Por um longo caminho de infinitos túmulos, passava um homem com uma pá na mão. Usava nobres vestes de um tecido permitido apenas para a realeza, mas estas estavam muito rasgadas e sujas.

O homem vestia uma roupagem vermelha com bordados acinzentados. Em seu peito, estava o símbolo da antiga família real de Farshal, bordado com lã dourada. Um escudo perfurado por três flechas, cada uma apontando para um lado. Em suas costas, ele carregava a pelagem de um grande lobo como se fosse uma capa.

O homem parou repentinamente e olhou a própria mão. Ele conseguia ver o chão de terra através de sua própria carne. Não era claro como se seu corpo fosse invisível, mas conseguia ver. Ele então olhou para o céu acima. O sol negro existia até mesmo naquela região.

O nobre respirou fundo antes de dar o próximo passo. Ele sabia que estava em um lugar entre o real e o irreal, já estava lá há anos, e aquilo ainda o assustava. De algum lugar na direita, um grande lobo negro surgiu e começou a caminhar ao lado do homem.

Quase como em um instinto, diversas partículas negras surgiram no ar e juntaram-se a sua pele. O nobre passou a língua entre os caninos de sua boca, mas logo balançou a cabeça, fazendo a escuridão se dissipar. O lobo soltou um leve grunhido de protesto.

–Não hoje. –Disse o homem com uma voz áspera e grossa. Seus olhos eram de um tom entre laranja e amarelo já há muito tempo, combinando com os olhos de seu lobo.

Flutuando ao seu lado estava um pequeno objeto de cor verde escura. O objeto mudava sua forma constantemente. Em um momento era uma esfera, depois uma longa reta, depois diversas partículas que se moviam descontroladamente e se chocavam umas com as outras.

O nobre começou a cantar uma música que ficara presa em sua cabeça há anos. A última música que ouvira:

Nem nas mais altas torres, meu rei, meu rei

Poderás fugir da ira do povo

Dê-lhes comida e um pouco de ouro

E felizes todos vão ficar

Meus bens para o povo eu nunca darei!

A morte, meu servo, ela vem a todos

Antes um rei do que mais de mil tolos

Cansei de te ouvir, saia já do meu lar

Ao chegar em sua casa de madeira e pedra

O homem não sabia se era nobre ou não

Foi dormir em sua pequena cama de palha

E acordou com um barulho alto como um trovão

Por favor, me escute, meu rei, meu rei

Disse ele, ofegante, ao entrar no castelo

Centenas! Com foices, arcos e martelos

Gritando nas ruas por sua cabeça!

Saia daqui! Eu não já te falei?

Tenho soldados de sobra para me defender

E nobres de nascença, mais ricos que você

Agora guardas, façam com que ele nunca mais me aborreça!

Ao ser arrastado para fora de lá,

O deitaram e fariam sua cabeça rolar

Porém no exato momento, por todos os lados

Os camponeses revoltados se puseram a atacar

Por usar suas roupas singelas,

O povo da vila vivo o deixou

E na sala de tesouros do castelo

Um alaúde singelo o nobre achou

Ele disse nas ruas ao povo:

“Deste belo dia uma canção eu farei!

O governante está morto; Comeremos de novo!

E de agora em diante todo mundo é rei!”

A letra deveria incomoda-lo ou entristece-lo, mas não fazia nenhuma destas coisas. Ele não sentia nada enquanto cantava.

Sua cantoria parou ao chegar em uma cova em particular. Ele retirou a pá de seu ombro e começou a cavar enquanto cantarolava a mesma música de antes.

Aquela lápide, assim como todas as outras, estava em branco, mas ele enterra-la aquele corpo anos antes, por isso lembrava-se de onde estava indo.

Enquanto o buraco a sua frente aumentava, o monte de terra atrás dele também crescia. O homem cutucou a terra com sua pá para ver o quanto faltava. Não muito.

–Enquanto eu caminhava entre os vivos, achava que existia algum limite. –Disse o homem para seu lobo.

Agora a terra já estava no formato de um corpo.

–Um troca-pele? Tudo bem, julgo ser algo normal. Um Garth doente que se tornou um deus? Também aceito. –Continuou o homem. –Mas sempre acreditei que houvesse algo impossível, uma regra que não poderia ser quebrada em nenhuma circunstância.

