Naquele dia, pouco antes da hora mais escura chegar, conseguiram encontrar uma taverna solitária ao lado da floresta. Robert e Terry não tinham como iluminar o caminho, então decidiram passar a noite naquele lugar.

Terry olhava com atenção para as pessoas em volta enquanto dava goladas em sua cerveja. Os dois conversaram durante o caminho e enquanto bebiam na taverna. Agora sentiam-se bem mais à vontade perto do outro.

–O que você está fazendo? –Perguntou Robert.

–Alguma coisa estranha aconteceu naquela ponte. –Respondeu Terry, com o olhar focado no dono do estabelecimento.

–Muitas coisas estranhas aconteceram naquela ponte.

–Não é disso que estou falando. –Disse Terry, apertando os olhos. –É algo... Comigo...

Terry virou-se para Robert.

–Eu sei que aquela mulher estava fodendo com nossas mentes, -Disse ele. –mas... Você realmente queria que eu tivesse morrido antes?

Robert parou de beber e disse:

–Sim. Você realmente ficou feliz por Katz ter morrido?

–Sim.

Os dois beberam algumas goladas cada, até Terry finalmente admitir.

–Eu gostava daquele homem. Ele me deixou acompanhar vocês... Eu o forcei a isso, mas ele podia ter me deixado para trás. Porém, eu sempre colocarei minha vida como prioridade; eu sou um sobrevivente, sabe? Ao ver ele morto no chão, eu fiquei feliz por não ter sido eu. Não foi a morte dele que me trouxe alegria, foi o fato de eu ter sobrevivido, entende?

Robert fez que sim com a cabeça.

–Eu não confiava em você antes. Sempre achei que você cortaria nossas gargantas enquanto dormíamos, por isso sempre mantinha-te sob vigia. Mas, chega um momento em que você simplesmente não aguenta mais a paranoia. Eu queria que você morresse pelo mesmo motivo que você ficou feliz com a morte dele: eu sou um sobrevivente.

–Confia em mim agora?

–Quantas vezes você já me salvou?

–Duas.

–Quantas vezes eu já te salvei?

–Duas também.

–Quando você estiver me vencendo com uma vantagem de três salvamentos, eu vou começar confiar totalmente em você.

Terry riu em voz alta, seguido por uma risada baixa de Robert.

Um homem no fundo da taverna levantou-se de dirigiu-se a saída com um archote em mãos. O homem parecia mais velho que os dois juntos. Sofria de calvície, tendo apenas dois tufos de cabelo grisalho na cabeça.

Terry e Robert não deram muita atenção de início, mas depois perceberam algo peculiar.

O homem era gordo.

–Mas o que? –Perguntou Terry quando o homem saiu do local.

Robert deixou duas moedas de pratas em sua mesa e correu para fora da taverna com Terry.

O homem iluminava o caminho em sua montaria. Ele já estava a uma distância média.

Os dois subiram em seus cavalos e seguiram o homem que, por sorte, viajava norte.

–Não devíamos chegar mais perto? –Perguntou Terry.

–E fazer o que? Confronta-lo? –Questionou Robert. – “Com licença, como você é gordo?”

–Melhor que segui-lo. Não sabemos para onde ele vai.

–Provavelmente para algum lugar com comida. Ele pode ter descoberto um lugar onde o verde ainda cresce, talvez.

–Também existe a outra opção. Ele era gordo antes e está gordo agora.

–Há quanto tempo não temos sol. –Perguntou Robert, apontando para cima. –Percebi que nunca perguntei antes.

–Dez meses, acredito eu. –Disse Terry. –Não tenho certeza quanto tempo se passou de Brimwal até Rassythyu.

–Você acha mesmo que ele conseguiria manter este peso após dez meses sem comida? –Perguntou Robert. –Ele consegue comida de algum lugar.

–É, tem razão. –Disse Terry por fim.

Eles seguiram o homem durante toda a noite. O seu cavalo as vezes corria mais rápido por alguns metros, e depois o animal voltava a trotar como antes.

A noite se fora e os dois continuavam perseguindo o homem, agora com visão do caminho em volta. Os dois conseguiram comida com os Garths tempos antes, portanto não sentiam fome, mas estavam cansados de viajar. Além de tudo, estavam levemente bêbados após a breve estadia na taverna.

