A Curadoria do Silêncio

4 Rito de Purificação


O som da máquina de escrever não parou quando corremos para o corredor. Pelo contrário, o ritmo acelerou, frenético e violento, como se alguém estivesse batendo nas teclas não para escrever, mas para machucá-las.

Clack-clack-clack-clack.

Julian estava na minha frente, mas hesitou na porta do escritório. Eu não parei. A adrenalina tinha desligado meu senso de autopreservação e ligado o modo de coleta de dados. Se havia alguém ali, eu precisava ver o rosto. Eu precisava de um fato, não de um eco.

Empurrei Julian para o lado e chutei a porta dupla, que bateu contra a parede com um estrondo.

O ruído da máquina cessou no mesmo instante.

Minha mão encontrou o interruptor na parede, mas, novamente, a luz não acendeu. O escritório estava mergulhado em sombras, cortadas apenas pela luz fraca que vinha do corredor atrás de nós.

— Quem está aí? — gritou Julian, a voz falhando uma oitava acima do normal.

Ninguém respondeu. Mas a sala não estava silenciosa.

Havia o som do vento. Um uivo constante, úmido e frio, que não deveria estar ali dentro. E o som de tecido batendo violentamente.

Apontei a lanterna do meu celular para o fundo da sala.

A enorme janela panorâmica, que dava para o penhasco, estava escancarada. As cortinas pesadas de veludo dançavam loucamente com a tempestade que invadia o ambiente, chicoteando as estantes de livros e derrubando pilhas de papel no chão molhado.

— A janela — apontei. — Ele saiu por ali.

— Ali? — Julian correu até o peitoril, debruçando-se para olhar para fora, ignorando a chuva que encharcava sua camisa instantaneamente. — Noa, tem uma queda de cinco metros até o terraço de pedra lá embaixo, e depois o penhasco. Ninguém pularia daqui. É suicídio.

Aproximei-me, iluminando o batente da janela.

— Não se você souber o que está fazendo — murmurei, passando o dedo pela tranca de latão.

Estava retorcida. Havia marcas profundas no metal, ranhuras prateadas onde a tinta tinha sido arrancada.

— Foi forçada — constatei, catalogando o dano mentalmente. — Alguém usou um pé-de-cabra ou uma chave de fenda reforçada. De fora para dentro.

Julian recuou da janela, fechando-a com força e girando a tranca quebrada, o que foi inútil. Ele empurrou uma poltrona pesada contra o vidro para mantê-lo fechado.

— Então não era um fantasma — disse ele, passando as mãos pelos cabelos molhados. — Era alguém real. Alguém que escalou a fachada de uma mansão na chuva só para... para quê? Escrever um bilhete?

Virei-me para a mesa de Arthur Thorne.

A máquina de escrever estava lá, no centro da mesa, exatamente como antes. Mas agora, brilhava com a umidade da chuva que entrara pela janela.

E, claro, havia um novo papel no rolo.

Desta vez, não precisei me inclinar para ler. A mensagem era curta, escrita em letras maiúsculas, com tanta força que o "O" e o "P" tinham furado o papel.

Iluminei o texto com meu celular. Julian leu por cima do meu ombro, sua respiração quente e irregular no meu pescoço.

"A ARQUIVISTA DESENTERROU O QUE DEVERIA APODRECER. O FOGO LIMPA O QUE A ÁGUA NÃO CONSEGUIU ESCONDER."

Fiquei encarando as palavras. O que a água não conseguiu esconder. Era uma referência direta à cisterna. Ao corpo de Clara Vane que nunca foi encontrado porque estava submerso.

— Eles sabem — sussurrei. — Quem quer que seja, sabe que lemos o Manuscrito Zero. Sabem que descobrimos sobre a cisterna.

— Como? — perguntou Julian, olhando ao redor da sala escura como se as estantes tivessem olhos. — Nós lemos aquilo há dois minutos na sala de estar. Como o invasor saberia o que estávamos lendo?

— Escutas — respondi, minha mente voltando ao Capítulo 8 do meu próprio medo. — A casa deve estar grampeada. Ou eles estavam nos observando pela fresta da janela o tempo todo.

Julian soltou um palavrão e se afastou da mesa.

— Temos que sair daqui, Noa. Agora. Vamos pegar o carro e...

Ele parou. Ele franziu o nariz, aspirando o ar.

Eu senti também. O cheiro invadiu o escritório, sobrepondo-se ao odor de chuva e papel velho. Não era o cheiro de tabaco de Elias, nem o de mofo da casa.

Era um cheiro acre, químico e quente.

— Você está sentindo isso? — perguntou Julian, a voz sumindo.

