A Cura
24 O Contrato

Jungkook e Jimin viviam uma das fases mais doces do relacionamento. Estavam completamente apaixonados, envolvidos um com o outro de um jeito mágico, como se carregassem faíscas no olhar. Já fazia mais de um ano que estavam juntos e, ao contrário do que muitos diziam sobre o tempo esfriar as coisas, entre eles parecia acontecer o oposto: a cada dia, o sentimento só crescia.
Jimin amava Jungkook com uma intensidade quase inquieta. Queria estar perto dele o tempo todo, compartilhar cada momento, cada pensamento, cada pequena parte do dia. Ainda assim, tentava se conter para não parecer tão dependente quanto sentia que era. Mas, quando finalmente tinham tempo só para os dois, ele não economizava. Se entregava por completo, sem medo, sem reservas, como quem sabe exatamente onde pertence.
Para Jungkook, Jimin era tudo. Era o ponto de luz em meio ao caos, a razão de tantos sorrisos sinceros. Ver Jimin feliz era como dar cor ao próprio mundo. Ele queria proteger aquele sorriso, guardá-lo, como se fosse algo raro e insubstituível. Mesmo quando estavam longe, Jimin nunca saía de seus pensamentos. Se perguntava se ele havia comido bem, se tinha dormido direito… e, muitas vezes, se perdia em pensamentos e fantasias que envolviam apenas os dois. Jungkook nunca imaginou que seria capaz de amar alguém daquela forma.
Mas havia uma sombra constante por trás de tudo aquilo. As mentiras de Jungkook.
E aquelas mentiras cresciam dia após dia, como uma bola de neve descendo uma montanha, cada vez maior, mais pesada e mais difícil de conter. No fundo, a única coisa verdadeira que Jimin sabia sobre ele era seu nome. Todo o resto era uma construção, uma história inventada, um roteiro cuidadosamente criado por Namjoon.
Jungkook queria apenas viver aquele amor de forma leve e sem medo. Queria ser feliz ao lado de Jimin sem carregar aquela culpa que o acompanhava em silêncio. Mas não conseguia ignorar o incômodo. Às vezes, acordava no meio da noite, suando frio, depois de sonhos em que Jimin descobria tudo e ia embora.
Ele sabia que amar também era ser honesto e verdadeiro. E justamente por isso, aquela situação o consumia por dentro. Queria que Jimin o amasse por quem ele realmente era, sem máscaras, sem histórias inventadas. Queria contar tudo, mas não podia. Namjoon havia deixado isso claro. E assim, Jungkook seguiu, deixando o tempo correr, mesmo sabendo que, quanto mais o tempo passava, mais difícil seria impedir que tudo desmoronasse.
…
Numa tarde de sábado, Jungkook caminhava pelo shopping com o coração leve e inquieto ao mesmo tempo. Havia uma energia diferente nele, quase como se cada passo estivesse o levando para algo maior, algo definitivo. Naquele dia, tinha tomado uma decisão: queria pedir Jimin em casamento.
Mas, antes de qualquer coisa, precisava fazer o certo.
Já havia planejado tudo em sua mente inúmeras vezes. Primeiro, contaria toda a verdade. Sem esconder nada, sem suavizar, sem fugir. Estava preparado para o pior: ver o olhar de Jimin mudar, para ouvir um “não”, para talvez nunca mais poder tocá-lo. A ideia doía só de imaginar. Ainda assim, havia uma esperança teimosa dentro dele, pequena, mas resistente, de que, com o tempo, Jimin pudesse perdoá-lo. E, quando esse dia chegasse, ele queria estar pronto.
Foi com esse pensamento que entrou em uma joalheria. Seus olhos passeavam pelas vitrines, analisando cada detalhe das jóias. Não queria qualquer aliança. Queria A aliança. Depois de algum tempo, encontrou.
Era uma peça delicada, feita em ouro com detalhes em ouro branco, harmoniosa, elegante, com um brilho discreto que parecia dizer mais do que qualquer ostentação. Simples na medida certa, sofisticada sem esforço.
— É essa… — murmurou para si mesmo, sentindo o peito aquecer.
Pegou as alianças e começou a experimentá-las, um sorriso escapando sem controle.
“Tenho certeza que meu Jimin vai amar”.
Seus pensamentos se suavizaram, quase como um suspiro.
“Mal posso esperar pra colocar isso naquele dedinho pequeno e gordinho”.
A imagem veio tão nítida que ele quase riu sozinho ali no meio da loja.
“Ah… meu Jimin é tão fofo”.
E, naquele instante, Jungkook sorria como alguém que já enxergava um futuro inteiro, mesmo sem saber se teria a chance de vivê-lo.
