A Cura
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Após o almoço, Jonathan havia me dispensado. Tinha uma reunião importante. Decido passar na cafeteria perto de casa. Ao sair de lá, vou caminhando devagar. As pessoas de Nova York sempre são tão apressadas assim? Passo em frente a um parque. Há crianças brincando, outras tomando sorvete, e algumas com suas famílias, correndo pela grama. Ver tudo isso me lembra as minhas lembranças com minha mãe. Ela sempre me levava ao Millennium Park, em Chicago, nos seus dias de folga. Nem sempre era possível o papai ir, mas nós nos divertíamos. Adorava rolar na grama fresca. Tomar sorvete de morango nos dias ensolarados. Brincar de pique — esconde.
Mas quando ela se foi, eu nunca mais fui lá. Nem mesmo com papai. As lembranças eram boas, mas era dolorido demais ir, e lembrar que ela havia partido. Sinto uma lágrima quente escorrer no meu rosto e a enxugo.
Em poucos minutos, já estou à espera de um elevador. O meu apartamento é o 14. Não demora muito e já estou em casa. Como Rubi ainda estava no trabalho, decido preparar o jantar. Frango assado com batatas e molho de mostarda. Ao terminar, vou ao banheiro. Retiro minhas roupas e tomo um longo banho.
Ao sair do banheiro, já vestida, encontro Rubi deitada no sofá.
-Hei. Não escutei você chegando.
-Deve ser porque estava no banheiro. Um longo banho. – a loira diz se sentando no sofá. – O primeiro dia foi difícil?
-Ver o rosto daquele idiota já torna o dia difícil. — sento ao lado dela, e encosto minha cabeça no sofá.
-Pelo menos saiu mais cedo. Afinal, por que você saiu mais cedo? – pergunta.
-Ele tinha uma reunião de negócios. Com alguma garota, provavelmente. – zombo. A fama de Jonathan não me deixava mentir. – Aposto que ele arrastou alguma loira pra sala dele nessa “reunião”.
Rubi ri do meu comentário. Ela se levanta, andando até a cozinha. Experimenta o conteúdo da panela e volta.
-Está muito bom. Pelo menos dessa vez não iremos comer algo com gosto de isopor.
Nós rimos e levantamos para ir comer.
***
Após o jantar, nós duas sentamos no sofá, quando Rubi finalmente quebra o silêncio:
-Que tal assistirmos a sexta temporada de Game of Thrones? — seus olhos verdes anseiam por uma resposta, e já até imagino qual seja.
-Eu até gostaria, se eu simplesmente não estivesse o pó da bactéria. -ela solta uma risadinha. — Sério, eu preciso de uma boa noite de sono para suportar aquele cara.
-Um arrogante e uma orgulhosa. Par perfeito. — ela me provoca.
-Nem mesmo nos meus piores pesadelos. — a minha cara de nojo a faz rir. Levanto do sofá, e caminho até a geladeira. Pego uma garrafa d’água e bebo o líquido gelado.
-Mas ele é tão lindo. — a voz manhosa da loira permeia meus ouvidos.
-Mas a personalidade dele ofusca toda a beleza. — viro para ela, fazendo uma cara de desgosto.
-E você, senhorita Stewart, admitiu que ele seja lindo. — Rubi sorrir, saindo saltitando até seu quarto o que faz eu rir com sua ação.
Entro no meu quarto, e deito na cama. Assim que encosto minha cabeça no travesseiro macio, o cansaço vem e adormeço rapidamente.
***
-Levanta Ali. – a voz de Rubi me faz despertar. Odeio ser acordada por gritos.
Após três semanas trabalhando com Jonathan, descansei o quanto pude nos fins de semanas. Mas ter que encarar o fato de ter que ver aquele rosto diariamente e escutar ego puro saindo da boca daquele homem já causava cansaço suficiente para pedir férias.
