A Cura

1 I. Eu e o Doutor




Tudo estava calmo. Eu sentia uma leve dormência, e o ambiente apenas intensificava a sensação. A despeito da poltrona em que estava sentado, a saleta não tinha móveis. A única janela, diante de mim, estava aberta; as cortinas ondulavam com a brisa noturna, revelando em doses o céu. Uma meia-noite azul...


O doutor havia preparado aquela atmosfera para mim, e eu estava realmente grato. Era uma pessoa perceptiva, o doutor, e notara as pequenas mudanças de humor que eu deixara escapar. Havíamos nos encontrado no dia anterior, acertado os últimos detalhes para a sessão daquela noite. Eu fizera um grande esforço para mascarar a ansiedade; aparentemente, uma energia desperdiçada.

Ele havia mudado o local da sessão para a sua própria casa, ignorando os padrões rígidos do centro de pesquisa. Apesar de chamá-lo assim, o doutor não era um médico. O que iria me proporcionar, no entanto, equivalia a um tratamento. Ele não poderia curar meu corpo, que embora fosse jovem sofria um desgaste avançado. Eu estava consciente do tempo que me restava, pouco mais de um ano. Não havia o que fazer... Não havia cura.

Apesar da doença, eu continuara em minha busca para manter a saúde mental. Tentaria atravessar os dias que me restavam em relativa paz...

No auge de meus vinte e cinco anos eu conquistara muito. Aquele era um fato inegável, que inflava meu ego com certa constância. Eu estava cercado de bons amigos, um grupo seleto por quem poderia dar a vida, se esta já não estivesse tão deteriorada... Mas a intenção era maior do que o acontecimento em si, e estava certo de que eles não precisavam de mim. Ao menos, o sentimento era recíproco.

Sendo um pouco mais capitalista, também não poderia reclamar. Um executivo publicitário com status, viagens, um duplex no coração da cidade... Inclua na minha conta, por favor.

Amigos, conquistas... Poderia me considerar realizado. E agora eu estava no último ponto alto. O ato final antes de a cortina ser fechada. Meu espetáculo fora bem sucedido e agora o encerraria com ousada dignidade. Uma vida curta e fabulosamente consagrada. Os grandes não terminam assim? Os inesquecíveis? Todos aqueles por quem o mundo suspira e clama...

Talvez fosse loucura, e quem sabe meu senso de realidade estivesse apenas desvirtuado... Não importava. Sabia apenas daquele sentimento, a catastrófica excitação em encarar a morte. Um estímulo quase físico, batendo e topando na linha da tensão sexual...

E aquilo me cegava. A perturbação era imensa. Mantê-la em minha mente era doloroso, e assim eu começara minha busca.

Incessantemente, eu procurara... Havia esquadrinhado todos os meios críveis que a ciência poderia oferecer. Sim, ciência. Eu não via um caminho plausível em crenças ou religiões. Talvez fossem mitos; francamente, isso não era relevante. Por outro ângulo, eu sempre tivera uma personalidade prática e impaciente; eu não tinha muito tempo, e a revelação divina poderia demorar. Deus nunca me respondera, e eu esperava saber o porquê de sua pouca educação quando a doença enfim vencesse.

Eu sabia do que precisava, e não encontraria nada em orações, templos ou redenções apaixonadas. Precisava de uma resposta para os arrependimentos, silêncio para as dúvidas. Afinal, se não as tivesse, não seria humano. E não me importavam as realizações presentes... Eu não fizera tudo o que poderia ter feito, mesmo que tivesse feito muito. Nem boas coisas, nem coisas ruins... Não. Eu somente vivera de acordo com meus modos. Havia ignorado todo o resto, como uma máquina potente disparando na rua. Não havia pedestres, faixas ou carros a respeitar. Somente a consciência e a presunção. Talvez uma leve percepção de realidade, nada a se notar realmente...

O estado de serenidade absoluta que pessoas comuns almejam... Eu queria encontrá-lo. Precisava tê-lo antes da última página. Assim eu poderia escrever o fim sem qualquer hesitação. Então olharia para o passado e saberia que estava correto. Não haveria manchas condescendentes ou pesares irrevogáveis.