A estrada de pedra continuava seu caminho à direita. O homem ignorou o caminho predestinado e continuou seguindo norte, com seu cavalo galopando no solo feito de terra e neve fraca. A neve foi ficando cada vez mais escassa, até desaparecer totalmente.

Após trinta minutos, uma longa campina verde estendia-se na frente de Robert e Terry.

–Mas o que? –Disse Terry pela segunda vez.

O lugar era iluminado, como se o sol negro fosse apenas algo cosmético. Bastante comida existia no local, esta que era cultivada por agricultores de diversas raças ou devoradas pelos inúmeros animais que saltavam pelo verde. Mais ao longe, podia-se ver casas feitas de madeira, cada uma com diversos moradores usando roupas simples.

Terry e Robert amarraram seus cavalos em arvores e os deixaram pastar.

–Onde estamos? –Perguntou Terry enquanto subiam uma colina a pé.

–Meses atrás, em Stern, Katz me contara que a luz do sol ainda era forte o suficiente para algumas plantas permanecerem vivas. –Disse Robert. –Mas nunca imaginei que estava falando... Disto.

Do alto da colina eles conseguiam ver todos os moradores do local, porém, uma em particular os chamou a atenção. Era uma bela mulher que vestia nada além de branco. Ela alimentava pequenas aves brancas enquanto conversava com um homem. Robert não conseguia tirar a sensação de que já vira aquela segunda pessoa antes.

A mulher parou o que estava fazendo e observou Terry e Robert enquanto os dois desciam a colina. Os dois sentiram um impulso de ir conversar com ela.

–Hm... É... Olá. –Disse Terry.

–Olá. –Respondeu a mulher enquanto voltava a alimentar suas pombas.

Robert olhava fixamente para o homem. Aquele era o homem mais magro que o cavaleiro já pusera os olhos, parecendo um esqueleto que caminha. Seus cabelos e barba estavam sujos e emaranhados. O cheiro que ele exalava lembrava o odor de um cadáver.

–Onde estamos? –Perguntou Terry.

–Exatamente onde devem estar. –Respondeu ela vagamente.

–Isso não ajuda muito. –Disse Terry delicadamente. –Quer dizer, qual o nome deste lugar?

A mulher olhou para ele e disse:

–Ferinank.

Robert continuava com os olhos fixos no rosto do homem, tentando lembrar onde o vira antes.

–Não estou muito diferente de quando estava em Lertus, Robert. –Disse o homem sorrindo. –Não deve ser difícil lembrar-se de mim.

–Você... –Disse Robert batendo o dedo levemente em sua cabeça. –Você vivia na terceira cela a minha frente em Lertus. Seu nome era... Leis... Lois...

–Louis. –Corrigiu o homem.

–Você estava em Brimwal... –Disse Robert, lembrando-se daquele mendigo que segurou em seu velho cavalo uma vez.

Louis fez que sim com a cabeça. Terry olhou as vestes da mulher com atenção. Ao vê-las de perto, Terry percebeu que eram decoradas com penas de pomba.

–Você é a deusa da vida. –Concluiu ele. –Irith.

A deusa acenou positivamente com a cabeça.

–Venham. –Disse ela dirigindo-se para perto das construções de madeira. –Vamos conversar.

Os quatro sentaram-se em uma mesa localizada entre quatro construções. Diversas pessoas apareciam e deixavam pedaços de carnes, vegetais, frutas e outros alimentos em cima da mesa. Robert e Terry não estavam com tanta fome, mas não conseguiam recusar aqueles pratos tão variados. Enquanto comiam, Robert explicou tudo o que acontecera com eles; desde sua fuga de Lertus, seu encontro com Robert, o encontro deles com dois deuses diferentes, até o homem gordo saindo da taverna.

Irith e Louis escutara a história toda sem atrapalha-lo uma única vez. Após terminar, uma coisa chamava a atenção de Robert mais do que devia.

–Louis, por que você não come? –Perguntou ele. –Você vive neste lugar e ainda assim parece mal ter saído de Lertus.

–Não posso. –Admitiu ele. –Tudo que eu como, deixa de existir antes de chegar em meu estômago. Quando me lavo, a sujeira em mim não sai. Quando deito-me para dormir, o sono não chega em mim.

