A Cólera Dos Deuses
3 Capítulo 3 TELAE EX ARANEUS(Teia de aranha)
Notas iniciais
A luz suave do fim da tarde adentrava a domus e June sentia o coração pesado. Por mais que tentasse não pensar no assunto, não conseguia afastar as sombras que a torturavam. Saga mantinha o mesmo distanciamento, embora permitisse que ela retomasse algumas das rotinas antigas. Já se acostumara a vê-lo sair com Kanon e passar boa parte das noites fora de casa, certamente para foder em paz e preservar o status dos dois.
No início, quando pensava poder reverter sua situação, a relação dos dois a incomodava, porém agora já não mais importava... Seria sempre a esposa e teria segurança, assim como o básico para viver bem. Mas, mesmo resignada, ainda assim, era invadida por um pressentimento ruim que lhe causava arrepios na base da espinha e, em alguns momentos, a fazia sentir-se asfixiada.
— Deseja mais alguma coisa, domina?- perguntou Nailah.
— Não, pode se retirar. – respondeu June sem nem ao menos olhar para a serviçal.
Nailah fez um movimento de cabeça, mais por costume que por respeito. Sentia uma antipatia por June e sonhava com o dia em que seria a domina daquela casa. Ele havia prometido dar-lhe uma recompensa pelas informações que revelara. Para muitos, isso seria um ato de traição, mas ela não considerava como tal. Havia sido feita escrava e nunca aceitara tal condição. Viera do Egito, um país governado por deuses e se considerava melhor que aqueles serviçais patéticos que se curvavam para qualquer um. Depois que June havia caído em desgraça junto ao marido, não era mais uma domina e sim, um pequeno obstáculo no seu caminho para a riqueza e verdadeira liberdade...
Deixou o salão olhando, uma última vez para June e sorrindo de um jeito diabólico. Quando virou o rosto para frente, deu de cara com Afrodite que a encarou com curiosidade.
— Ainda aqui, Nailah? – perguntou com um sorriso afetado.
— Já estou saindo. Domina me dispensou. – respondeu ela ansiando por sair da presença daquele homem.
Afrodite cedeu espaço para que ela passasse e franziu o cenho ao observar que ela caminhava ereta demais e um tanto rápido. O que será que esta pequena víbora está aprontando? Pensou, enquanto a serviçal deixava o salão.
— Afrodite! – disse June vindo ao seu encontro.
— Sim, senhora. Vim como me pediu. Em que posso ajudá-la?
June espiou para certificar-se de estarem sozinhos e tocou, levemente, o braço de Afrodite.
— O que tenho a lhe pedir deve ficar em segredo. Não confio nessa mulher que acabou de sair.
— E faz muito bem. Embora deva dizer que estranho que confie em mim.
Um sorriso verdadeiro abriu-se nos lábios de June.
— Somos os dois tão filhos da puta que não temos escolha a não ser buscarmos apoio um no outro.
Afrodite deixou escapar uma sonora gargalhada e então se sentou, para ouvir o que June tinha a dizer. Ela foi até a ânfora com vinho e serviu duas taças. Estendeu uma para Afrodite e levou a sua aos lábios. Após sorver um pequeno gole, fitou o loiro bem dentro dos olhos e falou:
— Tenho um terrível pressentimento e sei que, embora as coisas estejam calmas, a tempestade virá. Hades ainda buscará a revanche e as escolhas feitas por Saga darão a ele subsídios para destruir-nos. É apenas uma questão de tempo.
— Tenho que concordar, embora esteja feliz em ser livre. O Imperador não deve estar satisfeito com essa onda libertária que se elevou desde que Saga nos libertou.
— Você é inteligente e entende. Logo, aqueles que se sentem ameaçados serão o apoio de Hades contra nós e temo que seja logo. Por isso, quero pedir-lhe um favor.
— Um favor?