-Não precisa me acordar como se eu estivesse no ensino médio atrasada para aula. – bufo me levantando da cama.
-Mas está atrasada para ir trabalhar.
Olho para a tela do celular e vejo que deveria ter levantado quinze minutos atrás.
-Merda. – corro até ao banheiro e agilizo o máximo que posso.
Decido ir com um vestido floral. E scarpin laranja que peguei do armário de Rubi. Ela sempre teve um gosto para moda melhor do que eu. Ao sair do banheiro, vejo que minha amiga já estava pronta. A abraço, pego minha bolsa e vou andando até a porta.
-Sem café da manhã? — ela pergunta. Aceno negativamente já da porta partindo para o meu inferno pessoal.
***
Apesar da demora pra conseguir um táxi, não demorei muito a chegar. O trânsito, por incrível que pareça, não estava de todo ruim hoje. Agradeço mentalmente por isso. Saio do elevador e encontro Katrina digitando algo. Não a cumprimento, e entro logo na sala.
-Já tomou café da manhã? –Jonathan me aborda assim que entro no escritório.
-Não.
-Ótimo. Pegue sua bolsa e vamos. – ele diz antes que eu fale algo. Sua mão agarra a minha e me conduz até o elevador. Dessa vez Katrina olhava para mim, e não era a sua melhor cara.
-Posso saber onde estamos indo? – pergunto assim que entramos no elevador.
-Para uma reunião. — ele diz indiferente.
-Que reunião exatamente? E por que precisa que eu vá? – solto minha mão da sua quando percebo que ainda estavam juntas.
-Pode, por favor, calar a boca? – dessa vez ele olha para mim, e seu rosto agora era de pura raiva. Como sempre.
-Não até responder minhas perguntas. — cruzo os braços e o observo. Ele respira fundo e passa as mãos nos seus cabelos negros.
-Uma reunião de negócios. Muito importante para o setor administrativo. – ele me puxa para fora do elevador quando o mesmo se abre. – E como você é do setor administrativo, você irá comigo.
Seu motorista abre a porta do seu carro. Uma Mercedes c180. Sei disso porque meu pai ama carros, e como ele não teve filho homem, ele me ensinou o que pode.
-E com quem será essa reunião?- o trânsito agora estava mais movimentado. O carro quase não saia do lugar.
-Achei que as perguntas tivessem acabado.
-Não até eu não ter mais dúvidas.
-Então ficará com suas dúvidas, pois eu não irei responder mais nada. – ele diz cerrando os dentes.
Ver Jonathan furioso provocava em mim dois sentimentos: prazer e medo. Nesse momento, eu senti medo. Mas não podia demonstrar. Ele nunca poderia saber que uma parte de mim temia Jonathan Silver.
Decido não falar mais nada, e antes que eu note, o motorista abre a porta para que eu desça. Saio do veículo e olho a frente do restaurante que chegamos. Nunca ouvi falar. A fachada do restaurante tinha tons alaranjados e flores do lado de uma trilha de pedras que levava até a entrada do recinto. Ando até a entrada. Não havia ninguém nos esperando. Olho para Jonathan em busca de respostas, e ele como se tivesse lido meu pensamento, responde:
-Estão lá dentro. – ele abotoa seu paletó, e em seguida me conduz com sua mão na minha cintura- ato que fez meu corpo estremecer— até a mesa que havia um casal de idosos.
-Senhor e senhora Maggeton. – ele estende sua mão direita para cumprimentá-los. Os dois apertam de bom grado. – É um prazer conhecê-los.
Nós dois no sentamos a frente deles. Eu, a frente da senhora, e o Jonathan, a frente do senhor Maggeton.
-Quem seria essa jovem? – a senhora de cabelos grisalhos, pergunta, me fitando com um grande sorriso.
-Ela trabalha comigo. – Jonathan toma partido e responde antes que eu abra a boca. – Então, que tal eu apresentar a minha proposta. – ele estende alguns papéis para o homem a sua frente, mas ele rejeita.
