A Dama do Coração Partido
20 Revelações na Viagem Clandestina a Bedford
Enquanto aguardava pelo retorno de Holmes, fiquei imaginando em como me disfarçaria de entregador de lenha. Pensei em algo bastante simples, porém sabia que precisaria de um casaco bem grosso, porque certamente enfrentaria um frio intenso. Provavelmente usaria uma toca ou um chapéu que ajudasse a esconder o meu rosto, afinal, o objetivo era não ser reconhecido. Só não sabia bem, por quem.
Separei algumas peças do guarda-roupa de disfarces de Holmes e esperei por sua opinião, uma vez que ele era o especialista nesse tipo de coisa. A espera foi de cerca de duas horas e já era quase meio-dia quando ele voltou. Eu começava a me preocupar achando que perderíamos o trem.
— Como vão os preparativos, Watson? – perguntou ele a todo vapor, enquanto ainda subia as escadas. Estava de bom humor.
— Estava esperando você voltar para ver se aprova minhas escolhas de disfarce. – respondi.
— Ah! – reagiu animadamente. – Onde estão?
— Em meu quarto.
— Pois então vamos ver!
Imediatamente seguimos para lá. Ele olhou as peças sobre a cama e, felizmente, gostou do que viu.
— Muito bem, Watson! Vejo que está aprendendo as nuances da arte do disfarce. Nada chamativo, nem muito esfarrapado, afinal teremos que embarcar em um trem. Se fossemos muito maltrapilhos, provavelmente nem nos deixariam entrar na estação. Você está no caminho certo, contudo, ainda faltam alguns pequenos detalhes, como uma peruca, por exemplo.
— Você acha necessário? Não gosto de perucas, elas pinicam.
— Tudo bem... – ele pensou por alguns segundos e logo teve outra sugestão — Podemos substituir a peruca por um cachecol bem grosso. Você o enrola no pescoço e aproveita para cobrir metade do rosto. Que tal?
— Muito melhor.
— Certo. Então vá se aprontar, porque preciso fazer o mesmo, ou então nos atrasaremos.
— Mas você não vai me contar o que andou fazendo nessas duas horas? – perguntei.
— Agora não temos tempo para isso. Quando estivermos a caminho de Bedford, lhe colocarei a par de meus últimos movimentos.
Fiquei satisfeito, afinal, pelo menos dessa vez, parecia que ele realmente iria me contar alguma coisa e não me deixar completamente no escuro como vinha fazendo desde o dia anterior.
Quando terminei de me aprontar, deparei-me com Holmes já me esperando na sala de estar. Estava verdadeiramente irreconhecível. As roupas eram parecidas com as minhas, mas ele usava um bigode falso e uma peruca de cabelos loiros e encaracolados. Também estava usando um par de óculos de lentes e aros grossos. Quando o vi, não aguentei e comecei a rir, pois estava muito engraçado. Até sua postura estava diferente, meio curvado, parecia mais baixo. Não havia como negar que ele realmente era o mestre dos disfarces.
— Do que está rindo, Watson? Por acaso pareço algum palhaço? – perguntou irritado — Minha intenção era parecer com um entregador de lenha.
— Não é isso. É que você está muito diferente! Diga-me, está enxergando alguma coisa com essas lentes?
— Confesso que não enxergo muita coisa, — admitiu — mas só as usarei quando estivermos lá e mesmo assim, consigo olhar por sobre os óculos. Agora que você já se divertiu às minhas custas, vamos para a estação.
— Não vamos levar nenhuma bagagem?
— Não será necessário. O que precisamos para completar nosso disfarce estará nos aguardando em Bedford. E também, creio que voltaremos, no mais tardar, amanhã.
— Se é assim, então vamos.
Despedimo-nos da Sra. Hudson pela segunda vez em dois dias e pegamos um coche até a estação. Chegamos em cima da hora e quase perdemos nosso trem. Tivemos que correr um pouco, mas o alcançamos a tempo de embarcar.
Após nos instalarmos devidamente em nossa cabine, Holmes finalmente estava pronto para me contar o que tinha feito naquela manhã, mas antes de qualquer coisa, eu precisava saber o que exatamente estávamos indo fazer novamente em Bedford, uma vez que o mentor de todo aquele plano execrável já estava preso, junto de seu comparsa.
— Nós estamos indo pegar nosso “fantasma”! – respondeu ele sem rodeios.
— Mas por que temos que pegar os arrombadores? Por que não deixamos isso com a polícia? Wright com certeza já deu seus nomes para Lestrade.
— Acho que não me ouviu direito, Watson. Note que eu não disse “fantasmas” eu disse “fantasma”, no singular. Existe mais um indivíduo, fora aqueles dois que Wright confessou ter contratado. Esse ainda não foi mencionado por ninguém nessa história toda, ou pensando melhor... foi. Se ele acha que vai sair ileso de tudo isso, está muito enganado.
