A Dança dos Condenados
2 Tons de Vermelho e Negro.
Notas iniciais
Ele ouviu o telefone tocar, uma música tão suave que era difícil distinguir, mas, mesmo assim, sabia dizer que era um dos comparsas que ligava. De maneira que não demorou para tatear o bolso e capturar o celular entre os dedos, levando-o prontamente ao ouvido.
— Sim…?
— Akira-sama… precisamos de sua ajuda. — a voz do outro lado da linha era masculina e parecia exausta, como se tivesse corrido uma boa distância. — Raiden está a solta, não conseguimos capturá-lo.
Akira rolou seus olhos claros. Teria suspirado, se não tivesse um cigarro preso entre os lábios, o que tornava difícil falar também. A outra mão mantinha segura sua katana, e a lâmina… atravessava um corpo, já sem vida. — Estou um tanto quanto ocupado, agora…
— Senhor… é uma questão de vida ou morte.
— Entendo… — ele largou momentaneamente o cabo da espada para pegar o cigarro e tirá-lo da boca, assoprando fumaça. Em meio ao ambiente escuro em que estava, era possível ver um amontoado de massa negra, obviamente não-humana. Com o canto do olho, viu um vulto deformado vir em sua direção.
A coisa, cujos traços eram difíceis de distinguir por causa do escuro, não chegou nem próximo dele antes de explodir em pedaços.
Desta vez, Akira suspirou realmente. — Estou a caminho… mantenha as armas carregadas.
Não esperou para ouvir o agradecimento do outro, e logo desligou a chamada, voltando a guardar o celular. Recolou o cigarro entre os lábios, fumando em silêncio por alguns segundos, tão despreocupado quanto alguém passeando por uma praia. Recolheu sua espada, balançando-a uma vez no ar, de maneira que um líquido viscoso e indefinido deixasse a lâmina. Em seguida, guardou-a.
Seus passos certos contornaram os restos de corpos pelo chão, enquanto ele saia do beco. Não demorou muito para que o que sobrara de seu cigarro se misturasse a eles. Sem sequer olhar para trás, Akira continuou seu caminho, sabendo que logo atrás de si vinha um vulto de olhos amarelados, cujos passos eram silenciosos como os de um gato.
— Vamos, Kuro…
Raiden não era o tipo de inimigo que se poderia chamar de fácil. Até porque, fazia parte de outra família mafiosa, tão importante quanto Kurotsuno, e obviamente, sua rival. A rixa iniciara-se a tanto tempo que ambas as partes já haviam esquecido-se da razão que a criara. Ainda assim, seus integrantes odiavam-se o suficiente para se matarem de vez em quando. E o indivíduo em questão fora encontrado no território controlado pela família Kurotsuno, o que não significava que suas intenções eram das melhores.
Akira ficara sabendo que o homem invadira uma das propriedades de sua família, matando muitos seguidores e deixando outros em polvorosa. Seu pai, o atual chefe da família, enviara seus melhores homens no encalço do agressor. Parecia-lhe claro que o herdeiro seria chamado também, mas ele não estava presente no momento do ataque. Quando retornara à presença do pai e fora interpelado, apenas alegou que estava em uma missão própria, de extrema importância.
A essa altura, o único ser humano que sabia de seu contrato com Kuro era o pai. Uma recusa às suas ordens era uma afronta, e Akira poderia muito bem perder seu dedo mindinho por isso. Mas sabendo que a deusa da família o apadrinhara e protegia, e imaginando que a tal missão tivesse algo a ver com ela, o chefe meramente deixou a situação por isso mesmo. Afinal, incorrer na fúria de um demônio nunca era muito inteligente.
Fazia três dias que o rapaz não retornava para casa quando o comparsa mandou sua chamada por ajuda. Por mais de quatro dias, Raiden havia feito misérias com as fileiras de subordinados, e ninguém havia conseguido detê-lo. Era possível que, se o homem não tivesse contatado-o, o próprio chefe escolheria por fazê-lo.
Afinal, eles estavam lidando com outra personalidade célebre por sua destreza, habilidade e assassinatos.
O Rei de Copas.
Eram o que as bocas sussurravam quando ele estava por perto. O título só tinha lógica quando se conhecia a obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, e quando encontravam os corpos executados individualmente por ele.
Todos sem a cabeça.
Mas irei poupá-los de muitas informações a respeito dele. Raiden não é tão relevante. Ainda mais quando sabemos que Akira e Kuro vão ao seu encontro.
De fato, o homem já formava uma trilha sangrenta de corpos, escapando por um triz pela décima vez, quando seu senso de perigo despertou subitamente. O homem só viu a luz da lâmina vindo em direção a sua cabeça, mas conseguiu desviar a tempo, com apenas um arranhão leve na bochecha. Ele parou, endireitando o corpo, passando as costas da mão pela ferida para limpar o sangue. A centímetros dele, conseguiu ver o rapaz impecavelmente vestido com terno e gravata, a espada desembainhada e segura por entre seus dedos rápidos. Seus cabelos eram loiros e curtos, bem aparados, e os olhos eram tão claros que quase pareciam dourados, embora fossem classificados como castanhos. A aparência, contudo, não importava muito. Só de ver a lâmina, o assassino já parecia saber de quem se tratava.