Depois de comprar as alianças, Jungkook almoçou rapidamente em um restaurante, mal prestando atenção no que comia. Sua mente ainda estava presa ao futuro que havia imaginado minutos antes. Assim que terminou, voltou a andar pelo shopping, entrando em outras lojas com um objetivo diferente.
“Claro que não vou pedir ele em casamento hoje… ainda tenho muita coisa pra resolver”, pensou.
“Mas quero levar algo pra ele. Coisas que sei que ele ama”.
Sorriu sozinho, balançando a cabeça.
“Eu sou muito bobo com meu namorado.”
Entrou em uma loja de presentes e não demorou para encontrar um ursinho rosa, pequeno e extremamente fofo, exatamente o tipo de coisa que Jimin adorava colecionar. Pegou sem hesitar. Depois passou em uma chocolateria e escolheu bombons artesanais, cuidadosamente embalados em uma caixa retangular elegante, envolta por um laço vermelho. Por fim, parou em uma floricultura. Ali, seus passos desaceleraram.
Escolheu um buquê de rosas brancas e vermelhas, equilibradas em contraste, delicadas e intensas ao mesmo tempo, como o próprio sentimento que carregava. Aproximou o rosto das flores e inspirou o perfume suave, fechando os olhos por um instante.
Um sorriso leve e sonhador escapou de seus lábios.
“Quero ir pro meu Chim logo”.
Com o coração apressado, Jungkook seguiu em passos rápidos até o estacionamento. Entrou no carro, acomodou os presentes com cuidado no banco ao lado e deu a partida. Enquanto dirigia em direção à casa de Jimin, levava consigo muito mais do que flores, doces e um ursinho. Levava um amor inteiro.
Assim que chegou, Jungkook mal esperou a porta se abrir completamente. Quando Jimin apareceu, ele o puxou para um abraço apertado, daqueles que parecem querer dizer tudo sem precisar de palavras. Jimin riu baixinho, surpreso, mas correspondeu na mesma intensidade.
Jungkook se afastou devagar e, ainda com um leve traço de timidez no olhar, estendeu o buquê em sua direção.
— Pra você…
— Pra mim? — Jimin repetiu, os olhos brilhando imediatamente.
Pegou as flores com cuidado, pois era algo muito precioso e delicado. Levou o rosto até elas, inspirando o perfume com um sorriso que se abria aos poucos. Não era a primeira vez que Jungkook lhe dava flores, mas a sensação era sempre a mesma, como se fosse a primeira, como se aquele gesto nunca perdesse o encanto.
— Obrigado, amor… eu amei muito — disse, puxando Jungkook pela mão livre para um beijo demorado. Só se afastou quando o ar começou a faltar. — Vou colocar em um jarro com água.
Jimin caminhou até a mesa, pegou um jarro e arrumou as flores com um cuidado carinhoso, ajustando cada haste como se estivesse organizando um pequeno tesouro. Quando voltou, Jungkook já o esperava com outro sorriso, e mais uma surpresa nas mãos.
— Comprei mais isso também…
Entregou, meio sem jeito, a sacola rosa com o ursinho e a caixa de bombons.
Jimin abriu a sacola e, no instante em que viu o ursinho, seus olhos se iluminaram de um jeito quase infantil.
— MEU DEUS, UM URSINHO! EU AMO URSINHOS! — exclamou, puxando o bichinho para o peito e o abraçando com força.
Jungkook riu, completamente encantado com a reação.
— Eu sei que você ama… por isso comprei.
E ali estava ele de novo, sorrindo como alguém que já tinha tudo só por ver Jimin feliz.
— Você é o melhor namorado do mundo! — Jimin disse, dando mais um selinho rápido antes de voltar sua atenção para a sacola. — Olha, tem mais coisa!
Ele abriu a caixa de bombons, os olhos brilhando de animação.
— CHOCOLATE! Eu amo chocolate!
— Trouxe pra você, amor… e é o seu favorito, com nozes — Jungkook respondeu, pegando um dos bombons, retirando a embalagem com cuidado e levando até a boca de Jimin.
Jimin aceitou, fechando os olhos por um instante ao sentir o gosto.
— Huuumm… Kookie, que delícia! Quer experimentar?
— Não, não… comprei pra você. Eu não gosto muito de doce.
Jimin arqueou uma sobrancelha, com um sorriso travesso surgindo aos poucos.
— Você não sabe o que tá perdendo… mas acho que conheço um jeito de fazer você gostar.
Antes que Jungkook pudesse responder, Jimin o puxou pela camisa e encostou seus lábios nos dele, num beijo lento e doce, literalmente doce. O gosto de chocolate se misturava ao calor do momento, e Jungkook, que sempre dizia não gostar de doces, percebeu que talvez existissem exceções.
Quando se afastaram, Jimin manteve o sorriso e se aproximou novamente para passar a língua pelos lábios de Jungkook de forma provocante.
— E então… gostou?
