Notas iniciais
O primeiro capítulo é narrado em terceira pessoa, por pertencer à gestação e primeiras fases da vida de Paola.
Se passa inicialmente na França.

Paris, França — 1988

É incrível como a vida nos prega peças, Thomas nunca havia pensado na paternidade como algo favorável, mas estava ali, na Maternidade Hôtel-Dieu de Paris, esperando Olivia Lemmoine Marshall dar à luz a seu primeiro ou primeira filha. Não que ele estivesse contente, ele nunca esteve contente com aquilo e enquanto para todos os cantos possíveis se olhava, podia ouvir dos familiares a alegria que um bebê gerava.

— Mas porra... eu não quero um bebê. — Era suas palavras simples e ditas para si mesmo, enquanto andava de um lado para outro. — E se essa merda for uma menina? Não quero uma menina, nunca quis um filho, nem morar na França e muito menos me casar com a Olivia.

Era como um constante looping, voltando ao momento que um festival, um simples festival, geraria uma vida numa transa de viagem. Talvez fosse simples, mas não era, aquilo havia gerado um embate violento em Thomas que jamais seria capaz de superar. Mas, seus pensamentos pareciam que não teriam fim, até aquele momento, quando um homem de branco, saiu da sala como se tivesse conseguido o diamante mais raro do mundo e viu todos se aproximarem, com a expectativa gritando aos tímpanos.

— É uma menina. Uma linda menina, que nasceu forte e saudável.

Ele a amaria, ela deve ser a coisa mais linda do mundo e o era. Todos diziam. Tinham os olhos de um azul sem igual, uma pele branca feito neve e os cabelos pretos como a noite sem luar. Seu nome foi definido por Paola. Paola Marie Lemmoine Marshall. Mas, nem tudo parecia ser tão lindo como a prole, que apesar de carregar em si uma doce inocência, vivia um contexto tão intenso de não amor. O amor existia, todos a amavam, mas ela sentia, talvez no cerne do teu corpo que, fosse um peso para os pais. Como as palavras de Thomas ecoava a noite, falando no inglês americano que, Olívia deveria ter abortado, eles não eram felizes, eles nunca seriam felizes. A questão era que, Thomas e Olívia eram um casal. Um casal que se consumia como fogo e pólvora, um casal que em um quarto, acabava com tudo que vinha pela frente. Eles eram 08 ou 80, nunca meio termo. Ou era tapa ou era beijo.

Mas, equilíbrios existiam para mostrar que estávamos errados em dadas coisas, quando por vontade do Marshall, um segundo filho veio, que ele amou como a ti mesmo, no primeiro olhar. Não se notava muito a outra, detalhes da mais velha, passavam despercebidos diante dos olhos ali, tal como detalhes, que talvez, apenas talvez atrapalhasse seu futuro. Mas estava tudo bem, ela seguia e crescia fiel a teus instintos, agindo quase que, naturalmente com seus pequenos detalhes, que todos diziam ser marca dela. Que era um charme. Charmes podem simplesmente virar vícios ou não.

New York, 2006

Paola evoluía gradativamente, nos cursos que fazia, na vida pessoal, nas escolas, mas o ponto do que precisava a fazia atravessar um oceano, em um país que ela particularmente odiava. Em tese, por conta de seu pai, em partes porque achava os americanos desprovidos de sentimentos, metidos. Mas, estava ali, parada em frente ao saguão do aeroporto, vendo seus 18 anos passarem diante de seus olhos azuis. Tão azuis como cristais ou como geleiras derretendo, dependendo do ponto de vista.

— Prometo que sempre vamos nos ver, tudo bem Cams? — Falou no último momento, quando o voo era chamado e um sorrisinho — triste, diríamos — escapou dos lábios carnudos da mais velha. — E bom, serão poucos anos, voltarei para a França logo mais e estaremos a passear na beira do rio Sena, vendo os casais apaixonados se declararem e fazerem juras de amor.

Ouvia tudo o que a mais nova dizia, afinal, mudanças sempre são esperadas, mas ao mesmo tempo, se tornam uma grande e assustadora incógnita para aqueles que vão passar por ela. Deixou que as lágrimas escapassem quando o dorso estava perfeitamente recostado contra o assento de couro do avião, olhando ao longe tudo aquilo que amava ficar para trás. O brilho da Torre Eiffel, o Arco do Triunfo onde havia dado seu primeiro beijo, seus amigos, suas histórias. E de repente, aquele simples fato, a atingia como um soco em seu estomago tivesse acabando de lhe tomar o ar, a fazendo arfar e soluçar. Nunca entenderia porque a dor de simplesmente ir a quebrava por completo, a fazia querer morrer em si. Ou simplesmente desistir, mas tinha metas e objetivos previamente traçados, não havia momento para demonstrar fraqueza. Sempre tinha ouvido que, os fracos nunca crescem. E seus objetivos ultrapassavam aquilo de viver uma vida de uma simples mulher.

Ela queria o mundo, e queria mostrar para o mundo que sua soberania ultrapassava os limites impostos e as falhas, que era acima de tudo, dona de si e de sua verdade. Mesmo que, naquele instante, sua alma corroborasse para que ela simplesmente fugisse e se encolhesse, como uma garotinha amedrontada. Era a incerteza que a aguarda, o talvez e o mas... e isto, fazia tudo parecer quase pior. Quase pior de um jeito positivo, ou talvez não.

