A Cura
29 Um lugar assustador
Notas iniciais

Jimin abriu os olhos lentamente, piscando contra a luz. Sua mente ainda estava enevoada, um torpor pesado o prendia ao colchão. A cabeça latejava em um ritmo sufocante, e seu corpo parecia frágil demais para se mover.
Ele se lembrou vagamente de uma conversa. A voz de um homem de sotaque peculiar ecoava em sua mente, alguém que ele conhecia bem. Mas teria sido real? Ou apenas um desvio distorcido pela exaustão? As palavras trocadas apenas entrelaçadas a lembranças que ele nunca ousara compartilhar, nem mesmo com seu próprio pai. Aquilo não poderia ser verdade. Deveria ser apenas um sonho, ou um delírio passageiro. Nada era real.
Ele tentou abrir os olhos, mas uma luz forte ofuscava sua visão, tornando impossível enxergar qualquer coisa com clareza. Piscando repetidamente, tentou se acostumar ao brilho incômodo da luz na sua direção, até que, aos poucos, as figuras começaram a tomar forma ao seu redor. Quatro pessoas estavam ao seu redor, todos usando jalecos brancos, máscaras e luvas.
Elas conversavam entre si, mas as palavras soavam distantes, incompreensíveis. Falavam em um idioma que Jimin não reconhecia, ou talvez sua mente estivesse tão desnorteada que o impedisse de assimilar qualquer coisa. O pânico cresceu em seu peito conforme a sensação de imobilidade se tornou real.
Tentou mover os braços, mas algo os mantinha presos. Algemas. Suas pernas, amarradas com cordas, também estavam imobilizadas. Foi então que um choque de adrenalina percorreu seu corpo, e ele se despertou por completo. Os olhos se arregalaram, e, tomado pelo desespero, Jimin começou a se debater violentamente contra suas amarras.
— ME SOLTEM! — Jimin gritou, a voz embargada pelo desespero. — PAPAI! KOOKIE! SOCORRO!
Seus olhos arregalados se fixaram nos homens ao redor de sua cama. Eles o observavam com uma calma perturbadora, murmurando entre si em um idioma que ele não conseguia entender.
— QUEM SÃO VOCÊS? ME SOLTEM! — Ele moveu os pulsos com força, tentando se libertar das algemas, mas tudo o que conseguiu foi sentir a dor cortante do metal contra sua pele.
O coração martelava em seu peito, o medo queimando em suas veias. Respirando com dificuldade, ele tentou assimilar onde estava. O ambiente ao seu redor era assustador, frio e impessoal. As paredes brancas, os móveis impecavelmente organizados, tudo remetia a um consultório médico.
Seu olhar desceu para si mesmo. Vestia uma camisola hospitalar, fina e desconfortável. Foi então que notou algo ainda pior. Um acesso intravenoso no dorso de sua mão, ligado a uma bolsa de medicamento suspensa ao lado da maca. Algo estava sendo injetado em seu corpo. E ele não fazia ideia do que era.
Não sabia como tinha ido parar ali, só se lembrava que estavam sendo perseguidos por alguns carros quando voltava da faculdade, depois disso sua mente apagou. O desespero tomava conta de seu corpo, a única coisa que conseguia fazer era gritar chamando pelo pai e por Jungkook.
Ao perceberem o pânico de Jimin e seus esforços inúteis para se soltar, um dos médicos se aproximou com uma seringa nas mãos. Sem hesitar, deslizou a agulha em sua pele.
— N-não…! — Jimin soluçou, o medo transbordando em lágrimas. Ele não sabia o que estava injetando em seu corpo, e isso era assustador.
Seu coração acelerado foi aos poucos desacelerando. O desespero ainda queimava dentro de si, mas suas forças estavam se esvaindo rapidamente. O mundo ao seu redor começou a girar, e a última coisa que viu foi o olhar frio dos homens diante dele.
Então, tudo escureceu.
