A Dama Das Rosas Brancas

1 A Dama das Rosas Brancas


Eu estava cansada quando me chamaram na sala da Chefe. Pior do que ter três clientes por noite, é ter um que te chama de vagabunda e puta. Não é uma verdade muito agradável.

Tsunade, nossa Chefe, tinha feito história por aquelas bandas quando era moça, agora que estava velha de mais para continuar de esquina em esquina, tinha aberto uma casa de moças, um tanto chique até. Como se não houvessem ainda meninas que vivessem das esquinas entre as moças da Tsunade.

-Tenho um trabalho para você, Konan. — Ela falou acendendo um cigarro.

Eu odeio cigarros.

- O que é dessa vez? Outro deputado fedido?

- Não. — Ela fez questão de dar uma baforada na minha cara. Ela sabia que cigarros eram a coisa que eu mais detestava no mundo. — Dessa vez é um menino quase morto.

- Do que você está falando, sua doida?

- O moleque é sobrinho daquele idiota do Jiraya. Tem uma doença terminal e pouco tempo de vida. Como credor desse lugar, o homem resolveu dar ao garoto um presentinho de morte. — Ela soltou outra baforada. — E será você, menina.

Jiraya, aquele traficante nojento. Ele sempre me tratava bem, mas por conta dele e de suas drogas “de qualidade” meu pai tinha me vendido daquela forma. Pelo Jiraya e seus amiguinhos, ou eu pagava a divida do meu pai como puta, ou morríamos os dois.

-Tanto faz. — Eu respondi. — já estive com coisa pior.

Tsunade riu no canto da boca.

-Vê se fica bonita menina, você deve sua vida ao Jiraya, assim como eu.

Eu saí fingindo que ignorei, fui para meu quarto. Meu quarto de verdade, não aquele para onde levava meus clientes, esse quarto não passava de um cubículo com uma cama e um armário. Eu costumava a ter uma televisão, mas deixei que a Karin a levasse para vender e alimentar seu vicio em uma droga qualquer. Nunca gostei televisão mesmo.

No meu armário guardava alguns pequenos tesouros. Livros que eu comprava com a sobra de alguns clientes ou que pegava de bibliotecas que eu jamais voltaria e não os devolvia, mas naquele fim de madrugada não queria ler. Apenas peguei minha toalha e fui ao banheiro no fim do corredor, tomei um banho, tirei aquele fiasco de roupa imunda que eu ainda usava e dormi todo o dia.

Prefiro me enfurnar no quarto durante os dias, as outras meninas gostam de sair, se vestir como gente e fingir serem felizes como qualquer outra, algumas até frequentavam escolas de quinta categoria, mas eu preferia dormir na realidade.

Na noite seguinte, mandaram que eu me arrumasse, para conhecer meu adorável defunto. Me vesti rápido, sem saber o que realmente estava usando, aquelas roupas íntimas, que tantas mulheres consideram peças de delicado luxo, para mim nada eram além de um uniforme de trabalho.

Desci ao hall de Tsunade, onde eram recebidos os clientes. Podia ver as moças dançando nos mastros e palcos. As garotas que eu conhecia por lá, Ino com seus risos fáceis estava entre dois senhores de idade, Temari que atraía olhares de mais homens que podia contar com sua dança de leques, Sakura entretia um homem de cabelos brancos, enquanto guardava seu coração e alma para um rapaz do outro lado da rua, Sasuke por quem se apaixonara.

Percorri todo o salão, mas Jiraya me interceptou, me tomando pela mão com delicadeza e me levando a uma mesa qualquer.

Na mesa repleta de homens pude ver o rapaz a quem fui prometida. Não era tão novo quanto eu pensava, talvez mais velho que eu, nem tão doentio, mas não era de longe saudável e enérgico quanto os outros homens da mesa. Tinha cabelos vermelhos desbotados, pele pálida de mais e era mais magro que deveria.

- Essa é a Konan, Nagato, um presente para você. — Jiraya disse sorrindo triste e feliz ao mesmo tempo.

Nagato não respondeu. Pelo menos o nome dele eu sabia.

Tomei sua mão, com seus dedos frágeis, antes que os homens terminassem a conversa. Era para fazer o que tinha de ser, o que eu fui paga para fazer.

Levei-o para cima, para um dos quartos de luxo, quando fechei a porta ele disse:

- Não precisa fazer isso se não quiser.

- Do que está falando. — Eu perguntei. Seus olhos pareciam não ter cor, mas eram expressivos, principalmente quando olhava para mim. — Fui paga para isso.

Eu o empurrei com delicadeza para a cama.

- Isso é só uma ideia do meu tio. Não é culpa sua.

- Não estou com pena de você.

