A Dama Solitária
17 Luvas Negras
Notas iniciais
PS: Capítulo será narrado por Gabriela.
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Eu simplesmente não havia visto o tempo passar.
É claro, Cineres, assim como toda a Dimensão, está projetada num universo independente do tempo — preso no universo. Ainda é tão estranho pensar assim. A palavra "Dimensão" me faz sentir tão pequena, tão... fraca, invisível. Só conseguimos ter a percepção de que os dias e as horas passam graças à Mirty. Ela é a responsável por essa ilusão, e outras damas, como Maya e Diana, "criaram" as estações.
Apesar dos esforços, ainda me sinto numa jaula.
Na primeira vez em que caí, Angelo disse que havia metano no gás atmosférico da Dimensão. Eu já havia visto isso em química na escola, mas só entendi a parte do "letal" quando toquei na grama — mais metano. Imagino que deva haver alguma proteção no ar — Diana. Acho que nunca parei pra pensar muito sobre todas essas coisas: sobre o papel das damas e sobre o quão terrível e, ao mesmo tempo, incrível, é este lugar em que caí.
Desde quando caí? Talvez já haja uns três meses. E o que aconteceu com a minha família? Será que há uma "cópia" minha vivendo em meu lugar? Ou meus pais estão enlouquecendo enquanto tentam me encontrar?
Pensar nisso traz a sensação de que há alguém fazendo cócegas em meu estômago com uma faca.
– Sua mente é um inferno — James disse.
Eu não o vi chegar, mas não me assustei. Me acostumei com as pessoas sumindo e aparecendo repentinamente, principalmente James, o mentalista.
– Pensei que ninguém mais pudesse invadir minha mente — comentei enquanto brincava de tocar nas flores.
Não consegui dormir desde que pus a cabeça no travesseiro. Depois de Mirty ter me ajudado com mais informações sobre minha aparência, comecei a olhar para mim mesma como se eu fosse um alienígena. Bem, talvez eu fosse. Meu corpo está tão poderoso e tão letal que eu sinto medo de mim mesma. Não sei quando vou aceitar que essa é quem sou agora: um ser terrivelmente belo e forte, e também não sei quando vou aprender a usar meus poderes sem transformar em pó cada coisa que pego, mas, se sei de algo, é isso: sinto tanta fome de matar alguma coisa quanto sinto vontade de beijar Angelo.
O pior é que não sei qual é a pior parte disso.
– Eu não invadi, tudo bem? — James ficou na defensiva. — É só que está na sua expressão facial — ele sorriu.
Ergui as sobrancelhas, um pouco irritada.
– Então agora você é mestre em analisar expressões faciais? — perguntei. Outra flor virou pó. Antes mesmo que eu tocasse na próxima, também já havia queimado.
Ah, suspiro, isso é tão... Excitante.
Logo sinto ódio de mim mesma e deixo que um espinho corte minha mão. Eu não deveria gostar de ver as coisas morrerem.
James se aproxima e suspira, parecendo frustrado.
– Você sabe por que os mentalistas são realmente poderosos? — me viro e o encaro. Ele luta para não me olhar demais e tenta parecer natural, mas eu já percebi. — Não é só pela telecinese e habilidades mentais. É porque aprendemos a ser mais observadores. Há um momento, depois que você já não pode mais simplesmente ignorar as vozes em sua cabeça, em que você passa a entender as outras pessoas como se fosse elas mesmas. Pode sentir o que elas sentem. Isso é o que nos torna poderosos. A mente é muito mais do que algo para ler e invadir. É um mistério a ser descoberto.
Me levanto do gramado agilmente e cruzo os braços. Ele se afasta para trás.
– Você era o que? Filósofo? Belo discurso — sorrio — mas não preciso de palavras bonitas. Preciso de uma solução.
O lugar onde estamos não é o gramado em frente ao castelo, porque ele é venenoso e eu não gostaria de arriscar ser queimada. Estamos nos campos livres onde Maya passa boa parte de seu tempo cuidando da natureza. Acho que ela acredita que pelo menos a natureza deve ser boa aqui.
