A Desgracença da Buchada
6 CAPÍTULO VI – MANSÃO
A noite estava em seu fim, os cinco que lutaram gastaram boa parte da energia de uma das Cápsulas Solares da armadura. Esta cápsula foi produzida por Liluth para captar a luz solar e convertê-la em energia para alimentar os trajes especiais. Cada um deles recebeu três cápsulas, pois não era possível saber quanto de energia necessitariam dentro da mansão e se lá conseguiriam encontrar fonte de luz solar com facilidade para fazer recarga. Sendo assim, após alguns minutos de silêncio graças ao tenso ocorrido com os Canibais sem Escolha, Yanka logo sugeriu:
— Por causa do imprevisto, acho melhor a gente parar em outro esconderijo e esperar o sol aparecer, colocar as cápsulas que utilizamos para carregar 100%. Precisamos chegar lá com o máximo possível de poder para confrontá-los. E não apenas isso, mas recarregar a energia de nossos corpos também, não estamos muito cansados, mas não podemos facilitar para eles. Cada coisa que pudermos fazer para chegar lá tocando o terror é essencial.
— Mas nem gastamos tanto assim de energia das cápsulas e dos corpos! — contestou Merialeth. — Eu acho um exagero parar, apesar de a princípio ter pensado que daria trabalho lidar com os Canibais sem Escolha, foi molezinha! Acredito que o essencial é o tempo, que já gastamos demais no decorrer da nossa preparação, não aguento esperar mais!
— Merialeth, Yanka tem razão... Não podemos arriscar ficar nem um tiquinho que seja em desvantagem. — argumentou Shael. — A falta de paciência pode nos prejudicar, já que esperamos tanto tempo, não custa nada esperar só mais um dia.
Depois de mais alguns resmungos de Merialeth, todos concordaram em ir para o esconderijo. Chegando lá, viam-se no céu os tímidos raios de sol anunciando sua chegada e logo as cápsulas foram ajeitadas próximas a uma rachadura na parede do esconderijo, por onde entrariam os primeiros feixes de luz. Todos tiraram suas armaduras para descansar e aproveitaram para comer.
— Sabem de uma coisa? — questionou Shael enquanto apanhava uma tira desidratada de sua algibeira. — Para mim os Monges da Buchada são tão horríveis quanto os demais. Não há nada que eu ache mais repugnante do que os acomodados, principalmente diante de todas as barbáries. Eles preferiram levar um tempão desenvolvendo uma técnica psíquica para aceitar de cabeça baixa o que lhes é imposto, preferiram gastar a inteligência deles para se subjugar. Eu sei que também há certa resistência neste ato, pois eles sabem do risco de serem crucificados pelos Defensores e de virarem comida dos Canibais, mas... Exatamente isso, o que é que muda? Muda que não são obrigados a sentir o gosto do que detestam, mas isso é algo muito egoísta! Mantêm-se longe de virar canibais, não querem obrigar ninguém a gostar ou desgostar do que comem, mas... Que diferença real isso faz? O conformismo deles continua a permitir que coisas ruins aconteçam, não souberam usar sua capacidade para transformar.
Algumas conversas depois, como era necessário esperar pelo menos mais cinco horas pela recarga das Cápsulas Solares, o grupo decidiu aproveitar o restante do tempo dormindo. Por estar muito ansiosa, Merialeth se prontificou a fazer a vigia enquanto os demais dormiam. Neriom não estava com muito sono também, tendo em vista o episódio com sua mãe, mas ficou deitado em silêncio, com um dos braços cobrindo os olhos. Passaram-se cerca de duas horas e ele acabou cochilando, mas acordou assustado ao ouvir alguém mexer numa das bolsas que estavam no canto do recinto.
— Puta merda, Neriom! Quase me mata do coração com este pulo! — exclamou Merialeth, soltando a bolsa em que estava mexendo. — Tente descansar um pouco, sei que é difícil, mas você me parece abatido, precisa recobrar as energias mesmo não tendo lutado. Fico preocupada com você... Não quero te ver ferido ou pior, precisamos de você inteiro quando estivermos lá. Não se preocupe que vigia melhor que a minha não tem, pode descansar em paz.
Neriom, sem dizer palavra alguma, bebeu água, molhou um pouco o rosto e se deitou novamente, mas não conseguiu voltar a cochilar. Ele estranhou Merialeth estar tão agitada, mas permaneceu quieto, pois estava sem ânimo para questionar qualquer coisa. Passadas as horas necessárias, ele acordou seus companheiros e, quando foi pegar as Cápsulas Solares para guardá-las na bolsa, percebeu que já não estavam mais lá:
— Não se preocupe, já as guardei. — disse Merialeth, aprontando-se às pressas. — Bora, galera, sem mais delongas! Daqui a pouco vai estar tudo escuro, melhor momento pra gente invadir a parada!
