A Dama Solitária
29 As Asas do Anjo
Nos capítulos anteriores...
Os três Bellators (Serena, Logan e Elizabeth) e Brian, o mágico, foram para a Terra das Sombras a fim de recapturar o Pergaminho Sagrado. No entanto, Brian e Serena acabam presos lá. Elizabeth foi contaminada pelas sombras e, portanto, Logan a leva de volta para Cineres.
Gabriela é enviada ao Deserto da Morte para libertar Scorpia, a quarta bellator, a fim de que ela vá até a Terra das Sombras salvar e trazer os elementares de volta.
Mirty está pesquisando a fundo a aparição da quimera em Cineres, a qual tentou atacar Elizabeth.
Ashley está na Sala de Contenção até que Diana entenda o que aconteceu com a dama.
Morgan é enviada por Kyle para se infiltrar em Cineres a fim de matar Elizabeth.
***
Uma noite já se passara desde que Gabriela adentrou as Planícies de Prata a caminho do Deserto da Morte. Mirty não dormia há muitos dias — não que as damas precisassem dormir, elas raramente o faziam — e tantos problemas começavam a deixá-la irritada e impaciente. Parecia que um pouco de humanidade voltava. E ela sabia exatamente de onde essa humanidade voltava: da própria garota. Ter de auxiliar alguém com mais conflitos internos do que ela tornou-a mais humana. É claro que ela não sabia, ainda, se isso era bom ou ruim.
Mirty procurava por informações sobre o motivo do ataque da quimera em Cineres. A primeira pergunta ela já conseguira responder: de onde o monstro viera? Segundo o que lera, nem todos os monstros habitavam mais na Floresta Cinza. Alguns deles, os mais fracos, foram capturados pela Rainha das Fadas para serem usados como armas. Por essa, Mirty não esperava. E, segundo o que lembrava, a quimera que aparecera em Cineres parecia ser verdadeiramente do tipo fraco. Era mediana e venenosa. As quimeras mais fortes eram altas, grandes e monstruosas, com dentes dilaceradores — mas não tinham veneno. Isso levava à segunda pergunta: se viera de um território diferente, que não o inimigo, por que atacou um elementar? Mirty não sabia de nenhuma rixa entre fadas e elementares. Então... Por que?
Aquela história estava cheirando muito mal. Mirty já havia perdido a paciência completamente antes que se desse conta de que mais um sol se pusera. Farta de ler sobre quimeras, decidiu ir descobrir por si só.
Rapidamente, teletransportou-se até a Sala do Trono, onde Diana limpava os tronos um por um, retirando os cacos de vidro. Os seres aquáticos de Ashley, até pouco ainda espalhados pelo lugar, já não estavam mais lá.
– Andou limpando tudo sozinha? — Mirty perguntou repentinamente. Mas Diana não se assustou, pois já estava acostumada. A Dama do Ar olhou-a com melancolia.
– Maya me ajudou com os animais. Ela está mantendo-os em um de seus abrigos secretos até que tenha certeza de que voltem a vida... — Diana respondeu, perdendo a voz no final.
Mirty suspirou.
– Você quer dizer, até ter certeza de que Ashley esteja bem para poder cuidar deles. Tudo bem. Sabemos o que está acontecendo. — Ela se aproximou da irmã. — Deixe-me ajudá-la. — Pediu, pegando um espanador. Mas Diana meneou a cabeça, reprovando-a.
– Sei que veio por um motivo. Diga-me.
A mentalista pôs-se em posição ereta.
– Preciso viajar a um território... estranho. Para descobrir mais sobre o ataque da quimera. — Contou.
Diana parou por um momento e encostou-se em seu trono, franzindo o cenho.
– Aquilo foi realmente esquisito. Eu adoraria entender o que aconteceu. — Ergueu seus olhos azuis elétricos para Mirty e balançou a cabeça, assentindo. — Tem minha permissão.
Mirty acenou brevemente e então desapareceu.
***
A cada passo que dava em direção a Cineres, Morgan, a espiã, sentia sua coluna doer mais. Em certo momento, teve realmente de começar a andar curvada. Não entendia bem o porquê daquilo, será que Kyle era tão teatral assim? De qualquer forma, isso pelo menos a ajudaria a atuar melhor. Só esperava que, quando precisasse de seus poderes, ele a devolvesse.
Assim que avistou uma grande construção, que deduziu ser o Castello Bellator, a garota começou a raciocinar qual seria a melhor maneira de ser encontrada. Deveria dar voltas? Fingir um ataque? Fingir ser atacada? Hum... Estava difícil pensar com clareza devido à dor latente em suas costas.
De repente, Morgan teve sua mais brilhante ideia!
