A Cura Milagrosa

1 Capítulo Único – O Preço Para Quebrar a Maldição


Notas iniciais
Primeira vez postando uma história no site novo.

Era mais uma manhã comum na casa da família Tendo. Ranma e Genma brigando pelo último bolinho de arroz, Akane gritando com o noivo para que ele não se atrasasse para a escola e Soun dizendo que era apenas uma típica discussão de casal. Até que, de repente, Shampoo invadiu a sala sem ser convidada, abraçando Ranma e fazendo com que Genma ficasse com o último bolinho de arroz.

Mais uma manhã comum.

— Nihao Ranma! Senti saudades! — Shampoo exclamou, ainda pendurada no pescoço do rapaz — Também sentiu minha falta?

— Eu te vi ontem, Shampoo — Ranma lembrou — E anteontem, e antes disso... você não cansa de me amolar? Por que não volta para a China de uma vez?

— E por que você não a solta de uma vez? — Akane jogou a tigela de arroz vazia no rosto do rapaz, fazendo com que Shampoo o soltasse.

— Você é cega? Foi a Shampoo quem me agarrou! — Ranma exclamou com irritação.

— E você bem que estava gostando, né? Não fez o menor esforço para soltá-la — Akane rebateu — Quer saber? Façam o que quiserem, eu vou para a escola — pegou sua mochila e partiu, batendo os pés com irritação.

— Espera, Akane! Eu preciso ir também! — o garoto pegou a mochila e correu atrás dela, mas foi interceptado no meio do caminho por Shampoo.

— Por que está indo atrás dela? — a garota perguntou.

— Estou indo para a escola — ele respondeu — E você deveria me deixar em paz e voltar para a China de uma vez.

— Que tal ir comigo?

— Para a China? Está brincando, né? — Ranma exclamou — Já disse várias vezes que não posso me casar com você só por causa das leis do seu vilarejo. Essa coisa de ter que se casar um homem e matar uma mulher quando é derrotada é meio antiquada, sabia?

— Você é metade homem e metade mulher, então fica difícil para mim.

— Eu sou um homem! — Ranma exclamou — Só me transformo em garota porque caí naquela fonte amaldiçoada, você sabe disso.

— Sim, a Fonte da Garota Afogada — Shampoo lembrou — Mas o que aconteceria se você mergulhasse na Fonte do Garoto Afogado?

— A Fonte... do Garoto Afogado? — Ranma repetiu, juntando as peças em sua cabeça.

— Como você nasceu homem, voltaria a ser um garoto por completo — Shampoo concluiu.

— Isso é sério, Shampoo? — Ranma a segurou pelos ombros — Posso mesmo voltar a ser um homem normal se fizer isso?

— É claro — ela sorriu confiante.

— É mesmo. Se me lembro bem, o Guia de Jusenkyo disse que havia mais de 100 fontes amaldiçoadas naquele lugar — ele recordou — Mas a China é muito longe! E uma passagem até lá deve custar... eu nem faço ideia — disse frustrado — Droga, eu teria que ir nadando como da primeira vez. Aquilo foi um pesadelo — sentiu um arrepio na espinha só de lembrar.

— Não precisa ir nadando. Eu te levo.

— O que? É sério? — Ranma sorriu. Mal podia acreditar que sua maldição realmente seria quebrada.

— É claro! Se você se casar comigo.

O sorriso de Ranma murchou. Ele devia ter desconfiado que teria um preço.


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Ranma pediu um dia para pensar na proposta, e Shampoo milagrosamente concedeu. Aquilo era o que ele mais desejou por muito tempo, voltar ao normal. Mas o preço era alto.

Estava deitado no telhado, observando as estrelas. Isso geralmente ajudava a organizar seus pensamentos, mas não estava funcionando dessa vez. Sua maldição poderia ser quebrada, mas, em troca, teria que se casar com Shampoo e morar na China pelo resto de sua vida.

Eram muitas coisas a se considerar. Primeiro que ele não falava mandarim, mas esse era o menor dos problemas. Se aceitasse a proposta de Shampoo, teria que deixar Akane. Bem, o noivado deles foi arranjado por seus pais desde o início. Aliás, o que será que seu pai pensaria sobre isso? Do jeito que era, se Shampoo oferecesse a chance do homem ir junto e quebrar sua maldição também, ele provavelmente aceitaria na hora.

Mas não era só isso. Embora Shampoo fosse bonita e doce, Ranma não gostava da garota desse jeito. Lá no fundo sabia que não queria desmanchar seu noivado com Akane. Mas queria tanto voltar a ser um homem completo novamente... o que deveria fazer?