"Não fique ansiosa, Paola. Não fique ansiosa.", sussurrava para si, como um mantra japonês a fazendo refletir. E, pensar tanto, não poderia fazer bem à saúde, poderia? Talvez as coisas fossem mais fáceis se pensasse positivamente, mas talvez, naquele instante a ideia de que, estaria praticamente sozinha ali, não era bom. Talvez. talvez e talvez. Parecia que cada pensamento, tendia a deixa-la mais ansiosa. Já havia viajado inúmeras vezes para os Estados Unidos, mas o que diferenciava aquele momento, era simplesmente porque, mon Dieu, era uma nova vida, com pessoas que talvez, achassem ela estranha, afinal, eram tão diferentes, desde a criação ao modo de comer, falar, andar e vestir. Deveria ouvir mais a si mesma, mas a cabeça parecia ter vida própria. O ensurdecedor mundo de Paola, dava para rir de si mesma.

Era como uma piada interna sendo contada a cada segundo por uma voz diferente. E aquilo parecia um ciclo, enquanto a escuridão constante tomou seu lugar quando Paris se distanciou totalmente, não tinha mais aquele fachos de luz ou pequenos pontos luminosos, era a pessoa ao lado dela tamborilando os dedos pelas coxas como se aquilo amenizasse o medo, os pilotos conversando entre si, e o material frio que ela podia recostar o braço. Okey. Aquilo era sim o sinal de que a mudança era real. A ficha nem sempre cai no primeiro instante e quando cai, parece ser um choque, porque... ora, porque você está esperando que, aquilo não vai ser real, que é apenas fruto de sua imaginação. E infelizmente, esta é capaz de te fazer delirar e te levar para coisas sem precedentes, mas ainda assim, ela permanecia ali, absorta em momentos, em lembranças, em um adeus que era só um até breve... ou não. A incerteza de um amanhã era algo que não se podia contar em palavras, e Paola sabia que, aquela incerteza ainda te pregaria peças que talvez, não agora, mas a longo prazo poderiam trazer para ela, efeitos positivos, efeitos negativos e efeitos que fossem desconhecido aos homens. Era tudo pesado em uma balança, como se fosse incapaz de gerar outra coisa, mas... O que era o mas? Era um grito no horizonte, era uma caixa abafada e a prova de som. Era a incerteza do que poderia acontecer nos próximos 05 minutos, no amanhã e no longa data que a esperava, ela apenas sabia que, os Estados Unidos, mais precisamente Nova York seria algo que poderia lhe trazer boas coisas, ou coisas que iria desejar com toda força do mundo, esquecer. E esquecer é algo fundamental, quando nossas cargas são tão pesadas. Mas, se ela voltasse a si mesma, talvez encontraria as respostas para querer se mudar. Para querer ir embora. Para de repente, o país que mais odiou em toda sua vida, se tornasse o lugar que, por alguma força externa a atraía para lá.

— Finalmente você chegou.

Foi a palavra animada de um Thomas Marshall sorridente, com seu terno bem cortado e cabelos castanhos médios bem penteados, quando viu a prole ali. Eles tiveram seus momentos tensos, especialmente no início da adolescência da filha, mas parecia que tudo havia sido resolvido quando ela decidiu que os Estados Unidos seria sua estadia por um tempo. Claro, nada era flores, especialmente após o conhecimento da família paterna de que, Paola, que eles planejavam ser uma futura médica cirurgiã famosa na América, havia passado toda a adolescência fazendo suas aulas de ensino fundamental e médio e nos horários livres se dedicando a cursos de Artes visuais, desde desenho, pinturas e até um curso de gemologia que a Lycée Fénelon oferecia. Então, a visão deturpada que ela deveria ser médica, mais precisamente uma cirurgiã plástica escorrera pelo ralo pelo simples fato de que, por ter feito cursos de gemologia e artes, ela seria uma pessoa que trabalharia para os ricos, onde eles levariam todos os créditos por suas obras. Era estranho pensar naquilo por aquela visão? Era, mas a Marshall parecia estar adaptada com os julgamentos.

O clima frio de Nova York parecia não a amedrontar, nem mesmo diminuir a sensação de que ali seria sua nova casa. Era claro que sentia falta de tomar chocolate quente com croissant nas cafeterias de Paris, enquanto um artista de rua, tocava seu violino e os casais apaixonados parecia aqueles pombinhos de filmes apaixonados, recostando a cabeça um ao outro e perdendo corações por onde passavam. Mas ali não, ali era Nova York, com sua fama de cidade que nunca dormia. Poderia dizer que se sentia ansiosa para saber exatamente o por que daquilo? Sim, mas ao mesmo tempo era como se um medo a paralisasse. Sem sombras de dúvidas, ali não era lugar para pessoas como ela, que acreditava em muitas coisas que não em si mesma e em seu alto potencial de ser norte americana, apesar da dupla nacionalidade.

— Amanhã iremos na faculdade que você escolheu. — Thomas interrompeu qualquer pensamento que ela poderia ter, afinal, ele havia visto a filha, tinha quase 07 meses, pois da ultima vez que ele tinha ido a Paris, Paola tinha viajado com a avó materna para o interior da França, afim de conhecer castelos e chatêaus famosos. — Me diga, como foi de viagem? Como a Camille está?

— Ah! — Que primeira reação, não era bem o esperado. — Iremos? — Ele assentiu, enquanto lançava um rápido olhar a ela. — A viagem foi boa, acho que melhor do que eu esperava e as acomodações estava ótima. Camille está bem, acho que ela fic...

— Que bom que sua irmã está bem, ficaria mais contente se ela também pudesse se mudar para cá por agora.. As escolas Norte americanas estão entre as melhores, e parece que a Lycée perdeu um pouco a... credibilidade, com cursos tão... ruins que oferece.

E assim começaria a jornada, Paola decidiu naquele momento que, se fosse para viver segundo o evangelho de Thomas Marshall, preferia não viver. Mas que traçaria seu próprio caminho, independente das barreiras impostas por quem deveria apoiá-la.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.