— Fumaça — respondi.

Corri para fora do escritório, de volta ao corredor. O cheiro era mais forte ali. Vinha da porta ao lado, a entrada para a biblioteca principal, que ficava parede a parede com o escritório.

Uma luz laranja, trêmula e viva, dançava por baixo da porta fechada.

— Julian! — gritei. — Fogo!

A mensagem na máquina não era uma ameaça futura. Era um aviso imediato. "O fogo limpa."

O rito de purificação já tinha começado.

Julian congelou. Seus olhos refletiam o brilho alaranjado que escapava pela fresta da porta, arregalados de um pavor infantil. Para ele, aquela casa não era apenas madeira e pedra; era o peso de três gerações, e agora estava sendo consumida.

— Está queimando — balbuciou ele. — A biblioteca inteira...

— Não inteira. Ainda não. — Minha voz saiu cortante, automática. O pânico tentou subir pela minha garganta, mas eu o soquei de volta para baixo. — Onde estão os extintores?

— Eu... eu não sei. Acho que na cozinha.

— Longe demais. — Minha mente varreu o inventário visual que eu fizera ao chegar no Hall de Entrada quatro horas atrás. Tapete persa. Aparador de carvalho. Espelho manchado. E, num nicho discreto perto do vão da escada... — Tem um embaixo da escada. Pó químico, classe ABC.

Não esperei por ele. Corri pelo corredor, minhas botas escorregando no piso encerado. O cheiro de fumaça ficava mais denso a cada segundo, transformando o ar em veneno. Alcancei o nicho, arranquei o cilindro vermelho do suporte e verifiquei o manômetro. O ponteiro estava no verde. Graças a Deus pela obsessão de Arthur com a manutenção.

Voltei correndo. Julian ainda estava parado diante da porta da biblioteca, com a mão estendida para a maçaneta, tremendo, sem coragem de tocar o metal quente.

— Afaste-se! — gritei.

Ele pulou para o lado. Tirei o pino de segurança do extintor, segurei a mangueira com firmeza e chutei a porta.

O calor nos atingiu como um soco físico.

A biblioteca não estava totalmente em chamas, mas o canto perto da janela leste era um inferno em miniatura. As cortinas tinham desaparecido, consumidas pelo fogo que agora lambia vorazmente uma estante de mogno repleta de primeiras edições. No chão, uma poça de líquido inflamável ardia com chamas azuis e alaranjadas, espalhando-se perigosamente em direção ao tapete central.

Havia cacos de vidro espalhados no meio do fogo. Um coquetel molotov.

— Os livros! — gritou Julian, fazendo menção de entrar para puxar uma pilha de volumes que estava perigosamente perto do fogo.

— Não seja idiota! — Agarrei o braço dele com minha mão livre e o puxei para trás com força. — Fique atrás de mim!

Apontei o bico do extintor para a base das chamas e apertei o gatilho.

O som foi ensurdecedor — um shhhhuuuuuum violento — enquanto o jato de pó branco explodia sobre o fogo, sufocando o oxigênio. A nuvem química encheu a sala instantaneamente, cegando-nos, entrando nos nossos narizes e bocas com um gosto de giz e amônia.

Avancei, varrendo o fogo de um lado para o outro, metódica, implacável. Base da chama. Varredura lateral. Avançar.

O fogo revidou por um momento, subindo pelas lombadas de couro dos livros, mas o pó químico era implacável. As chamas laranjas foram substituídas por fumaça negra e cinza. O calor diminuiu.

Quando o extintor cuspiu seu último jato, o silêncio voltou, quebrado apenas pelo chiar de madeira carbonizada e pela nossa tosse desesperada.

A fumaça branca do pó se misturava com a fumaça negra do incêndio, criando uma névoa espessa.

— Janelas — tossi, cobrindo a boca com a manga do casaco. — Abra as outras janelas. Precisamos respirar.

Julian, com o rosto manchado de fuligem e lágrimas, tropeçou até as janelas do lado oposto, abrindo-as para a tempestade. O vento frio entrou, dissipando lentamente a nuvem tóxica.

Aproximei-me do local do impacto. O cheiro de gasolina era inconfundível, penetrante, sob o odor de papel queimado.

No chão, entre a fuligem negra e o pó branco do extintor, brilhavam os restos de uma garrafa de vidro verde.

— Eles não queriam apenas nos assustar, Julian — falei, minha voz rouca pela fumaça. — Eles tentaram queimar a biblioteca. Tentaram queimar as provas.

Julian encostou-se em uma estante intacta, deslizando até sentar no chão. Ele olhou para o buraco negro e carbonizado onde antes ficavam as obras completas de Shakespeare e Edgar Allan Poe.

