A Desgracença da Buchada
5 CAPÍTULO V – “XANINHO”
Um ano se passou após aquele dia, o homem não foi mais visto, felizmente foi de fato uma boa ação. Liluth concluiu as armaduras, explicou a todos suas funcionalidades e já havia aprendido muito com os treinos, o suficiente para conseguir colocar em prática o tão esperado plano de invasão da mansão. O grupo se encontrava no mais distante esconderijo, próximo à saída da Cidade de Ruínas e, quando estavam se preparando para partir, escutaram um grito de plena fúria do lado de fora. Todos ficaram atônitos, trocaram olhares por uns minutos e então Taenya murmurou:
— Precisamos sair pelos fundos, o berro veio lá da frente. Vamos contornar o bar e pegar o caminho do túnel.
A sorte é que estavam no esconderijo que possuía mais saídas e ainda era noite, assim poderiam evitar facilmente topar com o que quer que estivesse acontecendo do lado de fora. Ao saírem na "maciota", conseguiram contornar o bar e quando estavam perto da entrada do túnel, Liluth sentiu uma incontrolável vontade de olhar para trás.
— Pelo amor da Deusa! Por que caralhos você parou e tá olhando para trás? Anda, não temos tempo, vão nos perceber! — ralhou Yanka e a puxou pelo braço, mas Liluth se soltou e correu em direção oposta. — Hey, espere!
Os demais ficaram aflitos, mas a seguiram. Mais um grito ressoou e ela partiu em sua direção, enquanto alguém resmungou às suas costas “o que está fazendo, porra?”. Passaram por alguns entulhos e, ao se aproximarem do local, todos avistaram um grupo de dez pessoas e se esconderam atrás de uma mureta próxima. Uma das dez pessoas estava de joelhos com uma corrente presa ao pescoço, as outras riam e quem a segurava disse:
— Xaninho, Xaninho! Por onde você andou? A mamãe estava tão preocupada pensando que cê tava por aí passando frio, fome, sede e solidão! Às vezes quando vejo um osso, taco ele pro nada na esperança de você aparecer e pegar.
Em resposta, o acorrentado gritou alucinado e se debateu tentando escapar da corrente, mas um sujeito o chutou e ele desabou no chão. Até então a lua estava coberta por uma nuvem e mal era possível enxergar algo além de silhuetas, mas logo sua luz escapou e revelou seus rostos. Neriom estremeceu e caiu sentado, com as mãos na boca e os olhos estalados, ninguém entendeu sua reação e Liluth nem a percebeu, pois também se encontrava surpresa, não tanto quanto Neriom e por motivo diferente, boquiaberta ao notar que quem estava de joelhos era ele, o esquisito que a salvou.
— Mi-minha mãe... Minha mãe está aqui! É aquela segurando o cara. — disse Neriom e todos logo compreenderam sua reação.
— Ele também está! Lembram-se dele? É aquele maluco que nos atacou e Liluth disse para deixar vivo. Vish, desta vez parece que ele não vai escapar... — comentou Merialeth com um risinho de canto.
— Não... Precisamos ajudá-lo. — contrapôs Liluth, para o espanto de todos.
— Ajudar? Mas cê tá louca nas drogas? — retrucou Merialeth. — Jamais vamos nos arriscar por ele e colocar tudo a perder bem agora! Eles são os loucos dos Canibais sem Escolha, estão em maioria e a pior forma de morrer é pelas mãos deles!
Liluth contou ao grupo o episódio em que ele a salvou e que estava lhe “devendo uma”, que não falou a respeito antes por achar que nunca mais o veria, portanto seria desnecessário. Mas agora seria sua chance de retribuir e também de todos testarem as armaduras. Ninguém concordou, disseram que a prioridade era seguir em frente com os planos e ignorá-lo.
— Bom, então podem seguir em frente que eu os enfrento sozinha e encontro vocês depois. Tenho uma dívida com este homem e não posso ignorar. Não consigo virar as costas para alguém que cooperou conosco, pois afinal de contas se ele não estivesse lá para me salvar, nenhuma armadura teria sido feita. Pensando bem, todos nós devemos a ele. — Liluth mal terminou de argumentar e partiu para cima dos canibais.
De sua armadura irradiou um clarão, como se fosse a luz de um farol, que inundou todo o local e cegou a todos, exceto ela e seus parceiros que estavam com óculos superprotetores. Aproveitando os instantes de cegueira dos inimigos, Liluth acionou um botão na palma da mão direita e de seu braço foram lançadas serras circulares que acertaram dois oponentes, um no pescoço que caiu morto de imediato e outro no peito, mas este não morreu e ela precisou finalizá-lo com um golpe, pois a serra só fincou parcialmente e ela terminou de enterrá-la com um pisão. Tudo aconteceu tão rápido que seus companheiros mal puderam raciocinar, até que Taenya despertou e disse:
— Precisamos ajudá-la! Pensando melhor, ela tem razão, de certa forma também devemos a ele. E principalmente devemos a ela, que construiu nossos trajes e nos motivou com sua determinação. Além disso, ela também é minha amiga agora, não vou abandoná-la.