— Então é você, não é… A Calamidade Carmesim?
Akira inclinou a cabeça, com simplicidade. Seu porte era tão tranquilo que nem parecia estar frente a frente com um inimigo. — Confesso.
— Pensei que estivesse com medo de sair…
— Estava ocupado. — Ele fechou os olhos, armando a espada. — Você atrapalhou uma situação importante. Deixou-a brava.
— O quê? — o outro ergueu as sobrancelhas, confuso. — Estava num encontro, ou algo do tipo?
Akira não respondeu. Com sua movimentação rápida e certeira, sua espada saltou adiante para acertar o peito do rival, que logo sacou sua própria katana, usando-a para parar o golpe. Em seguida, desistindo de continuar o diálogo, decidiu revidar. As lâminas dançavam, batendo contra a outra e reverberando, com um som estridente e faíscas espalhando-se pelo contato. Os dois pareciam estar absolutamente equilibrados.
Raiden era agressivo e tinha uma tendência um tanto sádica, dava para se notar na sua respiração. Akira, por seu lado, era passivo, defendia na maior parte do tempo, mas quando lançava um ataque ele só não era fatal por seu oponente ser qualificado. Os dois haviam chegado num impasse, em que Akira precisara abaixar o corpo para desviar de uma estacada e tentara atacar as pernas de Raiden. O homem, contudo, saltou, aproveitando um momento de descuido para prender a manga do terno dele no chão com a sua lâmina, mantendo o braço com a espada temporariamente imobilizado.
O herdeiro dos Kurotsuno pareceu surpreso, no primeiro instante, mas relaxou. Ele viu quando Raiden desceu a lâmina, sem se preocupar em fazer um último discurso, preparando para separar sua cabeça do pescoço. E então algo fez com que o inimigo entrasse novamente em alerta, ainda que saltasse para longe tarde demais, saindo com o flanco ferido.
— Mas que diabos...? — Raiden não via de onde tinha vindo o ataque. Provavelmente da esquerda, mas não havia nada ali. Observou o ferimento, parecia que havia sido feito por um animal com garras.
— Eu lhe disse, não disse… — Akira endireitou-se, pegando a katana do rival com a mão livre e retirando-a com cuidado de suas vestes. Ainda não parecia assustado, ou confuso, ou nada que se esperava, levando em consideração a situação. — Ela está brava.
Raiden gelou. Seu instinto voltou a ficar descontrolado, principalmente quando uma sombra escura foi vista vindo do fundo do beco, onde não devia haver caminho algum, em sua direção. “Preciso correr”, chegou a pensar, mandando seu orgulho às favas. Quando seu sexto sentido falava, era melhor escutar.
Ele girou nos calcanhares e começou a correr, virando para um dos lados e desaparecendo da vista de Akira. Este suspirou, observando a espada de Raiden, calculando que era um desperdício deixar tão boa arma para trás. Depois observou o próprio estrago feito em seu terno. — Que droga… esse terno é novo.
A sombra passou por ele, parando momentaneamente ao seu lado, mas logo seguindo em frente e virando na mesma direção que Raiden seguira. Akira colocou-se de pé, espanou o pó das roupas, guardou sua própria arma e acendeu outro cigarro, andando com tranquilidade pelo caminho até o inimigo.
Não foi nenhuma surpresa quando, uns vinte minutos depois, encontrou o corpo destroçado, com uma familiar figura sentada sobre ele. Kuro estava ali, o corpo coberto por uma camisa social, colete e saia. Seria confundida facilmente com uma adolescente saindo da escola, não fosse seus olhos tão diferentes e os chifres na cabeça. O esquerdo era algo ainda mais bizarro que o outro, parecia uma rede negra e intrincada. Possivelmente aquela substância preta servia para grudar o galho de árvore que Akira dera a ela, na tentativa de substituir o chifre que havia arrancado.
O demônio parecia contente em se regalar com a perna do ex-mafioso, segurando cada extremidade com uma mão, como se fosse uma grande coxa de galinha, e mordendo com gosto, arrancando enormes nacos de pele e carne.
— Kuro. Sei que está zangada, e que soma a energia de seus inimigos à sua quando os come, mas isso é repugnante.
— Hummmmm… cale-se, humano! — ela deu uma pausa para voltar a mastigar, antes de continuar. — Ele atrapalhou nossa busca, deixe-me puni-lo em paz.
— Ele já está morto, o que mais há para se punir? — Akira suspirou, estendendo-lhe a mão para que retornasse para perto dele. — Além do mais, sempre haverá o amanhã.
— Tsc… — Kuro parou de morder, atirando de qualquer jeito o membro para trás e levantando-se, colocando ambas as mãos na cintura. — Deverias me agradecer, eu terminei o seu serviço.
— Certo, certo… és um bom demônio. Um muito prestativo. Satisfeita?
— Nem de longe. Mas vai servir. — Ela finalmente ergueu a mão para segurar a que ele mantinha estendido. — Para onde iremos agora, humano?
— Continuar de onde paramos talvez seja uma boa ideia. — Akira sorriu francamente, puxando-a para que andasse do seu lado e sacando o celular com a mão livre, no intuito de avisar que o trabalho estava feito, e que alguém deveria ir até lar limpar a cena. — A final… a noite é uma criança, não é mesmo… “Majestade”?
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