A Culpa É Do Vendedor
1 Dead End
É uma tarde de quarta-feira, nublado, nem calor, nem frio, aquele típico dia "mais ou menos". Fui invadida pelo tédio da vida de desempregada e pela curiosidade nos atos de cada pessoa, pois quantas vezes não sentamos num banco de praça e todas as pessoas ali parecem ser iguais fazendo a mesma coisa? Ou quantas vezes não gostaríamos de saber um pouco da vida de cada um ali, de alguém que te chamasse um pouco a atenção?
Difícil achar alguém interessante nessa praça que todos passam sem prestar atenção na beleza em que há nela, com árvores, bancos e uma banca de jornal. Sinto-me até em uma daquelas novelas de época em que estamos tão acostumados a assistir.
Poucos são os que resolvem passar uns minutos do seu dia ali. Nesse momento, só se encontra eu, sentada em um banco mais afastado com um caderno no colo descrevendo aleatoriamente o que vê; o dono da banca, conversando — ou gritando- com um vendedor de uma loja do outro lado da rua; e uma menina, que acabou de sair dessa mesma banca e sentou num banco mais próximo dali. Tem algo em suas mãos, mas não consegui entender o que é.
E continuando a observar cada um ali e imaginar as suas vidas. Alguém poderia ser uma celebridade disfarçada, um assassino com cara de bonzinho, integrante de alguma máfia, traficante. E eu só conseguia imaginar as piores das possibilidades.
Um homem passou por mim. Ele estava com uma maleta. Quem anda com maletas numa tarde de quarta? Não poderia ser nenhum executivo, suas roupas eram muito simples. Apenas uma calça jeans e uma blusa branca com aquela cara de 'primeira coisa que peguei no armário'.
Consegui perceber o que a menina carregava consigo. Alguma HQ. Não consegui ver exatamente qual pela capa. E ela não parecia se interessar por essas coisas 'nerds', não tinha nada nela que poderia chamar atenção em alguém, apenas a sua camiseta do Nirvana. É, ela tem bom gosto.
A menina foi embora. Percebi que o homem 'peguei a primeira coisa que vi no armário' tinha ido para um café ali perto. Voltarei para casa.
Quinta-feira, o dia tá um pouco mais ensolarado do que ontem e eu voltei para a mesma praça. Sim, ainda to completamente cheia de tédio. Poderia encher essa cidade de tédio e ainda sobraria para umas duas.
O dono da banca ainda grita com o vendedor. O 'primeira coisa que peguei no armário' já foi para o mesmo café. E alguém, por favor, avise-o que não usa maleta com aquele tipo de roupa!
As mesmas caras de sempre, os mesmos donos passeando com seus cachorros e, até quem sabe, os meus pombos.
A menina do Nirvana apareceu de novo. E eu preciso parar de me referir às pessoas pelas roupas que vestem. Hoje consegui perceber o que ela comprou na banca, um mangá chamado 'Deadman Wonderland'. Meio violento para uma menina que parecia ser tão delicada, com traços tão suaves...
Dois dias que observo esses dois e poderia simplificar esse período em duas pergunta: O que tem naquela maleta, pra alguém tão simples a usá-la? E porque a menina lê seus quadrinhos sempre no mesmo banco, logo depois de comprá-lo? Creio que a primeira pergunta seria a mais interessante.
Um minuto que eu paro pra me perguntar o que se passa da vida dessas duas criaturas e já me aparece um menino, de idade próxima a da menina, sentado no banco quase em frente e noto que está a olhando. Será que estava olhando a menina por lhe chamar atenção? Seria pelo mangá? Ou estaria fazendo a mesma coisa que eu, observando qualquer um por tédio?
Sexta-feira. Resolvi apenas observar a vida pacata do homem e estou aqui no café onde ele costuma vir o esperando. E veio 5 minutos após escrever isso. Continuava com a sua maleta combinada de uma roupa desleixada e amassada.
Ao sentar em uma mesa para tomar seu café, abriu a maleta que eu daria a vida para saber o que continha ali dentro. Ele a olhava com tanto cuidado, com tanta descrição, que me fazia pensar em mil coisas que poderiam estar escondidas. Será que seria alguma delas?
Sábado. Pessoas normais estão se divertindo, e eu estou aqui esperando a aparição desses dois, ou três. Domingo, idem.
Finalmente pude matar as “saudades” deles, na verdade, não deles, das vidas em que eu criava para cada um em minha mente e das poucas horas em que poderia gastar um pouco do meu tédio que estava acumulado por meses.
