A Dança das Sombras
1 A Canção do Tolo
A Taberna do Limão ressoava ao som do pífaro, do alaúde e da rabeca, que se somavam às numerosas vozes presentes no recinto. A estalajaderia e os ajudantes corriam para lá e para cá com cornos de cerveja e vinho, e bandejas de carne de cordeiro temperados com açafrão e orégano e outros peticos, e também tortas de maçã e pêra.
A Taberna do Limão se localiza no coração da Vila Bolotas, uma das várias vilas de Rhostir, a Terra dos Anões. Por todo lado viam-se seres de um metro e meio, de narizes largos, cabelos cheios, loiros, ruivos ou negros, e os anões, com espessas barbas cobrindo a face e as anãs com cabelos em tranças duplas. Vestiam-se couro curtido, botas também de couro, e muitos anéis nos dedos, colares de joias, como esmeralda e amestista.
O Bardo Vermelho era o único não-anão do recinto, vestindo-se com um rico manto de veludo vermelho e uma boina com uma pena vermelha no centro. Os bardos são conhecidos por viajarem e transitarem pelas terras dos anões, dos duendes e dos homens, levando canções, histórias e lendas para o povo de cada região, além de serem mensageiros respeitados.
O Salão Comum da Taberna do Limão encheu-se em uma aclamação uníssona quando o Bardo Vermelho pegou seu alaúde e começou a dedilhar as primeiras notas da Canção do Tolo, uma das mais conhecidas canções, seja em qual for a região do mundo. E em um piscar de olhos, todas as vozes somavam-se em coro:
Ó flores! Ó flores!
Desta verde campina!
Digam-me, por favor,
onde está minha bela amiga!
Essa tal bela amiga,
jovem e tolo senhor,
é a sua jovem amada?
Aquela que te abandonou?
Ó flores da campina!
Então sabeis de minha amada.
Digam-me então, por favor,
Onde eu posso encontrá-la!
Percebo que essa tal amada,
o jovem e tolo enganou.
Garantimos-lhe que vai achá-la,
na cama com o seu avô!
Ao final da Canção do Tolo, o salão explodiu em gargalhadas e com o som de copos de cerveja batendo na mesa. O salão estava lotado, mais que o de costume, já que estavam celebrando o fim do Ciclo, que se encerra sempre na noite do encontro da lua com o sol, e que para os anões, assim como para os duendes, significava o fim de um ciclo e o início de outro, mas para alguns reinos de Fhëarin, a Terra dos Homens, e é uma festividade sagrada e religiosa, e muita celebrada.
As festividades em todas as vilas de Rhostir já estavam completando seis dias, e se encerrariam três dias depois, quando o sol e a lua enamorariam no céu. O dia foi repleto de eventos e comemorações e a noite se prolongou com a festa, o que levou muitos a terminarem o dia bêbados.
Para Tybrus, isso não foi diferente. O jovem anão ruivo e com sua barba ainda em processo de crescimento, levantou-se de seu banco na mesa e dirigiu-se aos seus amigos:
_ O dia foi longo, meus caros — disse emboladamente Tybrus, já se levantando da cadeira — e se eu não for embora agora, vocês terão que me carregar fora daqui feito uma donzela na noite de núpcias — completou o Tybrus, arrancando poderosas gargalhadas e pragas de seus amigos.
O anão abriu a porta da taberna e pisou no ar frio da noite na Vila Bolotas, e enquanto descia os degraus de madeira do recinto, sentiu suas pernas fraquejarem e caiu no chão repleto de folhas.
_ Maldita seja a bendita cerveja! — praguejou o anão, enquanto se levantava e tentava tirar folhas e terra de sua roupa azul com suas pequenas mãos — espero que minha bela Vûndra não tenha visto isso — lançou olhares para todas as direções e não viu ninguém.
Tybrus trabalhava como ferreiro, umas das principais ocupações entre os anões, que tinham como ofícios o trabalho em minas, coletando ouro, esmeraldas, safiras, e outros, além do ferro, e encaminhando-os para os ferreiros que fabricavam com isso magníficos colares, joias, aneis, braceletes, e também ferramentas que alguns diziam possuirem poderes mágicos.