Por que não se aproveitar da dor?
Havia um grupo de jovens jogando beisebol a alguns metros do castelo, que ela deduziu serem elementares em tempo de lazer. Jovens e lazer... Não haveria oportunidade melhor que aquela para se infiltrar entre os líderes da terra.
Morgan juntou todas as energias que tinha e começou a correr. Correr, correr, correr. Suas pernas estavam bambas, e sua coluna, completamente torta, mas mesmo assim ela prosseguiu. Contava com a respiração entrecortante para parecer suada, vermelha e desesperada. Foi quando se aproximou o bastante dos jovens para que a vissem correndo.
– Olhem! — um deles gritou.
– É uma senhora! O que ela está fazendo? – outro garoto questionou. A adrenalina sempre melhorava a audição de Morgan.
"Eles só precisam de um ajudinha" pensou.
– Soco... — ela tentou gritar. — Estão me atacando! Socorro! S-socorro!
Foi tiro certo.
Em questão de segundos já estava rodeada de adolescentes fedorentos e curiosos, perguntando mil coisas ao mesmo tempo. Morgan, atordoada, finalmente entregou-se verdadeiramente à dor. Cansada e fraca, fechou os olhos sem pensar duas vezes. Mataria dois coelhos numa cajadada só: não teria de ouvir aqueles garotos de voz irritante e ainda poderia dar um tempo ao seu corpo.
Afinal, que mal havia em descansar?
Ela era apenas uma pobre andarilha!
***
Maya, a Dama da Terra, era a melhor pessoa em toda a Dimensão para lidar com poções e feitiços da natureza. Nem mesmo Gwen, com todas as suas invenções mágico-químicas, superava Maya. Por isso, Logan e Elizabeth sentiam-se confiantes em estarem sendo cuidados especialmente por ela. Já a dama, no entanto, tinha suas mais profundas preocupações...
"A única pessoa que foi contaminada pelas sombras e conseguiu sobreviver está agora à mercê da morte..." pensava. " Como poderei salvá-los?", "Posso ao menos retardar a contaminação em Elizabeth?"
– Maya. — Logan chamou-a. Mas ela não respondeu. Na verdade, sequer ouviu. — Maya!
– Eu! — ela virou-se bruscamente para o bellator. Então, arqueou as sobrancelhas ao dar-se conta de seu tamanho nervosismo. — Sinto muito. Tentarei... Me acalmar.
Logan olhou para Elizabeth, deitada na maca ao seu lado. A maca parecia ser feita de raízes de árvores, mas também parecia ser tão macia... "A Dama da Terra e suas esquisitices" ele riu em sua mente. Sua parceira de missões ficava cada vez mais pálida e acinzentada — um sinal de que sua tão invejável vitalidade se esvaía. Seus fios de cabelo, com nuances de loiro a marrom, caíam sob a clavícula, desenhando seu rosto como um quadro clássico. Os olhos grandes e redondos estavam fechados e caídos, e seu corpo em geral não apresentava mais a força que tinha antes. E Logan podia sentir isso. Porque estavam ligados vitalmente, ele a sentia intensamente como nunca antes. Eram um só agora.
Embora a ideia parecesse nobre, era, na verdade, mortal. Todos ali sabiam disso. O antídoto era crucial para que, senão os dois, pelo menos alguém saísse vivo. Essa condição fritava os neurônios de Logan sempre que ele pensava nela. Ele sequer conseguia imaginar ter de escolher entre quem deveria morrer. Não importa como enxergasse a situação, sob nenhuma perspectiva deixar que Liza morresse. Ele jamais poderia se perdoar.
Enquanto pensava sobre isso, uma lágrima caiu de seu olho acidentalmente. Logan levou um susto quando sentiu uma superfície gélida vir de encontro a sua bochecha no mesmo instante.
Era Maya, que havia capturado aquela pequena gota em um béquer.
– Isso vai me ajudar tanto... Você nem tem ideia. — Ela sorriu, voltando a sua mesa de operações químicas. Ou deve-se dizer mágicas?
Logan estava confuso.
– O que? Como assim? Por que uma lágrima vai te ajudar? — questionou.
– Para qualquer pessoa que mexa com feitiços, Logan, é sabido o poder que os sentimentos têm em sua composição. Os mais fortes, porém, são amor e ódio. Estes são capazes de gerar vida ou morte. E, bem, acredito que você não odeie Elizabeth, estou certa?
Logan abriu a boca para responder, mas ao ver que não sabia o que falar, fechou-a.Deixou que seu corpo dissesse por ele mesmo, pois, naquele momento, sentia que havia algo dançando em seu estômago. E ele não conseguia controlar.
***
"Angelo... Por favor, olhe para mim..."