— E aí? O que está esperando para aceitar a proposta da Shampoo? — Ryoga apareceu de repente no telhado.

— Ryoga? — Ranma sentou-se — Como ficou sabendo disso?

— Eu estava procurando a casa da Akane quando uma senhorinha que estava lavando a calçada jogou água em mim — fez uma careta.

— Ah, eu sei quem é. Ela faz isso todo dia comigo, parece que é de propósito — Ranma resmungou — Deixe-me adivinhar, você ouviu a conversa toda enquanto era um porco, depois a Akane te achou na rua e trouxe o P-chan para casa?

— Olha só, até que você é inteligente — Ryoga falou com sarcasmo — Por que não usa essa inteligência para aceitar a proposta da Shampoo? Você voltaria a ser um homem completo, não é isso que mais deseja?

— Engraçado ouvir isso de você. Achei que também quisesse voltar ao normal — o garoto observou.

— Ela não fez essa proposta para mim — Ryoga respondeu — Mas, já que você teve essa sorte, deveria aceitar.

— Ah, é claro. Assim o caminho fica livre para você conquistar a Akane, não é? — Ranma resmungou.

— Não se preocupe com ela, prometo que cuidarei muito bem da Akane — Ryoga respondeu.

— Lamento informar, mas para a Akane você sempre será apenas um animal de estimação.

— Por enquanto, talvez. Mas quem você acha que vai consolá-la quando você partir para a China com outra, hein? — Ryoga deu um sorriso torto — Com o tempo, ela vai passar a me ver com outros olhos.

— Só nos seus sonhos! — Ranma exclamou , colocando-se de pé— Escuta aqui, a Akane é minha noiva e eu jamais vou entrega-la a você!

— Não seja ridículo, esse noivado foi arranjado pelos seus pais. Pare de agir como uma garotinha teimosa e aceite logo a proposta da Shampoo!

— Você me chamou do que? — Ranma cerrou os punhos.

— Você me ouviu — o garoto sorriu, provocando-o — Seja homem e aceite logo a proposta dela. Ah, eu esqueci... você não é totalmente homem, né?

— Retire o que disse!

Ranma desferiu um soco contra ele, mas Ryoga desviou. Este chutou Ranma, mas o garoto saltou, acertando um chute no rosto de Ryoga dessa vez o golpeou um soco no estômago.

— Retire o que disse, Ryoga! Retire agora! — Ranma continuou desferindo uma série de socos enquanto o garoto desviava com certa dificuldade.

— Eu só disse a verdade — Ryoga provocou — Não tem como negar, Ranma, eu já te vi usando vestido — recordou, irritando-o ainda mais — Agora seja uma boa garota e aceite a proposta da Shampoo! — conseguiu dar uma rasteira em Ranma, jogando-o no lago que havia no quintal da casa.

— Você não tem nenhuma moral para falar de mim, Ryoga! — Ranma saiu do lago, transformado em garota — Seu porco nojento, acha que não sei o que você vive aprontando, hein P-chan?

— Quem está chamando de P-chan? — Ryoga saltou para o chão, irritado.

— Quem mais seria? — perguntou retoricamente — Seu porco tarado, sempre que está aqui dá um jeito de dormir com a Akane. O que mais? Fica com a cara enfiada nos peitos dela quando a Akane te abraça? Toma banho junto com ela também?

— Como ousa...? O que acha que eu sou? — Ryoga exclamou, o rosto vermelho.

— Um porco tarado, é isso que você é! — Ranma acusou.

— E de quem é a culpa por eu ter esse corpo amaldiçoado, hein?

— Isso eu não posso negar — Ranma admitiu — Mas não é culpa minha o fato de você ser um tremendo pervertido!

— Vocês dois já chega! — Akane surgiu no quintal, atraída pelo barulho — Por que estão sempre brigando afinal?

— É que o Ryoga...

— O Ranma vai casar com a Shampoo — falaram ao mesmo tempo.

— Como é? — Akane arregalou os olhos.

— Eu ouvi a Shampoo dizendo que quebraria a maldição dele se os dois se casassem — Ryoga resumiu, distorcendo levemente a proposta da garota.

— Não foi isso que aconteceu! — Ranma exclamou — Akane, eu não...

— Entendo... isso é bom, não é? — Akane falou de cabeça baixa — Você deve estar cansado de se transformar em garota. Que bom que achou um jeito de voltar ao normal.

— Akane, você entendeu errado...

— Não venha atrás de mim! — ela esbofeteou Ranma, os olhos lacrimejando — Você decidiu se casar com outra, o que significa que nosso noivado acabou — correu para dentro de casa.

— Droga... por que ela nunca deixa eu me explicar? — Ranma esfregava a bochecha dolorida.