As árvores e flores que há aqui não foram criadas por magia. Maya plantou cada coisa sozinha, usando apenas seu poder de dar a elas vida, caso contrário, seriam consumidas pelo gás tóxico. Antes de receber meus poderes, eu nunca havia visto esse lugar. Na verdade, nem mesmo os Bellators sabem de sua existência. Acho que Maya o escondeu dos outros com uma espécie de campo invisível. Mas depois de receber meus poderes, eu passei por esta mesma área e simplesmente vi: campos extensos e floridos. Pomares e mais pomares. Não sei onde isso acaba. Espero que ela não se importe com a leve invasão ao seu jardim secreto. Espero que ela compreenda que eu me sinto bem aqui e que preciso ficar aqui até voltar a estar de bem com a vida. Espero que ela saiba que James também sabe do jardim.
Espero que ela não saiba que estou matando suas flores.
– Solução para que? Para não ser quem você é? — James perguntou. Ele sentou embaixo de uma macieira e fechou os olhos, apreciando o "sol" nascer.
Jogo a faca que trouxe na adaga pendurada em meus jeans e acerto uma maçã. Puxo um galho e a pego. Guardo a faca. James parece nem ter visto. Talvez tenha sido bem rápido. Ultimamente, tenho andado rápido, comido rápido, me vestido rápido. Me sinto um protótipo de vampiro, e isso é tão ridiculamente irritante!
– Exatamente — respondo e me sento entre as flores. Finjo não perceber quando elas viram pó em menos de cinco segundos. Mas James vê aquilo e ri.
– Você é tão nova, não faz ideia do que é e do que ainda vai ser, Gabriela — ele fala, cruzando as mãos sobre a barriga. Tento não revirar os olhos, porque simplesmente detesto quando me vêm com essa de você é jovem demais, ainda.– Falo sério. Você não pode odiar-se dessa forma, como se essa fosse você de verdade.
Alguém poderia dar um tiro em meu cérebro, por favor?
– E essa não sou eu? — pergunto. Mordo a maçã. Por Deus, mas que gosto é esse? Maya tem mãos mágicas. Bem, ela realmente tem. — Quem eu sou, então?
James está tão amigável e fala coisas tão sábias. Ele não parece um adulto de vinte e três anos, e sim o meu avô. Sua tranquilidade e ternura quase me irritam. Afinal, o que não te irrita quando tudo em que você pensa é "morte,morte,morte"?
– Você é uma garota de dezesseis anos que está tentando ir para a melhor faculdade de onde mora. É uma garota que já desistiu de entrar para o time das animadoras de torcida pois não tem roupas curtas o bastante pra isso. É uma garota que só quer o passado de volta e, ao mesmo tempo, quer não desejá-lo de volta. É uma garota que lê livros demais e sonha demais, que quer um amor que a consuma, uma coisa que vire seu mundo de cabeça para baixo. Mas também só quer que sua família pare de brigar em todos os natais, como sempre fazem. Você é uma garota linda, de cabelos longos e castanho-dourados, olhos cor de mel e língua afiada. E você queria ter poderes, mas não esses. Talvez quisesse ser uma mulher maravilha ou, quem sabe, ser invisível. Enfim. Isso é o que você é.
Eu não conseguia falar, não conseguia me mover. James sabia tudo sobre mim. De alguma forma, ele me desvendara. E ele via mais em mim do que eu mesma via. Ele enxergava a minha alma. Os meus sentimentos e os meus sonhos.
James podia ver a minha humanidade.
Eu é que não conseguia vê-la mais.
Não consegui ficar ali muito tempo sem desabar. Então, para que ele não me visse fraca e vulnerável, disse que precisava dar um jeito nas minhas mãos (elas sangravam por causa dos espinhos, mas ele nem pareceu ligar) e rapidamente saí dali.
Quando já havia saído dos campos, ouvi ele gritar:
– Hey, Gabriela! — me virei para enxergá-lo. — Acho que as suas mãos não precisam de remédio.
Não entendi o que ele disse até que olhei para minhas mãos. De alguma forma, os cortes estavam cicatrizando.
Eu não sabia se achava aquilo bom ou ruim.
A Imortal tem a morte e a vida correndo nas veias. Isso também significava "rápido cicatrização em caso de corte por espinhos de flores?"
É, acho que sim.
***
Minha fome estava simplesmente inexplicável. Quando o relógio gigante na Torre anunciou a hora do almoço, eu acho que nunca havia ficado tão feliz em minha vida.
