A Dama Solitária
13 O Mágico
Notas iniciais
Castelo Bellatore — 4:25 da madrugada.
O frio da madrugada era cortante. Rajadas de vento balançavam as árvores que cercavam o Castelo. Todos já haviam ido para os seus quartos, depois de um dia turbulento e estressante. Durante a tarde, a Reunião do Conselho reunira Tevon, James, Sahé, Angelo, e os três Bellators. O outro Bellator ainda estava fora, portanto não pôde dar as caras. Mas a Reunião foi pior do que o esperado. Serena e Angelo tiveram uma discussão, enquanto Gabriela dormia, encantada, no sofá do canto do Pavilhão. Depois que ele saiu, Serena decidiu que esperariam até uma decisão das líderes de Cineres: as Damas de Branco.
***
Tic, tac, tic, tac... O pêndulo que estava na parede de pedras do Pavilhão balançava incessantemente. Serena observava, de longe, qualquer movimento suspeito. Ela estava na Torre Principal, vigiando Cineres da primeira escadaria. Logan estava com ela.
A primeira escadaria dava uma vista maravilhosa para toda Cineres, cujo horizonte se estendia pelos quatro cantos, até a Zona, e um pouco depois ás Terras das Sombras. No Leste, onde ficava o início dessas terras, uma luminosidade semelhante á Lua chamou a atenção de Serena. Ela vestia uma armadura prateada, capacete prata e uma espada de bronze na bainha. Seus cabelos loiros e lisos estavam presos num rabo de cavalo que descia por seus ombros, posto de lado. Serena rapidamente foi atraída naquela direção.
– O que é aquilo? — ela perguntou, indicando a direção leste.
– Parece a Lua — Logan respondeu, sorrindo. Uma certa nostalgia o contaminou naquele momento. — Provavelmente é algum Servo das Sombras com saudades de casa. Não somos só nós, Serena. — ele comentou, e então voltou á sua posição de vigilância. Serena ficou pensando por longos minutos no que Logan dissera. Era como se ele... Entendesse os servos das sombras. Os elementares e os servos tinham uma rixa muito antiga. Mas naquele momento, Logan pareceu bom com eles. Isso deixou Serena inquieta. Não seria bom que ele visse os inimigos como iguais, pois isso poderia trazer traições no futuro. Mas logo esse pensamento tornou-se algo tão egoísta que Serena sentiu-se enojada de si mesma. — Eu sei o que está pensando, Serena. As vezes, você é tão previsível. — Logan falou, meio frio.
– Por que você fala assim deles? Eles serves as sombras, Logan. — Serena falou, fitando o horizonte.
– Viemos todos do mesmo lugar, a Terra. Somos apenas órfãos, perdidos num lugar no qual nunca planejamos entrar. Você lembra, Serena... Quando apenas queríamos entrar em uma faculdade boa? — Logan riu — E dar festas e sermos populares. É apenas isso. E agora, estamos vigiando uma cidade.
– Precisamos escolher um lado — Serena falou, seca.
– Tudo bem, precisamos. E escolhemos. Mas e agora? O que vem a seguir? — ele perguntou, apontando para toda a terra que se estendia á frente dos dois. — Você sabe: guerra. Mas... Nós escolhemos guerra? — Logan perguntou.
Serena olhou para o chão e tornou o olhar para a frente, sentindo as lágrimas quentes brotarem. Logan sempre dizia as palavras certas, mas elas eram tão cortantes. Tudo o que ele dissera era verdade. Haveria uma guerra, e ela cada vez se aproximava mais com a chegada de Gabriela. Profecias, treinamentos, mistérios, brigas... Tudo isso assolava a mente de Serena de uma forma como nunca acontecera antes.
O pêndulo soou três vezes direto, anunciando que o turno de Logan acabara. Ele olhou para Serena com um sorriso de canto.
– Você costumava ser mais alegre, Serena. Não deixe a Dimensão tirar isso de você. Ela já te tirou o bastante. — ele falou, em seguida se aproximou dela, e deu-lhe um beijo na testa. Serena fechou os olhos com força, deixando algumas lágrimas caírem.
– De todos nós — ela respondeu. Então ele saiu. Porém, outra pessoa chegou.
Do céu, Serena avistou um anjo voando. Aquelas asas douradas eram inconfundíveis: Angelo. Ele pairou na primeira escadaria, onde ela vigiava, e rapidamente recolheu as asas. Tudo em Angelo era belo, desde seu rosto até suas asas. Mas naquela madrugada, algo nele estava diferente. Havia medo em sua expressão.
Serena o olhou com certa mágoa e arrumou a postura.
– A que devo sua visita? — ela perguntou, não olhando em seus olhos.
– Serena, não podemos mais brigar. Precisamos ficar unidos. — Angelo disse, surpreendendo-a.
– Como é? Faz o problema, e depois me vem com discursos. Hum, você é pior do que eu pensava, Angelo — Serena disse com sarcasmo. Ele não disse nada. Ela se virou para ele e falou: — Você não acha que já me magoou demais?
Angelo passou a mão nos cabelos, como sempre fazia quando estava nervoso com algo.