— Meus pais estão velhos e meus sobrinhos estão entrando na vida adulta. Ikki tornou-se um legionário, é forte, sagaz e logo se casará. Porém, Shun ainda é pouco mais que um garoto e tem a saúde delicada. É inteligente, mas tem a alma de um poeta e nós sabemos que homens assim não sabem sobreviver neste mundo endurecido. Peço que cuide dele, oriente-o e proteja-o. Guardei algum dinheiro e a propriedade de minha falecida irmã, ainda se conserva habitável. Eu dou a casa e o dinheiro a você para que se torne o guardião de Shun. Por favor, pense a respeito e me dê uma resposta o mais breve possível.
— Senhora... Eu...
— Você tem sangue real em suas veias e sabe mais que ninguém, sobreviver em meio ao caos e a perfídia da sociedade romana. Você o educará e o tornará apto a cuidar de si mesmo. Eu... também redigi um documento sendo testemunha da sua verdadeira origem. Assim, você terá o apoio desta casa no momento em que reivindicar o que deseja.
— Agradeço a sua gentileza quanto a isso, mas creio que minha origem ainda permanecerá na obscuridade. Entretanto, prometo pensar em seu sobrinho e dar-lhe uma resposta antes da Lupercalia.
— Ah! Ainda tem mais essa... Essa festa hedionda onde esses velhos senis encontram um pouco da virilidade perdida açoitando tudo que veem pela frente. Substituem os paus moles pelo chicote e se acham deuses!
Afrodite riu.
— Verdade. Mas, é uma festa apoiada pelo próprio Imperador, o que nos leva a ter de vivenciá-la ou, ao menos, fingir para não desagradá-lo.
— Promete pensar com carinho no meu pedido?
— Carinho pelo quê? Por seu sobrinho deliciosamente ingênuo ou pela oferta generosa? – disse Afrodite em tom de malícia.
— Já tem seu amante, loiro terrível! E não sei como ainda consegue sentar depois de foder com aquele... homem.
— Ia dizer animal, que eu sei! – falou Afrodite rindo.
— Fico lisonjeada por me conhecer tão bem... – disse June.
— Como a senhora mesma disse, somos, ambos, filhos da puta e um, reconhece o outro como se fosse a si mesmo.
June riu alto, pela primeira vez, naquela semana. O riso ecoou na amplitude da domus, assim como, tempos depois reverberariam os gritos de dor a morte...
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Titus estava com o torso nu e golpeava forte o soldado com quem lutava. O piso de mármore escuro refletia os passos firmes do imperador e reluzia tanto quanto o suor que lhe escorria pela face.
Hades adentrou o palácio vendo a luta do imperador com o soldado pretoriano. Permaneceu em silêncio até que tudo acabasse e só então, saudou Titus com uma reverência.
— Hades, meu amigo! Estou colocando meu corpo em forma. Gostaria de lutar comigo?
— Faz algum tempo que não pratico a espada.
— Então é hora de retomar, afinal, meu braço direito e responsável pela Ludus Maxima tem que estar em forma. Pegue! – disse Titus pegando a espada do soldado e atirando-a na direção de Hades.
O gládio curto invadiu a mente de Hades com lembranças... A luta de Minos e Milo... O torneio onde o gladiador derrotara a Ludus Maxima e a entrega que ele fizera da espada como uma forma de tripudiar sobre si.
Titus atacou forte, fazendo Hades retornar ao momento presente. Ele defendeu mais por instinto que por técnica e então, concentrou-se na luta com o imperador, pois sabia que ele detestava corpo mole ou desatenção sobre os assuntos bélicos.
Um sorriso largo brincou nos lábios de Titus quando percebeu o esforço de Hades em aparar seus golpes. Porém, em seguida, o senador pareceu insuflar-se de ânimo e os ataques, antes cuidadosos, agora eram tão fortes quanto os do imperador.
— Isso! Isso! Agora sim vejo um homem de fibra! – disse Titus ao defender as estocadas de Hades.
A luta continuou até Titus ser interrompido por um mensageiro.
— Ave César! Trago notícias da Sétima Legião! Fomos atacados pelos gauleses e sitiados em Cremona. Precisamos de reforços junto à fronteira. — disse o homem ensopado de suor e poeira.