6 dias criando uma rotina em torno da rotina alheia, que nem sequer sabiam disso. Falando em saber, ainda não consigo entender porque observo tanto quem não tem nada a ver comigo. Se fosse apenas tédio, eu poderia fazer como a menina, comprar uma HQ e ler no banco da praça ou como o homem, ir todo dia tomar um café, mas nada disso parecia ser suficiente para mim. Eu gostava do que cada um parecia esconder ali, o mistério que havia em suas vidas, de como tão comuns, puderam se destacar para mim.
Falando nisso, pude notar que a menina ainda não apareceu e o menino, que agora pude ter certeza de que a observava, olhou o banco e foi embora. E como já pude presenciar um dia daquele homem da maleta, resolvi ir embora, não havia nada ali que pudesse me prender mais.
Cheguei antes do costume e vi algo que me surpreendeu. Imaginava que naquele lugar, ninguém se conhecia, além do dono da banca e o vendedor da lojinha, pois ninguém nem se quer olhava para a cara do outro, sem cumprimentos ou semelhantes. O que me surpreendeu foi o fato dos dois que me despertaram a atenção naquela praça, os dois que eu observava há uma semana, estavam ali, em uma esquina conversando. E naquele momento, a maleta do homem estava aberta e à mostra a menina. Gostaria de trocar de olhos com ela por um segundo, ou como muitos dizem, queria ser uma mosca.
Pelo visto, ela já havia passado na banca de jornal, pois foi direto para o banco, onde o outro menino estava sentado em frente. Ela o viu. O encarou. Ele, aparentemente envergonhado, ficou meio perdido, olhava para todos os lados procurando para onde ir e finalmente encontrou uma saída e foi embora.
Em seguida, ela vai para o café. Porque mudou sua rotina tão de repente assim? Resolvi a seguir. Notei que ele a entregou uma sacola, e ela, um pacote. Teria dinheiro naquele pacote? Seria alguma venda? O que estava acontecendo naquele café? Alguém poderia me explicar?
Segunda da outra semana. Adoeci nesses dias e não podia nem sair da cama. Maldito dia que fiquei doente! Eu poderia ter descoberto o que havia naquele pacote e naquela sacola!
Não me importa agora a sacola. Quero saber o que tem naquela mochila em que a menina dos HQs estava carregando, ela nunca havia vindo de mochila, apenas com uns trocados na mão e nada mais. Primeiro muda a sua rotina, agora seu modo de ir à praça. Acho que perdi coisa demais nesses dias em que estava de cama.
Quinta-feira. Não me escrevi nada, tudo ainda era o mesmo, além dos fatos do garoto que observava a menina, não ter aparecido desde o dia que foi encarado por ela. Teria sumido por vergonha ou algo aconteceu a ele? E o fato da menina não ter ido tão frequentemente à praça
Resolvi mudar um pouco minha rotina, pois algo ali precisava ser mudado, e fui para o banco em que a menina costumava sentar. Havia um bilhete com um endereço. Seria a menina que passou ali mais cedo e deixou isso para aquele garoto? Mesmo não sendo pra mim, resolvi ir até o local.
Me arrependo arduamente de ter ido até lá. Não deveria ter mudado a minha rotina. Deveria ter ficado naquele meu banco de sempre.
Aquele quarto... Queria esquecer o que havia nele... Estava sem luz, apenas com a péssima qualidade da rua, e havia alguém deitado naquela cama, imóvel. Fui ver se tal pessoa estava bem. Estaria bem, se não estivesse morta e coberta de sangue. Estava apavorada, paralisada, nunca pensei em passar por algo assim, mas ainda não era o bastante. A pessoa morta era ninguém menos do que aquele garoto que observava a menina que sempre comprava HQs.
Antes de conseguir me mover daquele lugar terrível, notei que na mão do cadáver havia mais um bilhete e mesmo com nojo, resolvi pegá-lo para ler. “Isso é para te servir de lição a ter a própria vida, antes que alguém a tire“ dizia.
Finalmente, consegui sair daquele lugar que não conseguia mais suportar nem o cheiro. Aquela viela não parecia ter fim e quando finalmente teve, dei de cara com o meu pior pesadelo.
O meu maior pesadelo havia nome, que eu não fazia nem idéia de qual era, mas uma rotina, que eu pude observar por alguns dias. Aquela menina, que parecia ser tão doce, tão delicada, estava em minha frente bem quando fui virar uma esquina, para fugir do terror e me disse as seguintes palavras “então quer dizer que ainda está me perseguindo?”. Depois daquele momento, só pude sentir algo entrando em meu peito. Uma faca. E meu sangue escorrendo por minhas roupas.
Corpos de casal são encontrados em quarto no centro. Único suspeito encontrado é vendedor ambulante de artigos culinários da redondeza.
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