O grupo se aprontou e caiu na estrada, finalmente sem mais nenhum preparativo a fazer. Durante o caminho, nada mais aconteceu para interrompê-los e todos estavam submersos em um agoniante silêncio. Não havia de fato um plano de invasão, pois a única coisa que todos conheciam era a fachada da mansão, nunca ninguém além dos Sábios do Bucho conseguiu entrar lá. E quem saía de lá nunca revelava os segredos internos, nem sob tortura, como Yanka relatou ao grupo que seus pais fizeram com um carregador antes de tentarem invadir a mansão. Todos os seguidores dos Sábios eram extremamente fiéis, não se importavam em morrer, comportavam-se como robôs, como se tivessem sofrido intensa lavagem cerebral. Sendo assim, todos os preparativos do grupo foram focados em fortalecimento para o combate, pois a invasão teria que acontecer no improviso.
Em poucas horas de caminhada, alcançaram a mansão. O último esconderijo não era tão distante e isto lhes causou estranheza, parecia que eles ainda não tinham caído em si, que a missão principal estava a poucos passos de se iniciar. Agora só faltava aguardar a chegada dos Carregadores da Carne Contaminada e aproveitar a “brecha”. O plano era tentarem entrar sorrateiramente logo atrás do caminhão, antes de o portão se fechar, mas seria arriscado alguém não conseguir passar, já que estavam em seis. Havia a probabilidade de até três pessoas passarem, mas além disso...
— E se alguém ficar para trás? Não podemos correr este risco, cada um é fundamental lá dentro! – resmungou Shael.
— Seja como for, vamos todos entrar, não se preocupe. Afinal de contas, nós somos os seis escolhidos, nós vamos derrubá-los, não importam as adversidades! — argumentou Yanka, olhando fixamente para o portão. Se havia alguém que acreditava cegamente na profecia, era ela.
Poucos minutos depois, o caminhão apareceu e Liluth pôde sentir seu corpo petrificar e sua respiração travar, nunca antes esteve tão apreensiva, mesmo da primeira vez em que tentou invadir. O mundo pareceu entrar em câmera lenta e, quando os homens desceram do caminhão, direcionaram-se ao portão e colocaram suas mãos no painel reluzente, um vulto se aproximou deles e os decapitou com um único movimento, quase que imperceptível, surpreendendo a todos.
— Todos vão entrar. — o vulto se aproximou do grupo segurando as cabeças pelos cabelos, até que seu rosto se revelou com a luz da lua, tratava-se de ninguém menos que Taenya, que deixou os demais boquiabertos. — Ué, qual a surpresa? Não sei como não pensamos nisso antes.
— Não pensamos nisso antes porque queríamos entrar em sigilo, sua louca! A sorte é que você os matou num único golpe e sem que nenhum pudesse soar algum tipo de alarme e já ferrar com nossa infiltração! – esbravejou Merialeth, mas com um risinho no rosto, pois em todo caso ela adorava ver sangue jorrar.
Todos entraram no caminhão, Neriom felizmente sabia dirigir, pois aprendera com seu pai, nalgumas jornadas que precisaram fazer para sobreviver quando ainda viviam juntos. Passaram por um grandioso jardim repleto de estátuas, com manacás da serra, pinheiros, pingos de ouro formando cercas naturais, um chafariz com duas sereias de mármore se banhando, dentre outros elementos que pareciam ter surgido de outro universo, bem distante daquele cenário caótico que os seis haviam contemplado a vida inteira.
— É como se a gente tivesse atravessado um portal para outra dimensão. Não é possível uma coisa dessas... — sussurrou Liluth, impressionada com a beleza do lugar, mas ao mesmo tempo irritada, pois como podia pessoas se darem ao luxo de viver num ambiente tão belo enquanto milhares de outras viviam rodeadas por destroços e todo tipo de desgraças?
— Não me admiro tanto com o cenário, mas mais com o fato de que não apareceu nenhum soldado, segurança ou algo do tipo até agora. — disse Shael, coçando o rosto, preocupado. Em seguida, apontou para um canto mais escuro do jardim, sugeriu que estacionassem um pouco antes e se escondessem ali, até decidirem o próximo passo. De fato, não havia uma alma viva perambulando pelos arredores.