–Por que isso? –Perguntou Robert. –Além disso, como você está vivo? Lembro-me de ver os guardas retirando o seu cadáver quando estávamos em Lertus.

–Eu não estava morto naquele momento, apenas quase. –Ele olhou para Irith. –Da mesma forma que estarei por todos os dias até o fim dos tempos, por ser imortal.

Terry quase cuspiu a água que bebia. O soldado limpou seu rosto, mantendo seus olhos fixos naquele que se dizia imortal.

–Acalme-se. –Disse Louis. –Eu não fiz o mesmo que vocês estão tentando.

–Então como? –Perguntou Robert.

Louis pôs sua mão em cima da mão da deusa, apertando-a, e lhe deu um sorriso, sendo retribuído com o mesmo gesto logo depois.

–Tive uma pequena ajuda. –Disse ele.

–Espere... –Pediu Terry, enquanto parava para pensar. –Isso significa que você... você...

Terry não conseguiu segurar e começou a gargalhar.

–Não consigo encontrar a graça nisso. –Disse Louis.

–Você dividiu o lençol com a própria deusa da vida, meu amigo. –Disse Terry parando de rir por um breve momento. –Esta é a graça.

Terry voltou a gargalhar; desta vez pondo a mão em sua barriga, como se estivesse sentindo dor. Irith levantou-se e disse:

–Cuidado com seus atos, tolo! Saiba que posso ser tão impiedosa quanto a própria vida que levou até então.

Terry silenciou-se e voltou a beber de sua água. Irith voltou a se sentar.

–Perdoe o comportamento de meu companheiro de viagem. –Disse Robert da forma que aprendeu durante sua infância em Farshal. –Pode me contar o que houve?

–Quando me tiraram de Lertus, eu achava que estava morto. –Disse Louis. –Conseguia sentir a minha essência de vida sair de meu corpo e atingir o segundo plano de existência enquanto guardas me arrastavam para fora daquele lugar. –Ele virou-se para Irith. –Porém, naquele momento eu tive uma visão... Uma linda deusa branca como a luz levando-me daquele lugar.

–É impossível escolher por quem se apaixona. –Disse Irith. –Eu o observei por boa parte de sua vida, não o deixaria ir tão facilmente. Por isso, levei-o para terceiro plano pouco antes de Lestraus leva-lo para o segundo. Consegui transformá-lo em um ser imortal e permanecemos juntos desde então.

–E Lestraus simplesmente deixou isso passar? –Perguntou Robert. –Quer dizer, você impediu alguém de morrer. E, ainda por cima impediu de morrer na Lertus, uma prisão feita para homenageá-lo. A única forma que eu conheço de homenagear o deus da morte é deixando pessoas morrerem.

–Eu e meu irmão tivemos uma longa discussão sobre isso. –Admitiu Irith. –Acusava-me de estar deixando-o mais fraco e de quebrar o equilíbrio entre vida e morte. Lestraus tem medo de que algum dia os três planos fiquem instáveis. O dia em que os mortos caminhem pelo primeiro plano e os vivos pelo segundo. Neste dia, o que diferenciará a vida da morte?

–Ele se vingou pelo o que você fez? –Perguntou Terry, já sabendo a resposta.

Irith suspirou e apontou para cima.

–Lestraus queria mais poder. Seu poder vêm apenas através da morte. Lestraus escureceu o sol por conta própria, tentando matar a todos que habitam o primeiro plano.

–Tudo isso aconteceu apenas pela ganancia de um deus!? –Perguntou Robert, claramente com raiva.

–Nós vivamos em tempos de paz. –Disse Irith. –O número de guerras diminuiu, a fome em muitas cidades deixou de existir, o tempo de vidas das pessoas estava bem maiores do que jamais foram. Lestraus, por ser a própria morte, não pode ser morto, mas pode ser derrotado. Este sempre foi um medo de meu irmão; um deus mais poderoso que ele derrotando-o em batalha e aprisionando-o em algum lugar por toda a eternidade. Ele não podia deixar isso acontecer, e, por isso, fez o que fez.

–E os boatos de que era tudo nossa culpa, culpa dos vivos? –Perguntou Terry? –Sempre julguei que fosse algo que os reis fizeram e insultaram os deuses.

