A Dama Solitária
18 Você nunca sabe o que há por trás de um par de olhos azuis
Notas iniciais
Ashley corria desesperadamente em direção à mansão dos Barthovitz. Suas pernas doíam como nunca antes, nem mesmo quando ela precisou dar o máximo de si na competição de hipismo contra os outros nobres de nariz arrebitado da cidade. Ela levantou a saia do vestido com as mãos para evitar tropeços, mas correr de braços abertos pediu um esforço muito maior. A floresta era grande demais e ela não conseguiria alcançar ajuda a tempo.
Estava encurralada.
Seu medo paralisava seu corpo, colocando-o no automático. Ela só pensava em uma coisa: correr, correr, correr. Os pulmões expandiam-se, gritando por ar, mas a respiração começava a arder. A cada vez que ela tragava o máximo de oxigênio que podia, sentia o peito doer, como se houvesse uma pedra alojada dentro dele.
Enquanto corria, galhos de árvore arranhavam sua pele, branca e macia como a de uma princesa. E ela sabia exatamente que sua pele era o motivo daquela corrida.
Estava correndo de seu predador.
Ele podia sentir seu cheiro, estava alucinado por tocá-la novamente. Seus olhos negros e profundos foram, uma vez, motivo dos arrepios que Ashley sentia a cada vez que ele a olhava. Mas agora, eles estavam ferozes, famintos por mais dela. Famintos por uma parte dela que não o pertencia. Não ainda.
Ashley era uma dama da alta sociedade inglesa. Filha de pais nobres, burgueses em busca de mais e mais dinheiro, crescera em berço de ouro. Na adolescência, conheceu-o. O rapaz de olhos negros e sorriso misterioso. Ele tirava seu sono, estava em seus sonhos. Quando ausente fisicamente, presente em sua mente. Ele era mais velho, por volta de vinte e cinco anos, um filho bastardo e rico da falecida nora da rainha da Inglaterra.
Richard, seu antigo sonho. Atual pesadelo.
Faltava muito para que pudesse obter ajuda de qualquer pessoa que estivesse na festa dada pela família Barthovitz, mas em comparação aos muitos metros que vinha correndo, Ashley sentiu-se quase a salvo.
Até que seus pés vacilaram quando pisou em falso numa raiz trançada e forte de uma árvore.
Ashley tropeçou e caiu. E então já era tarde demais.
Richard estava logo atrás dela, recuperando o fôlego. Apesar de cansado, seus olhos estavam fixos na loira, brilhando de prazer.
– Peguei você — ele se agachou e pôs as mãos em suas pernas.
– Não! — ela gritou o mais alto que pôde. — Solte-me! — Ashley arranhava suas mãos, mas ele virou a cabeça, alucinando de prazer. Ela sentiu o estômago embrulhar, queria vomitar em cima dele.
– Querida, você não pode mais fugir de mim. Não vê que somos feitos um para o outro? — Richard perguntou, colocando as mãos na virilha de Ashley. Ela gritou novamente, e chutou seu rosto. Ele virou a face e cuspiu sangue. O chute havia cortado seu lábio. — Agora você vai sentir o gosto de um beijo ensaguentado, querida! — ele segurou seus braços com força e a beijou, prensando seus lábios nos dela.
– Seu... Imundo! — Ashley cuspiu em seu rosto. — Tire essas mãos de mim!
Richard gargalhou enquanto Ashley tentava, estupidamente, se livrar dele. Ele era muito mais alto, muito mais forte e muito mais terrível. Ashley jamais se safaria. Ele não se apressou em tirar sua roupa, pois queria excitar-se o máximo que podia vendo-a perder a cabeça com a ideia de fazer amor com ele, ali, na floresta.
– Não! Me solte, largue-me! — Ashley gritou, agora quase sem voz. Richard começava a tirar seu vestido. Ele arrancava os detalhes de renda com voracidade, como se fossem o plástico de uma comida.
Quando ele sentou em cima dela, pronto para o ato, e Ashley já estava completamente nua, Richard fez uma careta de dor e tombou para o lado. Ela não entendeu, mal conseguia distinguir o ambiente em que estava. Tudo o que viu com pouca clareza foi Richard nu, jogado entre as folhas de cascalho, com sangue escorrendo da boca, e um pedaço de galho de árvore se movimentando como uma cobra.
Aquilo é real?
O galho parou de se movimentar e afastou-se dela.
Ashley olhou para os lados, tentando entender o que estava acontecendo. Provavelmente já havia sido violentada, e agora estava morta, delirando. É, era isso que havia acontecido.
Eu não mereço esse fim, ela pensou, mas quem merece uma morte justa, afinal?
A dor de ter sido machucada não estava ali. Na verdade, dor nenhuma. Apenas um silêncio, interrompido por um ruído como os das asas de um beija-flor.
Estaria chovendo? Onde estou agora?
Espero que meus pais saibam que eu não quis isso pra minha vida.
