procurava e não o encontrava em parte alguma. Sua intuição era afiada, mas não superava a perspicácia do outro, que sempre tinha uma boa resposta na ponta da língua.
— Gosto de ter um tempo só pra mim, normal... E quando quero ter este meu tempo, faço questão de me isolar o melhor possível para não ser incomodado. Assim como você curte malhar com som alto na cabeça, eu curto ler afundado em silêncio. Que bom que não tá me encontrando e que continue assim. — episódio que depois narrou para Merl, que adorava saber das patadas que Serberok recebia.
Mais duas semanas se passaram graças ao imprevisto com os que desejavam fugir e à necessidade de algumas adaptações no plano e finalmente o dia chegou. Ambos estavam tensos, porém excitados com a possibilidade de liberdade. O último encontro ocorreu no escritório em que Merlween saboreou a melhor refeição de sua vida e na mesa havia outra bandeja, só que desta vez descoberta, com um jarro e dois copos.
— Beba comigo. — disse Nambeorn, servindo os copos com leite de cabra, outro alimento apropriado pelos Sábios do Bucho com a mentira, mas que diferente da carne, não era recolhido periodicamente para “eliminação”, apenas era proibido que “os comuns” o consumissem por puro sadismo, enquanto os Bertmond ordenhavam suas cabras e se deleitavam com ele. O leite para eles era também uma questão de status, de ter algo que ninguém mais pudesse ter.
— Não me sinto confortável bebendo isso... Mas OK, não posso negar que é gostoso. — disse Merl, rindo de nervoso.
Ao terminarem, Namb entregou dois frascos à amiga, o de veneno e o de sonífero, que ela guardou ligeira no bolso de seu avental. Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas se olhando, até que Merlween sentiu um aperto repentino em seu peito, seus olhos se encheram d’água e, sem conseguir conter sua emoção, saltou no amigo, envolvendo-o num abraço aflito e apaixonado. Desta vez, sua timidez fora suprimida pelo desespero e o receio em demonstrar o que sentia por ele já não existia mais.
— E se tudo der errado? E se nós... — e antes que pudesse terminar a frase, Namb a segurou pelos ombros e a afastou o suficiente para que o rosto dela, que estava escorado em seu peito, ficasse de frente com o rosto dele. Com uma das mãos, ele secou gentilmente algumas lágrimas dela e sorriu, dizendo em seguida:
— Não faça isso, Merl... Você sempre foi a pessoa mais durona que já conheci! Não duvide de si, de mim, do nosso trabalho até agora... Toda vez que o desespero tentou me atormentar, eu pensei em você e o expulsei. Sua força sempre me inspirou, deixe que ela prevaleça! E não falo só por mim, mas por todos que dependem de nós.
Nambeorn sabia como ninguém escolher palavras que a motivavam. O sol do fim de tarde lançava sua despedida pela janela do escritório, clareando sutilmente os olhos castanhos do rapaz e emprestando um tom avermelhado aos seus cabelos negros. Merlween o admirou como a uma pintura e sentiu o desespero se esvair, cedendo lugar à coragem. A jovem terminou de secar os olhos, retribuiu o sorriso e deu-lhe um beijo apertado no rosto, fazendo-o enrubescer. “Agora é sua vez de se acanhar” pensou, pegando em seguida a bandeja e se retirando do aposento antes que pudesse corar também, mas principalmente por estar quase na hora de iniciarem a rebelião.
A caminho da cozinha, encontrou-se com as servas e relembrou com elas as instruções. Na sala de controle seria fácil apenas uma servir a comida contaminada, mas no pátio a patrulha se encontrava mais dispersa e seria preciso servir todos num curto intervalo de tempo entre cada (pois o sonífero surtia efeito em poucos minutos), para que nenhum caísse primeiro e depois os outros percebessem que havia algo de errado na comida, evitando ingeri-la e dando tempo de acionar o alarme. A sorte é que estavam em cinco e conseguiriam se espalhar bem no terreno para distribuir o jantar. Poucos passos antes de alcançarem a porta da cozinha, Serberok brotou de um corredor, quase esbarrando nas moças.
