A Deep Regret Z.M.
3 Capítulo 3 - Vergonha.
Vergonha (nome): timidez; embaraço; acanhamento; sensação de perda de dignidade ou de falta de valor pessoal; humilhação; rebaixamento.
Layna
Vagueei até casa que não é longe do colégio, passava um bom tempo desde a hora a que normalmente chegava a casa.
— Cheguei. — Disse assim que abri a porta.
— Onde estiveste até esta hora Layna? — Gritou a minha avó, parece irritada.
O meu avô fora derrotado pela doença quando eu tinha 9 anos e a saudade era mais do que conseguia aguentar.
Agora fiquei só eu para proteger a minha avó e ela a mim.
— Eu estou bem avó, não te preocupes. — Acaricie-lhe a cara e dei-lhe um beijo na testa.
Subi para o meu quarto e fechei a porta à chave, peguei na caixa acinzentada e com todo o cuidado peguei na fotografia amachucada que estava no topo de um diário beijei suavemente a imagem da minha mãe momentos antes de partir e involuntariamente pequenas gotas de água percorreram as minhas bochechas chegando mesmo ao pedaço de papel, suspirei pesadamente e coloquei a caixa fechada debaixo da minha cama mais uma vez.
Deitei-me sobre as cobertas e olhei para as linhas perfeitamente delineadas no meu pulso esquerdo.
Ouço a minha avó chamar e limpo a cara molhada para logo descer.
— Como foi o teu dia de aulas querida? — Encolhi os ombros e as perguntas ficaram por ai contando ela como passou o seu dia.
Acabo de jantar e subo para o meu quarto, olho em frente para o grande espelho que completa umas das paredes. Exibi um pouco a minha barriga e corri para a casa de banho num ato completamente involuntário, coloquei-me sobre o marcador de peso e olhei o número.
Não, não podia crer.
Debruço-me novamente sobre a sanita e voltei a induzir o vómito mas parei-o, queria parar de o fazer.
Despi-me e tomei um banho, as lágrimas corriam sobre a minha pele já ela molhada e todo o meu corpo se tomou pela tristeza e solidão que me assolava. Chorava porque não tinha o corpo que as outras tinham.
Sou o alvo de chacota da minha escola.
Sou indesejada, imperfeita, não tenho lugar e ninguém me quer.
Fechei a porta do meu quarto e suspirei de mágoa.
Sobre a minha escrivaninha vi o que em tempos acalmou tudo e foi o meu socorro, corri no seu encontro, uma onda de medo, tristeza e solidão invade o meu corpo mas atirei-o assim como atirei a minha vontade contra o espelho e este rachou da mesma maneira como me sentia.
A mesma não parou de brilhar e a minha vontade de me magoar era maior que qualquer pulsar do meu coração e debrucei-me sentindo o frio do espelho nas costas, encostei a lâmina perto das feridas no meu pulso e um calafrio invadiu o meu corpo, quando pressionei com força a parte cortante da lâmina uma gota de um líquido vermelho desceu pelo meu braço sentindo-me mais leve e gostei da sensação, o que havia a perder?
A dor era agora suportável. O sangue tapava a linha e estanquei com a toalha do banho para logo me colocar debaixo dos cobertores.
— Quando tiver coragem, eu vou ter contigo mamã. — Fechei os olhos e caí no sono que me ia levar a mais um dia insuportável.
O despertador retornou-me do que quer que fosse que estava a sonhar. Um pequeno ardor surgiu do meu pulso e retirei a toalha pois adormeci com ela, acariciei a linha que agora traçava com uma antiga.
Coloquei algo sobre o corpo e desci para colocar à boca uma torrada acabada de fazer.
— Avó já estou atrasada, até logo! — Fechei a porta a meio da minha frase e coloquei a torrada num dos sacos do lixo abertos que a minha avó acidentalmente deixou.
***
O corredor encontra-se um pouco mais cheio do que o habitual, talvez pelo mau tempo que já se fazia notar na parte de fora do colégio e atravessei-o na esperança de ninguém me ver para me encaminhar para a sala.
Christine olhava com pena assim que passei pelo seu cacifo.
Pena ou saudade?
Ela, em tempos, fora a minha companheira dos intervalos mas logo que Zayn e Andrew me tornaram no que sou hoje ela foi mais um olhar fraco que me encarou nos corredores movimentados de Middlesbrough.
A sala depressa se encheu.
Andrew colocou ambos os seus braços na minha mesa e olhou-me em troça e Zayn riu já sentado no seu lugar.
— Então Layna? — Olhei-o. — Quanto lucraste ontem? — Revirei os olhos. — É que precisava de um pouco para a hora de almoço e...
— Andrew sente-se. — Ordenou a professora assim que entrou e este piscou-me o olho antes de sair da minha frente.
A aula cada vez mais se dispersava e chegava mais perto do fim.
A tesoura reluzia dentro do meu estojo , peguei nela para ver o meu reflexo através da pequena parte prateada da mesma, abri-a com alguma força pois encontra-se pouco usada e voltei a fecha-la para colocar novamente dentro do estojo.
A aula acabou e assim que todos saíram dirigi-me à beira da minha directora de turma.
— Professora? — Chamei e ela olhou para mim sorrindo. — Queria-me inscrever no concurso de talentos. — Ela olhou-me com os os olhos arregalados.
— Tens a certeza? — Anui com a cabeça e ela retirou um papel da primeira gaveta e preencheu com o meu nome. — Assina aqui então. — Apontou com a caneta para o sítio indicado. — Boa sorte querida. — Piscou-me o olho e sorriu.
Quando a campainha soou para entrar já me tinha aprontado para começar a aula de educação física e o facto de involuntariamente me querer expor em frente ao colégio deu fortes revoltas no meu estômago, que raio fui eu fazer?
Procurei pelo professor e reparei que tinha sido, mais uma vez, a primeira a chegar ao campo.
***
Pousei a minha mochila e senti o vento frio bater na minha cara ainda húmida devido ao banho.
Retirei uma maçã da mochila, dei uma pequena trinca na mesma e fechei os olhos sentindo a maçã cortar a fome que já gritava em agonia.
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