Ele retirou um pouco de terra da parte superior do corpo do enterrado, revelando a cicatriz em seu pescoço. O homem deu uma pequena risada.

–Agora sei que estava errado. Não existem regras ou limites.

O nobre continuou a desenterrar Katz enquanto voltava a cantarolar. Suas vestes eram diferentes daquelas que usara em Rassythyu, agora ele vestia uma simples cota de malha negra. Sua cicatriz também estava diferente, parecendo que foi reaberta recentemente.

Ao terminar de desenterra-lo, o homem sentou-se na lápide e apoiou suas mãos em sua pá. O lobo negro deitou-se a seus pés.

–Agora esperamos. –Disse o nobre.

O objeto flutuante chegou perto do corpo e tocou nele diversas vezes, alterando sua forma. Por fim, ele se transformou em um pequeno líquido e entrou em seus olhos semiabertos e em seus ouvidos.

Após uma pequena eternidade, os olhos de Katz se abriram totalmente e ele respirou fundo, em desespero.

Katz sentou-se na terra úmida. Seu coração batia mais rápido do que jamais batera. Ele ainda conseguia sentir o frio da lâmina em seu pescoço, como se ela nunca o cortara.

–Bom dia. –Disse o homem, sarcasticamente.

Katz respirou ofegantemente, enquanto tentava se lembrar de onde vira aquele homem antes.

–Aylon? –Disse Katz, surpreso. –Impossível... Você estava morto!

–Você também. –Disse o tal homem chamado Aylon.

Katz tentou normalizar sua respiração. Aylon apoiou-se em sua pá e ficou de pé, acompanhado por seu lobo logo em seguida.

–Se isso ajudar sua mente. –Disse Aylon. –Eu estou morto. Você não pode sentir meu cheiro ou me tocar, apenas me ver e me ouvir. Eu sou aquilo que comumente chamam de um fantasma.

Katz manteve seus olhos fixos em Aylon, tentando se levantar.

–Ridículo, eu sei. –Continuou Aylon. –Um rei se tornou um monstro de estórias para assustar crianças. Não que ser um troca-pele me fazia querido pelos pequenos, claro. Felizmente eu não sou assim no segundo plano. E nem Corvo.

Aylon afagou atrás da orelha direita de seu lobo chamado Corvo. Katz saiu do buraco e perguntou:

–Segundo plano? Em que plano estamos?

–Como eu ia dizendo, eu estou morto, mas você não. –Disse Aylon. –Na verdade, você agora está no terceiro plano. Parabéns, Katz, você agora é um imortal.

Katz arregalou os olhos e ficou sem palavras.

–Mas, o que exatamente significa ser imortal? –Continuou Aylon. –Seguindo o sentido literal, seria alguém que não pode ser morto. Sim, é verdade, você é intangível para mim, sem poder te tocar; não poderia te matar, então, para mim, você é imortal. Mas, seguindo a mesma ideia, você também não pode me tocar, então sou imortal para você. Porém, eu estou morto, então isso não pode ser verdade. Consegue entender o que quero dizer? Imortalidade é algo relativo.

Katz manteve o olhar fixo nele, claramente confuso.

–Bem, vamos ignorar isso tudo por enquanto. –Sugeriu Aylon. –Sei que é muito para entender de uma vez só, especialmente após acordar de o que julgava ser um sono interminável. Apenas saiba que neste plano você não pode morrer por fome, velhice ou doenças; mas pode morrer por agentes externos. Ou seja, você ainda cairá com um corte na garganta.

–Como eu estou vivo? –Perguntou Katz.

–Não se preocupe com isso agora. –Respondeu Aylon. –Descanse um pouco e conversamos depo...

–Como eu estou vivo? –Insistiu Katz.

Aylon suspirou e preparou-se para falar bastante.

–Como você já deve ter ouvido em estórias por aí, os deuses não foram aqueles que criaram os três planos e a vida no geral. Os seres que nos criaram já se foram há tempos, o que significa que, após todos os habitantes do primeiro plano morrerem, não haverá novas raças para tomar o lugar. O primeiro plano se tornará nada. Esta parte agora é apenas uma teoria minha; e se a deusa da vida conseguisse duplicar um ser? E se ele criasse uma réplica de todo o ser que habita o primeiro plano e as colocasse lá após a longa noite terminar? E se você for uma dessas réplicas? Este seu segundo corpo apareceu por aqui após você ser esfaqueado na garganta anos atrás, por isso acredito ser possível.