Tybrus seguiu seu caminho passando pelas pequenas casas feitas de madeira e palha da Vila Bolotas, rodeadas por grandes árvores e coloridas flores que cercavam toda a vila, além, é claro, das decorações das festividades de fim do Ciclo que adornavam as cercas, as casas e as árvores. Tybrus, começando seus devaneios devido a bebida, percebeu de imediato que a grande maioria das casas estavam com as lamparinas apagadas e que a madrugada já começara havia tempo.
Tybrus seguiu seu caminho em direção a sua casa, pensando em seu amor platônico, a anã Vûndra, filha do confeiteiro, mas não percebeu que várias aves se empoleiraram nos galhos de árvores próximas e começaram a cantar simultaneamente, e Tybrus só despertou de seus devaneios quando viu de relance um vulto branco se movendo entre árvores à sua esquerda.
_ Deve ter sido um veado branco! — exclamou Tybrus para si mesmo, pegando um punhal que carregava preso em seu cinto — Lëghar, disse ontem que viu um desses correndo pelas florestas dias atrás, enquanto colhia morangos! Se eu conseguisse pegá-lo, certamente Vûndra se atiraria em meus braços e me imploraria a me casar com ela! Ah se ia!... só de pensar em Vûndra, já me vem uma excitação, mas qualquer um ficaria perdido admirando aqueles lábios, aqueles cachos dourados caindo pelos ombros, aqueles seios fartos....
Sem perceber, Tybrus já estava se esgueirando entre as árvores do bosque deixando para trás as dezenas de casas de madeira palha da Vila Bolotas e passando sob galhos e flores, e se esgueirando mais e mais para mata adentro.
_ Tenho certeza, que quando ela me ver com aquele veado branco, ela vai se derreter todinha e me encher de beijos! Ah se ela vai!
Mais e mais pássaros foram se juntando ao redor de Tybrus, cantando suas alegres canções, que mais pareciam um alerta, cada vez mais alto. O anão, enquanto perambulava pelas árvores, viu-se como um dos grandes heróis das canções, como Marggas, o Domador de Feras, que percorria todos os cantos montado em seu grande javali vermelho e seu martelo prateado, ou então Gúryn, o Chicote, que derrotava monstros e inimigos apenas com o seu chicote.
_ Venha cá animal! — brandiu Tybrus, cada vez mais animado com a perseguição — venha cá, que vai ser com você que vou laçar o coração de Vûndra! Aquela fartura de seios há de ser minha! ah se há!
Tybrus foi tomado por uma euforia descomunal, e por um momento, apenas um momento, esqueceu-se do que estava fazendo e decidido voltar para casa, mas sua vontade de encontrar o veado branco voltou com mais força. Um animal esbranquiçado passou correndo a alguns metros de Tybrus, e o anão ficou mais determinado ainda.
_ Te achei desgraçado — o anão sussurou — já posso até sentir aqueles lábios formosos encostados nos meus, aquele cheiro de amora silvestre exalando dela, e aqueles fartos seios...
Um vento cortante tomou o bosque e Tybrus parou e cobriu com as mãos seus olhos cinzentos dos gravetos e folhas e sopravam em plena fúria. Quando a ventania teve fim, Tybrus tirou suas mãos do rosto e olhou ao seu redor e por um momento pensou ter vislumbrado a sua direita um par de verdes olhos brilhantes na penumbra da floresta. Um calafrio percorreu o pequeno corpo do anão e suor frio começou a escorrer por sua pele.
_ Mas que diachos está acontecendo aqui? — indagou-se Tybrus — isso só pode ter sido obra daquela bendita cerveja, e agora estou aqui delirando no meio da floresta, procurando um animal que nem sequer existe!
Tybrus se virou para retomar o caminho de volta a vila, mas assim que se virou, ouviu um pequeno ruído como vidro estilhaçado. Seu último pensamento foram os seios fartos de Vûndra.
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