A Dança das Lâminas Rubras

5 O Caminho do Mar Parco - Parte Dois.


Notas iniciais
Espero que gostem :D

–Como eu ia dizendo, cinco anos atrás eu deixei meu lar e iniciei minha jornada – disse Gregório, retomando a história sobre como ele havia conhecido Sabrina.

–Seu lar? Aonde era? – perguntei.

–Uma história de cada vez, Drystan.

–Mas há pouco tempo atrás você fez um grande drama sobre eu não me interessar sobre sua terra natal – resmunguei.

Gregório levou um punho fechado à boca e fingiu duas tosses.

–Veja Drystan, nesses cinco anos eu venho procurando por algo muito difícil de ser encontrado, e que apenas algumas famílias nobres podem saber onde está. Por causa disso, deixei meu lar, e viajei para o norte, indo parar em Sudelor, o país de Sabrina – disse Gregório.

–Você vai ignorar minha pergunta sobre seu lar, não vai?

–Eu caminhei durante dois dias, passando pelos campos pequenos e sem vida de meu país, até chegar à vastidão verde de Sudelor. Depois disso, segui por uma longa estrada de pedra que levava até um lago absurdamente grande.

–Você vai mesmo ignorar minha pergunta. Mas espera um pouco, você disse que andou por uma estrada de pedra? – perguntei.

–Sim. Para visualizar, basta imaginar aquela estrada que usamos para chegar até o Rio Vermelho, apenas troque a lama e o barro por pedras brancas e lisas, que brilham com a luz do sol.

–Algo assim existe? Incrível! Quem construiu deve ter tido muito trabalho – eu disse, pois para minha realidade aquilo era inimaginável.

–O que importa é que cheguei até o grande lago de Sudelor, famoso por abrigar dezenas de cidades grandes em suas margens, e entre elas a capital do país, Fort Tonnerre.

–E lá você conheceu Sabrina? – perguntei.

–Sim. Assim que cheguei a Fort Tonnerre – Gregório fez uma pausa – Aliás, é uma pena que não possamos voltar lá, pois é um lugar magnífico. Você segue pela estrada de pedra, ao lado daquela imensidão azul do grande lago, e de repente olha pra o horizonte e vê.

–“Vê” o que?

–Muralhas. Fort Tonnerre foi construído dentro de um círculo interminável de muralhas. Todas as muralhas são ligadas por grandes torres de vigília, e a abertura do círculo está virada para o lago, fazendo com que tudo que esteja dentro das muralhas só possa ser alcançado por água.

–Torres. Iguais àquela torre onde Sabrina matou Senhor Brandon?

–Não. As torres de Fort Tonnerre são quatro vezes maiores, no mínimo. Mas isso não é o mais surpreendente. Pois assim que obtive acesso à cidade, eu tive a chance de visitar a grande biblioteca que fica no extremo sul de Fort Tonnerre. E chegando ao ultimo andar da biblioteca, olhei por uma grande janela e pude ver toda a cidade. Você ia adorar – disse Gregório.

–Espera, por favor, me conta logo a história de vocês dois, antes que Sabrina volte aqui. Depois você pode dizer como era a cidade – eu disse.

–Você tem razão, mas não precisa ser tão rude, sabe – disse Gregório, rindo.

–Então, o que você foi fazer na cidade?

–Fui atrás de informações sobre o que eu estava procurando, na biblioteca. Mas como não encontrei absolutamente nada no dia em que cheguei, decidi procurar uma audiência com o governante da cidade. Fiz isso porque até uma audiência ser marcada, eu teria dias de sobra para uma pesquisa na biblioteca.

–O governante? Você quer dizer o Rei?

–Não, não, o Rei tem ocupações demais para ter que se preocupar com a cidade. Por isso ele tem um conselho com vários membros que dividem entre si as tarefas do reino e ajudam o rei a governá-lo.

–Entendi.

–Meus problemas começaram quando fui até o palácio de Fort Tonnerre buscar uma audiência. Lá eu acabei esbarrando com um dos filhos do Rei de Sudelor, Príncipe Jacques, um homenzinho que mais parecia um rato loiro, com aquele bigodinho fino e pontiagudo.

–Vocês brigaram? Você e esse tal de Jacques?

–Não. Mas você precisa entender que, o que eu estou buscando está relacionado com a família real de Sudelor. Então eu precisava de uma audiência com o governante, para tentar conversar com algum membro importante da família, e saber se eles tinham informações sobre o que eu procuro.

–Mas, por que um membro da realeza se daria ao trabalho de falar com você? – eu disse, em tom zombeteiro.

–Você vai ter a resposta pra essa pergunta assim que chegarmos ao nosso próximo destino – disse Gregório, sorrindo.

