Semana após semana, Milo encontrava-se com Bella. Escondido, claro. Se seus pais soubessem que ela dava comida para ele uma segunda guerra surgiria em Batri, mas essa seria em sua casa. Hans e Alec fingiam não ver o que acontecia, até simpatizam com Milo. Fingiam também não ver, pois se seus pais soubessem que Bella estava encontrando-se com alguém de uma família não prestigiada enlouqueceriam. Não por que eram preconceituosos, mas sim porque não queriam que Bella não tivesse um grande futuro. Casar com alguém de uma família considerada inferior a sua era igual a se rebaixar, a fome e o trabalho seriam maiores. Isso era algo que não sonhavam para seus filhos.

— Você demorou hoje. — Bella disse chateada e um pouco preocupada.

— Andou sentindo minha falta? — Milo perguntou brincando, seu sorriso branco deixava Bella desconcertada. E os olhares, ah, os olhos azuis preenchiam seu rosto (e depois de algumas semanas também preenchiam o coração de Bella).

Milo agora sempre vinha limpo e até arrumado para encontra-lá, isso não passou despercebido para Bella. Até porque quando estavam juntos ela só tinha olhos para ele.

— Milo, arrumou um lugar para ficar? Você está mais arrumado ultimamente.

— Ah... Sim, estou trabalhando no... castelo.

— O que????— Ela quase matou Milo pulando nele loucamente. — E não me contou??? Está trabalhando em que?

— Ahn... Faz pouco tempo... Eu limpo pratos, cuido da limpeza da cozinha real, esse tipo de coisa.

— Que legal!!! — Seu semblante mudou, seu rosto perdeu vida. — Então, não vai precisar mais da minha ajuda?

Antes de Milo poder responder, os gritos foram ouvidos. Era um ataque. Os soldados de Agas tomavam as ruas e os de Batri vinham em direção. A gritaria das pessoas que corriam e atropelavam-se machucava os ouvidos.

— Rápido, vem comigo!! — Bella já puxava Milo para dentro do porão da padaria.

Depois de Bella arrastar um baú, pode-se ver um alçapão. Lá dentro tinha um colchão, cobertores e latas de comida, a luz vinha de uma lampião, o ar não preenchia os pulmões, dava para ouvir tanto as suas respirações quanto os gritos cheios de medo que vinham de fora.

— Meus pais construíram esse abrigo depois do primeiro ataque. Meu irmão mais novo morreu nesse ataque. Ele era muito engraçado, queria ser um guarda real... — Milo somente ouvia. — E o rei ainda diz que estamos seguros em nossas casas. Só ele e o príncipe estão seguros no castelo.

— A rainha também morreu nesse ataque. Deve ter sido difícil para eles. — Disparou Milo.

— Sim, morreu, e dever ter sido mesmo, toda morte é, mas depois do primeiro ataque a guarda real duplicou, as fortificações do castelo também. A nossa segurança continua mesma, se não pior, com tantos olhos voltados para o rei e seu filho. Em todo ataque, a guarda real tem a prioridade de proteger o castelo, nós ficamos a mercê dos agasienses e seu humor sanguinário do dia.

O silêncio entre eles era angustiante e desconfortável. Bella andava notando que Milo sempre tentava atenuar as decisões do rei, não entendia como ele, ás vezes, até o defendia. Ele não passava o mesmo que os outros da vila? Não passava fome, não tinha medo de não sobreviver a mais um ataque, não se perguntava se sua família e amigos iriam sobreviver?

— Então, você vai precisar da minha ajuda? Agora que trabalha justo no castelo, né. Deve ser até mais seguro para você do que vir até aqui. — Ela disse em tom seco com um olhar fulminante.

— Não, não vou. — Milo respondeu magoado achando que ela não queria mais ajudá-lo — Obrigado por toda ajuda. Não vou esquecer de tudo que você fez.

Passaram a noite em claro, sem conversar. Os barulhos só cessaram de manhã, esperaram mais antes de sair. Era sempre perigoso sair depois do ataque, o medo e a histeria dos cidadãos também era um perigo iminente. Quando subiram à superfície, tudo era sangue. Crianças chorando pedindo pelos pais, pessoas machucadas e alguns mortos. Um dos soldados atendia uma criança, que deveria ter 5 anos, sem uma perna. Aquilo era demais para qualquer pessoa ver. Bella e Milo se olharam, queriam conversar, mas algo os impedia, a conversa da noite anterior, a rispidez entre eles talvez, o clima entre os dois estava fechado e não iria abrir tão cedo. Seguiram caminhos opostos e não olharam para trás. O sentimento mais estranho das semanas que passaram juntos, o de pensar que não se veriam mais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.