— Quem comanda a Sétima Legião? – inquiriu Titus.
— O general Caius Guilty, meu senhor! Ele foi ferido e quem comanda a resistência, agora, é o centurião chamado Ikki.
Titus foi até uma bacia com água e lavou o rosto. Secou-se e então retornou ao mensageiro.
— Precisamos de soldados experientes para enviar. Marco Túlio está em campanha no Oriente e Vinicius recém retornou. – disse Titus franzindo o cenho.
— Se me permite uma sugestão, meu senhor, creio que o general Kanon seria o homem adequado para reverter essa situação. – disse Hades.
— Excelente sugestão, meu amigo. Como não pensei nele? Mande chamar o general Kanon, imediatamente! – falou Titus.
Hades sentiu um prazer extremo ao ver que, aos poucos, uma teia era construída em torno dos seus objetivos mais secretos... Nêmesis lhe sorria... Agora, só faltava insinuar-se como um forte candidato a tornar-se um luperci e ter todo o poder para dar início ao seu plano.
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Milo estava profundamente adormecido. O corpo nu, estendido sobre a cama, era admirado por Camus que acordara cedo e ficara um tempo observando os pequenos movimentos involuntários que o gladiador fazia com o braço direito e o pé esquerdo.
O ruivo sorria e tocava os fios loiros que se emaranhavam em uma teia dourada de cachos. Ainda era como um sonho, ele e Milo juntos, vivendo uma relação verdadeira e profunda, mesmo que cada um exercesse atividades diferentes e tivesse personalidades diferentes.
Aproximou os lábios junto ao pescoço de Milo e sugou a pele morena contra seus dentes. Uma pequena marca avermelhada surgiu ali e Camus sorriu. Deixara uma marca, a sua marca no corpo do amado e, o pensamento extremamente primitivo o fez dar-se conta do próprio desejo...
Milo o despertara para um universo de prazeres que parecia não ter fim. Cada vez que estavam juntos, sentia seu corpo efervescer e depois, uma ternura cálida tomava um espaço em seu coração tornando cada dia e cada noite uma experiência única.
Tocou, mais uma vez, os cabelos em desalinho e quando ia levantar, uma mão grande e forte pegou-o pelo pulso.
— Aonde pensa que vai? – perguntou Milo com a voz enrouquecida.
— Desculpa tê-lo acordado... – disse Camus.
— Desculpá-lo? Você mexeu com a fera, agora vai ter que pagar. – disse Milo puxando Camus para junto de si.
Camus riu e Milo mordeu-lhe o queixo, depois sugou-lhe o pescoço, deixando sua marca também.
— Você me marcou no pescoço... Agora, vou deixar minha marca em todo o seu corpo. – sussurrou o gladiador contra os lábios do ruivo.
A reação de Camus foi mordiscar o lábio inferior de Milo, prendendo-o entre os dentes. O gladiador o fazia querer morder e marcar, sentir-lhe o gosto da pele, da boca, do sêmen...
As mãos ásperas de Milo desceram pelas costas até as coxas e puxaram Camus, erguendo-o num contato pleno com sua evidente ereção. O ruivo fechou os olhos e sentiu o pulsar do falo junto às coxas... Seu membro enrijeceu de imediato e ele arfou quando Milo agarrou-o e o fez esfregar-se sobre si.
O gladiador provocava com o corpo, enquanto a boca brincava e atormentava a de Camus nas primeiras horas silenciosas do amanhecer.
— Você me quer? – Milo murmurou malicioso, avançando e recuando com os quadris, observando o corpo de Camus se arquear num movimento ansioso.
— Sabe que eu quero... – Camus gemeu, ofegante.
Milo suspirou, roçando os lábios nos dele até tomar-lhe a boca em um beijo selvagem, enquanto o livrava da túnica com um puxão tão forte que a rasgou.
— Milo! – reclamou Camus ao sentir o tecido se desfazer como se fosse um papiro.
— Quero sentir essa sua pele cheirosa... — murmurou o gladiador e Camus viu a luxúria ardendo nos olhos azuis do amante.