–Você é um péssimo contador de histórias. Vive mudando de assunto – resmunguei.

–Enfim, quando fui buscar a audiência, me encontrei com Jacques, príncipe de Sudelor. Ele caminhava pelo palácio com apenas uma dupla de guardas, então eu me aproximei para tentar conversar. Jacques mandou que seus guardas me jogassem para fora do palácio assim que viu minha aproximação, mas então eu gritei o motivo de eu estar ali, e ele cancelou a ordem – Gregório colocou suas mãos para trás e as apoiou no chão, tentando arrumar uma posição mais confortável para se sentar – Então eu conversei com Jacques por um bom tempo, contei a ele tudo o que eu sabia sobre o que estou buscando, e ele me disse para ter calma, e alugar um quarto em uma estalagem que ficava próxima a biblioteca. Jacques disse que eu receberia uma escolta em breve, para me levar novamente ao palácio e para conversar com o Rei.

–Então ele não era uma pessoa ruim, esse Jacques – eu disse.

Gregório riu.

–Guardo rancor de poucas pessoas em minha vida, Drystan, mas Jacques é uma delas – disse o mercenário, se erguendo novamente e me olhando com seriedade.

–O que ele te fez? – perguntei.

–Jacques disse que me enviaria uma escolta. Mas a escolta nunca veio. Ao invés disso, ele enviou uma assassina.

–Sabrina?

–Sim – disse Gregório, suspirando a resposta.

–Finalmente! – exclamei, pois já estava impaciente – Mas espera, por que ele mandou alguém te matar? Foi por que você tentou conversar com ele sem marcar uma audiência?

–Não, Drystan. Foi por causa daquilo que busco. É algo em que as pessoas não acreditam mais, um poder antigo que todos julgam ser uma invenção de nossos antepassados. E a família real de Sudelor sabe da existência desse poder, e não quer que ninguém o alcance. Por isso Jacques mandou uma assassina.

–Entendi.

–Jacques foi até uma organização de assassinos que trabalhava por todo o país, e fez um contrato por minha cabeça.

–Essa organização, eram os tais Basiliscos que você mencionou antes? – perguntei.

–Sim, os Basiliscos de Sudelor – continuou Gregório.

–É muito estranho uma mulher trabalhar como assassina. Sempre pensei que homens eram melhores em, sabe, matar outros homens – eu disse.

–A ironia é que os Basiliscos de Sudelor treinam principalmente mulheres. Eles compram garotas quando elas têm menos de dez anos, e começam a quebrar a identidade delas, para que possam construir assassinas do zero.

–Compram? Como assim “Compram”?

–Ah, é verdade, isso não acontece muito no seu país, mas nos outros reinos é comum que humanos capturados em guerras sejam escravizados e vendidos como mercadorias normais – explicou Gregório.

–Agora que você falou, os pescadores disseram algo do tipo uma vez ou outra.

–Enfim, o fato é que os Basiliscos criam mulheres para se tornarem assassinas desde a infância. Eles escolhem mulheres porque um assassinato é diferente de uma batalha, deve ser silencioso e rápido. E a melhor forma de fazer isso é usando uma mulher, pois elas são capazes de se infiltrar na maioria dos lugares sem serem percebidas. Uma mulher pode surgir num castelo como uma servente ou como amante de um nobre, uma mulher pode vagar pela cidade procurando por seus filhos perdidos, uma mulher pode se misturar num acampamento do exército inimigo por ter sido capturada durante um cerco, e nada disso atrairia suspeitas, entende?

–Sim.

–Mas continuando a história, para recolher minha cabeça, o líder dos Basiliscos de Sudelor enviou sua melhor assassina, Sabrina.

–Esse negócio que você está procurando é tão importante assim para mandarem alguém como a Sabrina? – perguntei, na esperança que Gregório revelasse de uma vez o que estava buscando.

–Na verdade, não. Eles mandaram Sabrina por... – dizia Gregório, antes de ser interrompido.

–Eles me mandaram porque eu me tornei um problema – disse Sabrina, se aproximando do acampamento. A mercenária tinha o corpo envolto em seu manto preto. Seus cabelos negros estavam molhados, e caiam por todos os lados de sua cabeça, com alguns fios escapando e ficando nos lados de seu rosto.

–Não é o que parece, nós não estávamos falando mal de você nem nada parecido – eu disse, balançando minhas mãos de forma estabanada, apreensivo.

–Eu sei, estava escutando a conversa – disse Sabrina, com seu sotaque e “r” arrastado.

Gregório se levantou, fazendo um sinal com os braços para que Sabrina se sentasse em cima do pano em que ele estava descansando, ao lado da fogueira.

–Obrigado, Souverain – disse a mercenária, tomando o lugar do companheiro.