–Mas... isso não faz sentido! –Exclamou Katz. –Por que Irith, a deusa da vida, estaria relacionada com a longa noite? Por que eu não morri anos atrás quando fui esfaqueado? E, o mais importante, por que eu?

–Perdoe-me, Katz, mas não possuo muito conhecimento sobre o que os deuses fazem e planejam. –Disse Aylon, levemente decepcionado com si próprio. –Mas, tenho uma teoria para a sua última pergunta. Minha resposta seria: pela sua ganancia. Para você, o que você é nunca foi o suficiente. Você sempre quis mais; sempre quis aprender a governar, a lutar, a fazer tudo. Mesmo quando criança você me dizia que queria ser mais do que já é, que queria ser um deus. Ganancia já trouxe muitas guerras para o mundo. E se os deuses tivessem escolhido você para recriar sua ganancia nos próximos humanos? Não haveria tempos de paz, haveria apenas guerra e morte. Lestraus, obviamente, não quer que os novos humanos sejam pacíficos.

Katz sentou-se em sua lápide, pensando. Ele então começou a olhar em volta.

–Que lugar é este?

–Todos os seres são compostos por duas partes: um corpo físico e um etéreo, também conhecido como alma, essência de vida, entre outros nomes. Quando você morre no primeiro plano, sua essência de vida se separa de seu corpo físico e você é mandado para o segundo plano. Porém, uma coisa que poucos no primeiro plano sabem, seu corpo etéreo também pode morrer. Isso acontece constantemente no segundo plano. Quando o corpo etéreo é morto, nada mantêm a vida de um indivíduo. Nós agora estamos em um cemitério para corpos etéreos, o fim da existência de qualquer ser.

–É possível um corpo físico existir sem o etéreo?

–Sim, estes são chamados de Vazios. Neste caso o corpo nem ao menos pode ser chamado de ser. Sem sua essência de vida, o corpo físico se tornaria apenas uma casca vazia. O corpo não teria emoções para construir seu próprio caminho. Ele apenas vagaria o mundo sem objetivo. Eu não saberia dizer o que um Vazio pensa ou... se pensa no geral.

Katz pensou em seu encontro com o Garth em Lertus.

–Fahir. –Disse ele.

–O que? –Perguntou Aylon.

–Meses atrás um Garth atacou a mim e a Robert. Nós não estávamos o ameaçando ou dando-lhe qualquer motivo para nos atacar, mas ele o fez mesmo assim, permanecendo mudo durante a luta inteira. Na verdade, é por culpa indireta dele que Lestraus nos encontrou e... Bem... Você sabe.

–Acha que ele era ser um Vazio?

–É possível. –Katz então percebeu a pá nas mãos de Aylon. –E como você está aqui? Nós estamos no terceiro plano. Corpos etéreos podem passar do segundo para o terceiro plano livremente?

–Bem, sim e não. –Respondeu Aylon. –Apenas eu tenho esse direito. E não posso passar deste cemitério.

–Explique-se. –Disse Katz, curioso.

–Os deuses não querem infinitos corpos sem vida jogados no segundo plano, então criaram este cemitério sem fim e deram para um o título de coveiro que, no momento, sou eu. Já houveram vários antes de mim e haverá vários depois, no dia em que eu deixar de existir ou desistir de minha profissão. Basicamente o que eu faço é enterrar os restos deixados por aqueles que já não existem mais.

–Parece entediante. –Disse Katz.

–Realmente é. Apenas pedi esta tarefa quando descobri que você tem este... Segundo corpo. Depois, só precisei ouvir boatos de almas que diziam onde você estava. Quando um grande grupo de Garths apareceu no segundo plano e me disseram que Katz, o imortal, fora morto por Lestraus, Eu logo corri para encontrar seu corpo etéreo antes que ganhasse uma forma própria. Então, trouxe sua essência de vida até aqui e o resto é história.

Katz deixou escapar um leve sorriso e respirou aquele ar estranho. Levaria algum tempo até se acostumar com ele. Katz então percebeu que a sua direita estendia-se um grande castelo negro.

–Já o conheço o bastante para saber a resposta. –Disse Aylon. –Mas, acha que ser imortal é o bastante?

O olhar de Katz não desviava por um segundo do castelo. Por fim, ele quebrou o silêncio e disse:

–Não.

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