— Puta merda, quase que piso em bosta! Saiam do caminho, suas imundas! — e as empurrou enquanto passava, fazendo Merlween derrubar a bandeja. O maromba parou de repente ao escutar o estalar das louças no chão e, antes que ela pudesse apanhá-las, ele avançou em sua direção, agarrando-a pelo pescoço e a atirando contra a parede. — Mais firmeza nesse braço frouxo!
Merl foi ao chão, sua cabeça bateu na parede com força, não o bastante para causar ferimento grave, mas para atordoá-la. Um dos frascos caiu de seu bolso e Serberok o viu antes que ela pudesse notar e escondê-lo.
— Que porra é essa?! — exclamou, apanhando o frasco violeta.
— Só um tempero, meu senhor. — respondeu uma das moças, enquanto as outras correram até Merl para acudi-la.
— Ninguém toca nela ou eu meto bicuda na fuça! — ameaçou Serberok, com os olhos já vermelhos. — Que diabo de tempero esquisito e roxo é esse? Experimenta aí então, “vamo” ver. — e entregou o veneno nas mãos de Merlween, que se sentou com certa dificuldade. Ela engoliu em seco, mas logo tratou de disfarçar o melhor possível seu nervosismo. Precisava pensar em como se safar dessa, mas sua cabeça ainda doía... Seria este o fim de tudo, antes mesmo de começar o atentado?
— Serberok, que demora! Estava te procurando, você não queria testar minha mais nova criação? Ande logo, largue essas inúteis, cê vai amar o que a tia fez! — nunca antes as servas ficaram felizes ao verem Ízinis Bertmond, que caiu do céu já puxando pela camisa seu sobrinho favorito.
— Tia, eu ainda não terminei aqui... — chiou, soltando-se rispidamente das mãos dela.
— Tsc, então deixa pra lá! Nunca te vi antes desfazendo das minhas criações. Toda vez ficava eufórico pra experimentar, largava seja lá qual bobeira estivesse fazendo sem precisar chamar duas vezes... Quer saber? Agora já não precisa vir mais. — resmungou, dando as costas e marchando como uma criança pirracenta.
— Hey, não vem de chantagem emocional não! Tô igualzinho sempre, nada desse lance de “desfazendo”, ôxi! — e seguiu a tia, não sem antes lançar um olhar raivoso de “ainda não acabamos” às cinco.
As coitadas ficaram petrificadas até uns três minutos após os dois se retirarem. O susto com a possibilidade de ver tudo arruinado foi tamanho que demoraram a reagir. As mãos de Merl então tremeram e o frasco quase caiu novamente, mas uma de suas companheiras se agachou, apanhando-o e o guardando de volta.
— Desgraçado! Ainda bem que logo ele vai partir pro colo do capeta! — praguejou Merlween, levantando-se, ajeitando o avental e pegando as louças.
Não havia muito tempo a perder, portanto prepararam um ensopado de língua e batatas. Os soldados não se alimentavam da melhor parte da carne, mas também não ficavam com as piores entranhas, assim como tinham o direito de consumir parte do plantio e às vezes até comiam alguns restos de filé, dependendo de sua posição militar ou de datas comemorativas. Seu cardápio não era luxuoso como o dos Bertmond, mas variado o suficiente para se sentirem superiores aos escravos.
Terminado o preparo, o veneno e o sonífero foram discreta e ligeiramente despejados no ensopado já separado em duas porções, uma média destinada aos vigias das câmeras e uma grande aos patrulheiros. A caminho dos primeiros alvos, ninguém disse uma só palavra, apenas torciam para que não surgisse mais nenhuma pedra no caminho e refletiam atentamente cada passo a ser executado. “Ufa”, suspirou uma serva ao alcançarem sem interferência a porta da sala de controle. Bateram e entraram.
— Que que tem pra hoje? Hum, o cheiro tá ótimo! — comentou um dos vigias, enquanto era servido. Merlween sentiu uma leve vontade de rir, mas se segurou.
Felizmente, todos quiseram comer ao mesmo tempo, sem objeções. Ao se retirarem, as cinco esperaram alguns minutos atrás da porta, disfarçando que estavam arrumando os carrinhos de comida. Logo, ouviram-se engasgos, corpos se debatendo e tombando.
— UHUUU! — exclamou uma das servas, fazendo com que Merl franzisse a testa em sinal de reprovação ao tom exaltado. — Ops, foi mal. — sussurrou, enquanto entravam na sala novamente para verificar se todos haviam caído.
