2. (A Dança do Corvo)

Helena continuava a deslizar pelo gelo, sem saber direito o que a motivava. Seus movimentos eram quase automáticos, como se seu corpo soubesse exatamente o que fazer enquanto sua mente tentava se afastar da inquietação que começava a surgir. O som dos patins cortando o gelo se misturava com o leve zumbido da lâmpada que, ora piscava, ora permanecia fixa, criando uma sensação de instabilidade, como se a própria realidade estivesse prestes a se dissolver.

Ela não queria pensar na figura que tinha visto — ou melhor, na presença que sentira. A porta entreaberta, a sombra imóvel na penumbra. Um estalo quase imperceptível que interrompeu o ritmo do seu treino. Não, ela não queria se lembrar disso. Não ali, não naquele espaço. O gelo, no entanto, parecia convidá-la a continuar, a se perder novamente na dança dos seus movimentos, sem passado, sem futuro, sem mais nada.

Os passos, agora, pareciam mais audíveis. Mas não eram os dela. Era uma presença silenciosa, observadora, que a seguia com uma intensidade que ela não podia ignorar. Por mais que tentasse se concentrar apenas no movimento, ela sentia a tensão no ar, como se o próprio gelo estivesse carregado de uma energia estranha, como se algo estivesse prestes a acontecer.

A luz da lâmpada, um farol solitário, piscou mais uma vez, mais intensa dessa vez, e Helena quase parou, mas o impulso a empurrou para frente. Ela não sabia o que a movia, mas o medo parecia ter sido substituído por uma curiosidade crescente. O vazio da sala, a quietude, estavam se tornando insuportáveis. Ela queria mais. Mais do que o silêncio. Mais do que a solidão.

E foi quando ela fez um giro, mais ousado do que os anteriores. Seus patins deslizaram mais rápido do que ela planejou, e o vento, por um breve instante, parecia levá-la para fora de si mesma. Ela sorriu, sentindo-se livre, mas ao se equilibrar, a porta se abriu um pouco mais, e, ao olhar para ela, Helena sentiu algo que a paralisou.

Ele estava lá. À beira da entrada, agora visível, com os olhos fixos nela. Seu olhar era profundo, mas não agressivo, como se estivesse esperando algo. Helena sentiu um arrepio correr por sua espinha. Não sabia se deveria continuar ou parar. Mas o que a fez hesitar foi o silêncio que, de repente, tomou conta da sala — não o silêncio físico, mas o silêncio interno. Algo nela falava que aquele homem, aquela presença, tinha algo a dizer. Algo que ela não estava pronta para ouvir.

De repente, ele se moveu. Com uma leveza assustadora, entrou na sala, cruzando o limite da porta, mas sem pressa, como se estivesse simplesmente deixando o tempo se estender ao seu redor. Ela parou, o olhar fixo nele, esperando uma reação, esperando que ele falasse alguma coisa. Mas ele não fez. Seu rosto era quase inescrutável, como se estivesse entre sombras, como se nada pudesse tocar seu ser.

“O que você quer?”, a voz de Helena saiu sem que ela quisesse, quase num sussurro, quebrando o silêncio tenso que agora preenchia a sala.

Ele a observou por um momento, sem pressa de responder. Então, com um pequeno movimento, ele olhou para a porta entreaberta e falou, quase como se estivesse falando consigo mesmo.

“Eu só estava esperando... você.”

Helena ficou paralisada, tentando entender as palavras. Esperando... ela? Algo dentro dela gelou, e uma sensação de estranheza tomou conta de seu corpo. Como ele sabia disso? Como ele sabia o que ela estava sentindo? Ou o que ela estava prestes a sentir?

Ela deu um passo à frente, involuntário, e ele a observou. A sala estava fria, mas não só fisicamente. O peso das palavras pairava no ar, como se tivessem sido ditas de forma a pesar no espaço entre eles.

“Você me conhece?”, Helena perguntou, mais desafiadora agora, tentando entender a situação. Mas o homem permaneceu em silêncio, a figura dele ainda imponente e intransigente diante dela.

De repente, ele deu um passo na direção dela, e a sensação de desconforto se transformou em algo diferente. Algo perigoso, talvez. Algo que ela não sabia nomear. Os olhos dele brilharam, e ela não conseguiu desviar o olhar. Ele não precisava dizer nada. Ela sabia que estava à beira de algo — e, sem que soubesse como, ela já estava decidida a cruzar esse limite.

Então, a porta se fechou atrás dele com um estrondo, e tudo o que ela podia ouvir era o som dos seus próprios passos sobre o gelo.

Mas, antes que ela pudesse reagir, ele sussurrou:

“Estamos ligados... mais do que você imagina.”