– Shhh! — alguém sibilou. — Ela está delirando.
– Ela está nua, por que ela está nua? — outra pessoa perguntou.
– Vamos levá-la — a primeira pessoa disse.
Quem está falando comigo? Talvez haja mais gente perdida do outro lado da vida. Eu não queria que me encontrassem desse jeito... Aquele vestido... Ele era bem mais bonito que minha pele arranhada e ensaguentada.
Ashley enfim fechou os olhos, sentindo que, onde quer que estivesse ou o que quer que estivesse fazendo, sua mente ainda divagaria por caminhos desconhecidos.
A morte é confortável, ela pensou.
***
– Quando ela vai abrir os olhos? Eu acho que ela está morta — uma mulher de cabelos loiros e olhos azuis perguntava repetidamente. Sua voz começou a ficar nítida há apenas poucos minutos, como um eco que enfim se define.
– É claro que ela não está morta, Diana. Não seja tola. Veja, ela está respirando — outra mulher se aproximou dela, dessa vez, com cabelos negros e olhos de mesmo tom.
Ashley abriu os olhos devagar, sentindo sua mente voltar ao lugar certo e o corpo tomar vida outra vez. As duas ficaram olhando para elas, com expectativa. Em que mundo é esse que estou? Essas mulheres são misses mortas, com certeza. Nunca vi seres mais belos...
– Os pensamentos dela são gentis — a mulher de olhos negros disse.
A outra, de cabelos claros e olhos incrivelmente azuis da cor do céu, tocou o rosto de Ashley.
– Você está viva? — perguntou.
– Eu... — Ashley balbuciou. — Estou morta.
Ela riu, então tomou as mãos de Ashley e ajudou-a a se levantar.
– Não, querida, você definitivamente não está morta.
– Ah, tô, e vocês também estão — Ashley falava enrolado, tentando andar e se acostumar a essa vida de zumbi. O que havia virado? Um espírito? Não deveria estar falando com São Pedro, tentando entrar no céu?
A loira perguntou se Ashley conseguia ficar de pé e ela assentiu. Agora sua visão estava perfeitamente clara.
Ashley estava em pé, numa espécie de sala feita de pedras como as dos castelos medievais. Havia vitrais por toda a extensão da sala. Bem, grande sala? Como deveria chamar aquele lugar?
– Agora que você está acordada, e viva – a loira falou e Ashley revirou os olhos. Quando aceitariam que todo mundo ali havia morrido? Era simples. Morreram e pronto, fim. Por que ficar enganando a si mesmo e a outros? — acho que queira saber quem somos. Eu sou Diana, e possuo poder sobre o ar.
– Mirty, poder sobre a mente — a mulher de olhos e cabelos negros completou.
Ashley franziu o cenho, sentindo-se mais maluca do que o aceitável, e quis gargalhar. No entanto, algo no olhar de Mirty fez seu estômago revirar totalmente, e a vontade de rir desapareceu.
– Ela não acredita — Mirty suspirou e sentou-se na cadeira que ficava na extremidade da grande mesa negra e pontuda posta no centro da sala.
– Ei, como você... — Ashley perguntou, mas já havia entendido. — Espera — ela se aproximou de Mirty. — Você leu minha mente?
Mirty abriu um sorriso propositalmente falso.
– Oh, que maravilhosa descoberta.
Ashley retraiu-se.
– Tudo bem, eu compreendo. Bem, talvez seja melhor se você ver como funciona — Diana falou, e subitamente seus olhos adquiriram um tom incrivelmente azul. Uma cor simplesmente sobrenatural. Nem mesmo Zeus tinha aqueles olhos. Ashley afastou-se, esbarrando no vitral.
O ar ao redor de Diana começou a amontoar-se na forma de um furacão, criando espécies de nuvens atemporais. Gotículas de água começaram a condensar-se nas nuvens. De repente, estava chovendo na sala. Mirty revirou os olhos, tirando os cabelos negros que caíam sobre eles.
– Não podia ser um truque mais seco? — ela perguntou, ríspida.
Diana deu de ombros e olhou para Ashley, sorrindo.
– E agora, acredita?
Ashley torceu a manga do suéter que vestia. Haviam colocado roupas nela?
– Hum... Gostei das roupas — Ashley curvou os ombros, sem fala.
Havia acabado de presenciar uma mulher extremamente linda fazer chover dentro de uma sala. O que queriam que dissesse?
– Bem vinda à Cineres — Diana sorriu.
***
O gigante aquário que havia na Sala do Trono, o lugar onde as Damas ficavam na maior parte do tempo, tinha várias espécies de animais marinhos, todos exóticos. Havia uma lula colossal, uma espécie de água viva luminosa, a quem Ashley apelidou de Lighter, um tamboril, uma caravela e vários outros tipos de animais, principalmente os de habitat de abismo, moradores do abissal oceânico.
Ashley se aproximou do aquário e tocou-o, sentindo a vibração causada pela lula colossal. Ela era gigante, um ser incrível. A loira andou pela sala, observando com atenção cada ser vivo.