— Então sinta... — sussurrou Camus sentando sobre os quadris de Milo, balançando o corpo sobre a ereção ostensiva, antes de permitir-se ser invadido, aos poucos...
O rosto de Milo se contorceu de prazer ao sentir a resistência da cavidade quente e apertada. Seus dedos de aço apertaram as coxas alvas em um ato de posse e a deliciosa sensação que o ruivo só era assim com ele. Gostava quando Camus o cavalgava, pois podia ver a excitação dominá-lo, deixando-o afogueado e fazendo-o gemer de um jeito que o enlouquecia...
Camus sentia o prazer crescendo dentro de si, o choque do falo nas profundezas de seu corpo, as mãos de Milo apertando-o, as respirações tão audíveis que parecia só haver os dois no mundo...
— Zeus...! – Milo respirou fundo quando Camus aumentou o ritmo e baixou o corpo, cravando os dedos em seus ombros e gemendo entre os beijos sôfregos que distribuía, ao mesmo tempo em que seu falo batia contra o seu ventre.
O rosto do ruivo se contorcia, anunciando o orgasmo e Milo estremeceu, sentindo o clímax invadi-lo também. Um gemido rouco escapou da boca de Camus enquanto ele curvava a cabeça para trás e cerrava os dentes em total e prazerosa entrega. O mesmo prazer selvagem varreu o corpo de Milo e ele inundou o interior de Camus, sentindo o sêmen quente do amante derramar-se em seu tórax como uma carícia.
Nenhum dos dois respirava normal ou regularmente. Camus podia ouvir e sentir as batidas do coração de Milo e olhava atordoado para o rosto suado que fitava, sorridente, o seu.
— Isso fica... cada vez... melhor! – disse o loiro puxando Camus para si.
Um sorriso brincou nos lábios do ruivo e ele encostou a cabeça no peito forte de Milo, fechando os olhos, saboreando a proximidade.
— Tem razão... Faire l'amour avec vous, c'est mon paradis! – disse Camus baixinho.
— Fazer... amor comigo é... o seu paraíso! – Milo falou, para surpresa de Camus.
— Você entendeu o que eu disse. – Camus levantou o rosto e fitou o rosto do gladiador.
— Sim, eu entendi. – disse Milo de olhos fechados.
— Mas... Como? — devolveu Camus.
— Pedi ajuda a Afrodite para me ensinar, já que você está sempre ocupado. Afinal, como eu vou conhecer sua família se não souber falar uma só palavra na sua língua ?
— Como assim, conhecer a minha família?
Milo abriu os olhos, exibindo o entusiasmo que lhe era peculiar. Enfiou a mão por debaixo do colchão de palha e retirou uma bolsa de couro.
— Isso aqui. – disse ele mostrando a bolsa. – É todo o dinheiro que ganhei nas lutas deste mês. Acho que tem o suficiente para pegarmos um navio e viajar até a sua terra. Você se lembra de onde veio, não é? Sei que sente falta de seu irmão e de sua mãe. Pensei que podíamos ir em fevereiro, no seu aniversário.
O rosto de Camus ficou sério e Milo ficou confuso. O polegar calejado acariciou a boca macia do ruivo que estava entreaberta.
— Fiz alguma coisa errada ? Não quer viajar ?- perguntou Milo.
Camus suspirou de tristeza.
— Faz tanto tempo... Talvez eu não tenha mais família. Não quero que arrisque suas economias com algo que pode nem existir. – disse o ruivo baixando os olhos.
— Não me importa o dinheiro. Quero vê-lo feliz. – retrucou Milo.
Camus buscou os olhos do amante.
— Sou feliz ao seu lado. Minha vida recomeçou quando fez amor comigo, mesmo que a primeira vez tenha sido daquele jeito.
A rigidez desapareceu do rosto de Milo. Ele olhou para o homem que amava com ternura e desejo.
— É feliz comigo? Mesmo eu sendo, apenas, um...
Camus deu um longo suspiro e levou as mãos ao rosto do gladiador.