— Vai ver você não inspira confiança — Ryoga opinou. Em resposta, recebeu um chute, caindo no lago.

— Você é que não é confiável — Ranma respondeu enquanto Ryoga, agora transformado em porco, grunhia irritado. Ranma subiu em uma das árvores do quintal e deixou Ryoga em um dos galhos mais altos — Espere aqui quietinho, ouviu? Tenho algo importante para resolver.


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Após tomar um banho e voltar ao normal. Ranma tirou coragem sabe-se lá de onde e bateu na porta do quarto de Akane. Ouviu um “pode entrar” e adentrou o cômodo, fechando a porta atrás de si.

— Ah, é você — Akane fez cara feia ao vê-lo. Pensou que fosse uma das irmãs.

— Akane, posso conversar com você um instan... o que esse porco faz aqui? — arregalou os olhos, surpreso ao ver Ryoga, ou melhor, P-chan no colo de Akane.

— Ele estava chorando sem parar no alto de uma árvore — ela contou o que Ranma já sabia — Não foi você quem o colocou lá, não é? — encarou o rapaz desconfiada.

— Eu? Como poderia? Estava no banho esse tempo todo — respondeu, fingindo-se de inocente.

— Ele subiu sozinho? Talvez o P-chan seja um prodígio! — Akane exclamou.

— Provavelmente — Ranma decidiu aproveitar o breve bom-humor dela — Enfim... posso conversar com você um instante?

— Bem, você já está aqui mesmo — ela voltou a amarrar a cara — O que foi?

— Hm... eu quis dizer em particular — Ranma encarava o porco fixamente.

— Fala sério, está incomodado com um porco? — Akane debochou. — Você é patético.

— Escuta aqui... — Ranma interrompeu-se e respirou fundo, tentando se controlar — Não acha que ele precisa esticar as patas um pouco? Você mesma disse que talvez ele seja um prodígio.

— Tem razão, ele está no colo há muito tempo — Akane admitiu. Levantou-se e colocou Ryoga no corredor, que grunhia em um pedido mudo para ficar no quarto — Vá dar uma volta P-chan, ou suas patas vão atrofiar. Só não vá muito longe — pediu, fechando a porta — Muito bem, o P-chan não está mais aqui. O que você quer?

— Explicar o que realmente aconteceu.

— Não precisa, eu já sei — Akane cruzou os braços — Você vai se casar com a Shampoo e em troca ela vai fazer com que você seja um homem por completo de novo.

— Eu não vou me casar com ela — Ranma falou.

— O que?

— A Shampoo disse que me levaria até a China de graça... você sabe como a China é longe e como passagens são caras né? — observou — E lá ela me levaria até Jusenkyo para que eu mergulhasse na Fonte do Garoto Afogado. Desse jeito, voltaria a ser um homem completo.

— Espera... isso é mesmo possível? — Akane descruzou os braços, os olhos arregalados. Estava tão zangada com a história de Ranma e Shampoo se casarem que sequer pensou em como a garota pretendia fazer com que ele voltasse ao normal.

— Eu caí na Fonte da Garota Afogada, por isso fui amaldiçoado e agora me transformo em mulher. Mas, como nasci homem, se eu mergulhar na Fonte do Garoto Afogado, poderia quebrar a maldição e ser um homem completo outra vez — Ranma explicou — Mas, em troca disso, a Shampoo quer que eu me case com ela.

— Entendi. Então realmente existe um jeito de quebrar a maldição — Akane comentou, surpresa e frustrada ao mesmo tempo.

Sabia o quanto aquela maldição incomodava Ranma. E, se havia um jeito de voltar ao normal, era compreensível que ele tentasse. Mas também significava que ia perdê-lo para outra garota. Que não iria vê-lo nunca mais.

Céus... por que estava tão triste? Nunca quis se casar com ele para início de conversa, aquele noivado foi decisão dos pais deles. Deveria ficar feliz por Ranma, que voltaria a ser um garoto normal novamente. E ela ficaria livre desse noivado. As coisas voltariam a ser como antes.

Uma casa quieta e tediosa.

— E o que você vai fazer? — surpreendentemente Akane não gritou nem bateu nele. Aquela era uma decisão importante e, dessa vez, Ranma tinha direito a escolha.

— Bom, eu preciso dar uma resposta à Shampoo.

— Eu sei disso — Akane elevou a voz algumas oitavas. Estava difícil manter a paciência — Estou perguntando o que você decidiu.

— Vou recusar a proposta dela.

— O que? — Akane arregalou os olhos.