O Anjo de Cineres tentou abrir os olhos, mas era difícil. Sua visão estava embaçada pelo sangue que escorria de sua cabeça, mesmo assim, ele se esforçou para enxergar.
"Respire, Angelo. Respire."
A voz que sussurrava suavemente para ele era tão familiar... Ele queria poder discernir a quem ela pertencia. Mas Angelo estava dissociando muito rapidamente e não conseguia ordenar suas memórias. Então, apenas obedeceu à voz. Respirou. Respirou fundo, embora doesse. Confiava que algo de bom sairia da dor. E realmente saiu.
Um cheiro oriental de repente preencheu suas narinas, despertando-o brevemente. Ele conhecia aquele perfume. É claro... Era o perfume de Gabriela. Ah, ele se lembrava dela. Tentou falar seu nome, mas perdera completamente o controle sob o sentido. Nem sabia como podia obedecer à voz.
Ah, não.
Era mais uma ilusão.
Angelo quis chorar, mas não havia mais lágrimas. Em vez disso, sentiu o gosto metálico do sangue que escorreu de sua cabeça e deitou-se em seus lábios. Com um rápido movimento para a lateral, pôde ver outra pessoa. Novamente, seu estado dissociativo não permitiu que ela discernisse quem era.
"Meus poderes" ele pensou. "Onde estão? Por que não consigo me conectar a ninguém?"
O anjo sentia algumas partes de seu corpo de vez em quando. Por um segundo, sentiu os braços. Estavam suspensos, presos em algemas que aferroavam suas mãos. Doía. Mas logo a dor desapareceu... Dando lugar a um campo verde, cheio de árvores... Não, espere, era um vislumbre do céu, não de um campo. Ele podia ver outros anjos andando por ali.
Por dois segundos, sentiu suas costas. As asas... Suas asas... Suas asas!
– AHHHH! — Angelo gritou. Seus pulmões arderam intensamente.
O grito fez sua mente despertar daquele estado de dissociação por tempo o suficiente para recobrar a telepatia. Ele conseguiu sentir alguém, e este estava incrivelmente próximo.
"Quem está aí?!" ele perguntou em pensamento incessantemente. Porém, não obteve respostas, e antes que pudesse juntar energia para invadir a mente da pessoa e descobrir de quem se tratava o telepata nas proximidades, sentiu algo cortar a parte inferior de seu braço como se ele fosse um simples e macio pedaço de carne. A lâmina era fria como nitrôgenio líquido, mas na pele ardeu como brasa viva. O caminho do corte era uma linha reta que vinha do cotovelo até o tendão do polegar, o que automaticamente desligou seu movimento com aquele dedo.
Angelo berrou e gemeu, não entendia o que estava acontecendo. Não sabia onde estava ou porque estavam fazendo aquilo com ele. Mais que a dor no corpo e a desordem na mente, seu coração também o estava matando. Ele sentia falta de alguém, mas não conseguia lembrar o nome... Não conseguia lembrar como chamá-la. A saudade e a tristeza o faziam devanear.
Por que estavam fazendo aquilo com ele?
Aos poucos, sua visão formou um foco logo a sua frente. Havia alguém se aproximando. Era uma mulher. Seus cabelos eram negros como a noite. Ela levantou seu queixo com força e falou:
– Não é maravilhoso dissociar desta maneira?
Angelo estava confuso. Quem era ela?
– Ora, vamos... Vamos lá! — ela apertou seu rosto. — Não sabe quem sou eu, anjinho? Que interessante... Eu achei que soubesse! Já que estava me vigiando todo esse tempo. — sua voz tornou-se amedrontadora e sádica de um segundo para outro.
Então, Angelo lembrou.
Era Gwen.
Gwen o havia capturado.
A bruxa continuava a encará-lo com seus olhos azuis terríveis. Ela sorria maldosamente para ele, como se aquilo fosse realmente um jogo.
"Espere... Se Gwen me capturou, então onde os bellators estão?" Angelo pensou, evitando olhá-la nos olhos.
– Ah, claro. — Ela riu, uma risada fina e cínica. — Claro! Como eu poderia me esquecer desse detalhe? — Gwen levantou-se e andou um pouco até a esquerda, agachando-se. — Hey, meu bem. Abra estes lindos olhinhos! — A bruxa levantou as pálpebras da pessoa que estava ao lado de Angelo. — Não quer ver seu querido anjinho, hum?
Mas a pessoa não obedeceu. Gwen rangeu os dentes de raiva.
– Olhe, maldita! — ordenou, virando seu rosto com brutalidade para Angelo.
Ele levou um susto que fez seu coração disparar.
Era Serena.
Os dois estavam reféns de Gwen.
Fale com o autor