E em minha busca desenfreada, eu encontrara o doutor.

Sua pesquisa prendera minha atenção. Era admirável, tinha de reconhecer... E num estado quase completo de seus avanços, ele não poderia saber sobre o alcance daqueles anos de trabalho. Ele precisava testar a máquina... E os testes, por sua vez, exigiam um voluntário humano. No entanto, a experiência não compensava os riscos, e os voluntários desistiam rapidamente. Ele acreditou que eu declinaria do convite também. Na época, o doutor desconhecia o estado avançado de minha doença; tampouco sabia de minhas inclinações existenciais.

Aceitei, naturalmente. Estava engajado em seu trabalho, e aquilo gerou desconfiança. O doutor estava receoso, e no dia anterior estivera prestes a cancelar o teste. Só então achei conveniente contar-lhe sobre meu estado. Por fim, não foi difícil entender minhas motivações; se algo desse errado, eu teria pouco mais de um ano de vida. Meu sofrimento teria um prazo de validade, o mesmo do meu corpo – o que, ao menos naquele instante, provou-se útil.

Perdido naquelas divagações, eu sentia o brilho da Lua; ele cruzava as janelas, marcando as paredes brancas e o chão de madeira com sombras. A brisa era salgada, vinda da praia tão próxima; tocava minha pele, o efeito de narcóticos...

– Podemos começar.

Abri os olhos, surpreso ao vê-lo tão próximo. O doutor estava como sempre: o cabelo claro estava preso, e ele vestia o jaleco sobre as roupas simples. Jamais o vira sem o jaleco, e aquilo reforçava minhas convicções bobas em chamá-lo de médico.

Sem ligar as luzes, o vi ajoelhar-se e tirar um aparelho prateado de uma grande maleta. Era semelhante a um notebook, porém maior; estava repleto de botões e luzes que, em minha ignorância, não significavam nada.

– Você tem certeza? – perguntou ele. Por detrás dos óculos, pude ver a ansiedade nos olhos escuros. Era óbvio que sua pergunta não estava direcionada a mim. Seu medo persistia, talvez mais acentuado por saber de meu conformismo.

– Não se preocupe, doutor. – sorri. – Eu quero isso. Não pode compreender o quanto... Há algo que eu possa fazer?

Ele me mostrou os fios que deveria colar às têmporas e aos punhos, os fones grandes que teria de usar. Repetiu meus gestos em seus próprios punhos e tornou a teclar rapidamente. A preparação não demorou, e logo eu estava acomodado na confortável poltrona de chintz.

– Vai sentir uma dormência instantânea. – explicou o doutor. Observava criticamente a tela escura, cheia de pequenas oscilações verdes, marcando os sinais vitais de ambos. – Como se estivesse muito cansado... Será um sono forçado, mas ainda assim consciente. Vai estar preso em sua mente, mas consciente a todo o momento. Então poderá escolher aonde ir. Infância, adolescência...

– Un. E quando estiver pronto... quando souber o que quero?

– Eu estarei ao seu lado quando me chamar. Não é preciso ficar em suas memórias todo o tempo.

Eu assenti uma vez. Passei a língua pelos lábios, fitando a Lua gorda e dourada, congelada no céu limpo. Um frio peculiar, mas também conhecido, alojou-se em meu peito. Aquela sensação bizarra, de estar prestes a embarcar na montanha russa... Respirei fundo, sabendo que não poderia afastá-la. Não havia por que afastá-la.

Estava decidido.

– Pronto?

Uma troca de olhares. – Sim... Vamos logo com isso.

Eu e o doutor colocamos os headphones, e os sons foram abafados instantaneamente. Ele me fitou uma última vez, o cenho franzido, antes de apertar algum comando na máquina.

Um choque. Abri os olhos com força, assustado, e a sonolência surgiu em forma de um choque. Como um soco particularmente forte, eu logo estava desfalecendo... Despencando em minha própria mente.