– Você tem razão. A culpa do que aconteceu foi minha. Mas... Serena, eu fui proibido de amar! E eu... Eu... Pensei que fosse apaixonado por você e... Isso mudou tudo. — ele assumiu, suando frio. Seus batimentos cardíacos aumentaram — Serena podia sentir isso.
– Tudo bem, Angelo. Vamos ficar bem, você só deveria ter dito essas palavras antes. — Serena falou, aproximando-se dele. Ela colocou as duas mãos em seu rosto e fitou seus olhos. — Juramos nunca ficar um contra o outro. Isso ainda vale?
Angelo balançou a cabeça, rindo nervosamente em seguida, liberando a tensão que se acumulara em sua mente. Serena sorriu, sentindo-se finalmente, livre.
– Não precisa falar muito. Já dei uma varrida na sua mente. — ela falou, sorrindo.
– Fui á Terra das Sombras. Eu me encontrei com o Anjo de lá. Mas ele não me viu — Angelo comentou.
– Você é mesmo louco — Serena falou, tornando sua expressão para séria. — Acho que é hora de acordar a Bela Adormecida.
Os dois olharam para trás simultaneamente, e viram alguém chegar. Era Elizabeth, e ela arfava. Provavelmente viera correndo do Castelo até a Torre Principal.
– Elizabeth, tudo bem? — Angelo perguntou ao ver sua euforia.
– Gabriela, ela... Não está totalmente consciente, mas acabou colocando fogo no Pavilhão inteiro. Logan tentou pará-la, mas não é o bastante. — Elizabeth informou-os. Serena e Angelo se entreolharam e correram até a Torre... Voando.
O anjo abriu suas asas e Serena o abraçou, fechando os olhos. Num segundo, haviam chegado ao Castelo. O primeiro andar estava em chamas, mas não eram chamas quaisquer. O que se alastrava pelo pavilhão era algo de cor púrpura-escuro, que os repelia como dois polos iguais.
– Isso não é fogo — Angelo disse. — Então, o que é?
– Eu não faço a mínima ideia. — Serena disse, engolindo em seco. — Precisamos de algum mágico!
De dentro do pavilhão, uma silhueta surgiu das chamas púrpura. Era um homem. Ele vestia calças de couro preta, jaqueta de couro preta e um chapéu fedora cinza. Conforme andava pelas chamas, elas iam diminuindo gradativamente. Serena sorriu ao vê-lo.
– Brian. Finalmente.
Brian passou as duas mãos no ar, e de repente, as chamas rapidamente sumiram. Ele se aproximou de Serena e abriu um largo sorriso, abrindo os braços em seguida. Serena abraçou-o com força, em seguida Elizabeth, e então Angelo lhe deu um aperto de mãos e um abraço.
– Cara, já estava na hora! — Angelo falou. — Mas... E aí, como você chegou na hora certa?
– Recebi um aviso de Logan. Não sei como ele conseguiu me falar isso, mas foi ontem, num sonho... Eu vi exatamente o que acontecia aqui, agora, e ele me pedia para voltar logo. Tive de interromper a missão, mas Diana vai entender. — Brian disse dando de ombros.
– Ela te ama, sabe disso — Angelo falou, se divertindo.
– Ah, gente, olha só... — Elizabeth apontou — Gabriela ainda não acordou?
Brian arqueou as sobrancelhas, franzindo o cenho.
– Ela parece estar em transe — ele disse ao se aproximar de Gabriela. Ela dormia profundamente. Seus cabelos loiro-escuro desciam pelos ombros formosamente, mas sua beleza estava tristemente inerte. Brian olhava para ela encantado, pois ela tinha algo de diferente. Era uma beleza rebelde, que brilhava. Ela devia chamar atenção por todo lugar que passasse. Ele tocou seus olhos suavemente e rapidamente um flash passou por mente, um flash de tudo o que acontecera desde que ela caíra na Dimensão. Brian viu tudo, inclusive a noite do parapeito, em que Freia havia marcado-a. Os fatos foram ligando-se em sua mente. Ele balançou a cabeça, sentindo um calafrio percorrer seu corpo. — Freia... Ela quer a garota. As chamas foram apenas a personificação da ligação entre as duas. Por Deus, mas Gabriela e Freia estão mais ligadas do que vocês imaginam.
– Tem alguma forma de quebrar isso? — Elizabeth perguntou, assustada.
– Se a ligação se quebrar, Gabriela perde os poderes. Mas seus poderes é o que a torna imortal, então ela vai desfalecer aos poucos. Parece que perdemos Gabriela para a Morte. — Brian disse. Havia terror em seus olhos.
– Não. — Angelo falou. — Freia não pode aprisionar a vida dela. Não tão facilmente. Deve haver alguma forma!
– Não tem jeito. Se Freia a quer, ela a terá. Ninguém pode fugir do destino, não aqui. — Brian disse com as mãos apoiando a cabeça.
– Espere. — Elizabeth falou. — Tem uma pessoa que talvez possa ajudar. Mas... É muito improvável que ela exista. Não sei se é mais do que uma lenda.
Serena, Angelo e Brian se olharam, curiosos.