— Olha, para mim faz sentido. — e, tomando fôlego, Merialeth começou a explicar. — Eles não costumam lidar com muitas invasões, pelo que sabemos foram poucas as tentativas. Todos do lado de fora estão preocupados demais com suas facções, sangrando uns aos outros... Os Sábios do Bucho conseguiram se manter muito bem isolados, alimentando cada vez mais a ignorância do lado de fora também. Sem contar o medo que instigam naqueles que tentam contrariá-los, como fizeram com seu pai, Shael, só por ele ter tentado comer a carne do bode... Imaginem algo além, poucos seriam ousados como os pais da Yanka foram. Acho que devemos aproveitar nossa sorte! — ao dizer isso, apontou para janelas nos andares superiores da mansão. — Vejam, as únicas luzes acesas são as de aposentos acima, podemos aproveitar qualquer janela de baixo para entrar discretamente.
Liluth sentiu em seu íntimo que estava bom demais para ser verdade, mesmo com os argumentos de Merialeth. Já havia anoitecido, não havia nenhum tipo de guarda, as janelas do primeiro piso da mansão estavam todas escuras... Parecia fácil demais para acreditar. Mas o que podiam fazer se não arriscar?
— Bom, então “vamo” logo! Preparem a Cápsula Solar em suas armaduras e bora praquela janela ali, ela me pareceu mais simpática. — sugeriu Yanka, apontando para uma pequena janela mais próxima de onde estavam.
À passos furtivos, um após o outro, o grupo alcançou a janela. Após uma espiada para conferir se havia alguém no cômodo, Neriom uniu suas mãos como se fosse rezar e as palmas brilharam, em seguida tocou o vidro com elas, fazendo com que ele derretesse com uma onda térmica. Todos entraram e, mesmo estando quase completamente escuro, puderam perceber com a pouca luz da lua que irradiava pelo recinto que se tratava de uma sala de estar repleta de instrumentos musicais. Merialeth tomou à dianteira, fez sinal para que a seguissem até um portal que levava a um corredor. Dali em diante, foi guiando o grupo.
— Hey, você faz ideia de para onde está nos levando? — sussurrou Taenya.
— E alguém aqui faz? Fiquem em silêncio! — respondeu rispidamente a outra.
Após alguns cômodos, entraram numa espécie de laboratório, com paredes e chão brancos, pouca mobília e apenas algumas mesas com instrumentos excêntricos encima. Quando estavam em seu centro, as luzes se acenderam repentinamente, um alarme soou, as portas se fecharam e outras de aço reforçado as “cobriram”, fazendo com que todos saltassem para trás, exceto...
— Coelhinhos assustados, prestem muita atenção! Apenas eu posso desativar o sistema de segurança de dentro para fora, não importa o que façam, estão presos aqui. Não há ninguém do outro lado que possa ajudá-los, este é o fim para vocês. Todos vão morrer aqui inclusive eu se for preciso, exceto Liluth, sua habilidade irá servir bem aos Sábios. Não adianta tentarem lutar, vocês possuem apenas uma Cápsula Solar cada e eu três, uma hora estarão em desvantagem, fiz questão de me desfazer de suas reservas enquanto dormiam, aqui não tem nenhuma fonte de luz disponível para recarga e... Como foram idiotas de não conferirem suas mochilas depois que as preparei! Deixei apenas uma cápsula em cada bolsa visível superficialmente para pegarem a hora que chegassem aqui. Eu sugiro que se rendam de boas, vai lhes poupar sofrimento e me poupar tempo, que já perdi demais com essa porra. Pra quê essas caras de merda? Até parece que essa missão estúpida funcionaria! Não imaginam o quanto estou louca pra encher vocês de porrada até a morte caso resistam, principalmente você Yanka, assim como fiz com seus pais. E você Liluth, não me faça precisar te dar uma surra para te entregar inconsciente. — Para o espanto de todos, Merialeth, ao terminar de ditar tais ordens, brandiu seu chicote elétrico e deu um risinho malicioso.
Os demais ficaram imóveis, tentando processar o que acabara de acontecer. Minutos depois, do teto se abriram portas circulares e delas desceram dezenas de homens em cordas, com facas, foices, tacos, martelos e alguns com armas de fogo de baixo calibre. Quando todos finalmente desceram, alinharam-se ao redor de Merialeth, aguardando ordens.
— MAS QUE CARALHO TÁ ACONTECENDO AQUI?! VOCÊ, SUA FODIDA TRAIDORA, REPETE O QUE DISSE DOS MEUS PAIS! — gritou Yanka, a primeira a conseguir ter uma reação.