— Bora! A esta altura, a família Bertmond já está à mesa esperando o jantar, portanto Grimbaward nem está observando as câmeras pela sala dele. Vamos logo acabar com o resto.
Chegando ao pátio, cada uma tomou uma direção e serviu em sincronia a patrulha, em seguida retornaram com o pretexto de guardar os carrinhos e ficaram esperando de dentro da mansão, espiando por uma janela, até todos desabarem num efeito dominó. Merlween acenou para as parceiras apanharem as armas dos caídos, pegou as chaves do galpão e do depósito de armas do guardião delas e, claro, todas aproveitaram para degolar os adormecidos, o que foi um tanto complicado para elas que nunca mataram ninguém a não ser com veneno e não podiam demorar. Para cada, havia mais ou menos quatro patrulheiros a serem eliminados. Tudo corria bem apesar das dificuldades até o momento, pelo menos na execução da parte de Merl, mas ela não conseguia parar de se preocupar com como Nambeorn estava se saindo.
— Vamos logo ao galpão. Tomara que nenhum dos soldados de dentro tenha visto pelas janelas o que rolou aqui nos fundos. — comentou uma das garotas.
— Não se preocupe. Namb também ficou encarregado de dar um jeito nos guardas dos pontos específicos que teriam visibilidade daqui, antes de ir dar cabo de sua família. — explicou Merl, e pelo visto ele obteve sucesso nesta etapa, pois tudo estava em conveniente silêncio. A pergunta da outra de certa forma a reconfortou, fazendo-a lembrar deste detalhe e notar que ele fora resolvido.
Ao abrirem o galpão, os escravos já estavam todos de pé, apreensivos. Uma mulher alta e musculosa se adiantou visivelmente emocionada, abraçou forte Merlween e disse:
— Minha filha, graças a Deus! Sabia que iria se sair bem!
— Dona Orjana, mas é claro! E olha só o que eu trouxe para a senhora. — e entregou um facão à mãe, sorrindo. — Fique perto de mim e faça bom uso dele. Pense em tudo de ruim que te fizeram e descarregue!
— Olha, detesto estragar o momento, mas... Precisamos partir. — disse o representante do pequeno grupo composto por dez pessoas que desejavam fugir.
— Certo... Mas não vacilem! Muita atenção com as armadilhas ou tudo estará perdido, tanto para vocês quanto para nós! — advertiu Merl, entregando-lhes algumas armas e se despedindo deles. — Quanto aos demais, sigam-me em silêncio. Lembrem-se, todo cuidado com os passos é pouco!
Todos seguiram rumo ao arsenal, cautelosos com as arapucas. Ninguém ousava comentar nada, nem mesmo as crianças, que iriam ficar escondidas até os adultos concluírem a missão. O local não era muito distante do depósito, era uma espécie de jardim labirinto que Nambeorn ensinara Merlween a decifrar e ela, por conseguinte, ensinou aos demais. Desde pequeno, ele amava brincar ali, um dos poucos lugares livres de emboscadas já que ninguém tentaria fugir a partir dele.
Depósito saqueado e crianças escondidas, o grupo armado partiu então rumo à porta dos fundos para esperar Namb. Pouco antes de alcançarem o centro do pátio, uma explosão próxima aos muros, seguida de gritos vindos da mesma direção, preencheu a noite com seu clarão e arruinou o silêncio, acionando em seguida o alarme. Os servos paralisaram, aterrorizados, perante o provável fracasso dos fugitivos.
— Estamos perdidos! — exclamou um deles, caindo sentado e derrubando sua arma.
— Não, ainda temos chances! A esta altura, Namb já eliminou nossos piores inimigos e nos resta parte da guarda, outra considerável já derrubamos. — encorajou Merlween. — Não estamos em maioria, mas quase equiparados a eles em quantidade. E temos as armas! Não desistam agora, este foi apenas um contratempo que podemos superar!
— Mas filha, eles têm mais preparo que nós... Somos fortes, mas sem nenhuma habilidade. — lamentou Orjana, cabisbaixa.
