A Dama Solitária
6 Capítulo 6 - E de repente a sala tornou-se negra.
Notas iniciais
Depois que Ashley deu continuação á iniciação de Gabriela, foi a vez da dama do fogo, o elemento do qual Gabriela mais tinha pavor. A dama estava sentada ao lado direito de Diana, e suas vestes transpareciam do vermelho para o fogo, da mesma forma como Ashley, como se estivesse vestida por chamas. Sua aparência era majestosa, e por mais que Gabriela mal soubesse nada sobre ela, poderia descrevê-la perfeitamente. Cabelos longos e castanhos e olhos castanhos que, assim como seu vestido, as vezes transpareciam ao fogo. Ela parecia estar realmente em chamas, pois Diana começou a arfar como se estivesse muito quente ficar perto dela.
– Pois bem, você teve sua chance de provar que é boa. — a dama se levantou. — Sou Alanis, a dama do fogo, e sua prova será árdua, devo dizer. Serei boazinha dessa vez, — Alanis sorriu de lado, mascarando o fato de que mesmo como dama do elemento mais perigoso ela queria ajudar Gabriela — terás uma chance, mas vou permitir que você tenha uma... Ajuda. — Alanis piscou para Gabriela, o que só confirmava que ela sabia da presença de Angelo e Serena. — Boa sorte.
Então Gabriela fechou os olhos esperando para cair em algum lugar, uma fogueira talvez. Mas quando abriu, ainda estava na mesma arena.
– Não vão... me transportar? — ela perguntou, e Alanis começou a rir. Diana revirou os olhos e ordenou á irmã que parasse de brincadeiras.
– Tá, mas foi engraçado. — Alanis falou ainda rindo, e num estalo de dedos permitiu que Gabriela caísse no lugar de seu teste.
O lugar era sombrio, cheirava a gás tóxico, e não tinha nada de luz não fosse pela cor das chamas ardentes que queimavam ao redor: Gabriela estava presa num círculo de fogo. O fogo ardia, e a cada vez mais as labaredas subiam como se não tivessem limites para queimar. Gabriela ficou inerte esperando por algum ataque, mas logo descobriu que seu desafio seria sair dali ilesa. Sua primeira tentativa foi se aproximar cautelosamente das chamas para testas se eram mesmo tão ardentes ou se era apenas uma ilusão, mas só de chegar perto sua pele começou a ficar vermelha. Rapidamente se afastou, pensando no que poderia fazer para escapas das chamas.
"Talvez eu pudesse usar água, se eu tivesse esse poder..." Ela pensou, e foi então que teve uma ideia. Se ela havia passado nos outros testes, será que isso significava que ela teria algum bônus com os elementos? "Bem, não custa muito tentar."
Gabriela fechou os olhos e começou a se concentrar em sua primeira prova, a da água. Se ela lembrasse da sensação de estar sendo engolida pela água, talvez pudesse usar esse pensamento para sair das chamas. Logo sua mente entrou numa espécie de transe, com as lembranças vindo vívidas e nítidas, como se ela estivesse na água novamente. O flashback trouxe a mesma sensação de volta, e Gabriela abriu as mãos, sentindo a sensação gélida voltando, o cheiro do mar salgado invadindo seus poros.
Quando abriu os olhos, seu corpo estava desmaterializando em água.
"Gabriela, o que diabos você fez?" Serena exclamou. "Você não pode virar água, você é..."
"Ela está canalizando a Ashley!" Angelo falou surpreendido. "Mas como?"
Gabriela ergueu o peito ás chamas e sentiu seu corpo dar um solavanco forte, a suspendendo do chão. A água saía vorazmente, e logo a garota desaparecera dando lugar á uma fonte de águas que não acabava mais. O fogo resistia, mas na verdade o teste havia passado dos limites e era Alanis quem havia invadido as chamas para lutar contra a água. Se Gabriela estava mesmo canalizando o poder de Ashley, se ela usasse mais poderia matá-la. Alanis se transformara em chamas para tentar dar seguimento á prova, mas a água vinha com muita força e logo as chamas seriam engolidas.
Alanis, a dama do fogo, e Gabriela, a iniciante, estavam lutando em igualdade. Isso era algo que as damas não esperavam.
– Alanis, finalize a prova! — Diana gritava para sua irmã. — Ashley está sendo canalizada, ela vai morrer!
