A Dança do Corvo
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1. (A Dança do Corvo)
A sala estava fria e vazia. O som dos patins cortando o gelo era o único que preenchia o silêncio. O inverno envolvia a cidade em uma capa de neve, e a luz do dia mal chegava àquela parte da escola. Helena estava sozinha, como sempre. O treino não tinha fim, não para ela. Cada movimento era meticuloso, exigente, como se o gelo fosse o único espaço onde o tempo ainda fizesse sentido. Ela não pensava em nada além de patinar, girar, e esquecer o resto.
Os passos ecoavam pelo salão vazio, e os olhos de Helena estavam fixos na linha do horizonte que o gelo lhe oferecia. A mente, um espaço silencioso. Ela não reparava na luz da lâmpada, que piscava uma ou outra vez. Nada poderia tirá-la dali. Era ali que ela se sentia viva, em meio ao vazio.
De repente, o silêncio. A quietude foi quebrada por um som, suave, como um estalo. Um pequeno ruído vindo da porta, mas ela não parou. Sua mente continuava distante. Ela aumentou a velocidade, seu corpo se movendo sem pensar. O estalo foi seguido de mais nada.
A porta estava entreaberta.
Ele estava lá. Na penumbra, à margem da luz, a silhueta de um homem. Não era mais do que isso, uma presença que estava lá e que não pedira permissão para estar. Estático. Inerte. Uma figura que se fazia, sem se fazer. O gelo não gelou, a sala não parou, mas Helena sentiu. Algo.
Ela não o viu, não agora. Seus olhos estavam fixos à frente, sua mente ainda dentro da coreografia sem fim, sem erros. Mas ele estava ali, esperando. Esperando que ela soubesse.
A figura não se mexeu. O tempo se dilatou, como se, por um momento, o mundo inteiro estivesse comprimido no espaço entre aquele olhar e o silêncio que o rodeava. O homem não fez movimento algum. Só observava, com a certeza de que era impossível ser visto. Ele se retirou. Deixou a porta entreaberta. A sala voltava ao seu vazio.
O gelo voltou a brilhar. Ela, ainda sozinha, não sabia.
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