A Cura
47 Metamorfose

Yoongi injetou o vírus no que restava do braço de Taehyung. Seu antebraço havia sido completamente arrancado, e ele perdia uma quantidade assustadora de sangue. Taehyung estava à beira da morte, e Yoongi sabia que precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais.
Yoongi não tinha a menor certeza do que aconteceria depois daquela aplicação. Hoseok estudava o vírus dia e noite, mas ainda não havia chegado a nenhuma conclusão, principalmente porque não possuía uma amostra para analisar. Apavorado com a possibilidade de Taehyung morrer ali, Yoongi tomou aquela decisão por puro desespero, sem pensar nas consequências. Não conseguia simplesmente ficar parado enquanto via seu amado perder tanto sangue, inconsciente e cada vez mais próximo da morte.
Depois de aplicar o vírus, Yoongi acomodou a cabeça de Taehyung em seu colo e começou a chorar amargamente, sem conseguir desviar os olhos do rosto de seu amado. Suas lágrimas escorriam e caíam sobre a pele de Taehyung enquanto ele implorava para que tudo desse certo. Só precisava que Taehyung resistisse até conseguirem sair daquele lugar e encontrar Hoseok novamente. Ele saberia o que fazer.
…
Taehyung despertou lentamente, abrindo os olhos com dificuldade e sentindo-os arder. A primeira coisa que enxergou foi o rosto de Yoongi, que o observava com uma expressão preocupada. Estava com a cabeça apoiada no colo dele, enquanto seus dedos acariciavam seus cabelos.
— Yoonie? — chamou Taehyung com a voz fraca.
— Calma, amor. Não se esforce — Yoongi pegou uma garrafa de água e a aproximou de seus lábios, ajudando-o a beber alguns goles. — Como está se sentindo?
— Estranho... um pouco tonto e... meu braço tá formigando.
O braço de Taehyung estava coberto pela blusa de Yoongi, que havia feito aquilo para evitar que ele se assustasse ao vê-lo. Quando Taehyung tentou movimentá-lo, Yoongi imediatamente o impediu.
— Amor... preciso te contar uma coisa, mas quero que tente ficar calmo.
— O que aconteceu? Por que meu braço tá formigando tanto? — perguntou Taehyung, começando a ficar preocupado.
— Taehy... preciso que olhe pra mim e respire fundo, tá bem? Tente se acalmar — pediu Yoongi, segurando seu rosto entre as mãos para manter sua atenção nele.
Taehyung respirou fundo algumas vezes e, ao encontrar os olhos de Yoongi, conseguiu controlar um pouco a ansiedade que começava a tomar conta dele.
— Tudo bem, Yoon... estou mais calmo.
— Taehy... — Yoongi respirou fundo, lutando para conter as lágrimas. Precisava ser forte naquele momento. — Dimitri preparou uma armadilha. Eu quase fui atingido, mas você me salvou e... — Sua voz falhou, embargada pela emoção.
— O que aconteceu? Você se machucou, Yoon?
— Não, Taehy. Antes tivesse sido isso. Eu preferia ter me machucado no seu lugar — Yoongi deixou algumas lágrimas escorrerem pelo rosto. — Me desculpa, Tae... me perdoa... o seu braço... seu braço...
Yoongi começou a chorar descontroladamente, pedindo desculpas sem parar. Taehyung, cada vez mais confuso, ergueu a cabeça do colo dele e conseguiu se sentar. Olhou para o braço coberto pela blusa de Yoongi e sentiu um aperto no peito, tomado por um medo que ainda não conseguia explicar. Respirou fundo, reuniu coragem e retirou o tecido que o cobria.
Taehyung encarou o próprio braço, perplexo, enquanto Yoongi chorava desesperadamente ao seu lado. Não conseguia pronunciar uma única palavra, sua voz não saía. Um terror indescritível tomou conta dele ao perceber o que estava diante de seus olhos.
Seu antebraço era completamente diferente do restante do braço. Tinha uma coloração tão branca que contrastava de maneira assustadora com o tom naturalmente bronzeado de sua pele, como se alguém tivesse arrancado seu antebraço e colocado outro em seu lugar. A pele era tão pálida que as veias podiam ser vistas com facilidade. Sua aparência era horrenda, algumas regiões pareciam cobertas por pequenas escamas, enquanto outras eram completamente lisas e sem pelos. Os dedos eram tortos, de tamanhos desiguais, e terminavam em unhas escuras e pontiagudas. Aquilo definitivamente não parecia pertencer a um ser humano.
— Tae, me perdoa... eu só queria salvar você.
— O-o que é isso, Yoon? O que aconteceu comigo? — perguntou Taehyung com a voz embargada, tentando compreender o que estava vendo. Sentia como se estivesse preso em um pesadelo terrível do qual não conseguia despertar.