…
Jimin despertou de súbito, seu corpo ainda pesado e entorpecido pelos medicamentos, mas o som ao seu redor era impossível de ignorar. Uma explosão estrondosa ecoou pelo ambiente, seguida por um barulho ensurdecedor que fazia tudo tremer. Seu coração disparou.
Ele tentou se mover, instintivamente buscando se soltar, mas as amarras permaneciam firmes. Seus pulsos latejavam, marcados pelas tentativas anteriores de fuga.
Foi então que notou o teto, o gesso rachava, pedaços se desprendendo e caindo ao seu redor. A luz piscou freneticamente, emitindo faíscas até que, com um estalo seco, se apagou de vez.
O escuro tomou conta do quarto, exceto por um brilho fraco que vinha da porta entreaberta. O ar cheirava a poeira e queimado. Algo estava acontecendo lá fora. Algo perigoso.
— ALGUÉM ME TIRA DAQUI! — Jimin gritou, sua voz ecoando pelo quarto escuro.
Do lado de fora, o corredor estava tomado pelo caos. Pessoas corriam de um lado para o outro, os passos apressados reverberando pelo chão frio. Ele conseguiu distinguir várias delas vestindo jalecos brancos, reforçando a suspeita de que estava em um hospital… ou algo parecido.
Mas ninguém parava. Ninguém sequer olhava em sua direção.
— Por favor! — sua voz se quebrou em desespero. — Alguém me tire daqui!
Lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ele implorava para quem quer que pudesse ouvi-lo. Mas, preso naquela maca, cercado pela penumbra e pelo pavor crescente, Jimin começou a temer que ninguém viria.
Jimin permaneceu ali por longos minutos, chorando baixinho enquanto tentava assimilar o caos ao seu redor. Sua respiração estava acelerada, e o peito subia e descia de forma descompassada. O cheiro de queimado impregnava o ar, vindo do corredor, e ele se perguntou se aquela era a causa da explosão que ouvira mais cedo.
Tentou se acalmar, mas era impossível. Seu coração martelava contra o peito, como se quisesse escapar de seu corpo. Ele não sabia onde estava, que dia era ou há quanto tempo estava ali. Na verdade, nem sequer sabia se era dia ou noite, pois o quarto não tinha janelas. A única luz vinha da porta entreaberta, projetando sombras inquietantes nas paredes.
Olhando ao redor, percebeu a desordem no cômodo. Alguns móveis estavam tombados, papéis espalhados pelo chão como se alguém tivesse saído às pressas. Um armário de vidro havia caído de lado, e os cacos brilhavam no escuro, misturados a frascos quebrados de medicamentos. O ambiente antes limpo e organizado agora parecia um cenário de desastre.
Algo terrível havia acontecido ali. E Jimin ainda estava preso no meio de tudo.
A porta rangeu ao se abrir lentamente, e Jimin sentiu uma centelha de esperança acender dentro de si. Seus olhos brilharam ao ver a silhueta de alguém entrando.
— Que bom que alguém veio! O que está acontecendo? Pode me tirar daqui? — Sua voz transbordava alívio e desespero ao mesmo tempo.
Mas a resposta não veio.
O rapaz entrou com a cabeça baixa, os passos irregulares, mancando de um jeito estranho. Seu corpo parecia pesado, como se cada movimento exigisse um esforço imenso. Jimin notou que ele não olhava para frente, nem parecia consciente do ambiente ao seu redor.
Então, ele grunhiu. Um som rouco e gutural escapou de sua garganta, um ruído animalesco que fez um arrepio percorrer a espinha de Jimin.
— Olá? — Jimin chamou hesitante, seu coração apertando. Tentou se soltar novamente, agora sentindo um frio na barriga. Algo estava errado com aquele homem.
— Você… está bem? — Ele perguntou, mas o homem não respondeu. Apenas continuou avançando, lentamente, ainda sem erguer o rosto. Cada passo que ele dava fazia o medo de Jimin crescer.
A pouca iluminação que invadia o quarto revelou algo que fez o sangue de Jimin gelar. O jaleco branco do rapaz estava coberto de manchas escuras e irregulares. Sangue. Muito sangue.