— É uma oferta tentadora, eu admito, por isso demorei a responder — Ranma coçou atrás da cabeça — E eu sei que a Shampoo vai continuar me perseguindo mesmo depois de eu recusar a proposta dela, mas não importa. Eu já tenho uma noiva, e é você.

— Ranma... — Akane sentiu as bochechas queimarem — Tem certeza? Esse noivado foi decisão dos nossos pais.

— Isso é só um detalhe — ele respondeu. Na verdade era um detalhe importantíssimo — E eu posso conviver com isso, já estou acostumado.

— Mesmo? Você odeia quando se transforma em garota.

— Podia ser pior. Eu podia virar um porco, por exemplo — falou e ouviu grunhidos estridentes do outro lado da porta. É claro que Ryoga estava ouvindo a conversa — Ao menos continuo sendo um ser humano.

— É verdade — Akane sorriu. Em seguida apoiou as mãos nos ombros dele, escondendo o rosto no peito do rapaz — Obrigada, Ranma. Sei que deve ser difícil para você recusar uma oferta assim.

— Hm... de nada... — Ranma paralisou por um instante, se perguntando se podia abraçá-la. Decidiu apenas apoiar as mãos em suas costas, sem saber quanto tempo aquele abraço desajeitado iria durar.

Sabia que tinha tomado a decisão certa ao expulsar Ryoga do quarto.

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No dia seguinte, Shampoo apareceu na casa da família Tendo durante o café da manhã sem ser convidada mais uma vez.

— Nihao Ranma! — ela pulou em cima do rapaz, que tentou se esquivar, sem sucesso — Já tomou sua decisão? Posso comprar nossas passagens?

— Sim, ele já se decidiu. E ele não vai! — Akane colocou-se entre os dois, separando-os.

— O que? — Shampoo arregalou os olhos.

— É isso mesmo, Shampoo — Ranma confirmou — Sinto muito. Sua oferta é tentadora, mas não posso me casar com você.

— Mas Ranma, você voltaria a ser um homem completo novamente! — Shampoo exclamou — Não é isso que você quer?

— É claro que eu quero! — ele exclamou de volta — Mas não posso me casar com você por causa disso. Para início de conversa, você só cismou com essa ideia de casar comigo por causa daquela lei antiquada da sua vila.

— Não importa! Eu sou sua noiva e nós vamos nos casar! — Shampoo insistiu.

— Ah, é? Pois fique sabendo que eu fiquei noiva dele primeiro — Akane se intrometeu — É melhor você desistir e voltar para casa.

— Só vou voltar quando Ranma for junto — Shampoo rebateu — E só porque ganhou essa batalha, não significa que venceu a guerra, ouviu Akane? — acrescentou, deixando a sala — Droga, jurava que essa história da Fonte do Garoto Afogado ia dar certo... o que vou ter que inventar para o Ranma vir comigo? — saiu resmungando.

— Ei, espera aí! — Ranma correu até o jardim, parando de frente para Shampoo — Quer dizer que era tudo mentira? Não existe uma Fonte do Garoto Afogado?

— Como vou saber? Têm mais de 100 fontes lá — Shampoo deu de ombros — Até mais, Ranma! — sorriu, deixando a casa e sumindo de vista.

— Então... não existe cura — Ranma caiu de joelhos no chão, desolado — Aquela miserável me enganou.

Qualquer fio de esperança que houvesse de voltar ao normal desapareceu. Ranma sentiu como se alguém tivesse jogado um balde de água fria nele.

E de repente alguém jogou mesmo.

— Ryoga! Por que fez isso? — Ranma exclamou, transformado em garota.

— Ora, não fique com essa cara deprimida — suas palavras eram de consolo, mas a expressão era de deboche — Poderia ser pior, não é? Você poderia se transformar em um porco — repetiu as palavras ditas por Ranma ontem — Ao menos você continua sendo humano. Só vira uma garotinha delicada...

— Quem você está chamando de garotinha delicada, seu porco safado? — Ranma deu uma rasteira nele — Retire o que disse!

— Por que? Prefere garotinha frágil?

— Cale a boca! Eu sou um homem! — Ranma atacou novamente.

Akane suspirou, sabendo que aquela luta não acabaria tão cedo. Pegou sua mochila e foi para a escola na frente. Parte dela estava triste por saber que realmente não havia cura para a maldição de Ranma. E a outra parte estava extremamente feliz. Mesmo sem saber que era impossível quebrar a maldição, Ranma escolheu ficar ao lado dela. Talvez no fundo o noivo realmente gostasse dela... e, mesmo não admitindo, Akane sabia que gostava dele.

Akane deixou a casa ainda ouvindo os xingamentos desferidos um contra o outro. Apenas mais uma manhã comum na casa da família Tendo.


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