Corri para o Pavilhão, onde Serena, Logan, Elizabeth, Angelo, Sahé, Tevon, James e Brian se sentavam à mesa e fiquei na extremidade dela. A mesa era gigante e pontuda, mas o mais legal da mesa era a comida em cima dela.
– Deus — sussurrei para mim mesma. Serena me olhou e sorriu, então começamos a comer.
Todos comiam normalmente, é claro. Menos eu. Eu havia puxado a tigela de brigadeiros para o meu lado e não me preocupei em ser educada.
Serena, com toda sua etiqueta, beleza e modos de uma modelo irritantemente linda e educada me olhou com os olhos arregalados.
– Que? — alfinetei. — Ninguém me deu um livro falando sobre como comer as coisas. Só recebi livros empoeirados de Mirty falando sobre como minha espécie estava extinta, e tal.
– Era mesmo preciso um livro pra isso? Você comia como em casa? — Serena perguntou.
Dei um sorriso e coloquei mais e mais brigadeiros na boca. Isso é tão, tão bom! Quem foi que fez isso, meu Deus?
– Eu comia assim — indiquei a tigela vazia. Ela bufou.
Acho que Serena mandou algum recado via mente para Brian, pois ele fez surgir um livro nas mãos. E não era empoeirado.
– Então aqui está o livro — ela disse, segurando o riso. Odiava quando Serena era irônica, já que ela quase nunca era, mas também adorava. O humor vinha me atiçando ultimamente.
Como comer as coisas veio para nas minhas mãos. Semicerrei os olhos para Serena e Brian.
Quando fui abrir a primeira página, ainda estava degustando o último pedaço daquele néctar divino quando, de repente, o livro transformou-se num brigadeiro.
Serena arregalou os olhos. O que?
Comi.
– Olha, eu comi o seu livro — gargalhei sem parar. — Literalmente.
Os outros ficaram sem reação.
***
– O que foi aquilo na mesa do almoço? — Elizabeth me perguntou. Eu estava me dirigindo à Biblioteca do Castelo Bellator para tentar encontrar algo que solucionasse meus problemas com as mãos quando ela me barrou.
Olhei para ela sem resposta e curvei os ombros. Elizabeth riu.
– Acho que você ainda vai se surpreender com alguns poderes.
– Contanto que eles beneficiem meu estômago, não vejo problemas — falei. Entramos na Biblioteca.
Agora que havia reparado em Elizabeth, percebi o quanto ela era diferente de todos os outros. Ela era tão bonita,mas não era isso. Havia algo... Algo especial. Seria o fato de poder ser qualquer animal?
Ela tinha cabelos não muito longos — medianos. Eram volumosos e ondulados, com nuances de marrom a loiro, e olhos verdes como de um leopardo. Elizabeth tinha um rosto liso e quadrado, que a dava uma aparência forte. Mas ela passava uma sensação estranha. Um cheiro... Um cheiro de... Como posso chamar isso? Vida? Ela exalava vitalidade, como se faíscas de alegria e juventude fossem as únicas cores de sua aura. Desde que virei imortal, as emoções e traços de uma personalidade parecem mais cores para mim. A alegria tem uma cor amarela, a esperança, verde, a juventude, lilás. Isso é tão estranho. Isso é tão divertido. É como se eu pudesse ver o mundo em cores novas.
– O que você veio fazer aqui? Posso ajudar? — ela se ofereceu.
– Hum... — eu não sabia bem o que dizer. Pra ser sincera, mal sabia o que queria ali. Só sabia que queria não queimar tudo em que tocasse.
Elizabeth automaticamente olhou para minhas mãos e viu que haviam algumas cicatrizes. Abri os lábios para me explicar, mas não precisei.
– Já entendi tudo — ela falou, então se enfiou no meio das prateleiras, me deixando sozinha.
Fiquei parada,olhando para o teto. Onde ela foi?
– Nem precisei ler demais. Sei exatamente do que você precisa — Elizabeth reapareceu. Ela sempre era tão animada, tão... Disposta a ajudar. Ergui as sobrancelhas, ansiosa. — Luvas negras.
– Hein?
***
Eu nunca havia parado pra assistir o sol se pôr. Nem mesmo quando era humana. Hum, completamente humana?
Quando eu era criança, viajava com meus pais para a praia todos os anos. Lembro de muitas vezes em que meu pai me chamou para assistir o sol descer do céu, mas eu nunca dava atenção a ele. Preferia ficar na areia montando meus castelos.