“Outro “fantasma”?” — pensei. Quando eu achava que as coisas finalmente seriam esclarecidas, Holmes, como sempre, conseguia achar um jeito de me deixar ainda mais confuso e curioso, e pelo jeito, ele ainda não estava querendo abrir o jogo todo comigo e continuou contando só o que queria me contar e não o que eu efetivamente queria saber.
— Bem, voltando ao que estive fazendo hoje cedo... — continuou Holmes — como bem sabe, fui procurar o faxineiro com quem havia conversado em nossa primeira visita a St. Bartholomew. Ele continuou bisbilhotando para mim desde aquela ocasião, porque precisava que me confirmasse algo que suspeitava desde o início. Fico feliz em saber que ele cumpriu a missão com êxito, provando que eu tinha razão.
— Lá vem você outra vez com esse suspense! – explodi – Não disse que ia me contar as coisas?
— E estou contando, não estou? – continuou calmamente, sem ligar para minha indignação – Pois bem, logo depois fui ao posto do telégrafo ver se conseguia o número dos telefones da Delegacia de Polícia de Bedford e da casa dos Edwards. Como me deixou esquecer de perguntar essas detalhes tão importantes, Watson? Se queremos telefonar para alguém, precisamos do número, homem!
— Mas eu... – tentei me defender da acusação injusta, afinal quem queria telefonar era ele e não eu, mas ele nem me deu tempo e continuou falando.
— Eu não podia simplesmente telegrafar, porque precisava de uma resposta imediata de meus interlocutores, mas por sorte, minha suposição de que os postos de telégrafos possuíam tal informação estava correta. O posto daqui comunicou-se com o de Bedford e eles tinham uma lista de todos os números de telefones registrados na cidade.
“Então liguei para o Inspetor Haylock e pedi-lhe para que ficasse de olho em algumas pessoas para mim, porque nem todos foram totalmente honestos conosco por lá. Pedi também para que me arrumasse um carrinho de mão cheio de lenha. Ele não entendeu muito bem a esse meu segundo pedido, mas disse que atenderia a ambos.”
“Em seguida, liguei para a residência dos Edwards e pedi à Claire para que convidasse algumas pessoas para irem à casa esta tarde, porque precisamos ter uma conversa.”
— Mas o clima deve estar péssimo por lá, essas horas. Parecia que a nevasca pioraria bastante durante a tarde. – observei.
— E eu estou contando exatamente com isso, Watson! Preciso que a nevasca piore muito, tornando as ruas intransitáveis, para manter nossos convidados presos na casa até chegarmos.
— Mas se as ruas ficarem intransitáveis, como NÓS chegaremos até lá?
— Daremos um jeito.
— E quem seriam esses convidados?
— Você saberá quando chegarmos lá. – Respirei fundo ao ouvir suas respostas evasivas, mas continuei com minhas perguntas.
— E por que os disfarces são necessários?
— Porque preciso pegar meu principal suspeito desprevenido. Ele com certeza já nos conhece, porque garanto que andou nos observando quando estivemos lá. Precisamos retornar à cidade incógnitos para que o plano dê certo e ele continue fazendo o que tencionava sem se preocupar com nossa presença.
— Entendi... E também não vai dizer quem é essa pessoa?
— Não.
— Por Deus, Holmes, pare com isso! Já está ficando ridículo! Conte-me tudo de uma vez por todas ou eu desço desse trem em Luton e você seguirá sozinho. Garanto que minha presença ou ausência não fará diferença alguma para esse seu plano mirabolante.
— Não seja infantil, Watson!
— Infantil? Eu? Você é quem está brincando comigo!
Após receber meu ultimato e perceber que estávamos a menos de cinco minutos de Luton, ele resolveu se render.
— Está bem, está bem, eu conto.
— Finalmente!
Fiquei atento como uma criança que espera ansiosamente pelo fim de uma história e comecei a escutar Holmes. Já estávamos próximos a Bedford quando ele terminou e ficou me observando esperando alguma reação que não vinha, porque eu estava perplexo demais ponderando tudo o que tinha acabado de ouvir. Era incrivelmente improvável o que se passava em sua cabeça, mas também fazia sentido. Ele tinha conseguido encontrar respostas para todas as perguntas que ainda restavam e me deixou com a cabeça rodando.
— Mas seria possível? – foi só o que consegui perguntar depois de um tempo.
— Lembra-se de que sempre digo que se eliminarmos o impossível, o que restar, por mais improvável que possa parecer, deve ser verdade?
— Sim... mas nesse caso, você está querendo dar o impossível como verdade.
— Será mesmo? – perguntou com um sorriso desafiador — Não seria impossível, se provarmos que ouvimos algumas mentiras no meio de tanta informação.
Ele tinha razão. Tudo era inverossímil, mas ele era Sherlock Holmes, e suas teorias, por mais malucas que fossem, sempre acabaram se provando verdadeiras. Acho que daquela vez não seria diferente.
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