A Dança do Corvo
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3. (A Dança do Corvo)
Helena ficou parada, os olhos fixos na figura de Jonah Sinclair, tentando processar a tensão no ar. Seu coração batia mais rápido, como se o gelo sob seus pés não fosse o único frio ali. A sala parecia ainda mais sombria agora que a porta se fechara com força, e ela sentia uma estranha mistura de atrativo e repulsa, como se estivesse presa em um jogo que nem ela mesma compreendia.
“Você está em um lugar que não deveria estar”, disse Jonah, sua voz calma, mas firme. Ele se aproximou lentamente, a presença dele invadindo o espaço de forma quase tangível. “Eu sou o zelador, e a última coisa que você precisa é de problemas aqui.”
Helena, ainda um pouco atordoada, tentou disfarçar a inquietação e olhou ao redor, buscando qualquer explicação lógica para a situação. O ambiente parecia uma velha sala de treinamento, afastada de tudo, com as paredes arranhadas e a luz fraca dando um tom melancólico ao lugar. Nada ali parecia novo ou convidativo.
A voz de Helena, ainda dentro dela, ecoou em sua mente. Eu só queria treinar... Mas ela não disse nada. Em vez disso, ela tentou entender o que estava acontecendo ali, mas nada fazia sentido. Esse lugar parecia vazio, sem propósito.
Jonah a observou por um longo momento, seus olhos parecendo penetrar mais fundo do que o necessário, como se ele estivesse tentando desvendar cada pedaço de sua alma.
Jonah ajustou a postura, um sorriso leve nos lábios, como se quisesse suavizar a tensão que ele mesmo havia criado. Ele desfez a rigidez de seu corpo, como se estivesse apenas se sentindo à vontade na presença dela, ainda que a atmosfera entre eles fosse carregada de algo não dito.
“Você sabia que é impossível limpar um lugar como esse sem deixar algo para trás?”, ele perguntou, jogando uma pergunta como se fosse apenas uma conversa casual, mas com o mesmo tom enigmático de antes.
“Deixar algo?”, ela repetiu, franzindo a testa. “Você está falando do que, exatamente?”
Jonah inclinou a cabeça levemente para o lado, como se observasse algo além dela, talvez tentando entender o que a fazia parecer tão distante, tão absorvida em seus próprios pensamentos.
“Você sabe,” ele começou com um tom mais suave, “às vezes a gente fica preso a certos lugares ou momentos, como se eles tivessem o poder de nos definir. A gente sai, mas algo fica. Às vezes, parece que o lugar... nunca nos deixa, mesmo quando a gente tenta se afastar.”
Ele pausou, como se buscasse a melhor forma de continuar. O ambiente ao redor parecia silencioso, quase suspenso, mas as palavras dele eram como algo familiar, um sentimento que ela já tinha experimentado sem saber exatamente como.
“Eu não sou o tipo que pergunta muito, mas é impossível não perceber. Você anda com um peso, Helena. Algo que te incomoda. Eu... não sei o que é. Mas posso te dizer uma coisa? Não precisa carregar tudo sozinho. Não aqui. Não agora.”
Ele fez uma leve pausa e seu olhar encontrou o dela, mais intenso do que antes, sem pressa.
“Às vezes, é mais fácil deixar de lado. Você só tem que querer.”
Aquelas palavras ficaram suspensas entre eles, como se houvesse algo não dito, algo além da conversa que ambos sabiam que estava acontecendo. E então, Jonah deu um passo à frente, mais perto dela, mas sem invadir seu espaço.
“Você já pensou no campeonato de patinação nacional?” Jonah perguntou, com uma leveza inesperada em sua voz. “É difícil de acreditar, mas você tem o talento. Eu sei disso. Vi o jeito que você desliza, mesmo sem querer, mesmo sem perceber o que faz quando está no gelo. Mas, não é só sobre técnica, né?”
Helena o olhou de lado, surpresa pela mudança no tom. Ela sentiu algo apertar em seu peito, uma mistura de desconforto e... curiosidade.
“Você acha que eu teria chance?” Ela perguntou, a dúvida evidente em sua voz, mas Jonah apenas sorriu com um leve encolher de ombros, como se não fosse essa a verdadeira questão.
“Chance? Não é sobre ter chance, é sobre o que você quer realmente. Se você acha que a competição é o seu lugar, vá. Mas eu tenho a impressão de que tem algo mais que você está tentando fugir.” Ele pausou, aproximando-se um pouco mais, a tensão entre eles aumentando. “A pergunta que você precisa responder, Helena, é: você vai continuar se escondendo ou vai enfrentar o que está realmente no fundo do seu coração?”
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