— Vous êtes l'homme que j'aime! (você é o homem que eu amo) Ah, venha aqui ! – ele sussurrou, puxando Milo de encontro a si.
Milo deixou o rosto se aproximar do de Camus e faíscas de prazer percorreram seu corpo quando ele o beijou com um ardor genuíno, após dizer que ele era o homem que amava. O encontro das línguas fez retornar o desejo e logo, os corpos fundiram-se, novamente, na dança erótica de avanços e recuos...
E quando o orgasmo explodiu, ambos tombaram exaustos, nos braços um do outro, confirmando o amor que os unia acima de tudo, das dores, das perdas e, sem que ambos premeditassem, até mesmo da fatalidade....
— Eu te amo mais que tudo, Milo... – murmurou Camus aconchegando-se aos braços fortes.
Ao ouvir aquelas palavras, Milo estreitou o corpo de Camus junto ao seu. Acariciou os cabelos vermelhos e sentiu uma umidade nos olhos de tanta felicidade.
— Não consigo entender de onde vem esse amor, mas sei que quero ficar o resto da minha existência com você... – disse o gladiador e os dois embarcaram em um pequeno sono sem sonhos.
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Radamanthys examinava a nova leva de homens destinados a integrar a sua ludus. O pátio da domus estava repleto de homens trocando golpes com a espada.
Mesmo que fosse, somente uma fachada, começava a achar interessante descobrir talentos para os famosos jogos na arena. Seu pai havia sido um militar aguerrido e disciplinador, os dois nunca haviam se dado muito bem, mas agora, descobria que tinha mais do pai que julgava possuir.
Observava a forma de manejar a espada, de deslocar os pés e a expressão do rosto. Alguns faziam expressões animalescas, porém se revelavam fracos e desajeitados. Outros, eram calmos, parecendo patéticos, mas na hora em que pisavam na areia, transformavam-se em titãs.
Neste momento, ele observava um jovem que não devia ter mais que 17 anos lutar com uma ferocidade que o surpreendeu. Ele não era corpulento, mas tinha uma força invejável. E os olhos... Os olhos exibiam uma frieza que ele só vira em homens feitos que já haviam flertado com a morte, inúmeras vezes.
— Vocês dois, cessem a luta ! – gritou Radamanthys.
O lutador mais velho levou a mão ao rosto, tocando a imensa cicatriz que herdara em sua última luta, enquanto o mais jovem ofegava e apertava o gládio com força.
— Kraken, pode se retirar.- disse Radamanthys.
— Sim, dominus.
O jovem possuía cabelos loiros e abundantes. Uma mecha caída sobre sua testa ocultava a ira presente nos olhos azuis e seu rosto estava vermelho pelo esforço.
— Como é o seu nome ? – perguntou Radamanthys.
— Mon nom est Hyoga. – respondeu o jovem.
— Fala a língua dos francos, mas entende a minha língua. Interessante... Mais um bárbaro para engrossar a fileira de gladiadores!
— Não sou um bárbaro! – resmungou o jovem, agora na língua daquela terra estranha.
— Ah, não ? Quem você acha que é, fedelho ?
— Na minha terra, sou um homem livre! Vim até Roma para encontrar meu pai e meu irmão.
— Mas acabou sendo pego pelos caçadores de escravos. Portanto, não se iluda, você é um escravo!
— Quer que eu lute, não é isso ? Pois saiba que posso vencer qualquer um! Meu pai iniciou-me na espada desde que comecei a andar. Ajude a encontrar minha família e eu ganharei todas as lutas!
Radamanthys olhou Hyoga de cima a baixo.
— É cheio de si, garoto, mas vejo que sabe mesmo manejar uma espada. Vou dar-lhe a chance de ascender como gladiador e, quem sabe, conquistar sua liberdade. Não lutará por mim, mas pela ludus do Imperador. Amanhã vou levá-lo até Hades, o resto é com você!