– As vezes você passa horas vendo seu aquário — Maya falou, adentrando a Sala do Trono.
Ashley virou-se e sorriu.
– Gosto deles. Me sinto mais confortável com o oceano.
A dama da terra sentou-se em seu trono e abriu as mãos, fazendo uma rosa brotar de seus dedos mágicos.
– É incrível como Diana consegue, exatamente, nos encaixar àquilo que devemos ser. Você não poderia ser a elementar de mais nada, senão da água. Assim como eu não poderia ser outra elementar que não da terra.
– Eu queria saber como ela sabe o que somos aqui. Quer dizer, não tínhamos esses poderes quando éramos humanas — Ashley falou, fazendo mais água encher o aquário. Os animais transitavam livremente, como se estivesse realmente num oceano.
– Acredito que nós já tínhamos essa essência desde o ventre... Eu, quando pequena, já era apaixonada por plantas.
– E eu, por água — a loira riu.
Alanis e Diana entraram na Sala repentinamente. Em seguida, veio Mirty. Ela sempre andava só, e isso era algo com que as damas já haviam se acostumado.
– Ora, ora, o que temos aqui? Todas nós, reunidas no mesmo lugar, sem discussões ou brigas? — Alanis perguntou, divertindo-se. Mirty permaneceu calada, abrindo um leve sorriso de canto. Não estava com ânimo de iniciar uma rixa naquele momento.
– Bem, isso é bom — Diana falou, batendo palmas rapidamente. — No entanto, sinto informar que não temos o luxo de desperdiçar tempo. Precisamos pensar no que vamos fazer em relação ao que Brian disse.
– Sobre entrar na Terra das Sombras? — Alanis perguntou.
– Sim — a Dama do Ar assentiu. Ela estava particularmente animada e bonita naquele dia. Seus fios loiros estavam bagunçados e jogados para o lado numa trança improvisada, e seus olhos tinham um brilho diferente. Será que havia andado com Brian às escuras? Todas sabiam que sua atração pelo mágico nunca fora, realmente, superada. — Precisamos do pergaminho sagrado para entender com que tipo de problema estamos lidando. Freia é um ser misterioso, nunca se sabe se ela está trapaceando.
Ashley abaixou a cabeça, sentindo uma tontura repentina tomar seu cérebro. Ela apoiou-se na bancada de granito da parte de fora do aquário para não cair.
– Ashley? Está tudo bem? — Diana perguntou.
– Eu... — ela queria muito dizer que sim, mas não conseguia. Quando elevou a cabeça para tentar enxergar, sua visão estava completamente enegrecida. — Mirty, droga! Agora não é hora para suas brincadeiras de mau gosto!
A mentalista levantou-se de seu trono calmamente e foi até Ashley. Com suas unhas grandes e prateadas, segurou seu rosto e olhou no fundo de seus olhos.
– Não fui eu. Não sei o que está acontecendo.
Diana franziu o cenho, preocupada.
– Nós... Nós não passamos mal. Isso é humano. Somos as damas — Diana disse, confusa.
– Estou cega — Ashley falou, seca. Seu tom de voz mudou de repente. Todas as damas se afastaram, menos Mirty, que permaneceu parada, observando-a.
Três, dois, um.
O aquário explodiu e Ashley lançou mão em direção às irmãs. A lula colossal envolveu Alanis em seus tentáculos grossos. A água do aquário invadiu a Sala do Trono, preenchendo completamente quase até o teto.
– Mirty! Faça-a parar! — Diana gritou, eletrocutando uma enguia que tentou atacá-la.
A mentalista criou um escudo negro ao seu redor para poder se aproximar de Ashley sem ser atacada. No entanto, sua aproximação iminente e a falta de reação da dama a confundiu.
Foi então que entendeu tudo.
Ashley estava realmente cega. Mas não apenas de visão. Cega por completo. Aquela não era a Ashley que as damas conheciam.
– Ela está em transe — Mirty falou mentalmente para Diana. — Como se estivesse... Possuída.
A mentalista abriu os braços e deixou que a escuridão simplesmente se transportasse de seu corpo para o espaço. Em poucos segundos, Ashley foi paralisada pela escuridão. Ela mal sentia seus músculos, estava com os nervos dormentes, as células embebidas na sensação sonífera que Mirty tinha.
Ashley caiu no chão, e a água de repente sumiu. Sugada junto com seu transe.
Quando Mirty se aproximou e abriu seus olhos, eles transluziam de uma cor negra para o azul normal que eram. A Mentalista sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao deparar-se com aquilo. Era muito parecido com alguém que havia sido contaminado pelas sombras, e isso poderia ser uma hipótese se Ashley não fosse a elementar da água poderosa que era. Não era fácil contaminar uma Dama.
– Há algo de errado com ela, de muito errado — Mirty falou. — E creio que seja um problema muito antigo.
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