— Mas eles não têm mais rancor nem motivação do que nós! Eles não lutam por uma causa, lutam como marionetes por outros, diferente de nós! Como eu disse à senhora e agora digo a todos, pensem em tudo de ruim que nos fizeram e descarreguem! — disse, enquanto caminhava no meio deles, encarando-os. — E não tem como andar para trás agora... Não tem como desfazer o que foi feito até o momento, só nos resta seguir em frente. De qualquer forma irão nos matar... A questão é: vocês querem morrer passivos ou tentar? Vocês querem voltar àquela vida? Ela não é muito diferente da morte... Na verdade, ela é muito pior que a morte, não acham? — Alguns a escutaram com atenção, outros estavam prostrados, já desiludidos e rendidos. — Bom, não há tempo a perder... Sigam-me os que preferem tentar, ainda que caiam, mas ao menos derrubando alguns deles. Que fiquem os que preferem ser só mais um abate, como qualquer bode degolado aí.
Merlween deu as costas e seguiu em frente, sem olhar para trás. Sua mãe a acompanhou de imediato ainda que preocupada, alguns poucos servos permaneceram imóveis, outros se entreolharam, trocaram algumas palavras e a seguiram. A jovem não queria demonstrar, mas estava tão abalada quanto qualquer um ali. Sua respiração estava pesada, seu peito não parava de gelar, as mãos suavam... Mas alguém precisava manter a postura e puxar os demais.
Quando alcançaram a porta dos fundos, estranhamente não havia nenhum inimigo presente. Não sabiam se avançavam ou se esperavam, não faziam ideia da situação de Nambeorn após o incidente e se compensava aguardá-lo (exceto Merl que estremeceu só de imaginar que ele não apareceria e intercedeu dizendo “ele virá sim!”), perderam assim alguns minutos durante a indecisão, até que a porta se mexeu. Ninguém ousou se mover, apenas empunharam firme suas armas. Abruptamente, quatro cabras escancararam a porta e partiram pra cima dos escravos, como touros.
— Mas o que...? — questionou alguém que estava na linha de frente. Antes que qualquer um pudesse reagir àquele absurdo, as cabras os cercaram. Havia implantada em suas costas uma espécie de caixinha preta, que começou a apitar e a piscar uma micro luz vermelha. Em segundos, elas explodiram, levando consigo duas ou três pessoas mais próximas. Tamanho foi o pânico dos servos que permaneceram imóveis, banhados por sangue e pedaços de cabra e de humano. Merl não fora atingida, mas ficou em choque.
— Viu só que da hora? Se em teste já é divertido, pra valer assim nem se fala! Tinha que ser obra minha. — gabou-se Ízinis, ao lado de Serberok, que segurava um controle remoto. Além dos dois, a família inteira e seu exército saíram pela porta. Grimbaward carregava uma bandeja coberta e Wladja segurava Namb pelos cabelos, que exibia o nariz já sangrando e o olho roxo.
— Meu filho preparou algo especial esta noite. O cheiro está maravilhoso! Mas sabe, há algo de estranho aqui... Diz Serberok que é o tempero. — ironizou Grimbaward, acenando para um subordinado se aproximar e lhe entregando a bandeja. Em sequência, desembainhou sua espada e avançou sozinho rumo aos escravos.
Todos se assustaram, pois como poderia o líder da mansão avançar assim contra um bando? Merl, ao ver o estado em que seus companheiros se encontravam, principalmente Namb, sentiu uma energia inesperada tomar seu corpo vencendo o choque e também se adiantou, peitando Grimbaward sozinha. Infelizmente, neste contexto ela ainda não era forte e habilidosa o necessário para enfrentá-lo. Grimbaward se esquivou com destreza de todos os seus ataques desesperados e, em deboche, nem mesmo revidou, somente a derrubou com uma rasteira e prosseguiu cantarolando. Na verdade, o que ele queria era...
— Ah, sim... Você! — e desviou de alguns ataques de outros servos como se fosse tão simples quanto se espreguiçar, pegou Orjana pelos cabelos e colocou a espada contra seu pescoço. — Ninguém se move ou ela sangra! — avisou, recuando rumo aos seus. Passou por Merl assobiando, o que a fez estremecer de ódio por não poder fazer nada. Ao se aproximar do combatente que segurava a bandeja, ordenou que ele a destampasse.
