A Dama Solitária
3 Capítulo 3 - Fichas nas Notas Finais
Notas iniciais
P.O.V Angelo
Acordei com um barulho na minha cabeça, mais precisamente um som irritante que martelava como se alguém batesse no meu cérebro. Olhei para os lados e percebi que a galera toda estava no pavilhão, mas dessa vez era diferente. Não estavam comendo, festejando ou lutando, como os trogloditas costumavam passar o dia, e sim apreensivos, cochichando e divididos em grupos de quatro, cada grupo em um canto do pavilhão. Alguma coisa certamente estava deixando as damas curiosas, porque em vez de sumidas em algum canto desse lugar esquisito, as três damas de branco estavam nos seus respectivos tronos um pouco acima do pavilhão, conversando secretamente sobre algo que não eu não conseguia ouvir.
– ACORDA! — e então um travesseiro gigante foi jogado na minha cara.
Era Serena. Sorri ao vê-la, pensando em como era bom ter alguém como Serena por aqui para esfriar o clima. Mas isso não me impediria de dar o troco pela travesseirada. Tentei hipnotizá-la com meus olhos por tempo suficiente para pegar outro e jogar, mas Serena evitou-me com uma espécie de campo de força. Serena me surpreendeu com um grito direcionado apenas a mim, e minha cabeça explodiu. Com os miolos explodindo, coloquei as mãos para cima e me rendi. Serena riu, se divertindo ás minhas custas.
– Sorrindo da desgraça alheia... Isso não é do seu feitio. — eu falei, passando a mão nos cabelos completamente bagunçados.
– Tá, chega de enrolação — Serena disse — chegou a sua hora. — ela sorria orgulhosa. Eu olhei para ela meio confuso, e então me lembrei.
Gabriela. Eu deveria estar na Floresta Cinza há muito tempo!
– Ai, droga. — eu xinguei, fechando os olhos e rapidamente me teletransportei sem nem me despedir. Enquanto me teletransportava do pavilhão, pude ouvir um "Ele sempre faz isso" e uma leve risada vindo de Serena. Sorri de volta, mas logo tive de assumir minha pior expressão ao sentir a magia tentando invadir meus poros.
Bem, se você cai num lugar esquisito sem céu, sem cor, onde boa parte das coisas querem te matar e há uma floresta vocal cuja função é te esnobar e depois te matar, o mínimo que você deve fazer é reger uma cara séria e oprimida em vez de ficar rindo como um idiota, porque vai que uma lagarta invisível tóxica entra pela sua boca e você morre rindo mas não muito feliz?
A Floresta Cinza nunca foi e nunca será o lugar preferido de nenhum Bellator. Talvez os Servos das Sombras gostem de ouvir uma canção de ninar da Voz, mas eu recuso ouvi-la.
Eu conseguia imaginar como Gabriela devia estar desesperada, a Voz certamente a estava torturando mentalmente. Mas rapidamente ouvi uma voz falar e corri na direção.
"Vai ficar de showzinho ou vai falar quem é?" Era o que eu ouvi. Bem, a Voz não era muito de ser sarcástica, geralmente cruel, mas sarcasmo seria algo novo por ali... Exceto, claro, que esse sarcasmo fosse dela. Gabriela, a novata.
Mesmo sabendo do sério risco que ela corria subestimando a Voz, eu não hesitei em salvá-la por nenhum segundo, e já estava até estranhando o fato de que Gabriela estava conseguindo se virar sem ser sugada pela terra, quando de repente ouvi gritos. "Minha vez", pensei, e rapidamente puxei uma espada de ouro e cortei os galhos.
Eu realmente não achei, de primeira, que ela fosse do tipo de garota sensível que precisava ser salva, e sua aparência na verdade só me fez ter outra ideia do tipo que ela fazia. Alta, cabelos medianos num meio termo entre loiro e castanho, olhos esverdeados e sarcasmo? Ela quase me fez sentir inútil.
Mas quando me agradeceu, eu nunca fiquei tão feliz em salvar uma garota como ela. Acho que, até vê-la, pensei que depois de Serena nunca mais veria uma garota tão bela. Mas ali, naquele vestido roxo, eu levei um belo tapa na cara.
***
Ela acordou o meu lado irônico há tempos adormecido. Eu já estava há tanto tempo naquele lugar horrível que pensava ser impossível ficar feliz da forma como eu ficara. Eu estava ansioso para apresentá-la à Serena, as duas iam se juntar como ímã, e talvez quem sabe as palavras da Dama de Branco fizessem sentido...
Ah, eu sei. "Dama de Branco" não é o nome mais legal do mundo, é arcaico e esquisito, apesar de bonito e original. Ou nem tanto. Mas quando você meio que entra numa espécie de filme do Tim Burton, o País das Maravilhas, o inferno ou seja lá o que esse lugar horrível seja, você precisa de um nome legal, uma coisa quase medieval, que te dê moral e te faça parecer bem mais poderoso do que é.
Mas na verdade o nome dela é Diana. E ela é até legal, pra uma mulher que tem olhos brancos, cabelos negros e que brilha. Ah, e sim, eu também brilho. E até assumo que se eu estivesse na minha casa rindo com alguns amigos da vizinhança, ironizaria o fato de que brilho, mas aqui, nesse lugar, isso é meio que parte de ter caído. Eu só espero que Gabriela entenda isso tanto quanto eu antes de me zuar para sempre.
Depois que subimos para o pavilhão "fantasma", como ela pensara, chamei a trupe que logo apareceu. Os trogloditas de armadura comiam e festejavam como sempre, e quando Gabriela apareceu todos fizeram a questão de olhar como se fosse uma super novidade. E era, realmente. Diana me falou de uma tal profecia há alguns meses, mas nada do qual me esqueci. Todos esperavam ansiosamente a vinda da pessoa que poderia nos tirar daqui, e eu não fazia ideia de como Gabriela poderia quebrar uma maldição como essa, mas eu acreditaria nela. Diana nunca errou, e tive fé de que não seria agora. Quando Serena me enviou um pensamento (sim, alguns de nós pode se comunicar mentalmente, mas eu não chamaria isso de telepatia, quer dizer, não é exatamente telepatia) de que havia adorado ela, saí de cena sem hesitar e deixei que as duas se conhecessem. Depois de ver uma mulher com olhos brancos que brilhava, achei que Gabriela precisaria falar com alguém tão normal, ou sarcástica, quanto ela.
Me dirigi ás mesas e tudo o que ouvi foi:
– Então acho que vamos nos dar bem.
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