–Me desculpe Sabrina, não deveria estar falando do seu passado sem autorização. Eu sei que você não gosta de falar sobre isso – disse Gregório.

–Eu tenho pensado sobre isso nos últimos dias – Sabrina sentou com as pernas juntas e dobradas, abraçando as pernas com os braços e aproximando sua boca dos joelhos – Se eu continuar fugindo do passado, como se ele fosse um inimigo que não posso derrotar, vou acabar me tornando uma mulher fraca.

Gregório soltou um sorriso afetivo.

–Souverain, pode continuar – ela disse, encostando a boca em um dos joelhos e fechando os olhos, como se estivesse tentando ficar confortável.

–Bom, Drystan, meu assassinato não era um trabalho grande, podia ser feito por qualquer membro dos Basiliscos de Sudelor, mas o líder da organização enviou Sabrina. Na época, ela era a melhor na organização, e por causa disso recebeu inúmeros trabalhos da realeza, trabalhos que se tornariam comprometedores se fossem descobertos – Gregório olhou para a mercenária – Sabrina sabia muito sobre os planos da realeza de Sudelor, e por isso se tornou uma ameaça, mesmo que não tivesse planos para traí-los. Então eles mandaram Sabrina atrás de mim, e depois mandaram um grande grupo de assassinos segui-la para cuidar de nós dois ao mesmo tempo.

–Isso é um procedimento comum. Um assassino é uma ferramenta, que devia ser descartada quando se tornasse um estorvo. Mas – Sabrina fez uma pausa, como se estivesse fazendo um grande esforço para falar – Mas era tudo o que eu sabia ser, fui criada durante dezesseis anos para ser isso. Me matar por fazer aquilo que fui criada para fazer, não é justo – ela terminou, carregando ódio em cada palavra.

–O que aconteceu então? – perguntei.

–Alguns dias depois da conversa com Jacques, eu lia livros na biblioteca da cidade, como de costume. Eu ficava na biblioteca até que alguém me mandasse sair, para que fechassem o lugar. Mas naquele dia ninguém veio, a noite chegou e a biblioteca parecia mais vazia que nunca – Gregório olhou para as chamas – Foi quando Sabrina surgiu.

–Aquela foi a única vez em que conversei com um alvo, antes de terminar o trabalho – disse Sabrina, deixando um pequeno sorriso aparecer.

–Talvez fosse o destino, não? – brincou Gregório.

–Eu estava com raiva, eu pensava que o trabalho era fácil demais, e isso feriu meu orgulho. Por isso pensei em falar quão irritada eu estava antes de matá-lo – disse a mercenária, em tom sereno, como se aquela situação fosse a coisa mais natural do mundo.

–Mas por destino ou sorte, Sabrina atendeu ao meu pedido e fez a gentileza de conversar comigo antes de minha morte.

–Sobre o que vocês conversaram? – perguntei, entusiasmado.

–Você é um garoto muito curioso. É particular – disse Sabrina, corando.

Gregório riu.

–O que importa é que conversamos por um bom tempo. Por conta disso, o grupo de assassinos que o chefe dos Basiliscos havia enviado ficou impaciente, e resolveu nos atacar antes que Sabrina me matasse – disse Gregório.

–Eram dez mulheres, elas surgiram das sombras e me imobilizaram antes de eu perceber o que estava acontecendo. Uma delas era uma pessoa que eu considerava como minha melhor amiga. Essa mesma mulher foi quem deu o primeiro golpe, me esfaqueando enquanto as outras me seguravam.

–Isso é horrível!– exclamei.

–Mas Souverain me ajudou – disse Sabrina.

–Na verdade, tudo o que eu pude fazer foi derrubar uma das estantes de madeira em cima das assassinas, antes que elas se incomodassem em me matar. Foi o bastante pra que elas me notassem, então tive que correr em seguida, pois uma delas foi atrás de mim – disse Gregório.

–Graças a isso pude me soltar e lutar contra elas – disse Sabrina.

–Então você saiu correndo? – eu disse, olhando para Gregório com um ar piadista.

–Eu estava desarmado, tive que improvisar. Mas depois que consegui me livrar da assassina que me perseguia, eu voltei para a sala onde Sabrina estava – Gregório fez uma pausa – Quando cheguei lá, as outras nove assassinas estavam mortas, cortadas de forma que eu nunca imaginei ser possível. E Sabrina estava inconsciente no chão, com vários ferimentos nas costas e na barriga.

–O que você fez? – perguntei.

–Eu estava morrendo, mas Souverain devolveu minha vida. Acordei alguns dias depois, com os ferimentos tratados – disse Sabrina.

–Assim como Sabrina foi criada para ser uma assassina, eu fui criado para ser um médico. Então eu a levei para um lugar seguro, e cuidei dos ferimentos para estabilizar a situação dela – disse Gregório.