Eu deveria ter feito isso na primeira oportunidade. E, ironicamente, veria isso pela primeira vez em Cineres — o lugar mais obscuro de todos os lugares obscuros.
Agora minhas mãos pareciam menos aterrorizantes. Elizabeth dissera que eu teria de usar essas luvas negras de couro pro resto da minha vida. Eu esperava que o tempo incluído em "quando eu já tiver saído da Dimensão" não se aplique a "pro resto da minha vida".
Na verdade, era até bom usá-las. A raiva que eu acumulara de mim mesma na manhã nos campos pareceu ter ido embora. Agora, eu estava sozinha no terraço, apoiada nas pedras que iam até a metade de meu corpo, formando uma espécie de muro, vendo o sol ir embora. Quem seria a responsável por isso, Diana ou Alanis?
Ouvi passos atrás de mim e me virei para ver quem era. Parece que o instinto e o medo foram aperfeiçoados junto com a imortalidade.
Seus cabelos dourados balançando ao vento e seus olhos ora azuis, ora dourados, faziam meu corpo enrijecer. O que era aquilo, borboletas no estômago? A sensação de que tem um ser vivendo dentro de você e ele está lutando muay thay.
Angelo se aproximou e pôs uma mão em cima da minha. Por um segundo, senti terror de que elas pudessem matá-lo. Mas as luvas... As luvas.
– É uma ideia boa — ele disse, olhando para elas. Eu sorri, sem fala. Por que Angelo tinha de ser tão, tão lindo? Por que ele tinha que ter aqueles olhos tão intensos, tão profundos? E seu cabelo... Se controle, respire, um, dois, três.
O desejo voltou outra vez. Olhei para seus lábios. Forcei-me a encarar o céu. O silêncio estava me matando.
"Vai ter que aprender a lidar com os desejos impulsivos, com as emoções à flor da pele, com a vontade de matar e de seduzir" Mirty dissera isso ontem. Então era o que ela queria dizer com desejos impulsivos? Que eu ia simplesmente enlouquecer de paixão?
– Você está tensa — ele disse. Não perguntou, afirmou. Então segurou minha mão mais forte.
Não faça isso, eu pensei comigo mesma, eu posso matá-lo.
A luz do sol refletia em seus fios claros e em seus olhos, que, de repente, haviam ficado dourados.
Senti algo estranho. Eu havia sentido todo tipo de emoção durante o dia inteiro, mas dessa vez era diferente. Quando seus olhos mudavam de cor, isso indicava que ele estava sentindo um sentimento intenso. Qualquer coisa, mas intensa. Raiva, dor, ódio... Amor?
Forcei um sorriso, mas não consegui. Ele se aproximou de novo.
Droga, não vou conseguir me controlar.
Meu corpo estava totalmente tenso. Prendia os pés às pedras para que a dor na ponta dos dedos me mantivesse concentrada.
– O que está acontecendo? — ele perguntou.
Ah, não, seus olhos estavam muito dourados... Olhei para seus lábios outra vez.
Empurrei-o nas pedras com força e coloquei as mãos na parede. Meu coração acelerava fora do normal. Eu senti meu corpo ficar quente, quente, quase febril.
– É melhor você ficar longe de mim — eu avisei. — Eu posso te matar, Angelo.
Ele se afastou da parede.
– Você acorda mais bonita... — ele ri. — E já se esquece de quem eu sou?
Franzi o cenho, confusa. Como?
Quando vi, ele havia me trocado de lugar. Acho que senti, pela primeira vez, parte da verdadeira força de um anjo.
– Não subestime a minha força. Eu sou um anjo, Imortal — ele falou, puxando meu queixo e me beijando em seguida.
Seus lábios eram como veludo, macios, cheios. Meu coração parecia dançar.
Devolvi seu beijo. Mas da minha forma.
Voraz.
Apertei suas costas e subi as mãos até sua nuca, pude senti-lo se arrepiar. Ele puxou minha cintura e colou nossos corpos. Nossos lábios intercalavam perfeitamente. Mordi seu lábio inferior. Ele segurou minhas pernas e me sentou em seus quadris, beijando meu pescoço e, depois, meus lábios.
Juro que senti faíscas saírem de meus dedos.
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