– Não... Posso! — Alanis berrou em meio ao confronto. — Não era isso que queríamos? Que Gabriela mostrasse tudo que tinha? Eu estou... fazendo exatamente... Isso! — com um último suspiro de força, Alanis reuniu todo o poder que tinha, sua pele já queimava de tanto que ela se esforçava, e erguendo-se no ar por causa do conflito de elementos, Alanis deixou que seu corpo esvaísse todo o fogo que possuía. Seus olhos brilhavam num vermelho ardente, suas vestes se misturavam ás chamas e tudo nela era como o fogo. Gabriela começou a voltar á sua forma normal, mas a água ainda saía de suas mãos. Os olhos da iniciante foram tomados pelo mar, e quando suas vestes transformaram-se em água pura, Alanis ficou assustada. Se Gabriela fora totalmente invadida pela água, então o que acontecera com Ashley?
– Alanis, mate a garota! É ela, ou a NOSSA IRMÃ! Ashley está secando, MATE A GAROTA! – Maya gritava em meio a confusão. Ashley estava sentada em seu trono com todas as irmãs ao seu lado tentando, com seus respectivos elementos, fortalecê-la, mas apenas a água era capaz de fazer isso. Ashley definhava a cada vez que Gabriela usava mais água.
Alanis olhou para Gabriela indecisa, pois não queria matá-la. Tudo o que ela tinha era o tempo, e a esperança de que Gabriela se controlasse e parar de canalizar Ashley.
Quando não havia mais nenhum segundo para esperar e Alanis ergueu do chão um cetro de magma para dar fim á prova, Angelo entendeu que só ele e Serena poderiam ajudar Gabriela. Alanis olhava para o cetro hesitante. Então Angelo começou a entrar na mente da iniciante.
"Gabriela..." Angelo tentou, mas estava muito difícil.
– O que houve? Por que não está conseguindo entrar na mente dela? — Serena perguntou.
– A mente da Gabriela está muito forte! — Angelo respondeu. — A água está tomando conta de tudo, como se estivesse criando uma barreira. Eu não consigo, Serena. — ele se desesperou ao ver que Alanis ia em direção á garota.
– Tudo bem, talvez possamos nos transportar até lá. — Serena disse. — Enquanto eu destruo as barreiras da água, você entra na mente dela, entendeu?
Angelo assentiu e em seguida os dois se teletransportaram até a arena onde Alanis e Gabriela estavam. Serena olhou para ele dando sinal verde, e então começaram a batalha.
Serena respirou fundo e a cada arfada sentia sua mente se fortalecer mais, até que estava pronta o bastante para lutar contra a água. Seus cabelos loiros esvoaçavam para trás, e ela começou a abrir uma barreira protetora ao fogo ao redor de si mesma e de Angelo. Protegida do fogo, Serena começou a erguer do chão uma terra seca, e com sua mente repuxou a terra até que ficasse completamente ácida, em seguida passou a separar mentalmente cada molécula ácida. Depois de ter milhões de moléculas de terra ácida, Serena jogou-as com toda a força sobre Gabriela, que estava completamente inconsciente. Suas vestes feitas de água queimaram no ácido, e aos poucos a água foi diminuindo. Serena ergueu mais terra com sua telecinese e repetiu a mesma coisa até que a água foi secando do corpo de Gabriela.
Enquanto isso, Angelo tentava entrar na mente da garota. Ele conseguia sentir a água tomar vida própria, como se estivesse apagando sua essência humana, como se a água estivesse fazendo dela uma hospedeira. Angelo era um dos dois únicos anjos de Cineres, e sua telepatia era muito poderosa. Sem hesitar, ele começou a invadir a mente de Gabriela de forma voraz, mas estava realmente difícil. Angelo foi com mais força, até que sua cabeça começou a doer, porém Serena já havia destruído quase toda a barreira tornando a mente dela mais vulnerável. Quando sentiu as barreiras quebrarem por completo, Angelo invadiu a mente de Gabriela com força, como se ele estivesse tentando abrir uma porta trancada que de repente abrira.
"Gabriela, se controle! Pare de canalizar, deixe a água sair! Ashley está morrendo, e você vai morrer se continuar. Alanis está a testando, mas você ainda está sujeita á morte nessa prova!" Angelo pediu, e então passou a repetir: "Pare de canalizar, pare de canalizar, pare de canalizar..." até que Gabriela parou.
