A Dança dos Condenados

3 Memórias da Rainha Deposta


Notas iniciais
Narrado por Kuro

Eis que me apresento, humanos fadados ao erro. Não lhes direi meu nome verdadeiro, pois os ouvidos deste mundo não são feitos para ouvi-lo. Contudo, posso lhes dizer o nome que me foi dado por outro humano, um com quem fiz meu contrato…

Aqui, no seu mundo, sou Kuro, a deusa da família Kurotsuno. Mas poderia ser apenas um demônio sem nome. Na realidade, eu era um, e dormi tempo suficiente para perder tantas coisas mais.

Eu tenho um objetivo.

Querem saber qual é?

Nesse caso… eu lhes contarei minha história.

A história de uma Rainha Demoníaca.

A história de como me traíram e me retiraram de meu trono por direito.

Cheguem mais perto, isso mesmo. Eu não mordo… não ouvintes tão atenciosos e fracos, pelo menos.

Ouçam agora, pois lhes levarei até o desconhecido, onde o céu é negro, e onde a água tem a cor do sangue. Onde um sol morto reina, e uma pálida lua serpenteia pelo céu a noite.

Meu reino perdido não é lugar para humanos. Eu duvido que vocês poderiam caminhar por aquelas bandas sem sofrer nenhuma consequência. Este é o mundo de demônios. Não os demônios das suas inúmeras mitologias, contudo. Podem nos chamar de extraterrestres, ou criaturas de outro universo, completamente diferente deste. Nossos mundos estão ligados por ocasionais portais, que hora ou outra abrem-se em lugares estratégicos. Por essa razão, é sempre perigoso fazer viagens entre os mundos, pois existe uma possibilidade de nunca mais encontrar sua terra natal novamente.

No meu mundo distorcido, existem inúmeros reinos. Cada um é território de uma raça ou clã demoníaco diferente. E existe uma entidade, ou Rei, que governa sobre cada um desses clãs. Eu era… ou melhor, eu sou uma dessas criaturas, que tiveram a benção ou maldição de nascerem mais poderosas que todas as outras de sua espécie.

Os reinos raramente brigavam entre si, pois o nível de poder dos governantes era equilibrado, e se uma guerra começasse, duraria muito e muito tempo. Mas haviam casos de vários reinos se levantarem para destruir um único, e ele de fato era aniquilado. Os sobreviventes do clã eram usados como escravos pelos conquistadores, e o terreno que este ocupava era repartido entre estes, também.

Quis o destino que eu fosse vítima de uma dessas tramoias mórbidas. Os demônios alados do leste, os serpenteantes do oeste e os colossos do norte começaram a olhar com cobiça para meu reino, e por meio de atos de traição, infiltraram-se em minhas defesas e me atacaram pelas costas. Eu consegui sobreviver apenas fugindo, com meu orgulho despedaçado e meu corpo extremamente ferido.

Milagrosamente havia um portal aberto, do qual me utilizei para escapar para o vosso mundo. Não, eu não sabia que era para cá que me dirigia. Na verdade, estava ferida, exausta e maculada demais para pensar sobre isso. Eu só queria manter minha existência, pensando que eu voltaria, e me vingaria deles, um por um se fosse necessário.

Eu nada vi quando cheguei nesta terra. Meu corpo havia entrado em estado de hibernação, e minhas feridas começaram a fechar por conta própria, mas minha consciência foi perfeitamente apagada para evitar esforços desnecessários. Mesmo quando estava em perfeito estado, contudo, não consegui emergir do meu repouso mental. Talvez, isso tenha sido obra desse endiabrado destino, também.

Eu dormi por anos, “ele” me disse. Por séculos, e séculos. Para mim isso não era nada, não normalmente, pelo menos. Mas tanto tempo me custara minha chance de vingança. Minha chance de recuperar minha terra, pois com tantos anos se passando, não deveria haver mais nada dela, ou do meu clã, para reconstruir.

Eu podia ser a última.

A primeira coisa que vi, já devem saber: Akira, o humano. Akira, o mafioso, assassino e herdeiro de uma das maiores famílias da Yakusa. Mas eu não sabia de nada disso. Essas palavras, num primeiro momento, não existiam para mim.

Eu estava tão cansada…

Mesmo depois de dormir por uma eternidade, meu corpo estava fraco. Eu precisava comer alguém… alguma forma de vida que pudesse me passar seu poder. Alguém poderoso como Akira. Pois ele é poderoso demais, para um humano. E nunca devem dizer-lhe que confidenciei-lhes isso!

Não sei dizer o que foi que me despertou, se foi esse poder latente ou uma cina pré-definida. Mas minha primeira ideia foi devorá-lo, não nego.

E então…

Ele arrancou meu chifre. Minhas certezas, minhas concepções, metade do meu poder… ele meramente o arrancou, como não fosse nada de mais. Eu nem vi o golpe. Sempre imaginei que minha especialidade era ataques furtivos, mas aquilo era ridículo. Principalmente para um ser tão inferior.

A palavra “humano” estava em minha cabeça, mas ainda não sei informar se era um conhecimento que eu já retinha ou se foram as preces daquela família, feitas a mim, que despertaram-me essa fagulha de reconhecimento.

Akira… meu contratante, a pessoa que me deu um nome humano. Ele, que tentou ao menos reparar o chifre que havia arrancado…

Akira haverá de morrer, antes disso tudo chegar a um fim. Eu sei disso. Como sei que meu objetivo é uma loucura, até mesmo para um ser do meu calibre. Mas ele morreria de qualquer forma, não é mesmo? Eu só lhe dei uma… prorrogação.

E voltarão a me perguntar, qual é meu objetivo, afinal? Vingança?

Sim… mas “vingança” é algo relativo, certo?

Não é apenas isso que tenho em mente.

Minha vingança virá, como vocês humanos dizem, em pratos frios.

Eu irei…

Eu irei contra as próprias leis do mundo demoníaco.

Eu irei deixá-las no chão, tentarei algo que nunca conseguiram com sucesso até hoje.

Eu entrarei em guerra com cada um que me atraiçoou, com cada um que ousou conspurcar este nome que não lhes citarei. Terei em meu poder três tronos, de três reinos diferentes, e a cabeça de cada um de seus governantes numa bandeja de prata.

E farei isso apenas…

Com a companhia de um único humano.

Que o destino faça sua melhor jogada. Pois estou a caminho.

Notas finais
Eis que é revelada a história de Kuro, qual foi o objetivo que agora divide com Akira e a razão para tê-lo atacado assim que despertou de seu sono de milênios. + Creio que não há nenhuma dúvida a ser sanada nesse cap, então sem considerações desta vez. + Kisses, kisses e obrigada por ler :3