Jungkook soltou uma pequena risada, mas seu olhar estava intenso.
— Pelas reações do meu corpo… acho que posso dizer que sim.
Ele o puxou de volta, aprofundando o beijo, como se quisesse confirmar aquilo mais uma vez.
Depois, acabaram no sofá, ainda agarrados, dando uns amassos, como se a distância entre eles simplesmente não fizesse sentido. Jimin se acomodou no colo de Jungkook sem pensar duas vezes, envolvendo-o com facilidade, enquanto continuavam trocando beijos demorados, cheios de saudade acumulada mesmo sem motivo.
Jimin não queria sair dali. Queria aproveitar cada segundo, cada toque, cada instante ao lado dele. E Jungkook… bem, Jungkook definitivamente não reclamava nem um pouco daquele gosto de chocolate.
Depois de algum tempo, Jungkook deslizou as mãos pelas coxas de Jimin, puxando-o para mais alguns beijos demorados, como se tivesse dificuldade em se afastar.
— Preciso falar com seu pai… — murmurou entre um beijo e outro. — Depois eu volto pra você… pra gente aproveitar mais.
Ele se inclinou e deu um beijinho na ponta do nariz de Jimin, com um sorriso suave.
— Eu vou morrer de saudade se você sair… — Jimin respondeu, fazendo um biquinho manhoso. — Promete que não vai demorar?
— Prometo. Vou ser bem rápido.
— Então tá bom… eu deixo.
O tom manhoso na voz de Jimin, fez Jungkook hesitar por um segundo. Ele queria mais do que tudo ficar ali, com Jimin, aproveitando aquele carinho aconchegante. Mas sabia que precisava ir.
— Vai ser rapidinho mesmo — disse, levantando-se com cuidado e ajeitando Jimin no sofá. Antes de sair, inclinou-se mais uma vez e roubou outro beijo. — Te amo, Jimin.
— Eu também te amo, Kookie — Jimin sorriu, acompanhando com o olhar enquanto ele subia as escadas em direção ao escritório de Namjoon.
Assim que ficou sozinho, Jimin pegou o celular, ainda sorrindo, e começou a tirar fotos das flores, encantado como se fossem o presente mais precioso do mundo. Escolhia ângulos, ajustava a luz, postava tudo nas redes sociais com orgulho.
Ficou tão distraído entre fotos, comentários e os próprios pensamentos apaixonados que perdeu completamente a noção do tempo.
Quando finalmente deu por si, franziu a testa. Já havia se passado quase meia hora e Jungkook ainda não tinha voltado.
“Meu Deus… por que ele tá demorando tanto?”
Jimin mordeu o lábio, inquieto.
“Já estou com saudade”.
Jimin se levantou do sofá, inquieto, sentindo que o tempo parecia se arrastar mais do que o normal. A ausência de Jungkook começava a incomodar de um jeito estranho, como um pressentimento que se instalava no peito. Sem pensar muito, decidiu subir até o escritório de seu pai, imaginando que talvez a conversa tivesse se prolongado mais do que o esperado.
Mas, ao alcançar o meio das escadas, seus passos vacilaram. Ouviu vozes altas e claramente alteradas. Namjoon e Jungkook não estavam apenas conversando, estavam discutindo.
O coração de Jimin acelerou inquieto, e a curiosidade o puxou para frente como um fio invisível. Subiu mais alguns degraus devagar, tentando não fazer barulho. Quando se aproximou da porta entreaberta, estava prestes a chamar por eles, mas parou.
Seu nome ecoou do outro lado e tudo dentro dele congelou.
— Jungkook, quantas vezes eu vou ter que te falar isso? — a voz de Namjoon veio dura, carregada de uma irritação que Jimin nunca tinha ouvido antes. — Você foi contratado e treinado para proteger o meu filho. Desde o começo você sabia muito bem que esse namoro é uma fachada. Então continue fazendo o seu trabalho, que é proteger e cuidar do meu Jimin.
As palavras atravessaram o peito de Jimin como lâminas frias, uma atrás da outra, sem dar espaço para respirar. Suas pernas perderam a força, e ele precisou se apoiar na parede para não cair, enquanto sua mente tentava, desesperadamente, rejeitar aquilo que tinha acabado de ouvir.
O ar não entrava direito nos seus pulmões e o coração doía de verdade. Como se tivesse sido rasgado.
As lágrimas vieram sem pedir permissão, silenciosas no início, depois insistentes, escorrendo pelo rosto sem que ele conseguisse contê-las. Sua respiração falhava, quebrada, enquanto cada palavra ecoava de novo e de novo dentro da sua cabeça.
“O Kookie…”
O nome morreu dentro dele, como algo que já não fazia mais sentido.
“Ele… ele… foi contratado pra me amar?”
O pensamento não veio como uma dúvida, veio como uma sentença.
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