— O seu braço... quando você me salvou, o contêiner caiu em cima dele e... — Yoongi mal conseguia falar entre os soluços. — E... seu braço foi esmagado. A culpa foi minha. Eu vim até aqui pra proteger você, e olha o que aconteceu... — Yoongi cobriu o rosto com as mãos, tentando esconder as lágrimas. — Você ia morrer, Taehy. Estava perdendo muito sangue, e eu não sabia o que fazer. Então encontrei um frasco com o vírus de Dimitri e pensei que talvez pudesse salvar você já que esse mesmo vírus curou o Jimin. Então eu injetei no que restava do seu braço amputado. Eu só queria que você sobrevivesse... me perdoa, Tae.
Taehyung tentava processar todas aquelas informações. Tudo parecia surreal. Havia acabado de perder o braço e, mesmo assim, não sentia dor alguma, apenas um formigamento semelhante ao de quando dormia em uma posição desconfortável. Moveu os dedos e ficou perplexo ao perceber que conseguia movimentá-los normalmente. Então olhou para Yoongi, que ainda chorava desesperadamente, e compreendeu que precisava manter a calma se quisesse tirá-lo daquele lugar.
— Yoon, obrigado.
Yoongi o encarou, confuso.
— Obrigado? Eu fiz isso com você... você deve me odiar.
— Yoon, você agiu rápido e salvou minha vida. Isso é só um braço. Eu daria a minha vida pra salvar você — Taehyung se aproximou e lhe deu um beijo calmo e carinhoso. — Não chora, meu amor. Vai ficar tudo bem. Eu vou tirar você daqui.
— Taehy... — Yoongi ainda chorava. — Eu é que deveria estar consolando você. Nós vamos dar um jeito nisso. Conheço um cientista que vai conseguir te curar. Eu prometo que vou cuidar de você.
— Está tudo bem, Yoon — Taehyung puxou Yoongi para um abraço, envolvendo-o apenas com o braço que não havia sido afetado. Não queria encostar aquela mão horrenda em seu amado. Sentia nojo da própria aparência, como se aquela coisa estranha não fizesse parte de seu corpo. — Não temos tempo, Yoon. Precisamos deter Dimitri.
— Tae, você não está em condições de continuar. Volte lá pra cima e procure um lugar seguro. Eu vou atrás de Dimitri.
— Nem pensar! Você disse que não ia me deixar sozinho, e eu digo a mesma coisa. Não vou abandonar você. Só saio daqui ao seu lado — Taehyung se levantou com alguma dificuldade, tentando recuperar o equilíbrio. — Vamos, Yoon. Não temos muito tempo.
Yoongi também se levantou. Seus olhos se desviaram involuntariamente para o braço de Taehyung, mas logo baixou a cabeça, tomado pela culpa e sem coragem de encará-lo.
— Ei... — Taehyung segurou delicadamente seu queixo com a mão que não havia sido afetada, fazendo-o erguer o rosto. — Não fica assim. Vai ficar tudo bem.
Yoongi o encarou com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Soltou um suspiro triste e tentou esboçar um sorriso, embora a preocupação ainda estivesse estampada em seu rosto.
— Sim, Taehy. Vamos, precisamos detê-lo.
Seguiram silenciosamente em direção à porta pela qual Dimitri havia escapado. Ambos estavam esgotados, tanto física quanto psicologicamente, mas precisavam continuar. Não poderiam desistir tão perto do fim, principalmente sabendo que Dimitri ainda poderia causar muito sofrimento se conseguisse fugir.
Chegaram a um salão enorme, repleto de cápsulas que abrigavam pessoas submersas naquele líquido esverdeado. Todas pareciam estar dormindo tranquilamente, mas era evidente que já não estavam vivas de verdade. Eram apenas mais alguns dos inúmeros experimentos de Dimitri.
A sala possuía uma estrutura peculiar. Seu centro era circular, semelhante a um enorme disco, cercado por um vão largo o suficiente para caber um carro. Yoongi olhou rapidamente para baixo e percebeu que aquele espaço dava para um buraco escuro e profundo, semelhante a um abismo. Não compreendia por que o laboratório havia sido construído daquela maneira, mas imaginava que existissem muitos outros andares abaixo deles. Era como estar no topo de um arranha-céu, só que enterrado nas profundezas do solo. Uma construção tão engenhosa quanto perturbadora.
Dimitri estava de pé diante de um computador, digitando freneticamente, com o rosto coberto de suor devido ao nervosismo. Em uma das paredes, havia diversas telas de monitoramento, e algumas delas mostravam Jungkook e Jimin lutando contra um pequeno garoto que se parecia com um daqueles mortos-vivos.
— Se afaste! — ordenou Yoongi, apontando sua balestra diretamente para Dimitri.
Taehyung respirava de maneira rápida e descontrolada. Sentia o corpo cada vez mais quente, como se estivesse ardendo em febre, mas se esforçava para permanecer firme. Estava diante de um dos maiores assassinos que já conheceu e precisava detê-lo. Entretanto, seus próprios pensamentos começaram a atormentá-lo, e um medo repentino se espalhou por seu corpo, tornando ainda mais difícil manter a calma.
“Não posso me transformar em uma dessas criaturas horríveis.”
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