A Dama do Coração Partido
17 Holmes Faz Suspense
Enquanto Holmes vagava pelas redondezas, recebemos a visita dos doutores Cooper e Packard, que tinham voltado para saber como estava a pequena Angela.
A Dra. Packard estava preocupada com a menina, mas viu que, aparentemente, estava tudo bem com sua saúde e que ela estava sendo muito bem cuidada por Claire. Durante esse nosso novo encontro, descobri que o casal era padrinho da menina e demonstrou muito carinho por ela. Eles sabiam que se o pior acontecesse com a Emma Edwards, eles se tornariam os guardiões de Angela, mas preferiam não pensar nesse assunto.
— Acabamos de vir do hospital. – disse Cooper – Resolvemos voltar lá para saber se tinha havido alguma mudança no quadro de Emma, mas tudo continua na mesma.
— É uma pena que uma moça tão jovem esteja passando por tantas desgraças. – comentei.
— É verdade, mas ela é muito forte. – respondeu Emily Packard enquanto brincava com Angela nos braços – Tenho certeza de que ela vai sair dessa, muito em breve, e que os senhores descobrirão o que está acontecendo nessa casa, para que ela possa voltar a ter uma vida tranquila. Nesse momento não acho uma boa ideia ela se mudar daqui, porque quando sair do hospital precisará de muito repouso e não deve se preocupar com coisas como a venda do imóvel ou com mudanças.
— Sim. Repouso absoluto. Nada mais de sobressaltos por um bom tempo. – concordei.
O tempo passou enquanto conversávamos e já começava a anoitecer. O frio voltava a castigar e o casal de médicos decidiu voltar para o hotel. Eles já tinham visto a afilhada e estavam mais tranquilos, contudo, agora quem não estava tranquilo era eu, porque Holmes ainda não tinha voltado de sua caminhada e a neve fina recomeçava a cair.
Ele tinha saído acompanhado de Benningfield, mas o mordomo já havia voltado há um bom tempo e nada dele aparecer. Benningfield disse que o tinha levado até a margem do rio, mas Holmes desejava refletir um pouco sozinho e disse que sabia o caminho de volta.
Eu já começava a ficar impaciente e me preparava para ir atrás dele, quando finalmente resolveu aparecer. Tentei passar-lhe um sermão por sua falta de consideração e ele disse não entender o motivo de minha preocupação.
Em alguns momentos ele conseguia ser pior do que os adolescentes que não dão satisfações aos pais e isso me tirava do sério. Eu com certeza não tinha idade para ter um filho daquele tamanho, mas como seu melhor, e talvez único, amigo, me preocupava com seu bem-estar. Já eram quase 19 horas e Claire só estava esperando que ele voltasse para servir o jantar, mas ele disse que estava sem fome. Enquanto jantávamos, preferiu acender seu cachimbo e sentar-se em frente a lareira. Estava bastante introspectivo e permaneceu um bom tempo em silêncio, apenas contemplando o fogo crepitante.
Algum tempo depois resolvi interromper seu silêncio com algumas perguntas, porque estava bastante curioso.
— Diga-me, Holmes, esse seu passeio gelado ao menos lhe trouxe alguma nova informação?
— Talvez... – respondeu de forma evasiva – Creio ter solucionado o caso...
— Não me diga!
— E não pretendo dizer mesmo. Pelo menos, por enquanto.
— E por que não?
— Porque primeiro preciso fazer alguma perguntas para o Diretor Wright amanhã. Dependendo de suas respostas terei certeza.
— Não vai me adiantar nada mesmo?
— Não. Esse caso me levou a várias hipóteses. Algumas se provaram corretas, outras nem tanto, mas há algo mais que eu não estava conseguindo ver e que agora começo a vislumbrar. Só falarei quando tiver certeza.
— E vai me deixar nesse suspense? – indignei-me.
— Vou. Mas não se preocupe, porque se o que eu penso está correto, amanhã mesmo, todos nós teremos nossas respostas.