O efeito do clarão passou e os inimigos voltaram a enxergar, seis deles partiram para cima de Liluth, brandindo foices, enquanto a mãe de Neriom continuava a segurar o homem da cara cicatrizada com firmeza. Taenya entrou no confronto e com seus braços fortes lançou em direção aos seis duas hélices de ventilador de metal afiado, que acertaram em cheio dois deles, um nas pernas e outro na cintura, ambos caíram agonizando de dor. Os outros quatro conseguiram alcançar Liluth, que ativou várias lâminas em suas pernas semelhantes a camadas de Gillette e começou a fazer movimentos da arte marcial própria do grupo.
— Mas o que é isso, Ragatanga? — indagou um dos infelizes canibais e os demais paralisaram, assim como ele, sem conseguir desviar o olhar de Liluth, como que enfeitiçados.
Antes que ela pudesse desferir algum golpe, Yanka, Merialeth e Shael intercederam. Do peito de Yanka saíram vários dardos (destes de jogo mesmo, mas com pontas mortais) e alvejaram um dos oponentes, fazendo-o ficar parecido com um porco espinho; Merialeth puxou de sua cintura cordas de guitarra improvisadas como chicote, de suas palmas saíram faíscas que revestiram a arma de eletricidade, e com ela “laçou” um dos canibais, que começou a se contorcer e a babar com a descarga elétrica; de cima dos punhos da armadura de Shael, saíram brocas de furadeira que ele usou para perfurar o inimigo; por fim, Liluth estraçalhou o quarto com chutes revestidos de lâminas.
Sobraram apenas os dois que foram derrubados por Taenya e suas hélices, ela os deixou vivos agonizando e correu atrás da mãe de Neriom, que tentou fugir carregando o refém ao ver que seus parceiros estavam levando a pior, mas felizmente não conseguiu. Todos a cercaram e soltaram o homem, que tossiu algumas vezes por causa da corrente que apertou seu pescoço e, inesperadamente, pulou na garganta de sua agressora.
— NÃO! SOLTE-A! — gritou Neriom que até então estava estático atrás da mureta e correu até eles.
Shael e Yanka seguraram o homem pelo braço e o afastaram, Merialeth e Liluth agarraram a canibal.
— SOLTEM-ME, ELA TEM QUE MORRER! — esbravejou o estranho que até então nunca havia dito uma palavra e Liluth chegou a pensar que era mudo. — VOCÊS NÃO SABEM DO QUE ESTE MONSTRO É CAPAZ!
— DEIXEM-NA IR! Vocês já mataram a todos, que ameaça ela representa agora? Provavelmente vai fugir cagando de medo! — argumentou Neriom, aparentemente abalado e sem compreender de fato o que estava dizendo, defendendo uma pessoa que no passado tentou comê-lo. Sua expressão oscilava entre a confusão e a tristeza.
— Ora vejam só se não é o meu garotinho! — debochou a mulher, que logo levou um bofete de Merialeth para calar a boca e um olhar feroz para não se atrever a falar novamente.