– Ah, meu Deus — Serena escondeu o rosto nas duas mãos quando entendeu o que Elizabeth queria dizer. — Você está falando de Yohana?
Brian arregalou os olhos.
– Elizabeth, isso é muito perigoso. Yohana nasceu da própria Dimensão. Ela não é humana como nós. Sequer sabemos se ela existe, e muito menos onde está. E se ela existir mesmo, quem garante que nos ajudará? Yohana é um ser letal, Elizabeth. É loucura. Suicídio. — Brian disse.
– Não é tão difícil assim. Temos o Oráculo, não é? — Elizabeth perguntou — Podemos perguntar para ele.
Angelo tamborilava os dedos sobre as pernas enquanto andava, pensando em algo. Seus olhos azuis começaram a transparecer para o dourado conforme sua ansiedade aumentava. Rapidamente ficaram completamente dourados.
– Não funciona assim. O Oráculo que temos só responde coisas sobre Cineres. Para saber de algo que envolve a Dimensão inteira, precisamos do Pergaminho Sagrado. Mas ele está na Terra das Sombras, sob o domínio de Gwen e Kyle. — Angelo falou.
– Com o Pergaminho, eles conseguem ver mais coisas do que nós. Talvez até nos espionem! — Brian disse, levantando-se com euforia.
– Acha mesmo isso? Por Deus... E o que iremos fazer? — Serena perguntou.
– Precisamos de uma reunião com as Damas de Branco. — Angelo sugeriu.
– Elas não aparecem há dez dias. Como iremos contatá-las? Talvez estejam tentando resolver alguns problemas. — Elizabeth comentou, sentando-se ao lado de Gabriela.
– Eu. — Brian disse depois de alguns segundos de silêncio. — Eu posso falar com elas.
– Tem certeza, Brian? Você sabe que quando as Damas somem por um tempo... É melhor não incomodá-las. — Serena contradisse.
Brian se levantou e arrumou a gola da jaqueta rapidamente. Seus olhos brilharam, do castanho para o roxo, deixando-lhe mais belo ainda. Isso era algo comum aos Elementares. Cada Elementar possuía uma cor e um elemento. No caso de Brian, por ser um mágico, sua cor era o roxo e o elemento, um paralelepípedo.
– Brian é o mais antigo de todos os Elementares depois das Damas. E... Já teve um romance com Diana. — Angelo falou, fazendo uma careta ao dizer a última parte. Era estranho falar sobre isso para ele, mas Angelo riu de si mesmo. — Ele é o único que pode encontrá-las.
– Eu posso me ligar á Diana rapidamente. — Brian falou, e então fechou os olhos, concentrando em sua imagem... Uma mulher de cabelos loiros e olhos azuis elétricos. Silhueta definida, olhar firme e vestido longo branco. Rapidamente Brian encontrou Diana. Ela estava junto com suas irmãs no Trono das Damas. No centro, seu olhar hipnotizante ergueu-se do chão para ele.
– Ele chegou. — Diana disse. – Estava demorando, Brian. A que devo a honra de sua ligação? — sua irritação estava visível nos seus olhos, que faiscavam como um circuito elétrico. Diana detestava que Brian usasse a ligação dos dois para encontrá-la quando ela não queria ser encontrada.
– Precisamos de vocês aqui — Brian pediu.
– Fale-nos o problema você mesmo, querido. Estamos muito ocupadas para fazer uma reunião. — Diana falou. As outras Damas estavam caladas e quietas, certamente bravas por terem sido interrompidas. "Hora de usar o charme".
– Perdoem-me pela interrupção, senhoritas... — Brian começou, mas Diana o cortou no meio da frase.
– Poupe-me de seus discursos. Vá direto ao ponto, Brian. — ela falou, suspirando em seguida.
– Certo. Freia está cobrando a presença de Gabriela. Ela quer a garota. A ligação entre as duas é muito forte, e nós precisamos sair desse impasse. Caso quebremos, Gabriela morrerá. Mas se não quebrarmos, Freia irá usá-la para fins certamente mortais.
– Prossiga — Diana falou, seu olhar tão frio quanto um oceano gélido.
– Precisamos do Pergaminho. — Brian disse enfim. Ashley foi a primeira a se levantar.
– O Pergaminho Sagrado? — ela perguntou com a sobrancelha arqueada. Brian assentiu. Ashley riu, sarcástica. — Ah, e como espera que o peguemos?
– Ele tem um plano. — Mirty falou, entendiada. — Um bom plano. — Ashley olhou para ela incrédula. — Li a mente dele.
– Tudo bem, Ashley. Sente-se. — Diana disse. A dama apoiou a mão sobre o braço de seu trono e apoiou o queixo nela. Suas unhas grandes e prateadas tamborilavam em seu maxilar. Seus olhos faiscavam, desafiantes. Ashley sentou-se, irritada com Brian.
– Desde que aquela garota chegou, só estamos correndo mais riscos, Diana. — Ashley falou.
– Então conte-nos seu plano, Brian. — Diana pediu, encarando-o num ato bem sucedido de intimidá-lo.
– Precisamos entrar na Terra das Sombras — Brian falou.
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