Enquanto Holmes atiçava minha curiosidade, o telefone tocou e interrompeu meu interrogatório. Era o Dr. Young dando notícias de nossa cliente. Por um instante fiquei animado em saber que ela começava a recobrar a consciência, mas ele nos disse que ela estava muito agitada, apenas chamava pela pelo marido em uma espécie de delírio. Todos estávamos ansiosos pelo momento em que ela acordasse, mas o Dr. Young achou prudente mantê-la em coma induzido por algum tempo, para que seu coração se fortalecesse um pouco mais. Ela precisava de repouso absoluto. Concordei com sua avaliação.
Percebi que Holmes havia ficado mais tranquilo após receber a ligação do médico. Não sei bem se foi por saber da condição de nossa cliente ou se foi por alguma outra coisa, só sei que pouco tempo depois ele se retirou para o quarto dizendo que iria dormir porque precisávamos partir o mais cedo possível de volta para Londres e praticamente me obrigou a fazer o mesmo, mas não sem antes de falar com Claire e Benningfield.
— Não se preocupem, porque lhes asseguro que nosso “fantasma” não nos importunará esta noite.
— Deus o ouça, Sr. Holmes! – rogou Claire com as mãos postas.
Em seguida fomos todos nos deitar, confiando na certeza de Holmes. A cozinheira disse que poderíamos ficar no quarto da dona da casa. Holmes ficou com a cama do casal, enquanto eu ganhei uma velha cama dobrável de ferro que foi montada no quarto. Ajudei Claire a levar o berço de Angela para seu quarto, para poderem ficar juntas.
Eu estava cansado e creio que peguei no sono em poucos minutos, mas tive sonhos estranhos que com certeza tinham sido influenciados por toda aquela situação e acordei sobressaltado depois de algo que eu caracterizaria como um pesadelo. Sentei-me em minha cama, que rangia, e percebi que Holmes não estava no quarto. Embora sua cama estivesse desfeita, não havia sinal dele. Resolvi me levantar para procura-lo e assim que passei pela porta ouvi um barulho, mas nada parecido com algo sobrenatural. Eram apenas murmúrios de bebê que vinham do quarto de hóspedes. Aproximei-me lenta e silenciosamente e vi que a porta estava aberta. Fui ver se estava tudo bem e para minha surpresa, encontrei Holmes debruçado sobre o berço brincando com Angela. Nunca imaginei que Sherlock Holmes fosse do tipo paternal, mas ao observá-lo vi que talvez houvesse alguma esperança para o “homem de gelo”. Claire dormia pesadamente e nem se deu conta da presença de Holmes. A pobre mulher devia estar exausta depois de passar o dia cuidando da casa e da criança.
Holmes girava o mobile de borboletas cor-de-rosa pendurado sobre o berço, enquanto a menina dava risadinhas e tentava alcançar o brinquedo. Achei graça da cena terna e fiquei tentado a me aproximar um pouco mais da porta, mas o piso antigo de madeira rangeu com minha passada, denunciando minha presença ali. O barulho chamou a atenção de Holmes e acabou encerrando a brincadeira.
No instante que ele percebeu que estava sendo observado, se levantou e saiu como se não tivesse acontecendo nada de mais.
— Nunca imaginei que gostasse de crianças. – brinquei.
— Não é uma questão de gostar ou deixar de gostar... pajear crianças, simplesmente não está entre minhas habilidades.
— Pois para mim pareceu que você estava se saindo muito bem.
— Eu estava apenas... apenas testando os reflexos da menina. – desconversou – Pareceu-me ser uma criança bastante esperta.
— A mim também. Passamos uma tarde bem agradável juntos. Já somos grandes amigos, acho que agora você também é.
— Pare com isso, Watson. Vamos dormir, porque em poucas horas temos que estar de pé. Quero estar de volta a Londres antes das 8 da manhã.
— Só vou pegar um copo d’água e já vou, comandante. – respondi batendo continência.
Fiz como havia dito e quando voltei para o quarto ele já estava dormindo ou apenas fingindo, não saberia dizer com certeza, mas Graças a Deus, Holmes estava certo e a noite transcorreu sem maiores surpresas.
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