– Eu vou continuar com a prova. — Alanis falou aliviada.
– Não ouse fazer isso. — Diana ordenou. — Traga a garota para a arena, deixaremos que Mirty cuide dela.
– O que? — Alanis falou irritada. — Não pode entregar a garota para Mirty, não agora! Estará entregando-a á morte, Diana!
– Traga Gabriela para a arena. — foram as últimas palavras de Diana.
***
– Aquela garota... Está morta. — Ashley falou furiosa.
– Ashley, para com isso! Ela perdeu o controle, só isso, aconteceu a mesma coisa com você em seu primeiro teste! Mirty teve pena de você, pare de se achar tão melhor que os outros! — Alanis gritou, deixando as damas assustadas. Apesar de ser elementar do fogo, Alanis era esquentada mas nunca havia se descontrolado com suas irmãs. — É, é isso mesmo, você é uma tola! E você, Diana, é mais tola ainda, age como se não fosse esperado que Gabriela seja tão forte. Sabemos o que ela é, parem de ser hipócritas! — Alanis terminou de falar e então desapareceu, deixando uma chama em seu trono que evitaria que qualquer um chegasse perto.
– Ela só está assustada, irmãs. — Diana falou engolindo em seco. Mas então Ashley se levantou de seu trono e disse:
– Não é não, Diana. Ela tem razão, se quer saber a verdade. Somos cinco, as únicas capazes de controlar os elementos em Cineres. Mas Gabriela provou o contrário, então essa é a prova para sabermos o quão poderosa ela é. Por que você fica tentando encaixá-la em nossas divisões comuns? — Ashley perguntou calmamente á Diana. — Sabe que ela não é nenhum deles, irmã. — ela colocou a mão no ombro de Diana.
– Precisamos prosseguir. — Mirty falou. — Ela é boa com a água, terra e fogo, mas vamos ver se ela é tão boa com a mente. — Mirty abriu um meio sorriso, e então levou Gabriela até uma sala branca.
***
– Gabriela, acorda. — Angelo pedia com a garota em seu colo.
– O teste continua, ela não pode desmaiar agora. — Serena falou. — Deixa eu tentar!
Angelo assentiu, e então Serena colocou as duas mãos na cabeça de Gabriela. Mas no momento em que tentou ler sua mente, Serena sentiu seu corpo dar um tranco.
– O que foi? — Angelo perguntou assustado.
– A mente dela... Está muito poderosa. — Serena disse.
– Mas você destruiu as barreiras da água.
– Talvez não fossem apenas barreiras... Talvez — Serena mordeu o lábio, nervosa — a água a tenha deixado mais forte do que pensamos. A mente dela está indestrutível.
– Como é?
– Ela seria capaz de matar um batalhão apenas com a mente. — Serena respondeu, sentindo um peso na garganta. — Angelo,com a mente bloqueada, não temos nada a fazer, a não ser esperar que ela acorde.
– Espera. — ele disse, tendo uma ideia. — Eu tenho um plano. Vou dar á ela uma lembrança de quando eu... a salvei do parapeito. Posso não entrar em sua mente, mas ela pode entrar na minha. Só tem que ser intenso o bastante.
Angelo fechou os olhos e começou a se lembrar do quase acidente no parapeito, quando Freia marcara Gabriela invisivelmente. Ele esperava que fosse intenso o bastante para atrair a mente de Gabriela, e felizmente foi. A garota foi atraída pela memória e, ao compartilhar a mesma coisa entrando na mente de Angelo, ela acordou subitamente. Porém Angelo não estava mais lá, nem Serena.
Gabriela estava numa sala branca, e havia uma mulher á sua frente. Ela vestia uma capa branca, seus olhos eram negros e cruéis, e seus cabelos longos e escuros como a noite. Sua aparência era assustadora, mas havia algo de pior naquela mulher, algo que Gabriela sentiu só de olhar em seus olhos: ela era uma dama, e a mais cruel de todas.
– Eu sou a mentalista. — ela disse.
– Mirty. — Gabriela falou engolindo em seco.
– Vamos ver se você aguenta uma... Tortura mental. — Mirty disse sorrindo.
E de repente a sala se tornou negra.
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