— Eles quase conseguiram — sussurrou ele. — Se estivéssemos dormindo...

— Se estivéssemos dormindo, não teríamos acordado.

Soltei o extintor vazio no chão. O som metálico foi definitivo. O jogo tinha mudado. Não era mais sobre segredos e plágios. Era sobre sobrevivência.

Ficamos ali por um tempo indeterminado, ouvindo a chuva lavar o lado de fora enquanto o interior da casa cheirava a ruína. Julian passou a manga da camisa pelo rosto, borrando a fuligem com o suor frio. Ele parecia dez anos mais velho do que quando abriu a porta para mim, apenas algumas horas atrás.

Ele se levantou devagar, limpando as mãos nas calças.

— Você está demitida — disse ele, sem olhar para mim.

Pisquei, surpresa pela mudança repentina de tom.

— O quê?

— Você ouviu. — Ele apontou para a porta aberta, para o corredor escuro. — Pegue suas coisas, entre no seu carro e vá embora. Eu vou te pagar o dobro, o triplo, o que estiver no contrato. Mas você vai sair daqui agora.

— Julian, acabaram de tentar incendiar a casa com a gente dentro. Sair na estrada agora, no meio da tempestade, com alguém lá fora...

— É exatamente por isso! — Ele se virou para mim, gritando, a voz ecoando na biblioteca destruída. — Isso não é seu problema, Noa! Isso é a sujeira da minha família. É o legado podre do meu avô. Você é só uma arquivista que teve o azar de aceitar o emprego errado. Eu não vou carregar a morte de uma inocente na minha consciência. Já tem mortes demais nesta casa.

Ele estava tremendo. Não de frio, mas de uma fúria protetora, desesperada. Ele queria me salvar da única maneira que sabia: me afastando.

Caminhei até ele, ignorando a fuligem no chão.

— Você acha que eles vão parar se eu for embora? — perguntei calmamente. — Você acha que quem jogou aquele molotov vai ver meu carro saindo e pensar "Ah, tudo bem, a arquivista foi embora, vamos deixar o Julian em paz"?

— Eu me viro — ele retrucou, mas seus olhos cinzentos estavam cheios de medo.

— Não, você não se vira. — Dei um passo à frente, forçando-o a me encarar. — Você estava paralisado, Julian. Se eu não estivesse aqui, você estaria queimando junto com os livros.

Ele abriu a boca para protestar, mas fechou-a novamente. A verdade era um gosto amargo.

— E tem mais uma coisa — continuei, baixando a voz. — Eles escreveram um bilhete para mim. "A Arquivista desenterrou o que deveria apodrecer". Eu já sou parte disso. Se eu sair agora, eu sou uma ponta solta. E pontas soltas costumam ser cortadas.

Julian encostou a cabeça na estante chamuscada, fechando os olhos.

— O que nós fazemos, então? Chamamos a polícia?

Olhei para os restos da garrafa no chão.

— A polícia investigou o desaparecimento de Clara Vane por trinta anos e não achou nada. Seu avô era o homem mais rico da região. Elias Vane mora ao lado e tem todas as razões do mundo para nos odiar, mas se chamarmos a polícia agora, sem provas concretas, Elias vai dizer que é um acidente. Ou pior: a polícia local pode ser leal à memória de Arthur, não à verdade.

— Então estamos sozinhos — concluiu Julian, abrindo os olhos.

— Não — corrigi. — Estamos juntos.

Tirei meu celular do bolso. Ainda sem sinal para chamadas, mas a lanterna funcionava.

— Vamos fechar todas as janelas do térreo. Vamos empurrar móveis contra as portas. E vamos passar a noite no escritório.

— No escritório? — Julian estremeceu. — Com a máquina?

— É o cômodo mais seguro — expliquei. — Só tem uma entrada pelo corredor. E se alguém tentar entrar pela janela quebrada de novo, nós vamos ver.

Julian olhou para mim. Pela primeira vez, vi um traço de respeito substituir a hostilidade habitual. Ele viu que eu não estava ali apenas para organizar papéis. Eu estava ali para organizar o caos.

— Ok — concordou ele. — Mas eu fico com o atiçador da lareira.

— Justo.

Saímos da biblioteca, deixando o cheiro de queimado para trás, mas levando a fuligem em nossas roupas como pintura de guerra. Enquanto caminhávamos pelo corredor escuro para fortificar a casa, eu sabia que a Noa que entrara ali com luvas brancas e medo de manchas não existia mais.

Aquela Noa tinha sido arquivada. A nova Noa estava pronta para reescrever a história.