–Incrível, nunca imaginaria que você é um médico – eu disse.

–E não sou. Eu apenas sei uma coisa ou outra – disse o mercenário.

–Então é por isso que vocês não podem voltar pra Sudelor? Estão fugindo dos assassinos? – perguntei.

–Não. Nós não podemos voltar para Sudelor porque quando me recuperei dos ferimentos, a primeira coisa que fiz foi caminhar até a base de minha organização e matar todas as minhas antigas companheiras, e meu antigo mestre — disse Sabrina, com um olhar sombrio.

Olhei para ela, perplexo.

–Meu antigo mestre me abandonou e ordenou que minhas próprias amigas me matassem. Eu não sabia fazer nada além de tirar a vida dos outros, mas quando elas tentaram tirar minha própria vida, eu achei que não tinha mais motivos para viver. Na biblioteca, eu as matei por orgulho, não queria me entregar sem lutar antes. Mas depois que todas elas estavam mortas, eu decidi que me deitar e morrer era a melhor decisão. Eu era uma ferramenta que não tinha mais utilidade, eu era inútil – Sabrina soltou as pernas, sentando com a coluna reta e olhando para Gregório. Os olhos da mercenária brilhavam, refletindo a luz da fogueira – Mas Souverain me salvou, e me disse que eu poderia ser dona de minha própria vida, que eu poderia escolher que caminhos seguir, que a vida tinha muito mais a oferecer do que a vergonha por ter sido descartada.

Com o tempo aprendi que aquele tipo de pensamento era comum entre as pessoas que foram escravizadas no continente. Era normal uma pessoa que teve seu espírito quebrado enxergar a si mesma como um objeto a ser usado.

–Então eu escolhi servir Souverain, e o ajudar em sua jornada.

–Mas, por que matou as outras assassinas? – perguntei.

–Se eu não tivesse feito isso, eles teriam ido atrás de Souverain – disse Sabrina.

–Os Basiliscos de Sudelor foram extintos, Sabrina é a única pessoa viva no continente que ainda carrega um basilisco nas costas – disse Gregório.

–Mas, não é uma coisa ruim? Carregar a marca das pessoas que te traíram? – eu disse.

–Foi com os Basiliscos que aprendi tudo o que sei. Se eu não tivesse passado por tudo isso, não seria livre, não viajaria pelo continente, e também... – Sabrina parou a frase na metade.

–“E também”? – perguntei.

–Nada – ela sussurrou, levando as mãos até um pequeno pote para servir seu jantar.

–Sem os assassinos, ficou mais difícil para Jacques e a realeza de Sudelor nos alcançar. Desde que fiquemos longe, em outros reinos, estaremos seguros – Gregório fez uma expressão repentina de assombro – Se bem que, seria bom sairmos logo de Alvaterra também.

–Por quê? – perguntei.

–Eu acabo de perceber. Nós matamos o filho de um dos Senhores desse país, seremos procurados por aqui também! Isso é péssimo, eu devia pensar melhor antes de tomar minhas decisões – disse Gregório, rindo.

–Você não parece estar preocupado de verdade, explorador de crianças – resmunguei.

Continuamos a conversar por algum tempo, até que por fim decidimos descansar. Eu me deitei em cima de um largo pano e repousei minha cabeça sobre a pouca bagagem que eu tinha. A chuva ainda caia, fazendo um grande barulho de chiado ecoar nas rochas. Apesar disso, consegui escutar uma conversa dos dois mercenários, antes de cair no sono.

–Souverain, está acordado? – disse Sabrina, falando baixo.

–Sim.

–Souverain, por que não contou a ele sobre a Fonte da Magia?

–Se eu contasse para Drystan que estamos arriscando nossas vidas e dormindo sem um teto sobre nossas cabeças por causa de uma “Fonte da Magia”, ele no mínimo sentiria raiva. Raiva por ter seguido um grande imbecil como eu.

–Mas, não é assim que Souverain se sente – disse Sabrina.

–Sim. Mas eu entendo que as outras pessoas pensam em minha busca como algo ridículo. Por isso eu quero que ele veja com os próprios olhos, antes que eu possa contar. Quero que ele veja que buscamos algo que de fato existe. É por isso que estamos indo para Impérvia.

–Outra das sete famílias antigas está lá? – perguntou Sabrina.

–Sim – Gregório pigarreou – Mas vamos dormir, logo devemos alcançar um porto e atravessar o Mar Parco até chegar à Península Impérvia. Lá as coisas se tornarão mais claras para Drystan. E para mim.

Notas finais
Obrigado por ler, toda crítica será bem vida :D Próximo Capítulo: A Caça ao Corvo de Estio - Parte Um.