— Do que adianta explicar, já que todos vão tomar no cu? Mas olha, como consideração pelo tempinho que passamos juntos, vou lhes contar. Aceitem como um último desejo concedido antes de suas mortes. — Merialeth pigarreou e prosseguiu. — Bom, fui criada para fazer a vigilância externa da mansão, para viver como um dos comuns, inclusive comendo o mesmo que vocês, disfarçada entre os imundos e suas imundices. Observo ameaças que se aproximam da Cidade de Ruínas e as elimino, no momento certo. Não existem muitos como eu, mas o necessário para lidar com grupelhos que aparecem de vez em quando, como seus pais, que se aproximaram do portão da mansão e tiveram um lindo final, destripados ali mesmo, facilmente por uma jovem iniciante como eu na época... Patéticos! — neste momento, Yanka avançou aos xingos, mas logo os demais a seguraram, dizendo para ela se acalmar e terminar de escutar. — Vai parar com o showzinho? OK, então vou continuar... Claro que vocês devem estar se perguntando por que não os matei antes, por que esperei até o último membro do grupo aparecer, por que esperei as armaduras ficarem prontas e por que permiti que entrassem aqui. Diferente das outras ameaças, esta me exigiu muito mais cautela, desde o início. Eu não estava com meu marido e filho no vilarejo em que Yanka, Neriom, Taenya e Shael me encontraram, eu estava com uns “zé ninguéns” que apenas me serviram naquele dia, às vezes eu ameaçava umas famílias para tirar delas comida ou o que quer que eu precisasse, se é que esses miseráveis têm muito a oferecer. Quando vocês bateram na porta, logo mandei os infelizes se calarem e deixarem tudo comigo, se não os mataria, mesmo que a “visita” estivesse em maior número e, como sou bem persuasiva, eles não quiseram arriscar. Até então foi o maior grupo e o mais preparado a representar ameaça, que apareceu com uma história bem cabeluda, mas interessante e que fazia certo sentido. A profecia dos seis... Decidi esperar pelos dois membros restantes e eliminar todos numa “tacada”, não ter trabalho de procurar os que faltavam, mas deixar que Yanka fizesse isso, enquanto eu me apropriava de sua peculiar arte marcial, para poder futuramente repassar ao meu povo. Era possível continuar fazendo minha vigilância enquanto eu treinava com os demais, quando era minha vez de fazer as viagens para pegar as tiras desidratadas, também aproveitava para repassar informações aos Sábios a respeito de todos os seus planos. Permitiram que eu ficasse de olho até a suposta líder inventiva aparecer... O tempo foi passando e nada de acontecer, por um momento cheguei a acreditar que a profecia era pura balela e que seria melhor eliminar logo os quatro, mas você apareceu com a porra dos sapatos incríveis. Ah, isso foi uma das coisas mais fascinantes que já vi e, ao informar os Sábios, me fizeram esperar pela conclusão das armaduras, para testar se realmente era algo assim tão grandioso e se poderia nos servir. Sabem, toda e qualquer vantagem bélica tem que ser nossa! Sendo assim, precisei trazê-la até aqui, Liluth. Mas, infelizmente como esperar pela construção das armaduras para testar seu poder consequentemente os tornou mais fortes para eu lidar sozinha, foi preciso elaborar um plano para atraí-los e capturá-los num terreno em que teríamos vantagem e estaríamos em maior número, mesmo que dentro da mansão. Esta medida extrema foi necessária diante do que o grupo se tornou. Agora estamos aqui, finalmente prestei um dos maiores serviços aos Sábios e vou poder me aposentar!
— Mas... Quando sugerimos a parada para recarregar as cápsulas e descansar, por qual motivo foi contra, já que queria sabotar nossas mochilas, retirando as reservas? — indagou Neriom.
— Aff, que detalhe besta, meu filho! Na real isto não estava no meu plano, ter vocês com uma cápsula descarregada e parcialmente cansados seria uma vantagem, mesmo que eu estivesse na mesma condição, pois chegando até aqui, meus homens poderiam enfrentá-los melhor. Mas depois pensei bem e vi a possibilidade de sabotar suas mochilas enquanto descansavam, o que saiu melhor que o planejado me deixando também em vantagem com relação às cápsulas. Enfim, chega de blá blá blá e “vamo” pro pau! – dizendo isso, acenou para seus soldados avançarem e enrolou de súbito seu chicote no tornozelo de Liluth, puxando-a. Liluth estava pasma com tudo que acabara de escutar, não conseguiu reagir de imediato, foi ao chão... E assim começou a primeira batalha na mansão.
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