O pânico se intensificou, e ele começou a se debater com mais força, tentando se soltar da maca de qualquer jeito. Seu corpo inteiro tremia, o coração pulsando tão rápido que parecia prestes a explodir.
Em um movimento desesperado, conseguiu soltar um dos pés. No exato momento em que recuperava um resquício de controle sobre a situação, o homem se lançou sobre ele.
O choque o fez perder o fôlego. Mãos frias e pegajosas agarraram seu pescoço com força, prendendo-o contra o colchão. O terror absoluto tomou conta de seu corpo ao ver, enfim, o rosto daquele ser.
Ou o que restava dele.
A pele do rapaz estava derretendo em sua face, expondo músculos e ossos em carne viva. Um de seus olhos havia caído, deixando apenas uma órbita vazia e ensanguentada. Onde antes deveria haver uma bochecha, agora havia um buraco escancarado, revelando toda sua arcada dentária.
O outro olho, o único que ainda permanecia em seu rosto, era um espetáculo grotesco por si só. Sua íris estava completamente branca, sem qualquer sinal de pupila. O globo ocular, que deveria ser branco, agora exibia um tom esverdeado com pequenas veias estouradas.
Era uma visão saída dos piores pesadelos.
Jimin tentou gritar, mas o aperto em seu pescoço fez o som morrer em sua garganta. Tudo que conseguia fazer era se debater, sentindo o desespero tomar conta de cada célula do seu corpo.
O rapaz estava fora de si. Seus movimentos eram frenéticos, descontrolados, e sua boca se abria e fechava de forma faminta, mirando diretamente a jugular de Jimin.
O instinto de sobrevivência tomou conta. Com a única perna que havia conseguido soltar, Jimin se contorceu e a posicionou entre eles, apoiando o pé contra o peito do homem desfigurado. Com todas as forças que ainda lhe restavam, empurrou-o para longe.
O impacto fez o rapaz cambalear para trás e colidir violentamente contra a porta.
Jimin respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo em pavor absoluto. Mas seu alívio durou apenas um instante.
O homem se ergueu devagar, seus movimentos erráticos, como se seus ossos e músculos não respondessem corretamente. Não demonstrava dor, nem hesitação. Apenas uma fome cega e brutal.
Ele avançou novamente.
Jimin sentiu seu estômago revirar. Aquilo diante dele não era mais um ser humano. Não podia ser. A carne apodrecida pendendo do rosto, a ausência de qualquer traço de sanidade nos olhos esbranquiçados e aquele cheiro. O fedor pútrido tomava conta do ar, um cheiro nauseante de morte e carne em decomposição. Era tão forte que Jimin quase vomitou.
Jimin olhou para a algema em seu pulso, o metal frio agora manchado com seu próprio sangue. A dor pulsante em sua pele era prova de suas tentativas desesperadas de se soltar, mas aquilo não havia sido suficiente.
Ele engoliu em seco, o coração martelando em seu peito. O tempo estava se esgotando. A criatura à sua frente estava prestes a atacá-lo de novo, e se ele não agisse agora… seria o fim.
Foi então que uma ideia terrível lhe ocorreu. Uma ideia dolorosa. Brutal. Mas era sua única chance.
Jimin respirou fundo, tentando reunir coragem. Seu olhar fixou-se na algema, e ele moveu a mão, testando os limites do que poderia suportar.
— Isso vai doer… e não vai ser pouco… — murmurou para si mesmo, sentindo o suor frio escorrer por sua testa.
Suas mãos tremiam, mas ele não tinha escolha.
— Na verdade, vai ser uma dor excruciante… — continuou, forçando um sorriso fraco, tentando se convencer de que conseguiria.
Fechou os olhos por um segundo, tentando reunir forças.
— Você consegue, Jimin… Você consegue! — sussurrou, preparando-se para a pior dor que sentiria. E então, com um último suspiro trêmulo, ele fez o que precisava ser feito.
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