–Estes boatos são exatamente isso. –Disse Irith. –Boatos. E o boato de que todos morrerão em seis meses também é só um boato. Nenhum de nós sabe ao certo quanto tempo resta a todos.

Robert levantou-se, perdendo sua calma.

–Você! –Exclamou ele. –Você é a culpada de tudo! Por ter se apaixonado por um mortal, você fodeu tudo e todos com quem eu me importava nesta vida!

–Não ouse falar assim com uma deusa! –Retrucou Irith.

–Deusa ou não, a culpa é sua. –Disse Terry. –A deusa da vida causou a morte de milhares... não, milhões de seres que habitavam o primeiro plano, que ironia.

–Eu não queria causar isto. –Disse ela, com uma voz que parecia de dor e pesar. –Lestraus teria feito algo assim de qualquer forma, mas talvez não teria sido tão... extremo. Eu peço desculpas, vocês dois não sabem o pesar que isso traz em meu coração. Foi por isso que criei lugares como Ferinank, para tentar salvar pelo menos uma parte das espécies que eu ajudei a matar em meus tolos atos.

Irith parecia tão devastada que fez Robert sentir pena. Sua raiva aos poucos se foi e ele sentou-se novamente, voltando a comer.

–Você pode nos levar para o terceiro plano? –Perguntou Terry.

–Não. –Respondeu Irith, suspirando. –Com todas estas mortes, eu enfraqueci. Não consigo viajar entre os planos. Mas, posso ainda lhes ajudar.

Ela pôs uma mão dentro de sua roupa e retirou lá um bico.

–Este bico combinado com aquele que vocês carregam levará um de vocês para o terceiro plano.

–Um de nós? –Perguntou Robert.

–Vocês desconhecem o ritual, certo? –Perguntou Irith. –Para passar do primeiro para o terceiro plano, um deve chegar ao limite destas terras; uma pedra que paira sobre o oceano. Os dois bicos devem ser esmagados cada um em uma mão. Neste momento, você viajará entre os planos. Como vocês não trouxeram dois bicos de corvo, apenas um poderá fazer o ritual.

Terry e Robert se olharam e silêncio por algum tempo. Nenhum dos dois conseguia dizer uma palavra. Terry então olhou para o bico em cima da mesa e começou a brincar com ele, usando seu dedo para fazer o item deslizar pela madeira.

–Eu não quero morrer nunca. –Disse Terry. Robert manteve seu olhar fixo nele.

O soldado então suspirou e empurrou o bico para o cavaleiro.

–Mas não há nada mais justo do que deixar você levá-lo. –Completou Terry.

Robert permaneceu em silêncio, incrédulo.

–Você começou essa história toda. –Disse Terry enquanto segurava o bico e estendia-o para Robert. –Você deve terminá-la.

Robert olhou fundo nos olhos do soldado, tentando ver se era um truque, uma mentira ou algo do gênero. Ele ergueu sua mão, deixando-a logo acima da mão de Terry. Robert sorriu de leve e lentamente balançou a cabeça negativamente enquanto empurrava a mão de Terry para baixo.

–Não. –Disse Robert. –Tudo mudou agora. Há coisas que eu preciso fazer aqui, e seria egoísta de minha parte não pelo menos tentar.

–Que coisas? –Perguntou Terry.

–Coisas que você não entenderia nem se eu explicasse. Além de tudo, nunca almejei me tornar um imortal ou um deus. Por isso eu peço, por mim e por Katz, vir um imortal.

Terry acenou a cabeça positivamente enquanto se levantava. Robert levantou-se junto com ele.

–Acredito que isso seja um adeus então. –Disse Terry estendendo sua mão direita.

Robert sorriu e lhe deu um aperto de mão amigável.

–Apenas peço que deixe seu cavalo para trás e continue sua jornada a pé. –Disse Irith. –Os dois podem ser úteis aqui.

–Certo. –Disse Terry. –Para onde eu vou?

–Siga até o extremo norte.

–Norte e a pé. –Disse Terry dando uma ultima golada em sua água. –Assim como nos últimos meses.

Os três apenas ficaram observando enquanto Terry caminhava para fora de Ferinank. Robert sabia que ainda havia muito o que fazer. Ele estava agora em um lugar onde comida cresce sem fim. E não planeja ficar lá por muito tempo.