— Vocês não podem deixá-la viva! Garanto que se escutarem a minha história vão decidir que a morte é até pouco para ela! — a feição do sujeito mudou de rude para perturbada e todos se entreolharam, como que concordando em escutar (exceto Neriom que estava desolado) e Yanka acenou positivamente com a cabeça para ele prosseguir. — Há mais ou menos cinco anos, quando eu tinha uns vinte anos, fui capturado pelos Canibais sem Escolha, mais especificamente por esta psicopata. Pensei que seria o meu fim, que seria devorado, porém ela não quis me comer, fez muito, mas muito pior! A maluca tinha uma revista com fotos de cachorros que encontrou perdida por aí e achou interessante, leu coisas a respeito deste animal e ficou encantada, então imaginou como seria ótimo ter um. Mas cachorros não existem mais, certo? Então ela me encontrou, um jovem bonito e... — neste momento, ele abaixou a cabeça e engoliu em seco, como se fosse muito dolorido falar, quase impossível, mas instantes depois continuou. — Ela teve a brilhante ideia de me tornar seu cão. Eu era obrigado a ficar de coleira o tempo todo, acorrentado aos seus pés, não podia mais andar normalmente, apenas de quatro, não podia dormir em outro lugar a não ser em trapos no chão, só usava roupas de baixo, não podia mais falar e se eu tentasse era severamente castigado, apanhava muito no começo por relutar em aceitar tais coisas e foi isso que resultou nas várias cicatrizes que carrego. Mas o pior de tudo não era isso, o pior era que ela me forçava a comer... — novamente ele fez uma pausa e respirou fundo, mas logo prosseguiu. — A comer os restos da carne humana que ela banqueteava. Como se não fosse o bastante, eu era obrigado a acompanhá-la em vários lugares, inclusive no matadouro, pois era um de seus maiores prazeres assistir o abate, a limpeza e o preparo da carne. Todos os dias eu tinha que olhar as piores torturas, todos os dias tinha que escutar os gritos de pavor, as lamúrias de dor... Eu não podia sequer desviar o olhar que levava pontapés, eu não podia me atrever a chorar ou ela enfiava minha cabeça num tanque cheio de água até quase me matar. Eram constantes as humilhações, um verdadeiro inferno, quase me esqueci completamente que era um humano, mas eu ficava repetindo mentalmente meu nome a mim mesmo “sou Beldroth, sou Beldroth”, tentando me convencer de que era alguém e não enlouquecer. Pensei muito em me matar e até sonhei várias vezes com isso, mas algo me dizia para esperar, algo em meu íntimo também sussurrava todos os dias que eu sairia dali... Uns dois anos se passaram e nada de surgir qualquer esperança de fuga, na minha condição era impossível tentar qualquer coisa pela maneira que era preso e castigado a cada tropecinho mínimo que dava. Mas aconteceu... Uma moça e seu irmãozinho foram capturados, presenciei o dia em que o pegaram para o abate e ela aos prantos falava “não levem meu maninho! Ele é só uma criança, por favor me levem!” e esta psicopata aí — ao dizer isso, Beldroth apontou com ranço para a canibal. — disse “mas é a carne mais macia, da melhor qualidade!” e então não teve como, o garotinho foi levado. Neste dia não consegui evitar e comecei a chorar ali mesmo, diante da moça e, como já havia dito, era proibido cachorro chorar. Apanhei, apanhei e apanhei bem diante dela, mas não conseguia parar de chorar. Pensei que iria morrer de tanto apanhar, mas não... Apenas fiquei desmaiado. Alguns dias depois, de repente, ela apareceu onde eu ficava preso à noite quando todos dormiam, murmurou “vai ficar tudo bem, vamos sair daqui” e com um grande alicate que não faço ideia de como ela conseguiu, me soltou. Foi extremamente difícil conseguir sair sem sermos vistos, mas por sorte eu conhecia cada canto daquele barracão e também onde os vigias costumavam ficar. Não consigo acreditar até hoje que fomos capazes de escapar, eu mal conseguia me sustentar em pé, tinha desacostumado a andar, meus pés doíam quando tocavam o chão, mas ela me carregou escorado em seu corpo. Torcemos para não notarem nossa ausência e nos perseguirem e... Não é que conseguimos? Eu e Nieven escapamos do inferno! Prometemos nunca mais falar daquele maldito lugar e ela cuidou de mim por mais ou menos um ano até que adoeceu e morreu, infelizmente não pude fazer nada para salvá-la. Desde então eu tenho treinado e aprendi a lutar sozinho, como se existisse todo um manual em minha mente para seguir. Cada maldito canibal que encontro faço questão de matar, não poupo nenhum e quando os encontrei, tive que conferir se não eram canibais também, mas no fundo eu sentia que não... Então, agora pergunto a vocês: tem como deixar um demônio desses vivo? Hey, você... — e apontou para Neriom. — o que ela é sua?
Neriom falou que era sua mãe, explicou resumidamente seu passado e estava com os olhos cheios de lágrimas. Passados alguns minutos, todos estavam em silêncio, até que a canibal decidiu falar.
— Seus malditos, acabem logo com isso! Xaninho, você é um lixo mesmo, dei graças quando sumiu, não precisei mais suportar seu fedor e te alimentar! — e cuspiu no chão. Merialeth sentou a mão na cara dela com tanta força que a derrubou no chão.
— Esta não é a sua mãe, não é ela há muito tempo. Esta nem é gente, não tem como defender! Uma criatura assim não pode existir! — insistiu Beldroth.
— Faça... Faça como quiser. — respondeu Neriom, deu as costas e seguiu rumo ao túnel.
Os demais nada disseram, apenas se afastaram e deixaram Beldroth a sós com a mulher. Instantes depois, Liluth conseguiu ouvir o som de pescoço sendo quebrado e de um corpo despencando...
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