Deitei meu corpo sobre o dele beijando-o um pouco mais.

- Por que não? Para que? E entre essas duas frases minha vida vai e vem... — Repeti a frase na minha cabeça.

- A Dama das Camélias? — Ele perguntou.

Desabotoei a camisa com dedos rápidos enquanto dizia:

- Achava que putas não sabiam ler? Onde fica minha dignidade aí?

Um dia, no fim da tarde, aparecera naquele cortiço e me mandou colocar um vestido. Pagou por uma noite, me pegou pela mão e me levou até o teatro.

- Vamos ver A Dama das Camélias. O ballet, já assistiu?

- Essa é a primeira vez que eu vou ao teatro. — Eu disse. — Não sou rica como você.

- Eu não sou rico. E depois, a morte chega a todos nós do mesmo jeito. Ricos ou não. — Ele respirou fundo. — Até mais cedo às vezes.

- Você não tem medo de morrer, não é ? — Eu falei quando a música começou a tocar.

- Tenho. Mas já passei da fase de estar assustado. Quando se vive uma vida toda com a meta de que um dia vai morrer, quando chega a data, não te assusta mais. — Ele disse olhando para o palco.

- Você é a pessoa mais bonita que eu já conheci. — Disse.

Dessa vez ele olhou para mim com olhos tristes.

- Te magoaria, se dissesse que não é a mais bonita que eu já conheci?

- Não, seria ingenuidade minha. — Respondi apoiando minha cabeça em seus ombros. — Nada conheço do mundo longe daquele lugar.

Ele me levou de volta. Disse que voltaria, mas por uma semana não voltou. Tive que alternar meus dias entre danças e homens nojentos. Quando voltou, pagou por mais uma noite, trouxe me uma rosa branca e um livro debaixo do braço.

- Não haviam camélias. — Ele disse. — mas você não vai se importar, vai? — Nagato se sentou na cama.

- Claro que não. — Me inclinei na direção do seu rosto, com a intenção de beijá-lo, mas Nagato segurou minhas mãos e me abraçou.

- Vou sentir sua falta. Queria ter te conhecido antes, passado mais tempo com você. — Eu disse.

- Eu também. — Agora, Nagato tocou meu rosto, me deu um último beijo nos lábios e deixou o livro ali, ao meu lado. Foi embora para não voltar mais.

O livro que ele deixou não era a Dama das Camélias, era Indiana de George Sand. Indiana tinha um bom final, pelo menos em tese, mas em A Dama das Camélias, Marguerite Gautier morre.

Aqui foi eu quem voltei a viver.

No meu íntimo, sabia que não iria ver-lo mais, mas os resquícios de minha imaginação infantil criavam cenas em minha cabeça, onde ele voltava, com um buquê de rosas brancas, totalmente curado, dizendo que me tiraria dali, e me amaria eternamente. Essas ideias criavam falsas esperanças para mim. Esperanças essas que permaneceram por anos.

Mas Nagato não voltou. Depois de duas ou três semanas, fui eu quem fui atrás dele. Perguntei a Jiraya onde ele estava, e ele, com uma expressão melancólica no rosto, me disse o nome do hospital.

- Digo isso a você, porque sei que você é uma boa menina – Ele disse. — Sei que é.

No outro dia acordei cedo e me vesti de gente. Calças compridas, camiseta comportada azul. Saí o mais cedo que pudi, levei uma bolsa com algumas peças de roupa e o dinheiro que eu tinha guardado. Decidi que não voltaria, junto com Nagato, morreria para aquela vida.

Peguei um ônibus e depois um metrô, coloquei meu nome em um albergue e deixei meu nome em algumas cafeterias e lojas que precisavam de funcionárias. Larguei algumas antigas roupas eróticas em um canto, langeries coloridas alguns pares de sapatos vermelho com saltos gigantes.

Cheguei o hospital onde ele estava levando uma rosa branca. Haviam camélias, mas preferi as rosas, dei seu nome na recepção e fui até o quarto.

Nagato estava dormindo. Com vários aparelhos e tubos de remédios, oxigênio ou qualquer outra coisa, mas ainda dormindo, deixei a rosa ali no pequeno criado e fui embora antes que alguém chegasse. Sabia que nunca mais iria ver-lo depois daquilo, mas cabe a nós seguirmos nossos caminhos. Eu não podeira seguir-lo, e também não o amava a esse ponto.

Sabia que deveria seguir em frente daí, para eu mesma encontrar meu lugar, pelo menos sempre o levaria atrás de mim, com rosas brancas




Notas finais
Bem, o livro citado, para quem não conhece, é A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho, que inspirou o ballet de mesmo nome e a ópera La Traviata. ;D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!