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Kanon voltou do palácio do imperador com o semblante fechado. Se fosse anos antes, estaria exultante em combater, novamente. Era um guerreiro e sentia a excitação presente no campo de batalha. Porém, agora vivia outro tipo de prazer e não desejava afastar-se dele.
No entanto, era um servidor de Roma e não poderia desobedecer a ordem do imperador. Contudo, algo o inquietava, principalmente as conversas e cochichos sobre as ações de seu irmão e ver Hades, junto aos senadores, só aumentava seu desconforto.
Entrou na domus encontrando Saga discutindo uma tradução grega com Camus. Saudou-os, tentando suavizar a expressão do rosto, mas seu irmão percebeu. Ingenuidade sua achar que Saga não perceberia !
— Bem, Camus, acho que chegamos a um consenso. Leve esses e transcreva como combinamos. – disse Saga dispensando seu auxiliar.
—Sim, senhor. Trarei os manuscritos depois de amanhã. Com licença.- disse Camus e retirou-se.
Quando Camus saiu, Saga aproximou-se do irmão.
— O que houve ?
O olhar de Kanon encontrou-se com o de Saga e ele apenas suspirou, aproximando-se daquele que amava. Sem nada dizer, beijou-o com toda a força de sua alma, saboreando a maciez dos lábios e língua, explorando toda a extensão daquela boca que o fazia desejar não ser um general, nem afastar-se daquele que era a sua vida.
Saga correspondeu, embora estranhasse que Kanon o beijasse assim, logo ele que só se permitia intimidades na casa que tinha, nos arredores de Roma.
O que aconteceu... ? – sussurrou Saga, enquanto sentia as mãos de Kanon percorrerem suas costas e nádegas para subirem novamente até seus cabelos e retornarem à cintura, apertando-o contra seu corpo.
— Não quero falar, agora. Quero senti-lo. – murmurou Kanon, mordendo-o e apertando-o mais, até que puxou-o pela mão, levando-o para o quarto.
Kanon despiu-se e Saga sentiu pulsar o desejo com tanta intensidade que despiu-se com pressa e puxou o irmão de volta para si. O corpo forte e musculoso cobriu o seu e ele sentiu cada cicatriz e o ardor da pele morena.
Saga beijou-lhe o peito, acariciando a pele dele com o rosto e descendo pelo ventre até sentir-lhe o falo duro de encontro à face. Kanon arfou, mas queria sentir o gosto de Saga... Então o puxou para si e invadiu sua boca com a língua, enquanto apertava sua carne e sentia as unhas do amado arranhá-lo nas costas.
Kanon desceu os lábios pelo pescoço que se curvava perante sua exploração, detendo-se nos mamilos, enquanto acariciava o interior de Saga com os dedos longos e experientes. Sentiu Saga se retorcer ao sentir suas carícias e substituiu os dedos pela língua, beijando-o, intimamente, molhando-o com a saliva quente e ouvindo os gemidos altos e entrecortados...
— Kanon... – gemeu Saga, não aguentando mais.
Kanon fitou-o nos olhos e então penetrou-o. Dor e prazer inundaram o corpo dos dois e chispas verdes brincaram no olhar de ambos. Os quadris se chocavam com fúria e, ainda assim, havia ternura nos movimentos que levavam Kanon às profundezas daquele corpo semelhante ao seu.
Saga gemia e apertava as nádegas de Kanon, sentindo-as ondular enquanto ele estocava. O falo túrgido adentrava em um ritmo alucinante, fazendo-o sentir-se preenchido de amor e êxtase... O roçar do ventre em seu membro atiçando o fogo que se construía em seu interior...
O grito irrompeu da garganta de forma estrangulada e foi engolido pela boca que cobriu a sua. Saga estremeceu violentamente e o orgasmo veio com fúria, explodindo em suor e sêmen.
Kanon grunhiu junto à boca arfante e gozou dentro do corpo de Saga, sentindo seu prazer lançar-se em jatos quentes, encontrando o calor da cavidade que o engolia.
— Eu... te amo... – murmurou ele junto dos lábios inchados de Saga.
Um sorriso bobo e letárgico escapou dos lábios do senador.