— NÃO! — gritou Nambeorn, antes mesmo que Merlween pudesse fazê-lo. Wladja puxou mais forte seu cabelo e lhe deu uma joelhada nas costas, fazendo-o gemer de dor.
— Abre a boquinha... — mandou Grimbaward, fazendo-lhe um pequeno corte no canto do pescoço, ao que Merl viu e então gritou. — E você fica calada ou torturo sua mamãezinha até deformá-la, o que prefere?
Orjana não chorou, nem gritou, não implorou pela vida, apenas fechou os olhos e abriu a boca, mas não para comer...
— Filha, aguente firme! — foram suas últimas palavras, pois o soldado logo agarrou seu rosto e lhe deu uma colherada na marra. Orjana mastigou e engoliu sem resistir. Grimbaward a soltou, fazendo cara de nojo e guardando sua espada. Minutos depois ela começou a engasgar, sua filha não suportou e desviou o olhar antes que a visse espumar pela boca e se debater. Nunca antes chorou tanto, de soluçar.
— Então era isso o que queria para a sua família?! — perguntou Grimbaward olhando para o filho, que também estava chorando. — E por uma serviçal de merda você chora? Seu ingrato! Tudo o que fizemos por você desde que nasceu e é assim que retribui, tramando contra nós? Armando uma rebelião? Envenenando nossa comida? — e chutou o corpo caído de Orjana. Merl não conseguiu gritar, não conseguiu sair do lugar, não teve fôlego para nada, apenas se culpou por tudo, mais do que ao próprio inimigo.
— Amorzinho, não acha que já está na hora de acabar logo com isso? — reclamou Wladja, impaciente.
— É, tem razão... Ainda nem jantamos, estou cheio de fome. — concordou o marido. — Guardas, podem fazer o favor? E ah, para não dizerem depois que sou o desalmado, o demônio encarnado, etc.: quem quiser, pode voltar ao galpão, ainda é tempo. Não os matarei, garanto. Que não os castigarei, não garanto. Mas irão sobreviver... Aos que resistirem, só ordeno aos meus homens que os eliminem, depois levem os corpos para cremar bem longe daqui, não quero lixo enterrado no meu quintal. Quanto à Nambeorn, levem-no ao laboratório de Ízinis. — ao ouvi-lo, Merlween ergueu a cabeça e arregalou os olhos. O que poderia ser pior do que virar parte dos experimentos de Ízinis?
— Maldito! Faria isso com o próprio filho? — rosnou, sentindo novamente lágrimas escaparem pelos olhos.
— Mas é muita cara de pau, né? — bufou Serberok. — E o que ele ia fazer com todos nós? Cê tem zero moral pra se indignar!
— Em primeiro lugar, não falei com você. — retrucou Merl. — Em segundo: é tão covarde que não ficará para lutar, Grimbaward?
— Não, nem é covardia. É que não me sinto motivado com inimigos tão fracos. — respondeu o outro e deu as costas, acenando para sua tropa avançar.
A maioria dos escravos soltou as armas e correu para o galpão, sobrando apenas uns vinte contra cerca de cem. Antes de ser levado, Nambeorn ergueu o punho esquerdo em sinal de apoio aos que ficaram, o que fez Merl querer correr em sua direção, mas antes que pudesse fazê-lo, a família já havia se retirado e os soldados os cercaram. Iniciou-se um verdadeiro massacre, não havia chance alguma contra o exército. Os resistentes lutaram bravamente, ainda que mal durassem três minutos de pé. Poucos conseguiram matar um inimigo, se derrubaram dez no total foi muito. Tudo aconteceu rápido demais, tendo em vista a desvantagem em que se encontravam. Merlween fora espancada e esfaqueada, em minutos caiu no meio da multidão e desmaiou, tendo em vista as sérias feridas.
Por sorte, quando colocaram os corpos no caminhão para levar fora da mansão e cremar, não perceberam que Merl estava viva, pois estava toda ensanguentada e perfurada. Durante o caminho, os chacoalhões do veículo a fizeram despertar, ainda cheia de dores, mas na adrenalina ela conseguiu se arrastar e rolar para fora da carroceria, caindo na beira da estrada. Dali, ela se arrastou mais um pouco para se esconder atrás de algumas sucatas, onde mais tarde fora encontrada por sua salvadora, que a curou e lhe batizou como Shaenya.
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