— Vamos por parte meu jovem. Eu gostaria muito que a primeira parte fosse comer. – ele sorri amarelo, e Jonathan solta um sorriso fechado. Forçado, imagino.
A comida chega, e comemos em silêncio. A senhora me encarava em alguns momentos durante a refeição. Seu rosto, apesar de aparentar muitos anos vividos, mantinha uma feição doce.
-Vocês dois seriam um lindo casal. – a senhora Maggeton nos olha amavelmente, e tudo que posso oferecer é uma expressão glacial.
Alguns segundos em silêncio se passam. Não me atrevo a olhar Jonathan, mas faço quando o próprio diz:
-E somos.
Viro meu rosto para observá-lo e ele vira seu rosto até contemplar meu olhar que se intercalava em confusão e raiva, pois o que ele acabou de dizer era mentira, e eu não compreendia o motivo de dizer tal lorota.
Meu corpo agora é tomado por surpresa, pois o jovem sela seus lábios com os meus em um beijo profundo. Sua mão esquerda toca minha bochecha. Ela é fria, mas não áspera. Após longos segundos, ele se afasta e procura algo em meu rosto que indique meus sentimentos, mas estou aturdida demais para expressar o que quer que seja.
Abaixo minha cabeça, sentindo minhas bochechas arderem e minhas mãos suarem a ponto de sentir o talher escorregar.
-Não precisa ter vergonha querida, já vi coisas piores entre os jovens, na rua mesmo!- a doce senhora quebra o silêncio e solta uma gargalhada e seu marido acompanha.
O resto da reunião passa rápido para mim. Não comento mais nada depois do beijo de Jonathan. A sensação de seus lábios ainda era palpável, e seu gosto ainda podia ser sentido. Menta. Ele tinha gosto de menta. Após longos cumprimentos entre eles, imagino que o rapaz tenha conseguido fechar o negócio. Andamos lado a lado até a saída do restaurante, até que o casal adentra o carro deles e saem pelas ruas de Nova York.
-Por que você fez aquilo? – pergunto a ele enquanto esperamos o carro.
-Fiz o quê? – reviro os olhos e ele em seguida responde. – Era necessário.
-Como assim era necessário? – pergunto já sentindo uma dor latejante na cabeça. Passar a manhã inteira com ele sugou todas as minhas energias.
-Eu fiz o que tinha que fazer para fechar o negócio. – ele diz com tom de frieza. – Simplesmente raciocinei.
Procuro buscar os sentidos de suas palavras e depois entendo. Era tudo parte do jogo dele.
-Você atingiu o emocional deles para garantir fechar o negócio com eles. – penso em voz alta. Ele tinha um sorriso sublime no rosto. Aparentemente satisfeito com seu ato. –Como pôde?! Você se aproveitou da natureza doce deles.
-Não Alicia. Eu apenas usei a minha natureza fria. — ele me olha profundamente, como se procurasse algo em minha alma. – Eis o estatuto universal: a onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver.
Suas palavras me dão calafrio. Fico plantada no local enquanto ele anda com suas longas pernas até o seu carro. Tento pensar em algo para dizer a ele; talvez repreendê-lo. Mas nada surge em minha mente, apenas observo-o entrar no automóvel.
Entro no veículo relutante. Não quero ficar mais no mesmo ambiente que ele. Natureza fria. Ele mesmo disse. Ele é frio. Oco. Não existem sentimentos para ele. Ele apenas compreende a razão, e tudo que for para seu benefício próprio.
-Devia me agradecer. Estou ensinando o que posso para você. É assim que o mundo dos negócios funciona. – ele cruza as pernas, e junta seus dedos das mãos. – Não devia estar tão mexida. O beijo foi insignificante. Para mim, e para você.
Não ouso dizer nada, apenas viro meu rosto e olho para a janela do carro. O céu está se fechando, uma tempestade estava por vir.
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