— Também te amo... Eu poderia morrer feliz, agora...
Kanon elevou a cabeça e tocou os lábios de Saga com os dedos.
— Quero que viva... quero tê-lo em meus braços... Por favor, irmão, tenha cuidado. – disse Kanon, sério.
— Por que está me dizendo isso ? O que aconteceu, Kanon ?
— Fui convocado para uma campanha e devo partir antes da Lupercalia. A Sétima Legião está sitiada e o imperador ordenou que eu liderasse o resgate. Farei tudo para que seja rápido, mas temo que a situação seja mais grave que o relatado.
O rosto de Saga tornou-se sombrio.
— Ficará longe durante muito tempo. Sabe como são essas campanhas. A última o deixou 16 anos longe.
— Não acho que seja o caso, mas serão alguns meses, pela minha experiência com este tipo de confronto.
Saga acariciou o rosto de Kanon, então virou-se e colocou-se sobre o corpo forte e musculoso do irmão, beijando a curvatura do pescoço e roçando os lábios nos dele.
— Ainda quero você... – disse o gêmeo mais velho com a voz carregada de desejo e medo.
— E você me terá....sempre ! – respondeu Kanon devorando a boca de Saga com avidez.
As ereções retornaram, como se ainda não houvessem esgotado seu prazer, instantes atrás. Amaram-se, mais uma vez, a volúpia percorrendo-os e unindo-os em uma chama milenar de sentimentos proibidos...
— Kanon ! – gritou Saga quando sentiu o clímax varrer-lhe o corpo, novamente.
— Estou aqui, meu amor... Estou aqui. – murmurou Kanon, desabando sobre o corpo quente do irmão.
Saga fechou os olhos, sentindo-os úmidos e pesados. Não queria adormecer, não queria perder nenhum momento, por menor que fosse, ao lado de Kanon. Então o general abraçou-o com força e, como sempre acontecia, mesmo sem querer, Saga adormeceu...
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O final do dia chegou em tons de ouro e púrpura, tingindo os céus de Roma com o esplendor do fogo. Nuvens acumulando-se no horizonte prenunciavam uma tempestade e a noite, conforme se aproximava, trazia consigo um vento frio.
Em sua domus, Hades bebericava uma taça de vinho, enquanto analisava, cuidadosamente todos os detalhes de suas engendrações.
A máscara mortuária com a expressão de Minos jazia presa ao pilar central que adornava o salão como uma testemunha silenciosa de todos os seus passos.
O cônsul levantou os olhos do manuscrito contendo suas anotações e encarou a máscara dependurada. Já havia se passado alguns meses da morte de Minos, mas ainda o sentia por perto, como se ele fosse um fantasma revelando-se nos corpos que possuía.
Fechou os olhos levando a mão ao baixo-ventre, imaginando a mão de Minos sobre a sua,acariciando-o, tocando-o como a primeira vez que tinham fodido, ainda adolescentes.
Segurou seu falo com a mão direita, enquanto apertava os mamilos com a outra. Arqueou o corpo e iniciou um movimento de vai e vem sobre a extensão túrgida, os olhos presos na máscara, a respiração alterada...
O ritmo foi tornando-se vertiginoso,os mamilos eram apertados com força e os gemidos transformavam-se em sons roucos... O tempo deixou de existir e Hades deixou-se tragar pela voragem, pela máscara que parecia viva em meio ao orgasmo angustiante que o fez jogar a cabeça para trás e contorcer o corpo em um espasmo forte.
O nome de Minos escapou de seus lábios ao sentir o sêmen molhar seus dedos, envolvendo-os em viscosidade e calor...
Ficou um tempo movendo a mão para cima e para baixo, sentindo o corpo trêmulo e um vazio na alma. Um vazio que só podia ser preenchido com algo mais denso, algo capaz de suplantar a dor e o ódio que sentia.
— Humilhação...e morte. – murmurou entre dentes, quando enfim, não restava mais nenhum prazer e a imagem de todos que o haviam ferido e provocado, desfilou em sua mente doentia e vingativa.
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